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21 de jan de 2018

Frederic Male Sale Gosse - Resenha/Review

Um dos meus aprendizados ao longo do tempo com relação a dinâmica mercadológica da perfumaria entre seus segmentos comercial, nicho e exclusivo é o fato de que qualquer estilo de composição pode ser transposto de um universo para o outro. Inclusive setores onde não há necessariamente um ganho significativo em termos de qualidade na fórmula ou no resultado final, como é o caso das Colognes, que continuam sendo produzidas de forma barata e cumprindo seu propósito, que é o de prover um frescor agradável. Entretanto, nos últimos anos o gênero ganhou um novo prestígio e hoje você pode cobrar o preço que quiser para passar a ideia de qualidade e seleção premium dos materiais. E se há um nome que tem prestígio e credibilidade artística para isso é o de Frederic Malle.
Sale Gosse é um típico exemplo do que a perfumaria de nicho se tornou nos últimos anos, vítima do mesmo problema da perfumaria comercial: mais conceito do que execução em si. O nome é provocativo, remetendo a uma criança mal criada, sem modos. A Marca promete também um perfume que se baseia na formulação de uma Cologne com algo "ousado" - nuances de doces, de violetas, de chiclete. Mas sinceramente, isso é mais conceito/desculpa para surfar no fato de que Colognes clássicas vendem de acordo com a forma que você as apresenta.
Para um perfume que se apresenta como provocativo e que se vende com nuances gourmands Sale Gosse não convence. Pelo contrário, esse é o aroma de uma criança engomadinha, limpa e bem comportada, arrumada pela mãe e que obedece as ordens dela para não se sujar. Por mais que o perfume prometa notas que possam soar como modernas e rebeldes dentro do gênero, o resultado final é bem próximo a interpretação de uma Cologne ao estilo do da Acqua di Parma: um cítrico floral que não foge das nuances aromáticas. Eu vejo o como o uso de um aroma de flor de laranjeira poderia passar um aroma mais adocicado e frutado, porém a marca se mantém longe disso e a perfumista aqui foca nas nuances cítricas, medicinais e meio amargas da flor. Curiosamente, a forma como ela é trabalhada quase faz com que a laranjeira em alguns momentos soe quase como uma rosa verde e cítrica pontuada por aromas herbais. E mesmo na base o perfume é bem comportado, evoluindo para um sussuro limpo e almiscarado condizente com o gênero e com uma performance que é até razoável para uma cologne mas que decepciona um pouco para um perfume da faixa dele. Se essa é a ideia de Frederic Malle do que é uma criança malcriada/mal-comportada, eu acho que a marca ou o perfumista precisam conhecer mais crianças, mas na minha opinião o conceito aqui é que nem o de outras marcas, um mero pretexto para a criação.

Prada Olfactories Mirages Miracle of The Rose - Review



Afirma-se com relativa frequência que é muito mais difícil compor um perfume minimalista em ingredientes pelos desafios em se acertar uma composição com poucos elementos. Porém, o fato é que acerta uma composição rica e cheia de detalhes de forma que as camadas não se atropelem e de forma que tudo pareça formar uma bela sinfonia também não é uma tarefa fácil. E me surpreende que a perfumista Daniela Andrier que é conhecida por seu estilo minimalista de composição se mostre muito mais bem sucedida e relevante ao trabalhar de forma rica e cheia de ornamentos a família oriental para o segmento Mirages da coleção Prada Olfactories.
Assim como Soleil au Zenith, Miracle of The Rose já mostra suas intenções barrocas dentro de uma temática que recentemente se tornou usada e abusada dentro da perfumaria, os perfumes com oud e rosa. O perfume propõe uma aura arquitetural, composta de camadas, um labirinto de aromas onde cada quarto possui seu cheiro. Novamente, poderia ser uma confusão de aromas potentes mas é uma harmonia marcante e bem elaborada que faz um ode a família oriental como um todo, não caindo no lugar comum de apenas expor o agarwood e a rosa.
O milagre de fato é que a rosa não se perde acompanhada de protagonistas marcantes como couro, agarwood, patchouli, ambar, mirra e especiarias. O perfil de rosa escolhido favorece que isso não aconteça também, uma rosa mais licorosa, com nuances de mel, frutas e tabaco. Um destaque na composição é o uso do açafrão, que não soa como um mero protagonista da rosa e do agarwood e que se revela rico, com o aroma de couro e a nuance dourada e brilhante/aldeídica que o açafrão natural possui.
O agarwood é trabalhado aqui em dois níveis, um mais ambarado e doce e outro mais animálico, e como a riqueza das notas de base é bem trabalhada o aroma de agarwood aqui não soa como mais do mesmo, e sim um elemento importante em uma orquestra maior. As vezes um aroma mais resinoso, quente e incensado de mirra se destaca mais que ele, dando uma aura mais espiritual a composição. Em outros momentos, um aroma sutil animálico e que remete a castoreum impulsiona o aspecto mais animálico do agarwood. E em outros momentos o aroma mais amadeirado, canforado e até mesmo limpo do patchouli sustenta o agarwood na composição.
De forma geral não costumo mencionar aspectos de performance em um perfume, mas essa é uma exceção que vale a pena ser mencionada: é um perfume poderoso, marcante, que não passa despercebido. As pessoas notam sua presença no ambiente e até mesmo o elogiam. É um trabalho inspiradíssimo de Daniela Andrier e um dos melhores se não o melhor perfume exclusivo da Prada no presente momento.

L'Atelier de Givenchy Ylang Austral


Um dos perigos da criação de coleções exclusivas que põe a ênfase na riqueza e preciosidade da matéria-prima é justamente a de o resultado final não transmitir isso. O perfume pode se tornar como o Ylang Austral da L'Atelier de Givenchy, tão focado que são incompleto ou insuficiente em seu perfil.
A proposta aqui é a de trazer o Ylang da suas conotações narcóticas e densas e lapidá-lo para mostrar um lado mais ensolarado e luminoso dentro de um contexto floral amadeirado. A descrição menciona o protagonismo da folha de mandarina, do ylang e da cremosidade amadeirada do sândalo e ao acompanhar sua evolução na pele é exatamente o que o perfume oferece.
Apesar de bem agradável, o perfume decepciona nessa simplicidade, ainda mais para algo que pretende ser luxuoso e enfatizar a nobreza de um material. Seria como utilizar uma pedra preciosa e dar a ela acabamento de bijuteria. A luminosidade conferida ao ylang da forma que é interpretada faz com que a ideia floral fiquei no limite do que algumas lojas mais luxuosas utilizam como aromatizador de ambientes: uma saída cítrica floral, luminosa e suculenta seguida por um corpo floral simplificado com o bouquê floral cremoso feito para preencher o ambiente de uma forma agradável. Isso tudo seguido de uma base almiscarada com a cremosidade amadeirada do sândalo bem moderada para não desafiar ninguém. Eu vejo um excelente aromatizador de ambientes aqui, mas tenho minhas dúvidas com relação ao perfume. Sei que há pessoas que gostam tanto do aroma de uma loja que buscam perfumes que o remetem, eu só não sei se esse público está disposto a pagar mais de 200 dólares por isso.

Memo Marfa - Resenha/Review

Aparentemente, por mais sem sentido e verborrágica que sejam as descrições dos perfumes da Memo é possível encontrar criações decentes quando se ignora todo o conceito relacionado ao perfume. É triste isso, pois um produto onde todos os elementos estejam em sintonia é muito mais forte e distinto do que um que não se preocupa com esse aspecto. E a marca parece se sair mais bem sucedida nos perfumes florais, sendo capaz de trabalhar suas nuances de uma forma que o perfume conquista na saída, na evolução e na aura que cria.
Marfa é outro conceito trabalhado de forma estranha, inspirada numa pequena cidade texana localizada em um deserto. A marca o resume como "the eye of tuberose", o que em partes faz todo sentido e ao mesmo tempo é muito estranho e não deixa de invocar um simbolismo exquisito para a composição. De forma geral, não há muita relação com o que se esperaria de um perfume com inspiração em um deserto com exceção do acorde de agave, que não é principal na composição. O que Marfa é na realidade é uma boa tuberosa, trabalhada ao redor da baunilha e da flor de laranjeira.
O perfume na pele me faz pensar no Frederic Malle Carnal Flower visto que ambos trazem uma aura mais fresca e realista para a Tuberosa, trabalhando as nuances mais verdes e um aroma narcótico mais equilibrado. Marfa faz uma transição fluída entre o aroma verde e de nuances secundárias mentoladas que a Tuberosa possui para seu corpo mais adocicado e floral branco, a parte da flor que possui similaridades com a flor de laranjeira. O acorde de agava acaba se misturando na saída ao aroma mais verde enquanto que o ylang entra para compor a impressão de tuberosa junto com a flor de laranjeira. Em uma última fase, Marfa faz uma fusão do aroma sensual e complexo das flores brancas com uma base cremosa e adocicada de baunilha e musks, conferindo uma aura secundária gourmand a composição. É um perfume que apresenta uma certa exuberância e riqueza que não casa muito com uma visão desértica, mas que é bonito por si só e que poderia ser aproveitado dentro de um conceito que fizesse mais sentido. É certamente um dos integrantes mais interessantes do ponto de vista do aroma na coleção, pois em conceito de forma geral a Memo é péssima.

Memo Italian Leather - Fragrance Review


Nem sempre o perfume mais comentado ou procurado de uma marca é a criação mas interessante que ela tem a oferecer, mas no caso da Memo Paris na minha opinião a obra-prima da marca é justamente o perfume que eu via mais procura nos grupos de perfumes: Italian Leather. Assim como Ilha do Mel, Italian Leather tem total coerência entre design e aroma e realmente é um perfume de couro no qual você consegue identificar acordes olfativos que lembrariam a Italia. Mas Italian Leather vai muito além de um mero couro, ele é uma interessante justaposição de 3 referências distintas a cultura aromática italiana.
É interessante como a perfumista conseguiu encaixar no conceito um perfume que combina uma temática intermediária de tabaco e baunilha, uma temática de base de couro e uma temática de saída de um cítrico aromático. Italian Leather é um perfume de camadas, é um perfume que fala alto, orgulhoso do que é, de sua complexidade e de seu drama. Na saída, há uma homenagem ao estilo de colônia italiano, que favorece junto com os cítricos uma dose mais generosa de ervas. A folha de tomate e o gálbano dão um aroma vegetal mais seco e quase salgado e que constrasta com um toque mais cítrico que remete a limão. Ainda nessa fase a sálvia esclareia acrescenta um toque herbal levemente animálico e bem italiano na composição.
Já nesse momento é possível perceber influências do fundo e do corpo da base, prestando-se atenção ao aroma de couro e tabaco que é utilizado. É um tabaco mais fechado, quase defumado e que se combina com um material ambarado que cria tanto a impressão de tabaco como de couro na composição. Apesar de não existirem notas florais na pirâmide, há algum toque floral que junto com a baunilha cria um bele ar sedutor, algo quase bruto, um aroma adocicado de baunilha com toques florais contrastando com um tabaco bem sizudo e picante. O couro as vezes se mostra mais clássico, com cara de artigo de couro mesmo, envolto em aromas de resinas e madeiras, e as vezes se mostra mais moderno, com uma suavidade de camurça com aromas mais minerais e sintéticos.
O perfil marcante de quase todos os materiais que vão na composição impressiona, pois Italian Leather é capaz de equilibrar suas várias referências e seus vários atores. Ele tem algo que muitos perfumes clássicos possuem, uma riqueza de detalhes que o torna quase um perfume novo a cada vez que você o utiliza, já que há muito o que se descobrir e prestar atenção. É a obra-prima da Memo na minha opinião.

Memo Ilha Do Mel - Resenha/Review



Chega a ser curioso que justamente o perfume com mais harmonia entre conceito e execução seja justamente um inspirado no Brasil e um que foge dos clichês. Em geral as marcas estrangeiras quando querem lançar algo que remete ao Brasil fazem composições inspiradas ou no RJ ou em algum ponto turístico conhecido do Nordeste e oferecem algo que não foge muito de um cítrico frutal que tenha inspiração na caipirinha. O nosso país, entretanto, vai muito além desses clichês baratos e dá um orgulho ver algo como Ilha do Mel, que é inspirado em uma ilha localizada no Paraná e conhecida pela beleza de suas praias.
Pela primeira vez, o conceito e o perfume fazem sentido e uma Ilha que é conhecida por sua beleza paradisíaca e pela sua história de apicultura é correspondida com um perfume floral que cria um buquê de flores brancas com nuances de mel floral. Não é um aroma adocicado e expesso como se esperaria quando se pensa no mel, mas sim um perfume que vê a aura de mel exalada a partir da flor, como se fosse a época de sua colheita pelas abelhas e o ar estivesse impregnado pela sua aura floral exuberante e atraente.
A ideia da flor de mel é trabalhada de uma forma abstrata, começando com um floral mais fresco e metálico do Jacinto combinado a nuances cítricas e evoluindo para um buquê de flores com nuances de flor branca e flor amarela. É uma harmonia que oferece o aroma doce e ceroso da gardênia, o cheiro mais contido, amadeirado e elegante do jasmim dos poetas, o aroma carnal da flor de laranjeira, as nuances de mel do raro absoluto de giesta e as nuances powdery-terrosas da iris. Ilha do Mel se desenvolve de forma similar a Marfa, com o aroma floral crescendo em volume com o tempo e terminando em uma base cremosa e com baunilha, com a diferença que em Ilha do Mel a base serve mais de suporte e não cria uma aura gourmand na composição. É um belo perfume, equilibrado, complexo e coerente entre nome, inspiração e execução. Um dos mais fortes como um todo que a Memo tem a oferecer.

L'Atelier de Givenchy Chypre Caresse - Resenha/Review


Ao que parece, a simplicidade na apresentação das notas é algo recorrente na temática da linha exclusiva de perfumaria da Givenchy. Em alguns casos ela é levada ao pé da letra na execução, como é o caso de Ylang Austral, de forma que você espera mais e o perfume simplesmente não oferece. Em outros, como em Chypre Caresse, ela se mostra como apenas um guia que esconde os detalhes da composição sem lhe roubar a elegância.
O que favorece aqui é que não estamos diante da camisa de força da matéria-prima como foco principal da composição. Chypre Caresse mira em um conceito mais abstrato e assim tem liberdade para se desenvolver. O objetivo aqui é a criação de um chypre romântico, efêmero, delicado ao toque, fluído como um tule. E é interessante como a ideia faz uma ponta entre o passado e o presente dos Chypres.
Chypre Caresse não é nem um chypre moderno nem um chypre clássico, é uma junção dos dois. A fragrância se utiliza da luminosidade floral dos chypres modernos e do aroma sedoso de musk deles e interpreta isso com uma dose generosa e suculenta de cítricos que junto com o patchouli te fazem pensar nos chypres cítricos do passado. O que falta talvez é a terrosidade e um toque de musgo, porém a ideia aqui é justamente a de fazer um chypre suculente, leve, delicado e elegante e quando você olha design e execução tudo se encaixa. Chypre Caresse pode até ser voltado para o público feminino, porém a ênfase nos cítricos o torna bem compartilhável. Um dos pontos altos da coleção.

L'Atelier de Givenchy Cuir Blanc - Review

É interesssante como Cuir Blanc exemplifica uma forma de você inovar hoje na perfumaria, que é o exercício de transposição de combinações olfativas de um público para o outro. Poucas são as pessoas que se arriscam a usar o que foge do que as marcas definem para o seu sexo e assim é possível vender uma ideia tipicamente masculina, como é o caso de Cuir Blanc, para um público feminino.
A Givenchy define Cuir Blanc como vanguardista, o que só faz sentido se você pensar em perfumes amadeirados de couro voltados para o público feminino. Nesse contexto, ele é exatamente o que promete ser: um perfume que explora a pureza do branco, nesse caso sob a ótica da pimenta branca, dos musks com uma aura branca e de um acorde de couro que para se tornar branco tende para um aroma de camurça.
Na pele, o toque mais seco da pimenta contrasta com o aroma de couro, que fica entre a camurça e um couro levemente emborrachado. Há algo que confere uma certa doçura que as vezes remete rapidamente ao Idole de Lubin, mas que não dura muito. Os musks sustentam o perfume na pele, com uma aura macia, um pouco incensada e amadeirada.
O excesso de enfoque no branco me faz pensar que a cor é capaz tanto de passar a pureza como o vazio e um certo aspecto maníaco também. Talvez se a marca tivesse ousado em explorar esse aspecto mais sombrio o perfume seria de fato vanguardista como prometem, mas na prática estamos é diante de um perfume de couro que vai da saída a evolução sem muito corpo, Para o público masculino, há um certo deja-vu no perfume, mas para o feminino há um certo fator de novidade na composição.

L'Atelier de Givenchy Ambre Tigre - Resenha/Review


Para mim uma das maiores provas de que o consumidor deseja é a familiaridade em vez da inovação é a existência perene dos perfumes de ambar. Passam-se as décadas, as marcas e as tendências e os perfumes de ambar continuam firmes e fortes. São quase uma obrigação nas coleções exclusivas, visto que seu aroma agrada e passa facilmente uma impressão de riqueza. E como a coleção exclusiva da Givenchy opera dentro das regras do mercado, ela oferece a nós Ambré Tigré.
A ideia aqui é a de uma fantasia felina, impulsos animais e um convite a paixão. Apesar do conceito sugerir um perfume animálico, a execução está mais dentro de um trash-chic. Ambré Tigré não é um animal de verdade, é uma estampa de onça executada em um contexto de alta perfumaria. É algo no limite do chique e do vulgar.
E parece que inspirado no sexy quase vulgar a marca mira na combinação ambarada que faz a base do narcótico aroma de laranjeiras do Dior Addict. Ambré Tigré reinterpreta a mesma dinâmica e mesmo que não mencione a presença da flor entre as notas é possível sentir sua presença completando a aura sensual que é prometida. O foco é dado a baunilha, que se mostra mais licorosa, resinosa e acompanha bem o aroma doce e com conotações de incenso do ambar. Como é uma espécie de trash visto sob as lentes de alta perfumaria, Ambré Tigré mantém seu volume moderado, sua silhueta se mantendo perigosamente dentro dos contornos estipulados. É uma silhueta familiar, mas que funciona.

Memo Luxor Oud - Resenha/Review


Quando se trata de perfumes, eu diria que as minhas exigências são as de um purista com relação a união entre conceito e execução. Um perfume para mim tem que ser uma entidade onde principalmente nome, aroma e conceito se encaixam e formam uma entidade coesa e coerente. E é algo que me incomoda em muitas marcas de nicho, sendo Memo uma delas. A proposta de valor da marca é vender perfumes que reflitam a riqueza das viagens de seus fundadores, mas na prática isso é apenas um template para encaixar as tendências de mercado e ideias que são garantia de vendas. Veja Luxor Oud, por exemplo. O que a combinação da moda de rosa e agarwood tem a ver com Luxor, um local que guarda em si um grande simbolismo da civilização egípcia? É certo que o aspecto nobre e espiritual do agarwood poderia ter sido trabalhado nessa direção, mas como eu disse, a ideia é apenas um pretexto para preencher a lacuna de perfume de oud que toda marca deve ter no momento.
Ainda sim, por mais que eu seja um purista entre conceito e execução há momentos onde é possível reconhecer tanto a crítica como o mérito. E eu vejo coisas interessantes no aroma de Luxor Oud por mais que seu conceito seja tratado de forma leviana. Ainda que esse seja um perfume de Oud feito para preencher a lacuna da demanda do mercado, é um executado com excelência, trazendo harmonia e distinção que soa refinada a ponto de se ignorar as referências egípcias.
O "template" escolhido para esse perfume de Oud é o que explora as conotações mais ambaradas e adocicadas do acorde em combinação com uma rosa que ressalta suas nuances de frutas mel e tabaco e que por sua vez é complementada com uma saída de frutas vermelhas. Há uma fluidez na ideia que faz com que o perfume se destaque, visto que muitos perfumes de Oud nessa categoria gritam as 3 partes em sequência (Frutas! Rosa! Oud!). Aqui, as frutas soam mais naturais, remetendo a uma espécie de chá de frutas silvestres. A rosa não é tão doce e é interessante que é um tipo de rosa difícil de ser trabalhada em perfumes, uma que ressalta mais as nuances de cravo e que em geral costuma soar medicinal e amarga. Aqui, essa nuance é posta a favor da doçura da composição e cria um certo ar misterioso, um enigma: seria mesmo esse um perfume de oud e rosas ou um de oud e flor de cravo?
Enquanto essa pergunta paira no ar, o perfume evolui para a sua última fase e novamente há um cuidado em fazer um perfume de oud com uma base mais clássica no sentido de que nada predomina e as notas são usadas para formar um todo coeso. Assim, não há excesso do aroma medicinal ou até mesmo do aroma ambarado doce do oud, essas nuances são bem combinadas ao patchouli e ao labdanum criando uma aura de incenso e resinas. É um perfume que faz sentido e é distinto quando se analisa o perfume em si só. Seria perfeito se não tentassem forçar a barra no conceito, mas como consumidor não compra conceitos no fim das contas isso é o de menos.

Memo Kedu - Resenha/Review


É interessante se você parar para pensar que os Margiela Replica e os perfumes da Memo Paris possuem algo em comum que é trabalhado justamente de formas opostas: o conceito das memórias. Ainda que ambos sejam uma coleção curada de memórias, ao mirar em memórias mais coletivas a grife Margiela conseguiu um resultado mais distinto mesmo nos integrantes mais "fracos" da coleção. Já a Memo ao compor inspirações de exóticas memórias de lugares ao redor do mundo oferece perfumes incondizentes com o aspecto vibrante que é pintado nas descrições.
Kedu é um típico perfume da marca, sem muitas surpresas. Assim como Luxor Oud, Kedu nos vende uma composição olfativa que transmitiria o exotismo de sua descrição. O nome da criação é referência a uma planícia vulcânica fértil que fica na ilha de Java na Indonésia. Se você olha a descrição no site, vai ver que foi colocado o máximo de descritores exóticos e passionais que seria possível em um curto parágrafo: Vulcões, Rinocerontes, Flores Gigantescas, Búfalos, Templos, Encatamento Paixão. A menção do absolute de mate e das sementes de gergelim ajudam a reforçar essa impresssão e expectativas tropicais.
Se você prestar atenção cuidadosamente na descrição do site, vai perceber duas palavras jogadas no meio do texto quase que como uma mensagem subliminar: musks brancos e acorde de rosas-peônia. São elas que definem na prática o que Kedu é na verdade, o que eu imagino como o equivalente de criar uma memória olfativa da Indonésia baseado nos produtos e perfumes vendidos no free-shop de lá. É uma visão muito rala, uma apropriação cultural que sequer é bem feita. Kedu te vende um perfume macio e levemente amadeirado de musks que é construído em cima de uma aura floral fresca e cítrica. Eu não entendo, por que diabos utilizar duas matérias primas exóticas e tão ricas quanto o absoluto de gergelim e o de mate em um perfume tão tedioso? E ainda por cima em um conceito que tinha tudo para ser empolgante? Kedu para mim é como aqueles souvenires que ganhamos quando as pessoas voltam de viagem: descartável, do tipo que a gente coloca no fundo do armário e não joga fora só por consideração da pessoa que nos presenteou.

Fendi Furiosa - Resenha/Review


A Fendi como maison de perfumaria é um mistério para mim. De certa forma o caso da marca é similar ao da Cacharel: os perfumes são bem feitos, elegantes, excelentes para o segmento comercial. Entretanto, a estratégia de marketing e distribuição dos mesmos mataram os lançamentos ao longo do tempo, de forma que a detentora da marca, a LVMH, simplesmente desistiu por hora de investir em perfumes para a marca.
Furiosa foi o último lançamento da Italiana em 2014 antes dessa decisão da LVMH de cortar toda a linha de perfumaria. Foi talvez um dos mais estranhos quando se pensa em estratégia de promoção: apesar do grande investimento em um conceito novo, um frasco elaborado e em um comercial, é um perfume que passou batido e é escasso de se encontrar. É uma pena, poiss o aroma é excelente.
A ideia por trás de Furiosa foi a de capturar a essência da feminilidade selvagem e nada melhor para isso do que um conceito construído ao redor de flores brancas, que tem essa aura carnal e sensual que casa bem com essa ideia. Ao mesmo tempo, Furiosa investe em uma base que combina nuances amadeiradas, incensadas e ambaradas de uma forma bem usável e confortável. A mulher como conceito em Furiosa tem em sua essência, na minha opinião, o equilíbrio entre o espiritual e o selvagem. É uma criação elegante, um perfume que não é nem jovem demais nem maduro demais, que reflete muito bem aquela fase da vida onde você se dá conta de quem você realmente é no mundo. E apesar disso estar focado no público feminino, eu diria que Furiosa é perfeitamente compartilhável para quem curte florais incensados, principalmente pelo equilíbrio entre uma saída mais cítrica e verde, um corpo floral branco redondo e uma base amadeirada incensada bem equilibrada. Muito bom.

4160 Tuesdays Dirty Honey - Fragrance Review

One of the things I find very interesting is that when we think of animalic aromas rarely honey comes to mind even though it is an animal product (and one that can even be obtained without cruelty). Whether natural or synthetic, honey as a concept offers a rich range of possibilities: we have floral honey (which for some can refer to cat pee due chemical present in both), sweet and sugared honey and honey from the point of seen from the beeswax, which may be a more sweet and amber sweet or something half-animalic as well. And it certainly is an essence or note that has an appeal of attraction enough to be part of a collection entitled Crimes of Passion and that aims to portray perfumes so seductive that you would follow anyone who was using them.
Dirty Honey's description says that its smell is that of Choisya Ternata, known in English as Mexican Mock Orange Blossom for its similarity in smell with the one of the flower of orange tree. And even though I can see the nuance of honey in the orange blossom, without knowing the scent of the Choisya Ternata, this reference escapes me and Dirty Honey seems like a kind of soliambar from the point of view of honey. It is a perfume that exalts the aspect of propolis present in the aroma of the labdanum and combines it with the waxy and sweet smell of the beeswax and with a sweet vanilla background. The floral scent ends up exuding from inside, as if in some way the bush was surrounded by a large. It is a very interesting perfume, a little linear perhaps and that seems to me an excellent base for orange soliflores. Dirty here in this case refers to the most carnal and non-sugary spec of honey as a whole.

4160 Tuesdays Dirty Honey - Resenha/Review

Uma das coisas que eu acho muito interessante é que quando pensamos em aromas animálicos raramente o mel vem a cabeça mesmo que seja um produto de origem animal (e um inclusive que pode ser obtido sem crueldade). Seja natural ou sintético, o mel como conceito oferece uma gama rica de possibilidades: temos o mel floral (que para alguns pode remeter a xixi de gato devido a um aromaquímico presente em ambos), o mel adocicado e açúcarado e o mel do ponto de vista da cêra de abelha, podendo esse ser um adocicado mais gentil e ambarado ou algo meio animálico também. E certamente é uma essência ou nota que tem um apelo de atração o suficiente para fazer parte de uma coleção intitulada Crimes of Passion e que tem o objetivo de retratar perfumes tão sedutores que você seguiria quem os estivesse usando.
A descrição de Dirty Honey diz que seu cheiro é o da Choisya Ternata, conhecida em inglês como Mexican Mock Orange Blossom pela sua similariedade em cheiro com o da flor de laranjeira. E ainda que eu consiga ver a nuance de mel na flor de laranjeira, sem conhecer o aroma da Choisya Ternata essa referência me escapa e Dirty Honey parece uma espécie de soliambar do ponto de vista do mel. É um perfume que exalta o aspecto de própolis presente no aroma do labdanum e o combina com o cheiro ceroso e adocicado da cêra de abelha e com um fundo adocicado de baunilha. O aroma floral acaba exalando de dentro dele, como se de certa forma o arbusto estivesse envolvido por uma grande colméia que o cerca. É um perfume bem interessante, um pouco linear talvez e que me parece uma excelente base para soliflores de laranjeira.O Dirty aqui nesse caso se refere ao especto mais carnal e não açúcarado do mel como um todo.

4160 Tuesdays Lemon Sherbet - Fragrance Review

I do not know if it's a matter of inspiration, concept or learning curve but I've noticed that the latest perfumes created by Sarah McCartney are just perfect. It's not that the first ones are bad, but I see a talent that has been lapidated over time, discovering how to combine good ideas with impeccable executions.
Lemon Sherbet was created in 2017 in the same way as the perfume Eau My Soul, inspired by a facebook group Sarah is part of, Mrs Gloss & The Goss. As I do not participate in the group I can not evaluate the project as a whole, but the execution of the idea itself is flawless. What Sarah promises she delivers, a sophisticated scent that refers to a lemon Sherbet.
The perfume itself is simple in its purpose and it delivers a citrus gourmand, a balance between citrus notes and a vanilla creaminess, something that reminds me of both Diptyque Eau Duelle and Creed Sublime Vanille. However, Lemon Sherbet sounds better worked showing in addition to a juicy lemon nuances of orange and bergamot and a light citrus floral touch. Vanilla is also more sophisticated, certainly a blend of quality natural with vanillin and musks so that it passes the creaminess and sweetness of the vanilla however, as proposed, in a more sophisticated way, with a slightly more resinous classic aura that makes of classic orientals like Shalimar. It is a delicious perfume, very well balanced that focuses on few things but performs very well. It doesn't owe anything to more famous or expensive creations.

4160 Tuesdays Lemon Sherbet - Resenha/Review


Eu não sei se é uma questão de inspiração, conceito ou curva de aprendizado mas tenho percebido que os últimos perfumes criados por Sarah McCartney são simplesmente perfeitos. Não é que os primeiros sejam ruins, mas vejo um talento que foi se lapidando com o tempo e descobrindo como aliar boas ideias a execuções impecáveis.
Lemon Sherbet foi criado em 2017 da mesma forma que o perfume Eau My Soul, inspirado em um grupo de facebook do qual Sarah faz parte, Mrs Gloss & The Goss. Como não participo do grupo não consigo avaliar o projeto como um todo, mas a execução da ideia em si é impecável. O que Sarah promete ela entrega, um perfume sofisticado que remete a um Sherbet de limão.
O perfume em si é simples no seu propósito e entrega justamente um gourmand cítrico, um equilíbrio entre notas cítricas e uma cremosidade de baunilha, algo que me remete tanto ao Diptyque Eau Duelle como ao Creed Sublime Vanille. Porém, Lemon Sherbet soa mais trabalho, mostrando além de um limão suculento nuances de laranja e bergamota e um leve toque floral cítrico. A Baunilha também é mais sofisticada, certamente uma mistura de naturais de qualidade com vanilina e musks de forma que ela passa a cremosidade e a doçura da baunilha porém, como proposto, de uma forma mais sofisticada, com um leve quê resinoso mais clássico que até me faz pensar em um oriental mais clássico como o Shalimar. É um perfume delicioso, muito bem equilibrado que foca em poucas coisas mas as executa muito bem. Não fica devendo nada a criações mais famosas ou caras.

4160 Tuesdays Eau My Soul - Fragrance Review

It is interesting to note that the process of developing a fragrance during the history of perfumery is in general a task that either is solitary or involves a very small group of people. In this sense the perfumery is very similar to art, so that a perfume ends up being a reflection from the point of view of a person or a small group of people.
Perhaps this is due to the difficulty we have in sharing our impressions and sensations in a 100% objective way with respect to a perfume - it is like speaking a language where we know the words but the way they are used and interpreted ends up being very personal. However, it is interesting to note how the spread and growth of social networks has generated a community where people exchange knowledge, impressions and words about these perfumes. One of these places is the English group Eau My Soul, made to be a space of peaceful, inclusive and pleasant coexistence.
Eau My Soul, the perfume, came from a preliminary discussion of its founder, Christi inviting people to share how they imagined the perfume and what notes. What first came out as a play took on something serious when Sarah McCartney set out to develop a scent with such notes, even opening a poll for people to vote for their favorites. Sarah's adventurous and fearless style is perfect for such a task as it involves just trying to capture this difficult task of abstracting what we try to convey equally with different words.
And the fact is that Eau My Soul on the skin is delicious, a kind of contemplative perfume that makes me think even in the essence of the origins of the perfume, the burning of aromatic resins in religious rituals. There is a zen aura, peaceful in the creation and certainly Sarah managed to capture well the most voted notes. At the same time, she captured in them the essence of a group: no note shouts more than the other, Eau My Soul perfume is a symphony of all notes, an aura of peace through the chosen aromas. It is curious how the essences chosen by the group marry very well with the yoga knowledge of the perfumer, which gives it even space to create a harmony that brings the feeling of peace using classic essences for this purpose. I can observe a woody and delicate background, obtained with a quality sandalwood, wrapped in sweet, amber and smoldering resins. On it there are small details of various essences, and the ones I get the best I know tell me of a citrus, bright and sweet opening evolving into a floral body of rose and neroli, immersed in the smell of incense. There is something in Eau My Soul that makes me think of an Indian incense, but made with a quality that makes the idea fluid, delicate and abstract, something obtained with good materials and the talent of the perfumer. And while this type of project depends on the talent of a person, Eau My Soul is proof that it is possible to do, even on a small scale, the creation of a fragrance in a more collaborative and inclusive way.

4160 Tuesdays Eau My Soul - Resenha/Review

É interessante observar que o processo de desenvolvimento de uma fragrância durante a história da perfumaria é uma tarefa em geral que ou é solitária ou envolve um grupo bem pequeno de pessoas. Nesse sentido a perfumaria é muito parecida com a arte, de forma que um perfume acaba sendo um reflexo do ponto de vista de uma pessoa ou um pequeno grupo de pessoas.
Talvez isso se deva devido a dificuldade que temos em compartilhar nossas impressões e sensações de uma forma 100% objetiva com relação a um perfume - é como falar uma língua onde conhecemos as palavras mas a forma como elas são usadas e interpretadas acaba sendo muito pessoal. Porém, é interessante observar o como a propagação e crescimento das redes sociais gerou uma comunidade onde as pessoas trocam conhecimentos, impressões e palavras sobre esses perfumes. Um desses lugares é o grupo inglês Eau My Soul, feito para ser um espaço de convivência pacífica, inclusiva e agradável.
Eau My Soul, o perfume, surgiu de uma discussão preliminar de sua fundadora, Christi, convidando as pessoas a compartilharem como elas imaginavam o perfume e com quais notas. O que surgiu a princípio como uma brincadeira tomou ares de algo sério quando Sarah McCartney se propôs a desenvolver um perfume com tais notas, abrindo inclusive uma enquete para que as pessoas votassem em suas prediletas. O estilo aventureiro e destemido de Sarah é perfeito para tal tarefa, já que envolve justamente em tentar capturar essa difícil tarefa de abstrair aquilo que tentamos transmitir de forma igual com palavras diferentes.
E o fato é que Eau My Soul na pele é delicioso, uma espécie de perfume contemplativo que me faz pensar inclusive na essência das origens do perfume, a queima de resinas aromáticas em rituais religiosos. Há uma aura zen, pacífica na criação e certamente Sarah conseguiu capturar bem as notas mais votadas. Ao mesmo tempo, ela capturou nelas a essência de um grupo: nenhuma nota grita mais que a outra, Eau My Soul o perfume é uma sinfonia de todas as notas, uma aura de paz por meio dos aromas escolhidos. É curioso o como as essências escolhidas pelo grupo casam muito bem com os conhecimentos de yoga da perfumista, o que lhe dá espaço, inclusive, para criar uma harmonia que trás a sensação de paz usando essências clássicas com esse propósito. Consigo observar um pano de fundo amadeirado e delicado, obtido com um sândalo de qualidade, envolvido em resinas adocicadas, ambaradas e fumegantes. Sobre ele há pequenos detalhes de várias essências, sendo que as que eu capto melhor me informam uma abertura cítrica, brilhante e adocicada evoluindo para um corpo floral de rosa e laranjeira, imersos no cheiro de incenso. Há algo em Eau My Soul que me faz pensar em um incenso indiano, só que feito com uma qualidade que torna a ideia fluída, delicada e abstrata, algo obtido com bons materiais e com o talento da perfumista. E ainda que nesse tipo de projeto o desenvolvimento dependa do talento de uma pessoa, Eau My Soul é uma prova de que é possível fazer, mesmo que em pequena escala, a criação de um perfume de uma forma mais colaborativa e inclusiva.

Manos Gerakinis Sillage Suave - Fragrance Review

Like many new brands that have emerged, my first contact with Manos Gerakinis was through social networks in one of the facebook groups. At first the minimalist and luxurious presentation caught my attention and I wanted to know what this niche brand of Greek origin had to offer. The initial proposal is something that could leave me a little cautious, since Manos Gerakinis wants to offer luxury perfumes with a focus on performance. So much so that his first collection is called sillage, with the aim of emphasizing that his creations were made for those who use them to make an impression.
Although this is something important in the brand and in that line, it is interesting that Manos manages to achieve a result that does not sound like more of the same. A good way to realize this at first is in Sillage Suave, a kind of interesting scent made for the hottest temperatures of the year. And although this leads to an expected and generous use of citrus, the most interesting part of the composition is the use of green notes in the composition.
There is a fine protagonism of the Galbanan absolute here, which marries well with the perfumer's desire to create lasting perfumes while imparting a unique touch of fresh grass to the citrus effervescence of the opening. There is an interesting contour that refers to fresh spices and a slightly lactonic woody appearance. As the perfume evolves the facet of musk gain prominence and there is a good synergy between them and the nuances of iris and woods. It is a work that strives to achieve a balance between performance and identity which is consistent with the proposal, that of being a perfume that persists and made for the heat. It is very well done when looking at all aspects as a whole.

Manos Gerakinis Sillage Suave - Resenha/Review

Como muitas novas marcas que tem surgido, meu primeiro contato com Manos Gerakinis se deu pelas redes sociais, em um dos grupos do facebook. A princípio a apresentação minimalista e luxuosa me chamou a atenção e quis conhecer o que essa grife de nicho de origem grega tinha a oferecer. A proposta inicial é algo que poderia me deixar um pouco cauteloso, visto que Manos deseja oferecer perfumes de luxo com foco na performance. Tanto que sua primeira coleção é denominada sillage, com o objetivo de enfatizar que suas criações foram feitas para quem as usa deixar uma impressão.
Ainda que isso seja algo importante na marca e nessa linha, é interessante que Manos consegue atingir um resultado que não soa como mais do mesmo. Uma boa forma de se perceber isso a princípio é em Sillage Suave, uma espécie de perfume marcante feito para as temperaturas mais quentes do ano. E ainda que isso leve a um uso esperado e generoso de cítricos, a parte mais interessante da composição é o uso de notas verdes na composição.
Há um belo protagonismo do absoluto de gálbano aqui, que casa bem com o desejo do perfumista de criar perfumes duradouros ao mesmo tempo que confere um toque único de grama fresca a efervescência cítrica da saída. Há um contorno interessante que remete a especiarias frescas e um aspecto amadeirado levemente lactônico. Conforme o perfume evolui a faceta de musk ganham destaque e há uma boa sinergia entre eles e as nuances de iris e de madeiras. É um trabalho que busca atingir um equilíbrio entre performance e identidade e condizente com a proposta, a de ser um perfume que perdure e que seja condizente com o calor. É muito bem feito quando se olha todos os aspectos como um todo.

Manos Gerakinis Sillage Royal - Fragrance Review


This is the first perfume developed by Manos and in some ways a centerpiece in what is until that moment a trilogy of perfumes called Sillage. Royal is a perfume that was made for the perfumer himself, and when I asked him about the inclusion of certain notes, such as agarwood, he explained to me that when he was developing it he was looking for something that would satisfy his need for perfumes that would last on his skin.
I find it interesting how Sillage Royal sells well the concept of a trail scent and a royal perfume at the same time. This is not a common aroma and is a creation that has an almost linear behavior due to the marked presence of elements such as amber, oud and patchouli. It is a creation that transits between an aura of 80's perfume and a very modern aura at the same time.
I believe that what makes me think of the 80's in Sillage Royal is the combination of patchouli and roses, a type of patchouli richer and less clean that refers to elements of an 80's floral chypre. The rose is heavier also, somewhat dry, tempered by a light spicy touch. The oud becomes a coadjuvant, with a subtle animalic aspect that mixes with an amber sweet aroma and a velvety woody side that remains in the background. Royal Sillage is more direct in its execution, almost linear, an aspect that is more common in contemporary perfumery. But, as mentioned above, it fulfills its purpose of leaving a striking and noble-smelling trail.

Manos Gerakinis Sillage Royal - Resenha/Review


Esse é o primeiro perfume desenvolvido por Manos e de certa forma uma peça central no que é até esse momento uma trilogia de perfumes denominada Sillage. Royal é um perfume que foi feito para o próprio perfumista e quando perguntei a ele com relação a inclusão de determinadas notas, como o agarwood, ele me explicou que quando o criou buscava algo que satisfizesse sua necessidade por perfumes que durassem na sua pele.
Acho interessante como Sillage Royal vende bem o conceito de um perfume de rastro e de um perfume real ao mesmo tempo. Esse não é um aroma comum e é uma criação que tem um comportamento quase linear devido a presença marcante de elementos como ambar, oud e patchouli. É uma criação que transita entre uma aura de perfume oitentista e uma aura bem moderna ao mesmo tempo.

Creio que o que me faz pensar nos anos 80 em Sillage Royal é a combinação de patchouli e rosas, um tipo de patchouli mais rico e menos clean que remete a elementos de um chypre floral oitentista. A rosa é mais pesada tbm, de certa forma seca, temperada por um leve toque especiado. O oud chega a ser um coadjuvante, com um aspecto sutil animálico que se mistura a um aroma ambarado um pouco doce e um aroma amadeirado aveludado que permanece de fundo. Sillage Royal é mais direto em sua execução, quase linear, um aspecto que é mais comum da perfumaria contemporânea. Mas, conforme mencionado acima, cumpre seu proposíto de deixar um rastro marcante e que cheira nobre.

Manos Gerakinis Sillage Galant - Fragrance Review



The third member of the Sillage collection of the Greek perfumer Manos Gerakinis is a bridge between the most delicate aroma of Sillage Suave and the most striking aroma of Sillage Royal. The work that was done in Sillage Galant is very interesting and shows a wise vision of luxury, whose difference is precisely in concern and caprice with details.
Primarily, Sillage Galant is a oud-with-roses scent, a well-known and performed combination. However, the way this is presented is interesting. First, the scent combines the nuances of an amber agarwood accord with an aggrestic touch, as if the oud were wrapped in lavender and herbs. There is even a slight metallic touch, a different nuance from what is expected in this type of composition. The rose does not reign ubiquitous, it divides space with the geranium, which enhances the fougere aspect in the middle of the oud, and with the jasmine, which gives a floral carnal touch to the composition.
Another time that Sillage Galant stands out is at the base. Many agarwood perfumes end the same way they begin, dominated by an amber medicinal sweetness. Sillage Galant continues to evolve and shows a second layer where agarwood gives way to a creamy, slightly earthy, woody scent with a velvety musk feel that is very elegant. It is a perfume that sells the elegance of its name and the luxury of its price.

Manos Gerakinis Sillage Galant - Resenha/Review

O terceiro integrante da coleção Sillage do perfumista grego Manos Gerakinis é uma espécie de ponte entre o aroma mais delicado de Sillage Suave e o aroma mais marcante de Sillage Royal. O trabalho que foi feito em Sillage Galant é bem interessante e mostra uma visão acertada do luxo, cuja a diferença está justamente na preocupação e capricho com os detalhes.
Primariamente, Sillage Galant é um perfume de oud com rosas, uma combinação bem conhecida e executada recentemente. Porém, a forma como isso é apresentada é interessante. Primeiramente, o perfume combina as nuances de um acorde ambarado de agarwood com um toque agréstico, como se o oud fosse envolvido em lavanda e ervas. Há ainda um leve toque metálico inclusive, uma nuance diferente do que se espera nesse tipo de composição. A rosa não reina onipresente, ela divide espaço com o gerânio, que reforça esse aspecto fougere em meio do oud, e com o jasmim, que dá um toque floral carnal a composição.
Outro momento que Sillage Galant se destaca é na base. Muitos perfumes de agarwood terminam da mesma forma que começam, dominados por uma doçura ambarada medicinal. Sillage Galant continua evoluindo e mostra uma segunda camada, onde o agarwood dá espaço para um aroma amadeirado cremoso e um pouco terroso e com um toque aveludado de musk que é muito elegante. É um perfume que vende a elegância do seu nome e o luxo do seu preço.

Manos Gerakinis Imortelle, Pivoine - Fragrance Reviews




It is interesting when you find a new-comer brand such as Manos Gerakinis able to hit so precisely the creation of a collection of luxury perfumes that can have a wider appeal while retaining an aura of distinction. It is not an easy task, since it is one thing to make a more popular luxe, another is to make a risky and different one and, in this case, doing both well is not for anyone.
If the Sillage trilogy focuses on performance without losing sight of the personality of the composition, the pair Parfums de Jour looks at the versatility with the same feature. The purpose of the collection is to create deep fragrances with sophisticated notes that can be used from day to night and in any season.
Considering this purpose, it was a surprise to see a perfume based on Imortelle, a plant whose extraction of essential oil / absolute produces an aroma so powerful and striking that when used in a composition tends to stand out and dominate it easily. It is not exactly the kind of inspiration that could be called versatile, but Imortelle finds a way of framing the note in a composition that is exotic without being stifling, soft in a way that despite having a more nocturnal aura looks well to daytime use after the first few minutes go by. The Imortelle has a nuance of burnt sugar that is put in evidence at the opening, an intelligent association with, I believe, Ethil Maltol, giving a roasted gourmand touch that sounds distinct and well-balanced. In the background, there is a contrast between hot and cold spices and a lactonic note that creates the illusion of a chai aroma. It quickly softens to a woody base with nuances of musks and sweetened resins and at that point you can perceive the the hay-dry and woody nuances that is dominant in the evergreen.
Pivoine goes conceptually in a totally opposite sense to Imortelle. The peony is usually a flower that I do not appreciate in perfumery because the synthetics that are used to retracts it give me the sensation of functional perfumery products. This also contributed to the impression that its scent is not outstanding enough to face nighttime wear, lacking a more bold presence. Manos does an excellent job at taking the peony out of its common place and making it sensual and versatile. The perfume has a wealth of nuances that is unusual when the composition focuses on this flower. The Peony here is portrayed with the slightly fruity floral freshness that is familiar to those who expect this theme. But the secret lies, just as in Imortelle, in the nuances of composition. There is a delicious fruity and floral scent that reminisces to wine with a lightweight acquatic floralcy that gives the flower an interesting shine. In the background, a sophisticated and adult jasmine imparts a robust aroma to the theme without stealing the attention of the Peony. The base in the composition is minimal, with a velvety touch that sustains the flowers and what impresses is that the opening and the evolution end up sustaining very well and maintaining a fresh, sensual and complex aura for a long time. It is a perfume that tends a little more to the feminine and that just as Imortelle has an impeccable execution.

Manos Gerakinis Imortelle Pivoine - Resenha

É interessante quando se encontra uma grife estreiante como Manos Gerakinis capaz de acertar de uma forma tão precisa a criação de uma coleção de perfumes de luxo que consigam ter um apelo mais amplo ao mesmo tempo que retém uma aura de distinção. Não é uma tarefa fácil, já que uma coisa é fazer um luxo mais popular, outra é fazer um luxo mais arriscado e distinto e, no caso analisado, fazer os dois bem não é para qualquer um.
Se a trilogia Sillage tem o foco na performance sem perder de vista a personalidade da composição, a dupla Parfums de Jour mira na versatilidade com a mesma característica. O propósito da coleção é o de criar fragrâncias profundas com notas sofisticadas e que possam ser usadas do dia para a noite e em qualquer estação.
Considerando esse propósito, foi uma surpresa ver um perfume baseado em Sempre-Viva, uma planta cuja a extração do óleo-essencial/absoluto produz um aroma tão potente e marcante que quando usado em uma composição tende a se destacar e dominá-la facilmente. Não é exatamente o tipo de inspiração que poderia ser chamada de versátil, entretanto Imortelle encontra um jeito de enquadrar a nota numa composição que é exótica sem ser sufocante, macia de uma forma que apesar de ter uma cara mais noturna encara bem um uso diurno depois que os primeiros minutos passam. A Imortelle tem uma nuance de açúcar queimado que é posta em evidencia na saída, uma associação inteligente com, creio eu, Ethil Maltol, dando um toque gourmand tostado que soa distinto e bem equilibrado. De fundo, há um contraste entre especiarias quentes e frias e uma nota lactônica que cria a ilusão de um aroma de chai. Ele rapidamente suaviza para uma base amadeirada com nuances de musks e resinas adocicadas e nesse momento é possível perceber o aspecto de feno-seco e meio amadeirado que é dominante na sempre-viva.
Pivoine vai conceitualmente num sentido totalmente oposto ao da Imortelle. A Peônia costuma ser uma flor que eu não aprecio em perfumaria pois os sintéticos que são utilizados para retráta-la me passam a sensação de produtos de perfumaria funcional. Isso também contribuí para a impressão de que seu aroma não é marcante o suficiente para encarar um uso noturno, faltando uma presença mais marcante para isso. Manos faz um excelente trabalho em tirar a peônia de seu lugar-comum e torná-la sensual e versátil. O perfume apresenta uma riqueza de nuances que é incomum quando a composição foca essa flor. A Peônia aqui é retratada com o frescor floral levemente frutado que é familiar para quem espera essa temática. Porém, o segredo está, assim como em Imortelle, nas nuances da composição. Há um delicioso aroma frutado e floral que remete a vinho com um leve que floral aquático que dá um brilho interessante a flor. De fundo, um jasmim sofisticado e adulto confere um aroma robusto ao acorde sem roubar a atenção da Peônia. A base na composição é mínima, com um toque aveludado que sustenta as flores e o que impressiona é que a saída e o corpo acabam se sustentando muito bem e mantendo uma aura fresca, sensual e complexa por um bom tempo. É um perfume que tende um pouco mais para o feminino e que assim como Imortelle possui uma execução impecável.

18.21 Sweet Tobacco - Resenha/Review


A empresa americana 18.21 é um caso específico de marca onde mais importante do que quantidade de produtos é a qualidade e coerência do negócio como um todo. É algo raro de se ver ainda para o público masculino, que é tratado tanto pela indústria comercial de perfumaria como de cosméticos como um público secundário, não muito exigente e do tipo que você pode empurrar a mesma coisa várias vezes apenas trocando aqui e acolá conceitos e descrições. O que os fundadores dessa marca perceberam é que era possível fazer um apelo ao universo masculino do cuidado pessoal com um foco interessante e produtos de qualidade, que conquistaram tanto seus usuários pelo cheiro que levaram a criação de um perfume também.
Sweet Tobacco é o tipo de criação que dá gosto avaliar, pois é um trabalho relativamente fácil. Não há enganações, firulas ou superficialidades, o que a marca te promete e detalha é o que eles entregam e muito bem entregue por sinal. A inspiração do perfume é no aroma do tabaco de cachimbo da Virginia e na época da história americana onde bebidas alcóolicas estavam proibidas e tinham que ser contrabandeadas na surdina. Assim como a marca menciona, é um produto com um apelo clássico e uma inspiração moderna.
É fácil perceber o motivo pelo qual os usuários solicitaram um perfume inspirado no aroma dos produtos, pois o cheiro é excelente. Sweet Tobacco entrega o que se espera de um aroma de tabaco de cachimbo, um cheiro defumado de tabaco ricamente adornado por especiarias, mel, tonka e notas frutadas. O perfume abre com um aroma doce cítrico e frutado e que rapidamente revela um aroma floral de laranjeira, que confere um toque distinto a composição. O mel vai se revelando de uma forma doce e espessa, acompanhado de um toque de bebida. Quando o perfume se encaminha para a sua base final, o aroma mais esfumaçado do tabaco ganha presença. É o momento também em que percebe-se uma inspiração mais clássica, com a presença de um acorde de musks que remete ao aroma clássico dos musks dos anos de ouro da perfumaria. É o ponto também onde percebo que há encaixado de uma forma bem sutil um acorde que remete a um tipo de after-shave clássico, o Bay Rum. E apesar da inspiração e proposta voltada para o universo masculino, Sweet Tobacco é perfeitamente compartilhável como a marca menciona no site. É um excelente produto que pelo preço entrega muito mais do que o esperado.

Bottega Venetta Parco Palladiano III - Resenha/Review

É interessante acompanhar a trajetória da perfumista Daniela Andrier. Ao longo dos anos e principalmente com o seu trabalho na linha de perfumaria da prada Daniela passou de uma mera perfumista comercial para uma rainha do minimalismo chic e uma espécie de favorita das grifes italianas, com um de seus clientes sendo a marca italiana de artigos de couro Bottega Venetta.
Para a sua linha exclusiva que presta homenagem aos jardins italianos a Bottega comissionou a Daniela dois integrantes, sendo um deles o Parco Palladiano III. Dessa vez a inspiração são nas pereiras e um conceito de capturar o aroma da árvore no momento do outuno, com as pêras maduras, prontas a cair da árvore para a grama. É certamente um conceito interessante, distinto dentro do básico que costuma ser trabalhado dentro de coleções exclusivas, mas que deixa a desejar um pouco.
Acho que o que falta aqui é justamente a riqueza nos detalhes, o que talvez seja uma fraqueza do minimalismo chic que Daniela se tornou conhecida ou uma questão de como o cliente solicitou a criação da fragrância. Estruturalmente, o que eu tenho aqui é um amadeirado mineral de contornos apimentados secos, algo que não está muito longe de um Marc Jacobs Bang (com menos pimenta) ou de um Poivre Samarcande (com menos madeiras minerais). A suculência da pêra acaba não ficando evidente, creio eu, por se misturar com os contornos verdes da composição. A menta é um toque distinto, utilizado fora do seu lugar comum do aroma de pasta de dente e remetendo ao cheiro da seiva das folhas que são liberadas quando se esmaga. Um aroma floral transparente se encaixaria perfeitamente aqui pois parece que falta uma transição para a composição. Poderia ter sido usado um acorde de lírio do vale talvez já que ele é muito utilizado junto com a nota de pêra, o que poderia ter ajudado a ressaltar. Falta riqueza de detalhes e uma certa suculência da pêra para corresponder ao tema proposto.

Ormonde Jayne Nawab of Oudh - Fragrance Review


Esse é um perfume que sofre de um mal, o nome te induz a pensar em algo que não é a realidade dele. Talvez o objetivo tenha sido justamente esse, explorar a similaridade fonética entre a província de Oudh na Índia e o Oud, porém isso gera expectativas de um aroma rico em agarwood que não se cumpre.
Nawab Of Oudh promete o espírito de um attar indiano tradicional em um formato de uma fragrância ocidental e de fato ele cumpre isso. Porém, é um attar indiano tipo exportação, do que eles preenchem com vários sintéticos para diminuir o custo e vender caro. É um perfume carregado em musks, com toques de patchouli e alguma base de agarwood para passar a ideia de um attar. A melhor parte acaba sendo a dinâmica da saída e coração, que se divide entre um aroma cítrico rico, com nuances de chá, e um corpo de rosa.
Havia um tempo onde eu acreditaria que o preço desse perfume reflete de fato o que vai na formulação dele, mas tenho mais essa inocência. Nawab of Oudh é um produto comercial posicionado como luxo a partir do preço e calibrado para agradar sem ser muito exótico. Não é o meu perfil, mas certamente tem público que compra isso.

Eudora Diva - Resenha/Review


Eu diria que um dos problemas mais comuns de perfumaria é justamente nas expectativas que um conceito e um nome de perfume geram. Por mais que gostemos do aroma, o fato é que a percepção de um perfume é influenciada pelo frasco, pela percepção que temos da marca e até mesmo pela sua descrição e notas.
Eudora Diva falha precisamente na parte do conceito e do nome, mirando muito mais alto do que de fato consegue entregar. Chamar um perfume de Diva já cria para si a expectativa de algo marcante, diferente e que no mínimo tenha um pouco de drama ou tensão na forma como evolui. A marca é ciente disso e descreve como o perfume de uma mulher poderosa, marcante, referência por sua beleza e atitude inconfundível.
Infelizmente, o aroma em si não é nada disso e de Diva só tem o nome e a descrição. Em vez de termos uma mulher poderosa e marcante, temos no perfume uma moça meiga e jovem, certamente bela porém sem se destacar muito. É uma combinação segura, que entrega toques frutados entre o fresco e o suculento na saída. Depois, evolui para um gourmand suave, mais baunilha do que caramelo, um que ganha um pouco de sofisticação pelo buquê floral que parece girar ao redor do jasmim. Conforme evolui Diva se torna mais discreto, mais delicado, um perfume de pele de musk e baunilha. Nada em seu cheiro se destaca muito mas não há nada de errado com o seu aroma. É como se fosse uma versão mais requintada de um body splash adocicado.

O Boticário Uomini - Resenha/Review

Um dos clássicos do Boticário, é interessante como a marca deixa implícito que teve inspirações italianas na criação desse perfume. No site explica que Uomini é uma palavra italiana de origem do Latim e que significa homem. A composição em si também se assemelha a um perfume da grife Dolce & Gabbana, chamado simplesmente de Pour Homme. Mas considerando seu surgimento na década de 90, não há nada de novo nessas inspirações mais explícitas, a perfumaria comercial brasileira dessa década reflete tanto a crise econômica como as barreira de importação, o que tornaram perfumes comerciais importados objetos de luxo dentro do nosso mercado e assim abriram espaço para uma perfumaria nacional que suprisse quem não tinha acesso a eles.
Curiosamente, com o passar dos anos muitos perfumes foram reformulados ou descontinuados por questões de público ou de restrições (que são menos rigorosas no território nacional), de forma que algumas criações clássicas hoje sobrevivem nas inspirações que as originaram. É o caso aqui e é uma pena que a Dolce & Gabbana tenha apostado nisso, visto que a ideia por trás de Uomini e D&G Pour Homme é a de um clássico que está praticamente se tornando extinto: o fougere aromático clássico.
Me lembro de ter sentido esse perfume quando tinha meus 18 anos e o ter detestado por ter um aroma muito seco ao meu nariz. Os anos passam, as percepções mudam e hoje acho Uomini uma criação bem feita e elegante. A empresa lista na pirâmide olfativa a folha de limão, mas na prática Uomini para mim parece girar nas nuances do aroma da laranjeira, como se a criação tivesse o amargo das folhas de laranjeira e uma leve aura floral cítrica de neroli. Esse aspecto floral acaba funcionando como estrutura, na qual nuances aromáticas de ervas são misturadas e cujo o uso de gálbano entra mais para conferir um toque verde. Apesar de não ter listado também, é possível perceber tanto nuances de lavanda como de fava tonka agindo juntas para passar o aroma fougere, um frescor limpo de lavanda que se mistura a um aroma levemente adocicado da laranjeira e o aroma amendoado quase seco da coumarina fazendo o papel de tonka. A fase que talvez mais decepcione em Uomini para mim é a base, que poderia ter mais amadeirado de sândalo e vetiver e um toque mais evidente de musgo de carvalho para reforçar a aura clássica. Mesmo assim, é um excelente perfume para o que se propõe, um que poderia existir numa versão mais intense ou deo parfum até.