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2 de dez de 2018

Begim Kohinur Diamond For Men - Avaliação/Resenha/Review


Português (scroll down for english version):

A primeira vez que recebi uma amostra dessa fragrância a primeira coisa que me ocorreu ao olhar o encarte da amostra e perceber uma qualidade duvidosa é que se tratava de algum produto linha b de alguma marca árabe desconhecida. Para minha surpresa, pesquisando mais descobri que a Begim era vendida em uma loja prestigiada como a Jovoy. Meu segundo pensamento foi que seus perfumes seriam fruto de algum estreante da perfumaria, querendo tomar parte do lucrativo mercado de nicho mas sem nenhum conhecimento ou refinamento estético.
Para minha maior surpresa, ao ir atrás da página da marca no fragrantica descobri que tal projeto está relacionado a uma empresa do Uzbequistão que desde dos anos 90 é distribuidora de marcas de luxo da perfumaria, que o projeto foi desenvolvido em parceria com a prestigiada casa de fragrâncias Firmenich e que há um conceito aqui, a exploração da cultura e história de civilizações antigas. Essa marca é um grande exemplo de que mesmo quando há experiência e expertise envolvida o resultado pode dar muito errado quando se está apaixonado demais por um projeto para perceber as falhas.
Se fosse um perfume comercial KohiNur Diamond seria até que interessante, mas para um perfume masculino de 150 euros é uma esquizofrenia do frasco ao conceito ao aroma em si. Você tem um frasco que tenta soar sofisticado e rebuscado mas parece barato e cafona. O nome é uma referência ao maior e mais antigo diamante existente no mundo e o conceito claramente é uma referência ao luxo e grandeza que a marca aspira. Só que você percebe um desejo de querer abraçar o mundo e que dificilmente daria certo: o objetivo é ser modesto e cintilante, simples e promissor, misterioso com uma mensagem do passado para o homem contemporâneo, que teoricamente conquista o mundo todo dia.
É essa contradição, indecisão e esquizofrenia que define o aroma de Kohinur. É algo que deseja ser sofisticado mas que parece barato e que atira para todas as direções. Cítrico? Claro! Aquáticos? Também! Que tal flores? Coloca. Notas amadeiras exóticas com um quê mais árabe? Põe também! Que tal um toque de sofisticação feminino? Pode colocar. O mix é como se alguém tivesse vomitado olfativamente falando um perfume cítrico, aquático, algo amendoado e uma base amadeirada ao estilo do le baiser du dragon da cartier. É algo tão ruim, tão estranho e tão mal desenvolvido que é preciso muito talento e amor e falta de bom senso para chegar nisso. Não vale a pena.

English:

The first time I received a sample of this fragrance, the first thing that occurred to me when looking at the sample insert and perceiving a dubious quality is that it was some product line b of some unknown Arabic brand. To my surprise, by researching more I discovered that Begim was sold in a prestigious shop like Jovoy. My second thought was that this perfumes would be the fruit of some newcomer of the perfumery, wanting to take part of the profitable niche market but without any aesthetic knowledge or refinement.

To my surprise, going after the brand page in the fragrantica I discovered that this project is related to an Uzbekistan company that since the 90s is distributing luxury brands of perfumery, that the project was developed in partnership with the prestigious house of Firmenich fragrances and that there is a concept here, exploring the culture and history of ancient civilizations. This is a great example that even when there is experience and expertise involved the result can go awry when you are too passionate about a project to realize the flaws.

If KohiNur Diamond were a commercial/mainstream perfume it would be quite interesting, but for a men's perfume of 150 euros it is a schizophrenia from the bottle to the concept to the aroma itself. You have a bottle that tries to sound sophisticated and fancy but looks cheap and kitschy. The name is a reference to the largest and oldest diamond in the world and the concept clearly is a reference to the luxury and grandeur that the brand aspires.Then you realize a desire to embrace the world that would hardly work: the goal is to be modest and sparkling, simple and promising, mysterious with a message from the past to the contemporary man, who theoretically conquers the world every day.


It is this contradiction, indecision and schizophrenia that defines Kohinur's scent. It's something that wants to be sophisticated but that looks cheap and it shoots in all directions. Citric? Of course! Aquatic? Also! How about flowers? Put it on. Exotic basenotes with a more Arab flavor? Put it on too! How about a touch of feminine sophistication? Go ahead. The mix is as if someone has vomited olfactually speaking a scent blending citrus, aquatic, something almond and a woody base in the style of cartier le baiser du dragon. It is something so bad, so strange and so poorly developed that it takes a lot of talent and love and a lack of common sense to achieve it. Not worth at all.

Comme des Garcons EDP e Comme des Garcons 2 - Avaliação/Resenha/Review


Português (scroll down for english version):

É seguro afirmar que a marca parisiense Comme des Garcons foi uma das precursoras da perfumaria de nicho, em especial o segmento dela que levou o perfume a um caminho conceitual que a perfumaria comercial da década de 90 não podia mais atender. É algo que se encaixa na proposta de existência da marca, que sempre adotou no mundo da moda uma postura anti-fashion e bem excêntrica.

Por mais que soe marcante e exótico, o primeiro perfume da marca tem um impacto muito maior quando contextualizado na década de 90, onde a perfumaria ia para um caminho mais aquático e leve e onde o desenvolvimento do público do perfume era tão importante quanto o perfume em si. Fugindo disso, Commes des Garcons foi criado buscando ser algo novo, não comercial, criativo e sem muitas diretrizes, uma antítese do desenvolvimento de perfumaria da época. E isso é o que definiria a imagem da marca nas próximas 2 decádas.

Criado por Marx Buxton, Comme des Garcons seria o seu primeiro perfume em parceria com a marca e que ajudaria a sedimentar a criativa e icônica parceria entre ambos. Buxton partiu aqui para uma abordagem mais pessoal, coletando uma mistura dos cheiros sentidos ao passear por Marrocos: o aroma das especiarias, o incenso, o aroma de ambar e tudo mais que lhe chamou a atenção. Sua criação é uma explosão de especiarias e aromas marcantes e algo que até hoje poucas marcas arriscam apostar. O cheiro abre com um forte cheiro aldeídico em contraste com o aroma das especiarias, criando uma textura quente e ao mesmo tempo animálica, amarga e oleosa. De fundo surge um rico aroma de ambar, incenso, madeiras e mel, um blend de cheiros como se esperaria sentir em um mercado árabe. Em vez de se preocupar com uma evolução mais regrada ou mais harmônica, esse anti-perfume captura em sua essência um ambiente, o aspecto viciante e ao mesmo tempo assustador de tal cacofonia de cheiros.

Esperaria-se talvez que o segundo perfume pilar da marca adotaria uma continuação dessa ideia ou conceito, entretanto CDG e CDG2 funcionam praticamente como yin e yang ainda que ambos estejam claramente firmados no mundo conceitual e anticomercial da década. Se em CDG é desafiado a noção do que é um perfume, em CDG2 o perfumista e a marca brincam com a noção de gênero indiretamente ao trabalhar no perfume o conceito da dualidade. É interessante que CDG2 em sua síntese está completamente alinhado com o estilo mais linear de perfumaria da época, entretanto há algo arriscado, interessante e moderno em suas dualidades. Há um aspecto cristalino e futurista em uma combinação que abre com um cheiro brilhante e cítrico de aldeídos em contraste com um aroma leve de incenso e cedro. Logo surge uma textura levemente esfumaçada de tinta em contraste com um sutil aroma floral, novamente brincando com os opostos e gêneros.


A base apresenta um aroma mais amadeirado com um musk confortável, tomando o cuidado de trabalhar o patchouli e ambar para que não seja confortavelmente masculino ou feminino. Essa exploração de contrastes e dualidades faz com que CDG2 consiga ser um perfume a atingir a ideia de uma fragrância genderless muito antes desse conceito ser discutido de fato. Assim como CDG 1 é um perfume à frente de seu tempo e uma obra prima.

English:

It is safe to say that the parisian brand Comme des Garcons was one of the precursors of niche perfumery, especially the segment of it that took the perfume to a conceptual path that the commercial perfumery of the 90's could no longer attend. It is something that fits in the proposal of existence of the brand, that always adopted in the world of fashion an anti-fashion and well eccentric stance.

As striking and exotic as it sounds, the brand's first perfume has a much greater impact when contextualized in the 1990s, where perfumery went to a more aquatic and light way and where the public's development of perfume was as important as perfume in itself. Avoiding this, Commes des Garcons was created looking for something new, not commercial, something creative and without many guidelines, an antithesis of the development of perfumes of the time. And that's what would define the brand image in the next 2 decades.

Created by Marx Buxton, Comme des Garcons would be their first perfume in partnership with the perfumer and would help cement the creative and iconic partnership between them. Buxton went here into a more personal approach, collecting a mixture of the smells he felt while touring Morocco: the aroma of spices, the incense, the aroma of amber and everything else that caught his attention. Its creation is an explosion of spices and striking aromas and something that until today few brands risk betting. The smell opens with a strong aldehyde smell in contrast to the spice aroma, creating a warm and at the same time animalic, bitter and oily texture. In the background comes a rich aroma of amber, incense, woods and honey, a blend of scents as you would expect to feel in an Arab market. Instead of worrying about a more harmonious evolution, this anti-scent captures in its essence an environment, the addictive and at the same time scary aspect of such a cacophony of smells.

It would perhaps be expected that the second pillar perfume of the brand would adopt a continuation of this idea or concept, however CDG and CDG2 function practically as yin and yang although both are clearly established in the conceptual and anticomercial world of the decade. If in CDG the notion of what a perfume is challenged, in CDG2 the perfumer and the brand play with the notion of gender indirectly when working on perfume the concept of duality. It is interesting that CDG2 in its synthesis is completely in line with the more linear style of perfumes of the time, however there is something risky, interesting and modern in its dualities. There is a crystalline and futuristic look in a combination that opens with a bright and citrus scent of aldehydes in contrast to a light scent of incense and cedar. Soon there is a slightly smoky texture of paint in contrast to a subtle floral scent, again playing with opposites and genres.


The base features a more woody aroma with a comfortable musk, taking care of working the patchouli and amber so it is not comfortably male or female. This exploration of contrasts and dualities causes CDG2 to be a perfume to achieve the idea of ​​a genderless fragrance long before this concept is actually discussed. Just as CDG 1 is a scent ahead of its time and a masterpiece.

Xerjoff Coffee Break Golden Moka - Avaliação/Resenha/Review

Português (scroll down for english version):

Ainda que o universo olfativo do café seja muito rico a sua temática até recentemente era pouco explorada. O processo de torra do café produz reações químicas que geram inúmeras nuances ao seu aroma. E o próprio processo de consumo do café é uma experiência olfativa, já que seu aroma quente e torrado é muito prazeroso. Ainda sim, trabalhar o aroma do café dentro de uma composição não é uma tarefa fácil: seu cheiro apesar de complexo tem que ser lidado de forma que não pareça que você derramou café em si e também evite que ele suma dentro da composição. Considerando que o foco da coleção nova da Xerjoff é justamente o café, esperava que Golden Moka seria capaz de enfrentar esse desafio.
A marca não dá muitos detalhes de qual é o seu conceito ou proposta aqui de forma que só é possível avaliar do ponto de vista de como o café se comporta dentro da composição. Eu diria que o medo de sobrecarregar na nota de café tonra Golden Moka um perfume seguro demais e faz com que o café não seja o grande protagonista e sim um elemento importante entre todos os outros na composição. A ideia aqui me parece ser atingir a harmonia entre elementos cítricos, especiados, gourmands e amadeirados.
Golden Moka começa com um suculento aroma cítrico, como se você tivesse acabado de espremer um limão. Logo surge um toque gourmand que a princípio parece que ficará dominante e açúcarado em demasia mas que em breve se acomoda junto ao aroma cítrico, dando espaço para um aroma especiado que fica entre um lado mais fresco e um lado mais quente das especiarias. O café apesar de protagonista do conceito não é evidente logo de cara, é necessário procurar seu cheiro quente e torrado na pele. Ele é acompanhado de uma base amadadeirada bem equilibrado e por toques gourmands cremosos.
A minha impressão geral com relação a Golden Moka é que seu perfume seria o que a Boticário faria na família coffee caso o preço da fórmula fosse muito maior e a Boticário se posicionasse no mercado de nicho ou exclusivo. É uma ideia calibrada para um apelo comercial massificado e que ganha orçamento mais exclusivo. Se isso por um lado lhe garante harmonia e perfeição lhe rouba identidade e ousadia e como um perfume de café desaponta por não oferecer mais do protagonista principal.

English:

Although the olfactory universe of coffee is very rich, its theme until recently was little explored. The coffee roasting process produces chemical reactions that generate numerous nuances to its aroma. And the very process of consuming coffee is an olfactory experience, since its warm and roasted aroma is very pleasurable. Still, working the aroma of coffee inside a composition is not an easy task: its smell though complex has to be handled in a way that does not make you feel you have spilled coffee on yourself and also prevents you have to avoid it disappearing inside the composition. Considering that the focus of the new Xerjoff collection is just coffee, I hoped that Golden Moka would be able to meet this challenge.

The brand does not give many details of what its concept or proposal is here so that it is only possible to evaluate from the point of view of how coffee behaves within the composition. I would say that the fear of overloading on the coffee note makes Golden Moka too safe and turns the coffee not the great protagonist but an important element among all the others in the composition. The idea here seems to me to be to achieve harmony between citrus, spices, gourmands and woody elements.

Golden Moka begins with a juicy citrus scent, as if you had just squeezed a lemon. Soon a gourmand touch appears that at first seems it will be dominant and sugared but soon accommodates next to the citric aroma, giving space for a spicy aroma that sits between a fresher side and a hotter side of the spices. The coffee although protagonist of the concept is not obvious right away, it is necessary to seek its hot and roasted scent on the skin. It is accompanied by a well-balanced, sweet-smelling base and creamy gourmands.


My overall impression with regard to Golden Moka is that its perfume would be what the brazillian brand Boticario would do in their coffee fragrance family if the price of the formula were much higher and the brand positioned itself in the niche or exclusive market. It is a calibrated idea for a mass commercial appeal that earns a more exclusive budget. If this on the one hand guarantees harmony and perfection robs it of identity and audacity and as a coffee scent disappoints for not offering more of the main protagonist.

Xerjoff Coffee Break Golden Dallah - Avaliação/Resenha/Review


Português (scroll down for english version):

Golden Dallah e Golden Moka servem como exemplo de uma questão muito mais ampla, a transformação da perfumaria de nicho em uma perfumaria comercial com acabamento melhor. Não há nenhuma preocupação em contar uma história, em criar algo pessoal, em avançar de alguma forma em algo novo. O objetivo é o lucro imediato, a venda do já conhecido, a atração do consumidor com frascos bonitos e com uma falsa escassez (no caso da coleção coffee break produzida tornando-os exclusivos da venda online).

A Marca sequer se dá ao trabalho de explicar o nome e ideia e descobri pesquisando que Dallah é um clássico objeto árabe utilizado para servir o café arábica e costuma ser ricamente ornamentado e um objeto importante na cultura. O café arábica que é servido dentro dele é tradicionalmente preparado com especiarias, em especial cardamomo e açafrão. E a ideia implícita e não dita em Golden Dallah é a da orientalização do café honrando essa tradição.

Quem espera talvez um perfume onde há um forte contraste entre café e oud não vai encontrar aqui. Dallah ocidentaliza a ideia e a torna comercial, talvez como os integrantes mais básicos da oud stars. A saída é o momento mais impactante de Dallah, onde há uma rápida sucessão de ideias. Primeiro um leve toque aquático em contraste com um aroma de avelãs e cacau, o que te faz lembrar do descontinuado Very Irresistible Him. O cardamomo rapidamente aparece e toma esse espaço, sendo pareado com o aspecto torrado do café. Como não há saturação de café, ele se mistura a ideia e se combina a um acorde de oud que é amadeirado e agradável, sendo complementado por um ambar equilibrado e um toque de incenso.


O fato é que se Golden Dallah tivesse qualquer outro nome ou ideia funcionaria pois não há nada impactante que te faça pensar em café ou na cultura árabe. É um perfume feito para não decepcionar, para não ser necessário trabalhar a cadeia de distribuição ou ganhar o consumidor ao longo do tempo. É um aroma bonito e anônimo, que você aprecia enquanto sente mas que não muda nada na sua vida. É isso que acontece quando se tem dinheiro para desenvolver e falta de ousadia para apostar.

English:

Golden Dallah and Golden Moka serve as an example of a much broader issue, transforming niche perfumery into a finer-looking commercial perfumery. There is no concern to tell a story, to create something personal, to advance somehow into something new. The goal is the immediate profit, the sale of the already known, the attraction of the consumer with beautiful bottles and a false scarcity (in the case of the coffee break collection produced making them exclusive of the online sale).

The Brand does not even bother to explain the name and idea and I found out by researching that Dallah is a classic Arabian object used to serve Arabica coffee and is often richly ornamented and an important object in the culture. The Arabica coffee that is served inside it is traditionally prepared with spices, especially cardamom and saffron. And the idea implicit and not dictated in Golden Dallah is that of the orientalization of coffee honoring this tradition.

Whoever expects a perfume where there is a strong contrast between coffee and oud will not find it here. Dallah Westernizes the idea and makes it commercial, perhaps as like the most basic members of oud stars. The opening is the most striking moment of Dallah, where there is a rapid succession of ideas. First a light watery touch in contrast to a scent of hazelnuts and cacao, which reminds you of the discontinued Very Irresistible Him. The cardamom quickly appears and takes this space, being paired with the roasted aspect of the coffee. As there is no coffee saturation, it mixes the idea and combines an oud accord that is woody and pleasant, complemented by a balanced amber and a touch of incense.

The fact is that if Golden Dallah had any other name or idea it would work because there is nothing shocking to make you think of coffee or Arab culture. It is a scented perfume not to disappoint, to not need to work the distribution chain or win the consumer over time. It is a beautiful and anonymous aroma, which you appreciate while you smell but that does not change anything in your life. This is what happens when you have money to develop and a lack of daring to bet.

Comme des Garcons Floriental - Avaliação/Resenha/Review


Português (scroll down for english version):

Mesmo as marcas mais criativas da primeira leva da perfumaria de nicho não escaparam da massificação que o sucesso desse tipo de perfumaria gerou. O fato é que no passado essas marcas possuíam pouca competição e pressão para serem lucrativas, e hoje elas precisam lutar por espaço e distribuição com várias que chegam a cada ano ao mercado. Por isso veteranas como a Comme des Garçons hoje lançam perfumes como Floriental: bons mas que não dependem mais de inovações conceituais.

Floriental se propõe a ter um conceito criativo no estilo mais disruptivo e conceitual da marca. A ideia é desafiar as convenções da perfumaria e propor um floral disruptivo para uma flor que não possui cheiro, a flor do cistus ladaniferum, mais conhecido como labdanum. Para fazer isso, a ideia é brincar com os limites entre o que é floral e oriental para criar algo completamente novo. Na teoria isso seria um conceito fantástico nas mãos da marca, na prática as necessidades comerciais tornam floriental apenas um bom perfume oriental muito bem feito.

Há uma oportunidade perdida aqui em brincar com o próprio nome que o labdanum recebe em inglês, rock rose, o que poderia levar a construção de um aroma de rosas minerais envolvendo as nuances ambaradas. Mas mesmo como um perfume de labdanum Floriental passa longe e o que ele parece capturar mesmo é um aroma oriental spicy em vez de floral oriental. Floriental me faz pensar em uma reinterpretação da ideia do aroma amadeirado frutado do clássico feminite du bois, talvez pelo contraste entre o aroma das ameixas e da base amadeirada aveludada e quente. Em vez de termos um aroma especiado também quente de cravo ou canela o perfume surpreende criando um aroma apimentado mais frutado e seco. O Sândalo da composição se mostra bem equilibrado, não muito amadeirado, nem muito cremoso, e abre espaço para o incenso o aroma mais amadeirado verde do vetiver e bem de fundo o cheiro do ambar.


Na prática, Floriental propõe a uma flor sem cheiro um conceito de um perfume oriental spicy que não te faz pensar no símbolo de uma flor. Havia maneiras disso ser feito, porém o conceito é desperdiçado em favorecimento a uma ideia bem formatada que se sabe que irá vender. Brinca-se tanto com o limite entre o floral e o oriental que o floral desaparece completamente e o que sobra apenas é um oriental que não é completamente novo mas que é muito bem construído. Nem um pouco inovador ou desafiador como se esperaria da marca.


English:

Even the most creative brands of the first wave of niche perfumery did not escape the massification that the success of this type of perfumery generated. The fact is that in the past these brands had little competition and pressure to be profitable, and today they need to fight for space and distribution with several coming into the market each year. That is why veterans like the Comme des Garçons today launch perfumes like Floriental: good but no longer dependent on conceptual innovations.

Floriental proposes to have a creative concept in the most disruptive and conceptual style of the brand. The idea is to challenge the conventions of the perfumery and propose a disruptive floral to a flower that has no scent, the flower of the cistus ladaniferum, better known as labdanum. To do this, the idea is to play with the boundaries between what is floral and oriental to create something completely new. In theory this would be a fantastic concept in the hands of the brand, in practice business needs make floriental just a good oriental perfume very well done.

There is a missed opportunity here to play with the very name that the labdanum receives in English, rock rose, which could lead to the construction of an aroma of mineral roses involving the amber nuances. But even as a labdanum scent floriental passes far and what it seems to capture even is a spicy oriental scent rather than oriental floral. Floriental makes me think of a reinterpretation of the idea of the fruity woody scent of the classic feminite du bois, perhaps because of the contrast between the aroma of the plums and the velvety and warm woody base. Instead of having a spicy hot aroma of clove or cinnamon the scent surprises creating a spicy aroma more fruity and dry. In the composition sandalwood is well balanced, not very woody, nor very creamy, and the green woody aroma of the vetiver makes room for the incense and the scent of the amber.


In practice, Floriental proposes to an unscented flower a concept of an oriental spicy scent that does not make you think of a flower symbol. There were ways of doing this, but the concept is wasted in favor of a well-formed idea that is known to sell. It is played so much with the border between the floral and the oriental that the floral disappears completely and what is left only is an oriental one that is not completely new but that is very well constructed. Not a bit innovative or challenging as you would expect from the brand.

Givenchy Gentleman EDP - Avaliação/Resenha/Review


Português (scroll down for english version):

Por mais que a perfumaria comercial tenha na última década se tornado repetitiva e muitas vezes sem graça ela ainda nos surpreende com lançamentos muito sólidos e bem desenvolvidos. É uma falsa ideia de que no mercado atual você encontrará "qualidade" (palavra que odeio utilizar mas emprego aqui por falta de outra) na perfumaria de nicho, que inclusive tem se tornado repetitiva e adquirido os mesmos erros da perfumaria comercial. A verdade é, como mostra Gentleman EDP, bons perfumes podem surgir até em flankers.

Buscando atrair um novo público masculino a Givenchy lançou em 2017 um perfume com o mesmo nome de um de seus clássicos de 1974. O novo Gentleman de 2017 era interessante, entretanto sua imagem powdery frutada parecia colar no sucesso do Dior Homme, oferecendo elegância entretanto com uma performance razoavelmente decepcionante, como se a ideia não se desenvolvesse muito bem até o fim. Na concentração EDP, ficava o risco da marca continuar colada na ideia do Dior Homme, mirando na versão intense e assim resolvendo problemas de performance mas sem entregar algo diferente.

O fato é que isso não aconteceu e Gentleman EDP é para mim talvez um dos melhores lançamentos de 2018, um perfume com um certo risco e que facilmente poderia ter sido lançado por uma marca de nicho ou até mesmo como uma edição limitada para o público árabe. A comparação com o Dior Homme Intense só serve para efeitos de entender que a iris aqui também é tratada de forma oriental. Entretanto, em vez de oferecer uma base de baunilha e um oriental mais leve o perfumista vai para valer no conceito e resgata um acorde ambarado e balsâmico que faz muito tempo que eu não vejo em um perfume comercial, que dirá em um masculino. Gentleman EDP envolve o toque terroso e delicado da iris em uma quente cama de resinas, ambergris, patchouli e pimentas, criando um perfume oriental belíssimo que vai descortinando suas camadas balsâmicas e quentes aos poucos, tendo até mesmo espaço para um sutil toque de couro. Essa concentração 2018 mira em uma ideia clássica e atemporal e a entrega com muita sofisticação. Fantástico, poderia custar muito mais caro!

English:

As much as commercial perfumery has in the last decade become repetitive and often bland it still surprises us with very solid and well developed releases. It is a false idea that in the current market you will find "quality" (word I hate to use but employed here for lack of another) in niche perfumery, which has even become repetitive and acquired the same errors of the commercial perfumery. The truth is, as Gentleman EDP shows, good perfumes can pop up everywhere, even on mainstream flankers.

Looking to attract a new male audience Givenchy launched in 2017 a perfume with the same name as one of its classics of 1974. The new Gentleman of 2017 was interesting, however its fruity powdery image seemed to stick to the success of Dior Homme, offering elegance however with a reasonably disappointing performance, as if the idea did not develop very well until the end. At the EDP concentration, there was the risk that the brand remained stuck in the idea of Dior Homme, aiming at the intense version and thus solving performance problems but without delivering something different.

The fact is that this did not happen and Gentleman EDP is to me perhaps one of the best releases of 2018, a perfume with a certain risk and that could easily have been launched by a niche brand or even as a limited edition for the Arab public . The comparison with the Dior Homme Intense is only meant to understand that the iris here is also treated in an oriental way. However, instead of offering a vanilla base and a lighter oriental, the perfumer goes for real in the concept and rescues an amber and balsamic accord that I have not seen in a commercial perfume for a long time, even less in a masculine. Gentleman EDP involves the earthy and delicate touch of the iris in a warm bed of resins, ambergris, patchouli and peppers, creating a beautiful oriental scent that uncovers its balsamic and warm layers gradually, even having room for a subtle touch of leather. This 2018 concentration looks at a classic and timeless idea and delivery it with a lot of sophistication. Fantastic, could cost a lot more !

Dolce & Gabbana The One Royal Night - Avaliação/Resenha/Review


Português (scroll for english version):

Edições limitadas de um perfume de sucesso são um negócio lucrativo para a indústria pois costumam ser consumidas com entusiasmo pela base de fãs. Um mercado que inclusive tem sido foco desse tipo de abordagem é o mercado árabe, onde são lançadas edições limitadas mais orientais de fragrâncias conhecidas, virando itens exclusivos e desejados. A Dolce & Gabbana é uma das marcas que não ficou de fora dessa tendência e em 2015 fez uma versão especial de seu sucesso masculino, The One For Men. O que é interessante aqui é que diferente da maioria das marcas, a versão Royal Night e voltada para o público árabe não possui aroma de oud em sua composição.

De forma geral, The One Royal Night soa como uma versão mais nobre e rica do The One original sem perder a elegância e versatilidade da composição. Royal Night dá ênfase a uma especiaria importante na cultura árabe, o cardamomo, e oferece uma deliciosa saída dele, onde há uma perfeita sintonia entre seu aroma mais mentolado, seu lado cítrico, sua cremosidade e seu frescor que remete a lavanda. O cardamomo é uma estrela da saída do The One Royal Night a torna de fato um momento especial, preenchido secundariamente com um nuance frutada bem agradável.


Assim que começa a evoluir o perfume mostra um aroma especiado e que remete ao acorde de tabaco do original, ainda que esse não esteja listado na pirâmide olfativa dessa composição. O aroma de ambar aqui se mostra bem equilibrado também, não exagerando no aspecto seco e áspero que deixa alguns perfumes comuns e abrindo espaço para uma leve sugestão de aroma de couro, algo que fica encaixado entre o cheiro do cedro, do sândalo e do ambar. De forma geral, pode-se dizer que a edição limitada Royal Night oferece um perfume comercial elegante e sofisticado ainda que tenha propósitos comerciais bem claros e que pule numa tendência como outras marcas fazem. É o tipo de perfume comercial que deveria ser feito com maior recorrência, onde não se abre mão da sofisticação pelas vendas.

English:

Limited editions of a successful perfume are a lucrative business to the industry as they are often consumed with enthusiasm by the fan base. One market that has even been the focus of this type of approach is the Arab market, where limited Eastern editions of known fragrances are being released, becoming exclusive and desired items. Dolce & Gabbana is one of the brands that did not miss out on this trend and in 2015 made a special version of their masculine success, The One For Men. What is interesting here is that unlike most brands, the Royal Night version and aimed at the Arab public has no oud aroma in its composition.

Overall, The One Royal Night sounds like a more noble and rich version of original The One without losing the elegance and versatility of the composition. Royal Night emphasizes an important spice in the Arabian culture, the cardamom, and offers a delicious opening of it, where there is a perfect harmony between its more mentholic aroma, its citrus side, its creaminess and its freshness that goes back to lavender. The cardamom is a star out of The One Royal Night makes it indeed a special moment, filled secondarily with a very pleasant fruity nuance.


As soon as it begins to evolve the perfume shows a spicy aroma that refers to the tobacco accord of the original, although it is not listed in the olfactory pyramid of this composition. The amber aroma here is well balanced too, not overdoing the dry and rough side that leaves some perfumes common and opening space for a slight suggestion of a leathery aroma, something that is embedded in the smell of cedar, sandalwood and amber . In general, it may be said that the limited edition Royal Night offers a stylish and sophisticated commercial perfume even though it has clear commercial purposes . It is the type of commercial perfume that should be done with greater recurrence, where it does not give up the sophistication by the sales.

Dolce & Gabbana The One Mysterious Night - Avaliação/Resenha/Review


Português (scroll down for english version):

Com a segunda edição exclusiva do perfume masculino The One a Dolce & Gabbana deixa bem claro suas intenções na divulgação: a combinação de uma alma árabe com uma essência italiana. Talvez o primeiro da saga, Royal Night, tenha sido mais um teste de mercado para verificar a aceitação do público e visto que havia interesses a grife italiana resolve ir com tudo nessa segunda edição.

Diferente de Royal Night, aqui se entrega exatamente o que se espera de uma edição limitada voltada para o público árabe: agarwood, açafrão, rosas e um aroma de incenso que permeia a composição e dá de fato um ar misterioso à ela. Se por um lado esses elementos tornam Mysterious Night clichê eles são executados com muito equilíbrio e cuidado no detalhe, produzindo um belo oriental moderno.

Logo que é borrifado a aura de incenso de Mysterious Night se revela em meio ao aroma especiado metálico e com nuances de couro do açafrão. A rosa logo aparece com um aroma macio e levemente frutado, complementada por um aroma de oud que é bem equilibrado entre a faceta amadeirada e a ambarada mais doce. Quando se pensa que a identidade olfativa do original não irá mais surgir o lado mais árabe suaviza e dá espaço para o conceito da essência italiana, mostrando o aspecto de tabaco amadeirado e ambarado do original,fazendo uma espécie de fusão entre oriente e ocidente. Mysterious Night de fato soa como uma versão mais noturna do original e para quem busca um perfume bem equilibrado com um quê de exótico é uma excelente opção.

English:

With the second exclusive edition of the men's perfume The One Dolce & Gabbana makes clear its intentions in the disclosure: the combination of an Arab soul with an Italian essence. Perhaps the first of the saga, Royal Night, was more of a market test to verify the acceptance of the public and since there were interests the Italian label decides to go with everything in this second edition.

Unlike Royal Night, here is delivered exactly what is expected of a limited edition aimed at the Arab public: agarwood, saffron, roses and an aroma of incense that permeates the composition and gives indeed a mysterious air to it. If on the one hand these elements make Mysterious Night cliché they run with much balance and care in detail, producing a beautiful modern oriental.


As soon as it is sprayed Mysterious Night's aura of incense reveals itself amidst the spicy metallic scent and hints of leather from saffron. The rose soon appears with a soft and slightly fruity aroma, complemented by an aroma of oud that is well balanced between the woody facet and the sweetest amber. When one thinks that the olfactory identity of the original will no longer emerge the more Arab side softens and gives space to the concept of Italian essence, showing the woody and ambered tobacco aspect of the original, making a kind of fusion between east and west. Mysterious Night does indeed sound like a more nocturnal version of the original and for anyone looking for a well-balanced perfume with an exotic thing is an excellent choice.

Giorgio Armani Eau de Nuit e Eau de Nuit Oud - Avaliação/Resenha/Review


Português (scroll down for english version):

Em 2013 a Giorgio Armani resolveu que precisava entrar na competição do mercado pela demanda dos usuários por perfumes de iris. O sucesso progressivo do Dior Homme e sua versão intense abriu isso no mercado masculino e algumas marcas percebendo o potencial fizeram suas criações pondo em foco as vezes o aroma terroso, as vezes o lado mais atalcado da iris. No caso da Armani, isso foi feito com um mix das duas facetas na versão noturna do seu clássico Armani Eau Pour Homme. Com o tempo, como ficaria claro, Eau de Nuit foi o primeiro de um projeto a criar uma nova linha de composições chamadas de Armani Eau.
É importante entender como linha pois de fato o perfume Eau de Nuit é independente em aroma do Armani Eau Pour Homme tradicional, não sendo uma mera variação do mesmo. Seu cheiro apesar de estar supostamente orientado ao uso noturno, é uma composição quente mas moderada que facilmente pode ser usada durante o dia. O aroma da iris tem um lado terroso e um aspecto atalcado, mas sua presença é tratada de uma forma mais discreta, meio que transparente. Ela é envolvida num aroma amêndoado de fava tonka e algo especiado que chega a remeter ligeiramente a canela junto o toque apimentado e o lado mais fresco do cardamomo. Eau de Nuit possui uma base oriental leve, um aroma amadeirado ambarado que permanece como uma espécie de segunda pele depois que as especiarias e iris evoluem.
3 anos após o lançamento da versão Eau de Nuit a Armani decidiu expandir seu aroma oferecendo-o em uma versão voltada para o público árabe, uma prática que tem sido comum a quase todas as marcas comerciais. Eu diria que de maneira similar a forma como é tratada a iris, o flanker Eau de Nuit Oud é uma variação que mantém o toque oriental minimalista e transparente da versão eau de nuit e a acrescenta a ele um aspecto um pouco mais exótico de oud. Ainda sim, esse não é um oud animálico, doce ou exageradamente ambarado. Seu cheiro está mais para um aroma amadeirado com um toque spicy de açafrão, similar ao que acontece com o Oud no primeiro perfume de Francis Kurkdjian. Ambos são Ouds voltados mais para o público ocidental e para quem deseja um toque de exotismo arriscando bem pouco. Por isso chega até a ser curioso que essa versão tenha sido direcionado para o público árabe, pois certamente faria mais sucesso em uma distribuição mais ampla.

English:

In 2013 Giorgio Armani decided that he needed to enter the market competition by user demand for iris perfumes. The progressive success of the Dior Homme and its intense version opened it up in the male market and some brands realizing the potential made their creations by focusing on the sometimes earthy scent sometimes powdery of the iris. In the case of Armani, this was done with a mix of the two facets in the night version of its classic Armani Eau Pour Homme. Over time, as would be clear, Eau de Nuit was the first of a project to create a new line of compositions called Armani Eau.

It is important to understand it inside of a line because in fact the Eau de Nuit perfume is independent in aroma of the traditional Armani Eau Pour Homme, not being a mere variation of it. Its smell, although supposedly aimed at night use, is a warm but moderate composition that can easily be used during the day. The iris scent has an earthy side and a powdery appearance, but its presence is treated in a more discreet, rather than transparent way. It is wrapped in an almond flavor of tonka bean and something spicy that even slightly tinses the cinnamon along with the spicy touch and the fresher side of the cardamom. Eau de Nuit has a light oriental base, an ambery woody scent that remains as a kind of second skin after the spices and irises evolve.

3 years after the release of the Eau de Nuit version Armani decided to expand its aroma by offering it in a version aimed at the Arab public, a practice that has been common to almost all brands. I would say that in a similar way to the way the iris is treated, the Eau de Nuit Oud flanker is a variation that maintains the minimalist and transparent oriental touch of the eau de nuit version and adds to it a slightly more exotic aspect of oud. Yet, this is not an animaly, sweet or overly amber oud. Its scent is more for a woody scent with a spicy touch of saffron, similar to what happens to Oud in Francis Kurkdjian's first perfume. Both are Ouds geared more towards the western public and for those who want a touch of exoticism risking very little. So it is curious that this version was directed to the Arab public, because it would certainly be more successful in a wider distribution.


Eudora Rouge EDP - Avaliação/Resenha/Review


Dando continuidade a sua linha de fragrâncias mais sofisticadas a Eudora lança Rouge EDP, cuja a temática vermelha se encaixa perfeitamente com o Natal. Esse é outro exemplo de como o mercado brasileiro de perfumaria tem evoluído nos últimos anos no que tem lançado; ainda que inovação olfativa não seja o forte, o que tem sido criado surpreende na harmonia e riqueza e se encaixa perfeitamente com o que o mercado internacional tem entregue.

Rouge EDP segue a linha chypre moderno que os outros dois membros da linha Eudora seguem, entretanto indo em uma direção interessante, mais oriental e floral. É dado um cuidado aos detalhes do aroma da saída à evolução, focando a sinestesia entre cor e perfume por uma saída frutal suculenta e levemente ácida. O perfume dá um aroma de maçã que quase chega a ser gourmand, com um aspecto açúcarado, e parece encaixar uma nuance de morango. Esse aspecto frutado é proveniente do corpo de jasmim, que dá um aroma floral mais carnal que o conceito rouge pede, entretanto sem perder a elegância. A base chypre vai numa direção mais oriental, criando uma ideia resinosa e amadeirada que acaba fugindo do patchouli e musks que dominam boa parte da base dos chypres modernos. Há ainda espaço para um leve toque powdery secundário de fundo, que dá uma sofisticação e um leve toque cosmético à fragrância.

Rouge EDP tem tido uma recepção muito boa do público e isso não surpreende, é um projeto onde há coesão entre ideia, apresentação e perfume e onde há uma elegância e boa performance no aroma proposto. A concentração EDP não é meramente uma jogada de marketing e o perfume também entrega nesse sentido. É um excelente presente de natal da marca à seus consumidores e um destaque tardio na perfumaria brasileira de 2018, que se continuar nesse ritmo terá um futuro promissor em 2019.

Natura Homem Coragio - Avaliação/Resenha/Review


Um dos últimos lançamentos da Natura esse ano, Homem Cor.Agio sofre de um problema, ele vem após um ano muito forte da marca, onde excelentes fragrâncias foram lançadas. Assim, o projeto cria expectativas que infelizmente acabam não sendo atendidas completamente, o que não significa que sua execução como um todo não seja interessante.

A marca ao longo do ano percebeu que precisava investir em fragrâncias marcantes e que precisava levar sua linha olfativa em uma direção mais internacional, o que tem sido feito principalmente pelas parcerias de cocriação que a marca tem se utilizado a cada lançamento. Em Homem Cor.Agio, Veronica Kato trabalha com o perfumista Christophe Herault e o objetivo é fazer algo ousado, intenso, moderno e sedutor. O risco que a marca corre já se evidencia tanto no nome como no próprio frasco, que busca aliar um design mais moderno e rompe com os padrões do resto da linha.

Eu diria que é necessário avaliar Homem Cor.Agio de duas perspectivas: a do projeto em si e a do ponto de vista comercial. Do ponto de vista comercial, a marca fez um excelente resultado, entregando algo que de fato é intenso, moderno e sedutor e um produto que é bem comercial. Homem Cor.Agio é a farofa do ano da Natura, mas é uma que você come com gosto e pede bis.

Já com relação ao projeto em si. Cor.Agio fica no meio do caminho, não sendo nem um desastre nem uma grande surpresa. O risco corrido no design trás algo que é moderno ao mesmo tempo mas que tem um lado barato que a marca talvez não tenha pensado - o mecanismo de spray e a parte plástica que fica evidente remete aos antigos desodorantes com refil que a marca produzia, o que tira parte do seu apelo moderno. O perfume em si é quase tudo que a marca propõe, apenas não é ousado. A sensação de deja-vu é imediata, pois a combinação de especiarias frias e quentes versus o fundo oriental ambarado é algo que de fato diz sensualidade e mostra intensidade e modernidade. Porém, essa mesma combinação do jeito que é tratada diz One Million e suas variações.

Cor.Agio imediatamente remete ao contraste entre cítrico e especiarias frias e metálicas que se tornou uma fortíssima assinatura do One Milliion. Isso é reforçado pela escolha da base, que também vai numa direção bem ambarada. A diferença é que Cor.Agio tenta escolher um caminho menos enjoativo, acrescentando mais especiarias frescas, criando um aspecto secundário fougere de barbearia e acrescentando um toque mais frutado de pimenta rosa, que contrasta com a base mais quente, balsamica e adocicada. Se observado de fundo, há também um aspecto fresco, doce e negro de anis, que cria um toque diferenciado na fragrância.

Considerando que estamos falando de perfumaria nacional e de todos os avanços feitos pela Natura, Cor.Agio não é o seu destaque do ano, mas é um excelente perfume da casa. Não é ousado no sentido de trazer algo novo, mas é um perfume muitíssimo bem feito, equilibrado e complexo e que poderia muito bem ser o lançamento de uma grife internacional. Pontos para a marca por fechar o ano com uma farofa de qualidade.

Issey Miyake L'Eau d'Issey Noir Ambre - Avaliação/Resenha/Review


Português (scroll down for english version):

No mercado comercial atual, um erro facil de se cometer quando se espera inovação e perfumes interessantes é focar nos pilares de cada marca, nos perfumes que são lançados com tudo novo. Esses tem sido vacas leiteiras, investindo em direções seguras que provém lucratividade às marcas. As grandes surpresas tem aparecido sempre em perfumes como Noir Ambre, flankers cuja a proposta e até mesmo a distribuição mais limitada abrem espaço para experimentação e risco.

L'Eau D'Issey Noir Ambre é um projeto interessantíssimo apesar de soar clichê quando se pensa em sua proposta. A ideia aqui é a mesma de outras marcas, pular no vagão das edições limitadas focadas para o público árabe. Para isso, a marca propõe o encontro do Oriente com o Ocidente e a proposta de um oriental luminoso que acrescenta ao original notas ambaradas e madeiras darks e vibrantes. Olhando assim, Noir Ambre tinha tudo para ser mais um perfume de agarwood ou ambar como muitos outros no mercado. E a maior surpresa é que ele não é.


Eu diria que há um trabalho genial aqui de realmente conciliar o estilo aquático ozônico do L'Eau D'Issey, representando o ocidente, com um aroma ambarado e de couro, que é a proposta do oriente. Curiosamente, o couro que o perfumista trás me faz pensar em algo mais oitentista, meio ao estilo do que Antaeus tem, entretanto com uma carga mais árabe, com a presença do açafrão, um aspecto de incenso e um sutil toque de agarwood. O lado mais ozônico se encaixa perfeitamente nesse aroma de couro mais agressivo e trás um frescor inesperado, que ganha uma camada extra de complexidade pelo contraste entre um lado especiado mais quente de canela e um lado especiado mais herbal e frio, algo devido a presença do coriandro e da noz moscada. O perfume consegue entregar tudo que se propõe, é ousado, diferente e ainda sim faz uma ligaçao com o L'Eau D'Issey tradicional. Um excelente projeto com um toque inovador que pode passar facilmente despercebido aos desavisados.

English:

In the current commercial market, an easy mistake to make when hoping for innovate and interesting perfumes is to focus on the pillars of each brand, in the perfumes that are launched with everything new. These have been cash cows, investing in safe directions that provide profitability to brands. The big surprises have been appearing in perfumes like Noir Ambre, flankers whose proposal and even the most limited distribution open space for experimentation and risk.

L'Eau D'Issey Noir Ambre is a very interesting project although it sounds cliché when thinking about its proposal. The idea here is the same as other brands, jumping in the bandwagon of limited editions focused on the Arab public. For this, the brand proposes the encounter of the East with the West and the proposal of a luminous oriental that adds to the original amber notes, dark woods and vibrant aromas. Looking at it, Noir Ambre had everything to be more of an agarwood perfume or amber like many others on the market. And the biggest surprise is that it is not.


I would say that there is a genius work here to really reconcile L'Eau D'Issey's ozone-like aquatic style, representing the west, with an amber and leathery scent, which is the proposal from the East. Curiously, the leather that the perfumer creates  makes me think of something more of the eighties in the style of what Antaeus has, though with a more Arabian burden, with the presence of saffron, an aspect of incense and a subtle touch of agarwood. The more ozonic side fits perfectly in this more aggressive leather aroma and brings an unexpected freshness, which gains an extra layer of complexity by the contrast between a hot spicy cinnamon and a  more herbal and cold spices, something due to the presence of coriander and nutmeg. The perfume is able to deliver everything that is proposed, is daring, different and still does a connection with the traditional L'Eau D'Issey. An excellent design with an innovative touch that can easily go unnoticed by the unsuspecting.

Tom Ford Mandarino di Amalfi - Avaliação/Resenha/Review


Português (scroll down for english version):

A linha de fragrâncias cítricas de Tom Ford é prova de que no mercado de nicho há espaço para tudo, inclusive para cítricos, uma categoria que não há muito espaço para inovação ou grandes melhorias. O que faz a diferença aqui é como você vende o conceito de Colognes cítricas como algo prestigioso e luxuoso ao mesmo tempo que tenta-se melhorar a performance e segurar a identidade dos elementos mais voláteis na pele. O sucesso de Neroli Portofino em satisfazer aos seus usuários esses 2 critérios abriu portas para que surgisse uma coleção somente de colônias, das quais Mandarino de Amalfi foi um dos primeiros integrantes.

O segredo de perfumes como Neroli Portofino e Mandarino de Amalfi está em dois pilares: conceito e execução. Assim como Neróli Portofino, Mandarino de Amalfi basicamente te vende uma viagem de férias de luxo: uma experiência efervescente, luminosa e idílica. E isso para ser executado certamente depende de boas extrações de frutas cítricas, o que leva as pessoas a acreditarem que é nesse aspecto que o perfume se destaca e justifica o preço. Eu diria, entretanto, que o diferencial está nas mãos do perfumista, capaz de moldar esse cítricos no ponto certo onde eles soem balanceados e finos.

Mandarino de Amalfi de fato começa com um aroma bem brilhante e efervescente, uma refrescância mais adstringente de limão e que sugere de fundo um leve toque floral branco, algo limpo e bem delicado. A princípio a mandarina não é a estrela da composição mas ela é moldada para que seu aspecto frutado e doce de uva seja equilibrado ao seu lado que remete a tangerina e combinado com um corpo mais floral de laranjeira. De fundo, o perfume cria uma textura amadeirada com toques herbais e um quê de musks adocicados que é usado da maneira clássica dentro de uma cologne, para sustentar a ideia e reter a sensação de frescor e leveza.

Como uma boa viagem de férias, Mandarino de Amalfi é despretensioso e você não precisa pensar muito a respeito dele para entendê-lo, o que certamente ajuda no seu apelo. Ainda que caro, seu aroma é elegante o suficiente para sustentar isso, não pesando demais nas nuances das notas cítricas que poderiam dar um ar mais barato a ele. Não compensar ter a versão menor, pois como uma boa viagem de férias você não pode economizar para aproveitar.


English:

Tom Ford's line of citrus fragrances is proof that in the niche market there is room for everything including citrus, a category that does not have much room for innovation or major improvements. What makes the difference here is how you sell the concept of Citrus Colognes as something prestigious and luxurious while at the same time trying to improve performance and insure the identity of the most volatile elements in the skin. Neroli Portofino's success in satisfying its users with these two criteria opened doors for a collection of Cologne like creations, of which Mandarino of Amalfi was one of the first members.

The secret of perfumes like Neroli Portofino and Mandarino of Amalfi lies on two pillars: concept and execution. Like Neroli Portofino, Mandarino of Amalfi basically sells you a luxury holiday trip: an effervescent, luminous and idyllic experience. And this to work certainly depends on good extractions of citrus fruits, which leads people to believe that it is in that aspect that the perfume stands out and justifies the price. I would say, however, that the differential is in the hands of the perfumer, able to shape this citrus fruit in the right place where they sound balanced and fine.

Amalfi mandarin actually begins with a very bright and effervescent aroma, a more astringent fresh lemon  which suggests in the background a slight white floral touch, something clean and very delicate. At first the mandarin is not the star of the composition but it is shaped so that its fruity and sweet aspect of grape is balanced next to it thatsmells like tangerine and combined with a more floral body of orange blossom. In the background, the perfume creates a woody texture with herbal touches and a touch of sweet musks that is used in the classic way inside a cologne, to sustain the idea and retain the feeling of freshness and lightness.


As a good holiday trip, Mandarin from Amalfi is unpretentious and you do not need to think too much about it to understand it, which certainly helps in its appeal. Although expensive, its scent is elegant enough to sustain this, not too heavy on the nuances of citrus notes that could give it a cheaper air. It is not worth  having the smaller version because as a good vacation you have to be generous to take advantage of it.

Tom Ford Mandarino di Amalfi Acqua - Avaliação/Resenha/Review


Português (scroll down for english version):

É impressionante o poder de marca de Tom Ford e ele sabe disso pela forma como explora seus perfumes. O que seria alvo de críticas em outras marcas passa tranquilamente dentro da Private Blend. E para isso a marca alia o poder do nome de Tom Ford com publicidades picantes, criando o poder do choque onde não haveria. E isso certamente ajuda a vender criações como Mandarino di Amalfi Acqua.
Que uma linha de colognes cítricas com ar clássico já seja vendida a preço de ouro é um grande feito, agora lançar variações aquáticas dessas colognes a preço de ouro é uma ousadia que acho impressionante. É você pegar uma das ideias mais baratas da perfumaria - a dos cítricos clássicos cologne - dar um frescor que justifique o nome acqua, cobrar uma fortuna e convencer as pessoas de que elas precisam disso e que devem pagar pelo preço; Somente com um nome forte você consegue isso.
Mandarino di Amalfi Acqua é um perfume medíocre para o que oferece, indigno de se perder muito tempo descrevendo. Basicamente é uma versão do original onde a ênfase é dada na leveza do frescor cítrico, tirando os aspectos florais do corpo e simplificando a base. Basicamente você está pagando caro pelo que uma 4711 ou um Eau de Cologne Imperiale faz, só que num frasco azul fosco e pagando 175 dólares por algo de duração pífia na pele. A única diferença é que tem o nome Tom Ford aqui, é isso que você está pagando. Se Mandarino di Amalfi é uma viagem luxuosa mesmo que manjada a versão Acqua é a irmão meia boca dela, onde você ainda paga caro mas tem guia turístico te levando para dar um rolê rápido para você voltar pro hotel depois. Bem sem graça

English:

Tom Ford's brand power is impressive and he knows this by the way he explores his perfumes. What would be criticized in other brands goes smoothly inside the Private Blend. And to do that the brand combines the power of Tom Ford's name with racy advertisements, creating the power of shock where there would not be. And this certainly helps sell creations like Mandarino di Amalfi Acqua.

That a line of citrus colognes with classic air is already sold at a price of gold is a great feat, now to launch aquatic variations of these colognes at a price of gold is a boldness that I find impressive. You take  one of the cheapest ideas of perfumery - the classic citrus cologne - give a freshness that justifies the name acqua, charge a fortune and convince people that they need it and must pay for the price; Only with a strong name can you achieve this.

Mandarino di Amalfi Acqua is a mediocre perfume for what it offers, unworthy of being loosing a long time describing. Basically it is a version of the original where the emphasis is given on the lightness of the citrus freshness, taking away the floral aspects of the body and simplifying the base. Basically you're paying a lot for what a 4711 or an Eau de Cologne Imperiale does, except that is delivered in a frosted blue bottle and paying $ 175 for something fleeting. The only difference is that it has the name Tom Ford here, that's what you're paying for. If Mandarino di Amalfi is a luxurious trip the Acqua version is irs cheap brother trip, where you still pay a lot but with a tour guide taking you for a quick city tour for you to return to the hotel after. Very bland

Eudora Carbon Speed - Avaliação/Resenha/Review


Que o público feminino é o grande alvo da Eudora isso é bem claro,mas precisava a marca tratar com tanto descaso sua audiência masculina? A marca parece simplesmente ignorar uma informação importante, de que os gastos dos homens com beleza e cuidado pessoal tem crescido. E perfume certamente faz parte desse arsenal.

Essa miopa da marca tem levado a criação de perfumes meia-boca como Carbon Speed, um projeto que se alguém gastou mais de 1 dia elaborando gastou muito tempo. Esse lançamento consegue ser o pior da linha e vem talvez com uma das descrições mais ridículas da marca.

Carbon Speed vem com um conceito de uma fragrância para o homem que aceita desafios e deixa sua marca registrada. Curiosamente, parece que alguém jogou todos os fougeres frescos dos últimos anos para um computador apreender e produzir essa fragrância sem graça, sem personalidade e sem permanência. Carbon Speed é um fougere fresco genérico que combina um frescor mentolado ao aroma de violeta e a uma base amadeirada genérica. Isso só é desafiador para quem tem medo até de usar desodorante. Ridículo, talvez um dos piores perfumes que a Eudora já fez.

Boticario Lily Rose e Crazy Feelings


É difícil entender o que aconteceu com o Boticário ao longo dos últimos anos. Parece que em um dos momentos mais aquecidos da disputa pelo mercado de perfumaria nacional a marca paranaense simplesmente resolveu deitar em cima do sucesso e testar até onde ia a fidelidade de seu público. Apenas recentemente a marca parece ter acordado para ir em uma direção mais prestigiosa e interessante, mas é algo que ainda é cedo para se avaliar. Entretanto, é interessante analisar o contraste entre um de seus lançamentos recentes, Love Lily, e um de seus clássicos relançados, Crazy Feelings.

Love Lily continua a narrativa da linha mais cara e prestigiosa da marca, onde a nobreza da fragrância está relacionada a utilização da técnica de enfleurage para extração do cheiro do lírio e nesse caso à combinação de 3 rosas de origens de prestígio: França, Turquia e Bulgária. O maior problema de Love Lily é que esse prestígio é muito conceitual e na pele o que perfume tem a princípio é um excelente aroma floral de sabonete de rosas. É algo que mira o delicado e sofisticado e por bem pouco não acerta o antiquado. O perfume acaba sendo salvo e ganhando personalidade com uma base gourmand muito bem executada, onde a moderação da baunilha e açúcar trás um calor elegante ao aroma ambarado e amadeirado que finaliza a composição.

Chega a ser até irônico e curioso que o clássico Crazy Feelings ofereça sofisticação e uma personalidade superior ao que Love Lily apresenta custando menos da metade dele. Um clássico querido pelas consumidoras, a fragrância volta em um belo frasco vermelho e com borrifador, o que torna a experiência muito mais agradável. O perfume não parece intacto, mas os ajustes feitos deixaram a composição ainda melhor e mais sofisticada. A modernização do aroma das rosas tirou um aspecto de sabonete que o antigo crazy feelings tinha e há até mesmo espaço para um rápido aroma animálico que dá um ar ainda mais carnal e marcante ao perfume.

A base da composição parece ter sido atualizada, ganhando um ar chypre moderno que se encaixa muito bem com o oriental ambarado que o original tinha. Talvez os musks que fazem parte da base tenham sido atualizado, o que explicaria alguns perceberem a composição como aguada. No que sinto o perfume está longe disso, pelo contrário, sua aura quente e oriental retém parte do aroma das rosas e não desaparece na pele. Se o Boticário tiver bom senso voltará a criar esse tipo de composição.

21 de out de 2018

Guerlain Chamade Parfum - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

Eu diria que dos perfumes do catálogo feminino da Guerlain Chamade está entre os que são pouco conhecidos ou mencionados. Eu vejo alguns fatores nisso: sua forma de evolução exemplifica muito bem uma estrutura piramidal, seu aroma depende de notas que não são as mais populares (como gálbano e jacinto) e é um perfume difícil de encaixar nas convenções atuais do que seria um perfume masculino e feminino. Independente disso, é uma obra de arte em formato de aroma.

Ao passo que as versões menos concentradas põem em evidência os aspectos mais frutados da composição, Chamade parfum me parece dar enfoque na saída a um aroma frutal desprovido de doçura, quase metálico e ácido em seu aroma. Isso lentamente vai se transformando e ganhando vida e calor, conduzindo a um corpo floral inusitado. Aqui não temos o erotismo de uma flor branca ou uma aura mais inocente que um corpo floral dominado por rosa ou um lírio do vale pode passar ou ainda mesmo a aura de limpeza que um neroli confere. A combinação do jacinto com rosa, hedione e ylang me parece transmitir serenidade e controle.

Quanto mais o tempo passa, mais Chamade se transforma na pele e na concentração parfum o aspecto aconchegante e viciante da assinatura olfativa da Guerlain se torna ainda mais evidente. A iris vai dominando o perfume, mostrando seu lado mais cremoso do que atalcado e é harmonizada com um amadeirado redondo de sândalo e um aroma de baunilha com um leve quê amendoado. É possível perceber o gálbano conferindo um toque verde resinoso trazendo algo novo à assinatura olfativa da marca. É um perfume que evolui com muita elegância, que não pode ser avaliado pelos seus momentos iniciais e que exige paciência para ser observado do começo ao fim. Por ser pouco conhecido e fora das convenções/desejos ele acaba carregando em si algo único que o torna de fato exclusivo.

English version

I would say that from the feminine Guerlain catalogue Chamade is among those that are little known or mentioned. I see some factors in this: its shape of evolution very well exemplifies a pyramidal structure, its aroma depends on notes that are not the most popular (like galbanum and hyacinth) and it is a fragrance difficult to fit in the current conventions of what would be a masculine scent and feminine. Regardless, it is a work of art in aroma form.

While the less concentrated versions highlight the fruity aspects of the composition, Chamade parfum seems to me to focus on the opening to a fruity aroma devoid of sweetness, almost metallic and acidic in its aroma. This is slowly transformed and gains life and warmth, leading to an unusual floral body. Here we do not have the eroticism of a white flowers or a more innocent aura of a floral body dominated by rose or a lily of the valley or even a clean floral citrus neroliimpression. Instead, the combination of the hyacinth with rose, hedione and ylang seems to convey serenity and control.

The more time passes, the more Chamade transforms in the skin and in the parfum concentration the warm and addictive aspect of Guerlain's signature olfactory becomes even more evident. The iris dominates the scent, showing more its creamy than powdery side it is harmonized with a round woody sandalwood and a vanilla scent with a light almond touch. It is possible to perceive the galbanum giving a green resinous touch bringing something new to the brand's olfactory signature. It is a perfume that evolves with great elegance, which can not be evaluated by its initial moments and that requires patience to be observed from beginning to end. By being little known and out of the conventions / desires it ends up carrying in itself something unique that makes it exclusive.

Guerlain Aqua Allegoria Herba Fresca - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

Junto com Pamplelune, Herba Fresca faz parte dos Aqua Allegorias da coleção original que sobreviveu ao tempo. Dos 5 primeiros ele é o que personifica de forma melhor o passeio ao jardim, capturando a alma do jardim em si, o aroma fresco das folhas e das ervas. Seu aroma também é um triunfo na temática da menta.

É muito difícil fazer um perfume de menta e conseguir escapar do clichê de pasta de dente, mas Herba Fresca consegue isso de forma bem sucedida. Seu cheiro captura o as nuances herbais, refrescantes e levemente doces da menta colocando-a em um contexto floral verde bem agradável e compartilhável.

Seu aroma abre com uma impressão bem verde, remetendo ao cheiro meio leguminoso da seiva das folhas. Isso é rapidamente equilibrado pelo aroma mais refrescante da menta e do limão. Herba Fresca retém essa aura e a leva em uma direção floral transparente, um acorde verde de lírio e jasmim que acaba ganhando um contorno refrescante devido a menta e um aspecto mais verde devido a nota de chá. A base do perfume é bem transparente mas o benjoim acaba dando um leve contorno oriental a composição, conferindo um aspecto resinoso e adocicado que harmoniza bem com a doçura secundária da menta.

Por favorecer notas mais delicadas e refrescantes esse não é um dos Aqua Allegoria de maior performance ou intensidade, mas isso não significa que seu cheiro não dure na pele, mesmo que seja de uma forma mais rente. Seu aroma refrescante e leve convida a uma ou mais reaplicações durante o dia.

English version

Together with Pamplelune, Herba Fresca is part of the Aqua Allegorias of the original line-up that survived the time. Of the first 5 its is the one who better personifies the walk through the garden, capturing the soul of the garden itself, the fresh aroma of leaves and herbs. Its aroma is also a triumph in the theme of mint.

It is very difficult to make a mint scent and manage to escape the cliché of toothpaste, but Herba Fresca succeeds in doing this. Its scent captures the herbal, refreshing and lightly sweet nuances of mint by placing it in a very nice and shareable green floral backdrop.

Its aroma opens with a very green impression, referring to the leguminous smell of leaf sap. This is quickly balanced by the more refreshing aroma of mint and lemon. Herba Fresca retains this aura and takes it in a transparent floral direction, a green lily and jasmine accord that ends up gaining a refreshing contour due to mint and a greener look due the tea note. The base of the perfume is very transparent but the benzoin ends up giving a slight oriental contour the composition, giving a resinous and sweet aspect that harmonizes well with the secondary sweetness of the mint.

To favor more delicate and refreshing notes this is not one of the Aqua Allegoria of greater performance or intensity, but that does not mean that its scent does not last in the skin, even if it is of a more close form. Its refreshing and light aroma invites one or more reapplications during the day.

Guerlain Aqua Allegoria Lavande Velours e Ylang & Vanille - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

Talvez por ainda não estar sob tanta pressão da LVMH os perfumistas da Guerlain foram capazes de criar na primeira coleção de Aqua Allegoria uma linha que permeia os integrantes e fazem com que eles de fato formem juntos um tema. Vejo um interessante caso onde a simplificação dos conceitos e temáticas de fato leva a uma apreciação maior da riqueza dos materiais retratados, principalmente quando se fala em nuances do aroma.

Apesar da Lavanda estar presente desde o começo da perfumaria da Guerlain Lavande Velours é o primeiro perfume da marca a colocá-la como centro das atenções. Penso que talvez houvesse alguma resistência dado a conotação de produto de limpeza que a Lavanda adquiriu em algumas culturas. Aqui porém isso passa bem longe, já que os aspectos mais herbais e medicinais da nota estão presentes junto com o lado refrescante e canforado. De fundo há citações a alementos da assinatura olfativa da marca: toques de tonka, a violeta fazendo o papel powdery e ao mesmo tempo sugerindo uma nuance de iris. Na evolução, o aspecto adocicado da lavanda se combina com uma nuances amadeirada e o que me parece ser um leve asecto de baunilha. Para o público Brasileiro que aprecia lavandas a marca poderia muito bem relançá-lo e pôr mais enfoque no frescor da nota.

Dos 5 integrantes iniciais Ylang & Vanille foi o único a conter dois protagonistas em sua temática, algo que aconteceria posteriormente em alguns dos lançamentos da linha. Apesar da baunilha ser a estrela aqui e uma das notas icônicas da marca ela divide os holofotes bem com o ylang, sendo que a flor é essencial para trazer à vida o aspecto mais narcótico e carnal da fava da baunilha que é perdido quando se foca apenas na cremosidade gourmand do aroma. Ylang & Vanille criam uma bela e direta fantasia tropical de aromas cremosos, contornos florais e frutais e uma aura quente e de cor ambar na pele. Aconchegante e sensual ao mesmo tempo.

English version

Perhaps by not being not under so much pressure from LVMH Guerlain perfumers were able to create in the first collection of Aqua Allegoria a line that permeates the members and make them in fact form a theme together. I see an interesting case where the simplification of concepts and thematic in fact leads to a greater appreciation of the richness of the materials portrayed, especially when talking about nuances of its aromas.

Although Lavender is present from the beginning of the Guerlain perfumes Lavande Velours is the brand's first perfume to put it in the limelight. I think there may have been some resistance given the connotation of cleansing agent that Lavender has acquired in some cultures. Here, however, this goes a long way, since the more herbal and medicinal aspects of the note are present along with the refreshing and camphorated side. In the background there are quotes to the olfactory signature of the brand: some tonka, violet making the powdery paper and at the same time suggesting a nuance of iris. In evolution, the sweetened aspect of lavender is combined with a woody nuance and what seems to me to be a slight vanilla aspect. For the Brazilian public who appreciates lavenders the brand could do very well in relaunch it and putting more focus on the freshness of the note.

Of the 5 initial members Ylang & Vanille was the only one to contain two protagonists in their theme, something that would happen later in some of the line launches. Although the vanilla is the star here and one of the iconic notes of the brand, it divides the spotlight well with the ylang, and the flower is essential to bring to life the most narcotic and carnal aspect of the vanilla bean that is lost when it focuses only in the gourmand creaminess of the aroma. Ylang & Vanille create a beautiful and direct tropical fantasy with creamy aromas, floral and fruity outlines and a warm, amber-colored aura on the skin. Cozy and sensual at the same time.

Guerlain Aqua Allegoria Pamplelune - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

Se na década de 2000 o mercado mais tradicional de luxo parecia se mover numa direção mais exclusiva a Guerlain ia numa direção totalmente oposta com a linha Aqua Allegoria. Recém-adquirida pela LVMH na época, o objetivo com a linha parecia popularizar a marcar sem tirar o seu aspecto de prestígio. O perfumista Jean Paul Guerlain trabalhou junto com Mathilde Laurent numa proposta inicial de 5 fragrâncias que se propunham a isso enquanto possuíam um tema: um passeio pelo jardim e a riqueza de seus diferentes aromas.

Olhando em retrospecto a configuração da linha é curiosa pois temos justamente os mesmos elementos que são trabalhados em uma perfumaria de nicho/exclusiva, porém aplicados em algo mais acessível. Temos a ênfase na nobreza dos materiais e em composições mais simples e diretas, mais fáceis de serem entendidas. Só que a marca em vez de cobrar preços altos oferecia boas composições por preços acessiveis.

Dos 5 primeiros, Pamplelune era o que preenchia a lacuna cítrica da composição, com um nome que parece romantizar a sua temática: o grapefruit/toranja. Apesar da simplicidade do aroma, Pamplelune almeja alto em reproduzir de forma realista e fidedigna o aroma do grapefruit. Para isso, o perfume não suaviza as arestas mais complicadas e os primeiros momentos é como uma fotocópia do aroma da grapefruit: o sumo da casca liberado no ar, o aroma cítrico adstringente, o aspecto mais amargo do fruto. É interessante que o uso do aroma mais amargo e ácido do cassis ajuda a reforçar esse aroma do grapefruit ao mesmo tempo que parece estender o perfume em uma discreta nuance de rosas.

Como se esperaria de um perfume Guerlain fácil, Pamplelune evolui de forma direta e simples, porém graciosa. A composição termina em uma discreta base que utiliza o aroma do patchouli reforçando mais seu tom meio amargo, com a baunilha arrendondando e atuando de forma secundária. Pamplelune como se esperaria do cítrico tem uma performance mais rente a pele depois que passa a saída. É uma configuração inusitada para um perfume cítrico e um interessante case de sucesso do que a Guerlain pode fazer mesmo quando almeja o simples.

English version

If in the 2000s the more traditional luxury market seemed to move in a more exclusive direction Guerlain went in a totally opposite one with the Aqua Allegoria line. Newly acquired by LVMH at the time, the goal with the line seemed to be popularize the brand without taking away its prestigious appearance. The perfumer Jean Paul Guerlain worked with Mathilde Laurent on an initial proposal of 5 fragrances that had this aim while they had a theme: a stroll through the garden and the richness of its different aromas.

Looking back on the configuration of the line is curious because we have just the same elements that are worked in a niche / exclusive perfumery, but applied in something more accessible. We have an emphasis on the nobility of materials and on simpler and more direct compositions that are easier to understand. But the brand instead of charging high prices offered good compositions at affordable prices.

Of the first five, Pamplelune was the one filling the citrus gap of the line with a name that seems to romanticize its theme: grapefruit/pamplemousse. Despite the simplicity of the aroma, Pamplelune aims to reproduce in a realistic and reliable way the aroma of grapefruit. For this, the perfume does not soften the more complicated edges and the first moments is like a photocopy of a grapefruit aroma: the juice of the bark released in the air, the astringent citrus aroma, the bitterest aspect of the fruit. It is interesting that using the more bitter and acidic aroma of cassis helped to enhance this aroma of grapefruit while extending the scent into a discreet nuance of roses.

As you would expect from an easy Guerlain perfume, Pamplelune evolves in a straightforward fashion, one that is simple but graceful. The composition finishes in a discrete base that uses the aroma of the patchouli reinforcing more its half bitter tone, with the vanilla waving and acting on a secondary form. Pamplelune as you would expect from citrus has a performance closer to the skin after it passes the opening. It is an unusual setting for a citrus scent and an interesting case of success of what Guerlain can do even when aiming to the simple.

Guerlain Shalimar Parfum - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

Durante a história de existência da Guerlain é possível perceber que apesar de inovadora a marca nunca foi pioneira na perfumaria. Entretanto, seu perfeccionismo, atenção ao detalhe e criação de uma identidade forte fez com que muitas vezes ela parecesse como tal. E diferente de suas concorrentes, seu esforço em manter a excelência dos clássicos fez com que seus perfumes se tornassem pilares das famílias olfativas que ajudaram a criar.

Shalimar é um dos perfumes mais famosos da marca e um de seus momentos de maior excelência. Uma saturação em vanilina, é dito que Shalimar surgiu de um experimento de Jacques Guerlain ao derrubar uma grande dose do material sobre Jicky para ver qual seria o efeito. Denominado o primeiro oriental, Shalimar pode ser visto como o perfume gourmand de sua época.

A concentração parfum de Shalimar deixa evidente a tensão entre o acorde que leva sua composição: bergamotaXvanilina. Certamente em fórmulas mais antigas perceberemos o aroma animálico da civeta também, com o trio bergamota, baunilha e civeta criando um tipo de oriental sobre o qual muitos outros nasceriam posteriormente, os orientais ambreine. A ideia me parece ser explorar as nuances frescas da bergamota em contraste com a doçura da vanilina e o aroma mais animálico da civeta.

O perfume abre com uma grande dose de bergamota, um frescor clássico e elegante que é extendido por toques de lavanda e pau rosa. Shalimar é uma sinfonia que ao representar o amor vai crescendo lentamente na pele, revelando uma doçura de baunilha que é bem sofisticada. Antes de se tornar doce, seu aroma revela nuances powdery de iris, um leve aspecto spicy, um aroma amendoado com baunilha. E quando enfim chega ao ápice de sua história o perfume se entrega a um aroma cremoso e adocicado bem fino, uma baunilha calibrada entre resinas que mantém o mistério do aroma e evitam que ele se torne enjoativo. Apesar de lançado como feminino em sua época hoje é um excelente perfume para ambos os sexos (como muitos orientais costumam ser). Shalimar para mim não deixa de ser o anscestral sob o qual Dior Homme Intense foi construído assim como muitos outros perfumes ao longo da história da perfumaria. Vale a pena conhecer.

English version

During the history of existence of Guerlain it is possible to realize that, although innovative, the brand has never been a pioneer in perfumery. However, its perfectionism, attention to detail and the creation of a strong identity often made it look like one. And unlike its competitors, its effort to maintain the excellence of the classics has made their perfumes become pillars of the olfactory families they helped to create.

Shalimar is one of the most famous perfumes of the brand and one of its moments of greatest excellence. A saturation in vanillin, Shalimar is said to have emerged from an experiment by Jacques Guerlain by dropping a large dose of the material on Jicky to see what the effect would be. Named the first oriental, Shalimar can be seen as the gourmand scent of its time.

The parfum concentration of Shalimar makes evident the tension between the accord that takes its composition: bergamoteXvanilin. Certainly in older formulas we will perceive the animalic aroma of the civet as well, with the trio bergamot, vanilla and civet creating a type of oriental on which many others would be born later, the oriental ambreine. The idea seems to me to be to explore the fresh nuances of bergamot in contrast to the sweetness of vanillin and the more animalic aroma of the civet.

The perfume opens with a large dose of bergamot, a classic and elegant freshness that is extended by touches of lavender and rosewood. Shalimar is a symphony that in representing the love slowly grows in the skin, revealing a sweetness of vanilla that is very sophisticated. Before it becomes sweet, its scent reveals powdery nuances of iris, a slight spicy appearance and an almond-like aroma with vanilla. And when it finally reaches the apex of its history, the perfume gives itself a sweet and creamy scent, a vanilla calibrated between resins that maintains the mystery of the aroma and prevents it from becoming cloying. Although launched as feminine in its time today is an excellent scent for both sexes (as many Orientals usually are). Shalimar for me remains the ancestral under which Dior Homme Intense was built as well as many other perfumes throughout the history of perfumery. Worth trying.