13 de mar de 2019

Jean Paul Gaultier Ultra Male - Avaliação/Resenha/Review


Lançado em 2015, Ultramale é mais um capítulo na saga de sucesso que Jean Paul Gaultier começou a escrever em 1995 com Le Male. Talvez nós tenhamos nos acostumado tanto com o sucesso e ampla recepção do perfume Le Male que esquecemos de olhar o quanto esse lançamento foi arriscado. É bom lembrar que ele veio na década de 90, puxada principalmente pelos aquáticos e pelos perfumes fougeres que traziam o acorde para o novo frescor do estilo Cool Water. Jean Paul Gaultier aqui ousa ir além dessa estética clean da época e resgata um aspecto nostálgico e de barbearia e o recontextualiza para algo sensual e arriscado. A marca tentou um movimento similar em 2007 ao trazer um perfume floral cítrico e bem sensual com Fleur du Male, mas que infelizmente não foi tão bem sucedido. Mas em 2015 com Ultramale a marca acerta em cheio ao trazer para o público masculino um aroma mais gourmand para a ideia do Le Male. Ao testar pela primeira vez Ultramale na fita olfativa me lembro de ter ficado com a impressão de que ele era o resultado do casamento de Le Male com La Vie Est Belle, porém o teste na fita não revela nuances mais profundas da ideia. Ainda sim, Ultramale arrisca de fato trazer um aroma gourmand de algodão doce com um toque frutado para um perfume masculino e de certa forma também faz alusão ao aroma chypre moderno da perfumaria feminina ao trazer um patchouli ambarado de fundo. Porém, Ultramale não é um perfume chypre moderno feminino ou gourmand, ele é algo que equilibra essas nuances contra o aroma aromático da lavanda e a textura mentolada e fresca do tradicional. O perfume encaixa também notas mais secas e amadeiradas na base ao mesmo tempo que evolui o aroma gourmand açúcarado para algo mais redondo, cremoso e torrado talvez. A marca o considera como uma reinterpretação ou versão melhorada do Le Male, mas na prática está mais para a evolução do legado do Le Male e é um perfume que se sustenta por conta própria. Talvez seja fácil desmerecê-lo por ser uma criação comercial e por ser um produto popular, entretanto analisando o projeto como um todo e o que é entregue em termos olfativos é um perfume muito bem composto, certamente um dos pontos altos no portfolio de fragrâncias do perfumista Francis Kurkdjian. Encaixar tudo que Kurkdjian encaixa aqui sem tornar o perfume banal ou grosseiro em suas nuances olfativas não é fácil de se fazer.

4 de mar de 2019

Os Contratipos e a História da Perfumaria

Cena do Filme O Perfume

Ainda que a ideia de um produto que seja inspirado em outro ou que seja praticamente uma cópia dele não seja algo exclusivo da perfumaria é nesse meio que tanto mexe com as emoções e reações mais instintivas do ser humano que temos tanto um grande interesse como um grande preconceito no assunto. Devido a vivermos um momento de crise econômica tal produto foi colocado nos holofotes novamente e por isso é um momento interessante para se discutir um pouco da própria história da perfumaria pela ótica dos contratipos e inspirações. Para não ficar muito pesado essa será uma série de artigos analisando a temática. Nesse primeiro trato um pouco do começo da perfumaria como a conhecemos hoje.

"Jamais tinha inventado algo. Não era um inventor. Era um cuidadoso confeccionista de aromas comprovados, como um cozinheiro que com rotina e boas receitas faz uma grande cozinha sem jamais, contudo, ter inventado um prato próprio. Toda aquela farsa de laboratórios e experimentações, inspirações e segredinhos, só a encenava porque fazia parte da imagem do ofício de um maitre parfumeur et gantier. Um perfumista era meio alquimista, alguém que faz milagres: assim o queriam as pessoas - e que assim fosse!"

Trecho do livro O Perfume, de Patrick Süskind

Ainda que seja uma história ficcional, a obra-prima de Patrick Süskind retrata muito bem dado a excelente pesquisa do autor os primórdios da perfumaria moderna. O perfume na complexidade, variedade e acessibilidade que conhecemos hoje é algo recente, oriundo das revoluções industriais nos séculos XVIII e XIX e da revolução química do século XX. O que não significa que o homem nunca foi fascinado pelos aromas, tendo a própria palavra perfume a conotação mística e ritualística que o ser humano dava aos aromas: através da queima de resinas e materiais aromáticos o ser humano se conectava ao divino em seus rituais. Algumas civilizações - como a egípcia e a árabe - levaram seu fascínio com os aromas para o campo dos estudos, a fim de se obter formas de extrair o aspecto aromático das ervas que tanto as encantavam.

Nesse primeiro momento e até mesmo até o começo do século XVIII  o perfume, de forma geral, era algo ou reservado aos rituais religiosos e mágicos ou reservado à própria nobreza - no Egito os Faraós possuíam o que seria uma espécie de perfumista que seria responsável pela criação das suas fragrâncias. Como o perfume até aí era ainda muito natural, seu custo o tornava algo reservado às elites, já que eram necessários toneladas de materiais em extrações de baixo rendimento. A limitação no processo de extração e custo também tornava a palheta de aromas algo mais restrito de forma que o perfume nesse momento ainda não era um processo autoral como vemos hoje, e sim mais uma tentativa do ser humano de por meio de combinações chegar aos aromas que tanto o fascinava. Dessa forma, nesse momento da perfumaria não é possível ainda falar, com certeza, em contratipos e inspirações. Entretanto, a partir do século XVIII e, principalmente, do século XIX isso certamente muda.

As transformações pelas quais a sociedade passou durante as revoluções industriais favoreceram a perfumaria a caminhar na direção que a conhecemos hoje, trazendo consigo o processo de inspiração e contratipação. Os aperfeiçoamentos das técnicas de destilação das matérias-primas naturais e certamente uma ascensão progressiva da classe operária à classe de consumo aos poucos tornaram o perfume algo mais acessível; some a isso uma mudança nos hábitos de higiene da sociedade na época e temos a criação de  uma demanda por fragrâncias como parte do ritual de higiene pessoal. Ainda sim nessa época o perfume ainda era visto como retrata Patrick Suskind em seu livro, como uma espécie de receita de bolo vendido ao cliente na forma de um ritual de alquimia. Fórmulas de sucesso - como a fictícia Amor e Psiquê que Baldine tenta copiar - eram incorporadas aos negócios e vendidas sejam com novos nomes ou como interpretações próprias. No livro do britânico G.W. Septimus Piesse (A Arte da Perfumaria) há várias dessas fórmulas de sucesso da época que encantavam os consumidores. Podemos dizer que é justamente nesse momento é que já temos junto com as bases da perfumaria a ideia do contratipo como um produto que se molda em relação a outro, mesmo que não sob esse nome ou com as mesmas características.

12 de fev de 2019

Parfums Dusita Splendiris - Avaliação/Resenha/Review


É fácil se render aos encantos da grife Dusita e de sua criadora, Pissara Umavijani. Pissara é uma raridade entre as pessoas que encabeçam grifes de nicho hoje, alguém que genuínamente tem uma veia artística, uma visão clara de sua marca e uma pessoa acessível, gentil e aberta a seu público. Isso de certa forma é tão diferente de muito o que acontece que me lembro que no começo as pessoas acreditavam que sua marca e pessoa talvez fossem um golpe de marketing, algo que o tempo se encarregou de mostrar não ser verdade. E hoje facilmente a Dusita se destaca entre as grifes de nicho como uma que consegue ser altamente poética e ao mesmo tempo descomplicada em sua entrega.

Para seu último lançamento Pissara tomou uma abordagem diferente ao promover algo único, a chance de permitir a comunidade de apaixonados por perfumes de sentir e dar um nome a seu último lançamento, um conceito baseado ao redor da nobre e preciosa iris. O nome escolhido não poderia ter sido mais adequado, Splendiris, capturando a ideia de que essa é uma iris distinta e gloriosa e lingando ao poema do perfume, já que Splendido em Latim está relacionado a luz e o perfume é inspirado em um poema do falecido poeta e pai de Pissara, que lê assim :"Eu escrevo sobre a luz de velas em uma noite embrulhada em muitas camadas de sonhos". Splendiris é uma poema não sobre o cheiro literal da iris, mas sob seu aspecto poético e até mesmo melancólico, que perde o peso da tristeza e ganha uma serenidade que raramente se vê nessa temática.

Para mim o maior trunfo e que torna Splendiris de fato esplêndido é justamente essa proeza de ser capaz de utilizar o lado mais complicado da iris, o aroma da raiz, e torná-lo leve como uma pluma e macio como um sopro no começo de uma noite agradável. Para quem conhece perfumaria comercial talvez não seja capaz de perceber a iris tão facilmente, já que há bem pouco de maquiagem aqui. Essa não é uma iris de iononas, é uma iris que utiliza o aspecto mais terroso da semente de cenoura e o aroma metálico e frio da raiz de iris, duas facetas pouco exploradas por afastarem os consumidores. Porém, Pissara praticamente coloca a si mesma nesse perfume com uma beleza leve, enigmática e envolvente que ao mesmo tempo que é familiar é algo que não me lembro de ter sentido em lugar nenhum.

Splendiris descortina suas múltiplas camadas de flores, criando uma abstração para a flor de iris, da qual não se extrai o cheiro. A forma como isso é construído sugere um aspecto de flores brancas de lírio, seguido por pétalas macias de rosas de cor suave e envolvidas em um aroma discretamente animálico. Os aspectos terrosos da iris criam a identidade da beleza sonhadora e quase distante de splendiris ao passo que um discreto toque quente de ambargris junto com as madeiras sugerem um aroma de pele, um abraço gostoso de alguém querido. Enquanto o usava, me senti as vezes observando como se fosse a beleza de uma ave rara e delicada a fazer um vôo gracioso pelo céu, algo que não é chamativo ou espalhafatoso mas é muito bonito de se observar e descomplicado em sua graciosidade.

Parfums Dusita Splendiris - English Review



It is easy to surrender to the charms of the brand Dusita and its creator, Pissara Umavijani. Pissara is a rarity among the people who head niche brands today, someone who genuinely has an artistic vein, a clear view of her brand and an accessible, gentle person open to her audience. This is in some ways so different from what happens that I remember that in the beginning people believed that their brand and person might be a marketing scam, something that time has shown to be untrue. And today Dusita easily stands out among the niche brands as one that can be highly poetic and at the same time uncomplicated in its delivery.

For her latest release Pissara took a different approach by promoting something unique, a chance to allow the perfume-loving community to try and name their latest release, a concept based around the noble and precious iris. The name chosen could not have been more appropriate, Splendiris, capturing the idea that this is a distinct and glorious iris and linking to the perfume poem, since Splendido in Latin is related to light and the perfume is inspired by a poem of the deceased poet and father of Pissara, who reads: "I write on the candlelight in a night wrapped in many layers of dreams." Splendiris is a poem not about the literal scent of the iris, but about its poetic and even melancholy aspect, which loses the weight of sadness and gains a serenity that is rarely seen in this theme.

For me the greatest asset and that makes splendiris indeed splendid is precisely this feat of being able to utilize the more complicated side of the iris, the aroma of the root, and make it light as a plume and soft as a puff at the beginning of a Nice night. For those who know about commercial perfumery you may not be able to perceive the iris so easily, since there is none of powdery makeup here. This is not an ionone iris, it is an iris that uses the earthy aspect of the carrot seed and the cold metallic scent of the iris root, two facets little explored by consumers. However, Pissara practically puts herself in this perfume with a light, enigmatic and enveloping beauty that at the same time is familiar is something I do not remember having felt anywhere.


Splendiris uncovers its multiple layers of flowers, creating an abstraction for the iris flower, from which the scent is not extracted. The way it is constructed suggests an appearance of white lily flowers, followed by soft petals of soft-colored roses and wrapped in a discreetly animalic scent. The earthy aspects of the iris create the identity of the dreamy and almost distant beauty of splendiris while a discreet warm touch of ambergris along with the woods suggest a scent of skin, a warm embrace of a loved one. As I used it, I sometimes felt as if i was witnessing the beauty of a rare and delicate bird to make a graceful flight through the sky, something that is not flashy or fussy but is very beautiful to observe and uncomplicated in its grace.

8 de fev de 2019

Olibere Paris Dangerous Rose e Chemical Love - Avaliação/Resenha/Review



Ainda que em alguns momentos os novos perfumes da Precious Collection pequem um pouco em relação a forma como comunicam suas intenções ao público, o fato é que os perfumes em si são tão fortes que isso puxa a avaliação final para cima. São fortes em concentração, extratos como as pessoas esperam quando se fala em pure parfum: perfumes que duram muito e que dependendo da quantidade aplicada não saem nem com banho. Mas não são apenas fortes tecnicamente, as composições revelam-se muito bem construídas, intensas sem serem cansativas e explorando caminhos conhecidos sem serem banais. O novo trio certamente está entre as melhores criações de Luca Maffei, que tem se revelado um grande talento no cenário da perfumaria de nicho e exclusiva.

Dangerous Rose é inspirado no clássico filme Entrevista com o Vampiro e isso já cria grandes expectativas com relação a rosa que o perfume irá entregar. A ideia é a de uma beleza enigmática, luminosa e sombria e já por aí sabemos que a rosa vermelho sangue que aparece na publicidade do perfume não é apenas um elemento decorativo. Dangerous rose entrega uma rosa ao estilo de uma perfumaria árabe, carregada em incenso, especiarias, com nuances de mel e tabaco. A saída é intrigante, um aroma spicy seco e incensado que por alguns momentos me remete a uma versão mais nobre do aroma do clássico sabonete Phebo. Logo em seguida o aroma mais licoroso da rosa começa a se tornar evidente em contraste com um patchouli envolto em ambar. A forma como eles são equilibrados cria juastamente o aspecto luminoso e sombrio da fragrância e duram praticamente o dia todo na pele.

Chemical Love é para mim do ponto de vista do conceito o perfume mais fraco da coleção. O perfume tem uma inspiração ousada no filme Scarface e certamente a figura feminina que é homenageada aqui é Elvira Hancock, esposa de Tony Montana e viciada em Cocaína. O perfume mira nessa ideia ao incluir um acorde de Cocaína na composição porém parece não levar o tema a fundo, limitando-se a criar um floral musk que acaba soando um pouco artificial como o nome parece sugerir. Ainda sim, é um excelente floral artificial: um ylang narcótico e até mesmo um pouco animálico é cercado por um aroma frutal mais comercial, mais evidente na fita do que na pele. Conforme o aspecto mais floral inebriante do perfume passa ele ganha contornos amadeirados cremosos e bem aconchegantes e que assim como os outros da coleção dura uma vida na pele.

Da trilogia de perfumes propostos Chemical Love é o único que parece ir mais em uma direção feminina do que unissex e eu diria que um dos perigos da marca ao explorar de forma tão forte a temática de suas heróinas na parte visual das fragrâncias é a de acabar limitando o público que irá se interessar e testar as composições. Meu conselho é ignorar essa parte do projeto e ir direto para os perfumes, que irão surpreender e agradar muito aqueles que buscam criações potentes e bem feitas.

Olibere Precious Collection Dangerous Rose, Chemical Love - Fragrance Reviews (English version)



Although in some moments the new perfumes of the Precious Collection leveas a little to desire in relation to the way they communicate their intentions to the public, the fact is that the perfumes themselves are so strong that this pulls the final evaluation up. They are strong in concentration, extracts as people expect when talking about pure parfum: perfumes that last a long time and that depending on the amount applied do not even come out with bath. But they are not only technically strong, the compositions prove to be very well built, intense without being tiresome and exploring known paths without being banal. The new trio is certainly among the best creations of Luca Maffei, who has proved to be a great talent in the niche and exclusive perfumery scene.

Dangerous Rose is inspired by the classic film Interview with Vampire and this already creates great expectations regarding the rose that the perfume will deliver. The idea is an enigmatic beauty, luminous and somber and we already know that the blood red rose that appears in the advertising of the perfume is not only a decorative element. Dangerous rose delivers a rose in the style of an Arabian perfumery, loaded with incense, spices, with nuances of honey and tobacco. The output is intriguing, a dry spicy incense scent that for some moments brings me to a more noble version of the aroma of the classic brazillian Phebo soap. Soon afterwards the more licorious aroma of the rose begins to become evident in contrast to a patchouli wrapped in amber. The way they are balanced judiciously creates the light and dark aspect of the fragrance and lasts practically all day on the skin.

Chemical Love is to me from the point of view of the concept the weakest perfume in the collection. The perfume has a bold inspiration in the film Scarface and certainly the female figure who is honored here is Elvira Hancock, wife of Tony Montana and addicted to Cocaine. The perfume looks at this idea by including a Cocaine accord in the composition but does not seem to take the theme in depth, merely creating a floral musk that ends up sounding a little artificial as the name seems to suggest. Still, it is an excellent artificial floral: a narcotic and even a little animalic ylang is surrounded by a more commercial fruity aroma, more evident on the scent strip than on the skin. As the most intoxicating floral aspect of the perfume passes it gains woody contours and gets warm and creamy and just like the others in the collection lasts a lifetime on the skin.

From the proposed trilogy of perfumes Chemical Love is the only one that seems to go more in a feminine than unisex direction and I would say that one of the dangers of the brand when exploring so strongly the theme of its heroines in the visual part of the fragrances is to end limiting the audience that will be interested and test the compositions. My advice is to ignore this part of the project and go straight to the perfumes, which will amaze and greatly please those who are looking for powerful and well made creations.