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17 de out de 2017

Dawn Spencer Hurwitz Become The Shaman e Il Marinaio da Capri


Português (click for english version):

Quanto mais perfumes da Dawn eu conheço mais me convenço de que a Artista é capaz de canalizar diversos estilos de criação. É como se não existissse uma única Dawn Spencer em seu estúdio, e sim um batalhão de Dawns capazes de criar em diversas direções. E é como se a cada projeto da perfumista ela encarnasse uma diferente, o que visivelmente afeta a forma como o perfume é criado e se desenvolve na pele.

Quando você usa muitos dos seus designs clássicos isso não fica tão evidente, entretanto quando se testa duas de suas criações tão diametralmente opostas entre si como as dessa avaliação fica claríssimo que há mais de uma Dawn Spencer Hurwitz da mesma forma que Fernando Pessoa se utilizava de diferentes eus poéticos para escrever.

Em Become The Shaman Dawn canaliza sua perfumista mais primitiva, sua sacerdotiza dos aromas. Criado para um projeto do site CaFleureBon cujo tema criativo era "Projeto Talisman/Água de Proteção", Dawn se inspira na temática do Palo Santo e seu uso pelos Incas para purificar e limpar o espírito. É um perfume que para mim personifica perfeitamente a palavra perfume - uma fumaça aromática que mistura uma aura amadeirada, cremosa e sagrada que lembra sândalo com tons resinosos, amadeirados e de incenso em algo que soa natural sem ser pesado demais, defumado demais. É um belo estudo sobre as nuances do palo santo e para quem curte um perfume amadeirado com incenso é um prato cheio.

Já Il Marinaio di Capri personifica o lado mais comercial da Dawn, não necessariamente um dos meus favoritos para ser sincero mas um que certamente põe suas habilidades em formas olfativas mais diretas e menos desafiadoras caso você não esteja preparado para seus perfumes mais clássicos. O Objetivo aqui é começar uma série de florais masculinos e personificar um chypre de madressilva com nuances aquáticas sutis. Ainda que a ideia não tenha o calone para dar um ar aquático típico, a aura aquática acaba roubando um pouco a cena da madressilva e leva o perfume mais numa direção aquática almiscarado do que floral chypre aquática. O que eu acho interessante, entretanto, é o aroma verde e que remete a grama cortada logo na saída, um contraste entre uma idealização de mar e o aroma verde da terra. Pessoalmente, poderia ter mais ênfase no aspecto chypre e no floral, porém considerando que este é um floral para o público masculino acho que o aspecto contido é proposital no design.

English:

The more Dawn perfumes I test the more I am convinced that the artist is able to channel various styles of creation. It is as if there was not a single Dawn Spencer in her studio, but a battalion of Dawns capable of creating in different directions. And it is as if every perfumist's design embodies a different one, which visibly affects the way perfume is created and develops on the skin.

When you use many of her classic designs this is not so obvious, however when you test two of her creations as diametrically opposed to each other as the ones in this review is clear that there is more than one Dawn Spencer Hurwitz in the same way that Fernando Pessoa used different poetic selves to write.

In Become The Shaman Dawn channels her most primitive perfumer, her priestess of aromas. Created for a CaFleureBon site project whose creative theme was "Talisman Project / Eau de Protection", Dawn draws inspiration from the theme of Palo Santo and its use by the Incas to purify and cleanse the spirit. It is a perfume that perfectly embodies the word perfume - an aromatic smoke that mixes a woody, creamy and sacred aura that resembles sandalwood with resinous, woody and incense tones in something that sounds natural without being too heavy, too smoky. It is a beautiful study on the nuances of palo santo and for those who enjoy a woody scent with incense is a full plate.

Already Il Marinaio di Capri embodies the more commercial side of Dawn, not necessarily one of my favorites to be honest but one that certainly puts her skills in more direct and less challenging olfactory forms if you're not prepared for her more classic ones. The goal here is to start a series of male florals and impersonate a honeysuckle chypre with subtle aquatic nuances. Although the idea does not have the calone to give a typical aquatic air, the aquatic aura ends robbing the scene of the honeysuckle a little and takes the perfume more in a musky watery/ozonic direction than floral chypre aquatic. What I find interesting, however, is the green scent that smells like cut grass right in the beginning, a contrast between an idealization of the sea and the green scent of the earth. Personally I could put more emphasis on the chypre and floral aspect, however considering that this is a floral for the male audience I think the restrained aspect is purposeful in the design.

16 de out de 2017

Dawn Spencer Hurwitz Un Robe de Zibeline - Fragrance Review

Português (click for english version):

Depois de muitos anos de baixa popularidade, alguns dos estilos de composição dos anos dourados da perfumaria tem ressurgido. Se no passado eles eram centro do que poderia se chamar de perfumaria comercial, hoje eles tem brilhado como inovadores e diferentes em coleções de nicho e de artistas indepententes. E esse é o momento perfeito para Dawn Spencer Hurwitz mostrar orgulhosamente suas habilidades nesse tipo de perfumaria, voltando no seu vasto catálogo de criações e dando uma nova vida a algumas delas.

Un Robe de Zibeline faz parte dessa coleção denominada de 'Retrograde Files', parte de designs que segundo a artista saíram de produção devido a escassez de determinados ingredientes e que hoje ganham a vida em novas interpretações. Com Un Robe de Zibeline o objetivo da artista é criar um oriental ambarado spicy com toques animálicos discretos, uma textura de casaco de pele e um toque almiscarado clássico na base.

A descrição é perfeita e Un Robe de Zibeline é justamente um oriental ambarado a moda antiga, cujo o uso de (suponho eu) nitro musks criam a aura animálica sutil e as nuances de casaco de pele. É passá-lo na pele e parece que você volta nos clássicos do glamour, como se o jazz ainda fosse a música do momento e estivéssemos em um daqueles clubes que só se vêem nos filmes. A progressão de certa forma me faz pensar no Chanel No 5, que foi bem influente na época, só que a execução tem o glamour mais sexy de um Lavin, onde os aldeídos, especiarias e flores ganham uma aura mais picante devido a um pouco mais de toque animálico dos musks na pele. Para quem gosta de glamour a moda antiga, Un Robe de Zibeline é uma obra-prima.

English:

After many years of low popularity, some of the composition styles of the golden years of perfumery have resurfaced. If in the past they were center of what could be called commercial perfumery, today they have reborn as innovative and different in niche collections and with independent artists. And this is the perfect time for Dawn Spencer Hurwitz to proudly show off her skills in this type of perfumery, coming back in her vast catalog of creations and giving new life to some of them.

Un Robe de Zibeline is part of this collection called 'Retrograde Files', part of designs that according to the artist came out of production due to a shortage of certain ingredients and today come to life in new interpretations. With this one the artist's goal is to create an amber spicy oriental with subtle animalic touches, a fur coat texture and a classic musky touch at the base.

The description is perfect and Un Robe de Zibeline is just an old fashioned amber, whose use of (I suppose) nitro musks creates the subtle animalic aura and the nuances of fur coat. It's as if putting it on the skin you're back in the glamor classic time, as if jazz were still the music of the moment and we were in one of those clubs you only see in the movies. The progression in a way makes me think of Chanel No 5, which was very influential at the time, but the execution has the sexiest glamor of a Lavin, where aldehydes, spices and flowers gain a more naughty aura due to a little more of animal musk touch on the skin. For those who like old fashion glamor, Zibeline's Robe is a masterpiece.

15 de out de 2017

L'Acqua di Fiori Fleur de Vie - Fragrance Review



Entrando em uma nova fase de sua história, a L'Acqua di Fiori busca recuperar o espaço que perdeu no mercado nacional após o seu quase fechamento e depois de reestruturar a marca e restaurar a qualidade de seus produtos ela está pronta para investir em novos lançamentos. E por isso, nessa primavera chegam 2 criações, uma para o público masculino e outra para o feminino. E com elas a marca aposta simultaneamente nas tendências e em uma identidade própria.

Fleur de Vie é a criação voltada para o público feminino e que me parece exaltar a delicadeza e naturalidade da beleza feminina. É um ponto positivo que a marca tenha escolhido explorar uma flor cujo o aroma tem muito a ver com as temperaturas altas do nosso território e uma que ainda é pouco utilizada de forma temática: a magnólia.

Utilizando-se de uma extração do laboratório francês monique remy, Fleur de Vie exalta a delicadeza da flor, seu aroma levemente cítrico, verde e cremoso. Ao mesmo tempo, consciente da popularidade dos florais gourmands atuais, a marca acrescenta uma leve cremosidade vanílica a magnólia que lhe confere um toque contemporâneo sem roubar a cena, fixando e criando uma base aconchegante para o aroma floral. A saída complementa a ideia com um toque cítrico e cintilante e  que demonstra um leve toque açúcarado e frutado, uma introdução delicada e elegante a composição. A única coisa que poderia ser melhor aqui em Fleur de vie é a intensidade, mas isso talvez perderia a delicadeza da composição. É um bom recomeço para a L'Acqua e um perfume sofisticado e fácil de usar.

Fan di Fendi Blossom e Fan di Fendi Leather - Fragrance Reviews

Português (click for english version):

O último perfume da marca antes da Fendi decidir sair do mundo da perfumaria, Fan di Fendi tentou de todas as maneiras possíveis se torna um sucesso na perfumaria, lançando inúmeros flankers para prender a atenção do público feminino, indo desde uma direção mais intensa até uma mais delicada. A versão Blossom, uma das últimas, foi lançada em 2014 apostando justamente nessa segunda linha de raciocínio.

Criado para ser um perfume de primavera, Blossom tem por objetivo representar o aroma da flor de cerejeira de uma perspectiva floral e frutal, combinando a uma base feita basicamente de musk e baunilha. Um ponto positivo da versão Blossom é que ele não cai em uma caricatura do que deve ser o aroma da flor de cerejeira, não remetendo a um aroma verde e de muguet que costuma ser o lugar comum de muitos perfumes com essa intenção. O único problema é que ele também não oferece nada muito interessante para caracterizar o aroma da flor de cerejeira.

A combinação de flores, frutas e musk é algo bem comercial, agradável porém esquecível. É o tipo de perfume que se compra e, caso se use até o fim usa-se mais por obrigação do que por prazer. É um aroma de flores frescas indistintas, combinadas com toques frutais silvestres e uma base bem plana de musks e quase nada de baunilha. Falta um toque que sugerisse o aroma amendoado das cerejas, o que tornaria bem interessante o resultado final. Nuances de um couro de camurça seriam bem vindas também e ajudariam a fazer o link com o perfume do qual ele é flanker. Como último esforço de desenvolver a linha, o resultado final é bem fraco.

Se por um lado Fan di Fendi Blossom tenta expandir a franquia em uma direção ainda mais comercial, versão Leather Essence tenta ir em uma direção mais intensa e um pouco mais ousada e é um flanker bem interessante da saga.

Confesso que uma das minhas frustrações quando conheci e usei o Fan di Fendi pela primeira vez foi a constatação de um acorde de couro que ficava mais prometido na descrição do que entregue no perfume em si. Essa versão, entretanto, consegue encontrar um equilíbrio interessante entre dar uma nuance mais ousada de couro e manter o perfume comercial. O couro por isso apresenta sua nuance animálica e clássica bem distante, filtrado por uma acorde de couro mais powdery, vanílico e com toques florais. Apesar de não ser intenso, é um couro que te envolve e sempre sussurra seu lado mais carnal durante a evolução. Esse é o que o tradicional deveria ter sido.

English:


The latest perfume of the brand before Fendi decides to leave the world of perfumery, Fan di Fendi tried in every possible way to become a success, casting numerous flankers to capture the attention of the female audience, going from a more intense direction to a more delicate one. The Blossom version, one of the last, was launched in 2014 betting precisely on this second line of reasoning.

Created to be a spring scent, Blossom aims to represent the cherry blossom aroma from a floral and fruity perspective, combining a base made primarily of musk and vanilla. A plus point of the Blossom version is that it does not fall into a caricature of what must be the scent of the cherry blossom, not referring to a green and muguet scent that is often the commonplace of many perfumes for that purpose. The only problem is that it also does not offer anything very interesting to characterize the aroma of cherry blossom.

The combination of flowers, fruit and musk is something very commercial, pleasant but forgettable. It's the kind of perfume you buy, and if you use it to the end you use it more out of obligation than out of pleasure. It is an aroma of indistinct fresh flowers, combined with wild berry touches and a flat base of musks and almost no vanilla. There is no touch to suggest the almond-like aroma of the cherries, which would make the final result very interesting. Nuances of a suede leather would be welcome as well and would help link it to the scent of which it is flanker. As the last effort to develop the line, the final result is quite weak.

If on one hand Fan di Fendi Blossom tries to expand the franchise in an even more commercial direction, the Leather Essence version tries to go in a more intense direction and a little more daring and it is a very interesting flanker of the saga.


I confess that one of my frustrations when I met and used the Fan di Fendi for the first time was finding that the leather accord was more promised in the description than delivered in the perfume itself. This version, however, manages to find an interesting balance between giving a bolder nuance of leather and keeping the perfume in a mainstream field. The leather therefore presents its classic and animalistic nuance far away, filtered by a more powdery, vanilla leather chord with floral touches. Although not intense, it is a leather that envelops you and always whispers its most carnal side during evolution. This is what the traditional should have been.

Maison Francis Kurkdjian Oud Cashmere Mood - Fragrance Review



Português (click for english version):

Ah, as grifes e suas ironias/equívocos quando nomeiam um perfume! Muitas vezes acho engraçado o quanto os conceitos e nomes simplesmente não casam com a execução e me pergunto se as pessoas envolvidas no projeto não estão tão viciadas no mesmo que não são capazes de enxergar isso.

Nem sempre esses equívocos significam um fracasso no perfume em si e Oud Cashmere é um exemplo disso. Baseado no tradicional e pelo nome, esperaria-se uma versão aveludada e fácil de usar correto? A própria marca o descreve como a delicadeza de uma segunda pele, suave e perfumada.

Bem, certamente se você viver na Sibéria (muito frio) ou for parte do público árabe que já está acostumado com criações de oud pode até achar isso. O resto terá uma bela surpresa ao provar Cashmere Mood na pele. O perfume abre com uma cacetada de Oud que reproduz da forma mais fidedigna o possível as facetas das qualidades mais caras de oud. É um aroma fechado, animálico,beirando o fecal, acompanhado por um aroma denso de ambar que lembra mel não adocicado. Se comparado com boa parte das interpretações de oud que povoam o mercado, é de assustar muitas pessoas, mas é um belo oud. Depois que passa a fase intensa, o perfume até vai em uma direção aveludada de fato, porém uma que mantém o aspecto seco e animálico do oud até o fim e o estende em uma direção almiscarada. É o tipo de perfume que não deve ser comprado no escuro pois nome e conceito enganam, porém a entrega é muito boa se você curtir o lado mais hardcore do oud.

English:

Oh, the brands and their ironies / misconceptions when they name a perfume! I often find it funny how concepts and names simply do not match the execution and wonder if the people involved in the project are not so biased to it that they can not see it.

These misconceptions do not always mean a failure in the perfume itself and Oud Cashmere is an example of this. Based on the traditional MFK Oud and the name, one would one expect a velvety and easy to use version, right? The brand itself describes it as the delicacy of a second skin, smooth and fragrant.

Well, surely if you live in Siberia (too cold) or are part of the Arab public who is already accustomed to oud creations you might even find this. The rest will have a nice surprise when trying Cashmere Mood on the skin. The perfume opens with an Oud punch that reproduces as accurately as possible the facets of the most expensive oud qualities. It is a muffled, animalic aroma, bordering the fecal, accompanied by a dense amber aroma that resembles unsweetened honey. Compared with most of the oud interpretations that populate the market, it might scare many people, but it is a beautiful oud. After the intense phase passes, the perfume even goes in a velvety de facto direction, but one that maintains the dry and animic aspect of the oud to the end and extends it in a musky direction. It is the type of perfume that should not be bought in the dark because name and concept mislead you, but the delivery is very good if you enjoy the hardcore side of the oud.

Boadicea The Victorious Complex - Fragrance Review


Português (click for english version):

A Boadicea é um case interessante para análise na perfumaria de nicho, já que ela evidencia que é possível criar rapidamente um catálogo de criações sem muita tradição na perfumaria. Criada por Michael Boadi, a marca já estreiou com 33 criações posicionadas como exclusivas e 10 posicionadas como ready-to-wear. O número de lançamentos certamente levanta suspeitas quanto a qualidade, entretanto o que a Boadicea representa é similar ao que muitas outras marcas são no segmento: uma interface onde o que realmente faz diferença é o talento criativo da casa de fragrâncias por trás. O resto resume-se a conceitos de marketing e publicidade plugados em cima disso.

E nesse quesito posso dizer que por hora os perfumes que eu conheci da marca são de boa qualidade. Falta ousadia nas criações certamente, entretanto percebe-se uma boa formulação e um bom uso de materiais canalizando auras muitas vezes clássicas. É o caso de complex, um dos lançamentos da primeira leva de 2008 da marca.


Na minha opinião, complex é um caso do que poderia se chamar de simplexidade na perfumaria, uma aura relativamente simples do ponto de vista do que predomina e que se torna complexa devido as nuances desses poucos materiais. Basicamente, o perfume é um aroma de couro que transita entre o moderno e o tradicional. A parte tradicional é reforçada pelas resinas, das quais a mirra se destaca, dando uma aura mineral, quente e levemente frutada seca ao aroma de couro. Curiosamente, a orquestração das resinas com mais algum material produz uma textura que me faz pensar em um couro musgoso. A marca cria todo um conceito em cima disso no site, mas uma das coisas que eles mencionam pode ser atrelado de fato a complex: esse perfume é resultado de experiência de perfumaria, um conhecimento aprendido, transmitido e que se torna novo em novas interfaces conceituais.

English:

Boadicea is an interesting case for analysis in niche perfumery, since it shows that it is possible to quickly create a catalog of creations without much tradition in the perfumery. Created by Michael Boadi, the brand has already debuted with 33 creations positioned as exclusive and 10 positioned as ready-to-wear. The number of releases certainly raises suspicions about quality, however what Boadicea represents is similar to what many other brands are in the segment: an interface where what really makes a difference is the creative talent of the perfumer house behind. The rest boils down to marketing and advertising concepts plugged into it.

And in this regard I can say that considering the perfumes I have tried from them that the brand has a good quality. There is no daring in creations, however, but a good formulation and good use of materials can be seen channeling auras that are often classic. This is the case of complex, one of the first launches of the brand's 2008 campaign.

In my opinion, complex is a case of what could be called simplexity in perfumery, a relatively simple aura from the point of view of what prevails and which becomes complex due to the nuances of these few materials. Basically, the perfume is a leathery aroma that transits between the modern and the traditional. The traditional part is reinforced by the resins, of which myrrh stands out, giving a mineral aura, warm and lightly fruity dry to the aroma of leather. Interestingly, the orchestration of resins with some other material produces a texture that makes me think of a mossy leather. The brand creates a whole concept on top of that on the site, but one of the things they mention which can actually be linked to complex us: this perfume is the result of perfumery experience, a knowledge learned, transmitted and that becomes new in renovated conceptual interfaces.

Lancome L'Autre Oud - Fragrance Review



Há algo na forma como a Lancôme descreve sua primeira incursão na perfumaria árabe que me intriga. A começar pelo nome, que traduzindo significa o Outro Oud mas que que se for trocado por un viraria Mais Um Oud também. A forma como a marca descreve me parece ter uma pitada de ironia e acidez também, ao dizer que a Lancôme desafia as leis da perfumaria recriando a nota sem sequer utilizar o ingrediente, sendo isso possível pela combinação do Cypriol, Bálsamo Gurjum e Cistus Absolute.

Ironia ou honestidade na forma de luxo, L'Autre Ôud é o que diz ser, um perfume de joga as regras desse mercado e que já deixa claro em sua identidade que entrega o que as pessoas esperam de uma criação de Oud. A ideia aqui é oscilar entre Oud e Rosa com uma pitada de açafrão, mas pessoalmente eu diria que quem é a estrela da composição é de fato o Oud, com a rosa sendo mais uma forma de tornar mais delicado e redondo as resinas utilizadas.

O aroma do acorde proposto não tem grandes novidades, mas agrada por focar mais nos aspectos naturais das resinas que entram em sua composição sem utilizar, pelo menos de forma proeminente, as bases mais ambaradas e doces para propor o aroma do oud. Estamos em um território onde notas amadeiradas secas, toques animálicos e herbais e um aroma ambarado seco são balanceados para criar a ilusão proposta, completa com o toque sedoso, licoroso e levemente frutado das rosas e do açafrão. É um perfume sem grandes surpresas, com uma boa evolução e razoavelmente honesto em seu conceito como um todo, o que de certa forma é uma raridade.


There is something in the way Lancôme describes their first foray into the Arab perfumery that intrigues me. Starting with the name, which translating means the Other Oud but that if it you change the L for Un would turn it Another Oud. The way the brand describes me seems to have a hint of irony and acidity too, saying that Lancôme defies the laws of perfumery by recreating the note without even using the ingredient, this being possible by combining the Cypriol, Gurjum Balm and Cistus Absolute.

Irony or honesty in the form of luxury, L'Autre Ôud is what it claims to be, a scent that plays the rules of this market and which makes it clear in its identity that it delivers what people expect from an Oud creation. The idea here is to oscillate between Oud and Rose with a pinch of saffron, but personally I would say that the star of the composition is in fact the Oud, with the rose being more a way to make the resins used more delicate and round.

The aroma of the proposed accord has no great novelties, but it pleases to focus more on the natural aspects of the resins that enter its composition without using, at least in a prominent way, the more amber and sweet bases to propose the oud aroma. We are in a territory where dry woody notes, animalic and herbal touches and a dry amber aroma are balanced to create the oud illusion, complete with the silky, boozy and lightly fruity touch of roses and saffron. It is a perfume without great surprises, with a good evolution and reasonably honest in its concept as a whole, which in a way is a rarity.

Burberry My Burberry Black - Fragrance Review


Português (click for english version):

Há um fator interessante que acontece eventualmente quando se está avaliando/usando um perfume. É o fator esquecimento, aquele momento em que você simplesmente se distrai nos seus afazeres/atividades/evento e de repente sente um aroma intrigante e agradável e se questiona que perfume gostoso é aquele. É quando se tem uma avaliação o mais pura possível, já que se esquece perfumista, notas, nome e até conceitos.

Ao utilizar o flanker Black da franquia My Burberry eventualmente tive esse momento de esquecimento e me peguei perguntando que perfume eu estava usando e que era muito bom. My Burberry Black se propõe a ser uma versão mais sensual e noturna do aroma de flores amarelas do My Burberry e eu diria que ele faz isso, em seus termos. E que mais do que isso, ele realmente agrada pelo aroma em si.

É uma surpresa que o perfumista em questão seja Francis Kurkdjian já que tanto o My Burberry como o My Burberry Black fogem da assinatura floral laranjeira que Kurkdjian já executou até cansar tanto em sua marca como no mercado de nicho/comercial. My Burberry Black me faz pensar que o perfumista adaptou conceitos mais sensuais e ousados para um perfume mais comercial e o resultado é muito bom. A aura de Black é a de um floral abstrato, com trações das flores amarelas do original e um aroma que me remete a um nectar de flores. Esse aroma se mistura a uma saída frutal suculenta e madura, que em alguns momento me faz pensar em abacaxi e em outros me remetem ao aroma frutal sedoso de pêssego. Na base temos uma aura bem elegante e persistente de musks, patchouli e ambar, algo meio macio, levemente oleoso, quente e talvez até mesmo com uma nuance de couro ao meu nariz. Estamos diante de um flanker que consegue fugir da maldição dos perfumes black e noturnos e que de fato entrega o que promete. Mais que isso, essa é uma criação comercial muito bem executada e que foge do convencional do perfumista. Vale a pena conhecer (e se esquecer do que se está utilizando).

English:

There is an interesting factor that happens eventually when evaluating / using a perfume. It's the oblivion factor, that moment when you simply get distracted in your chores / activities / event and suddenly you feel an intriguing and pleasant scent and wonder what it is. This is when you have an evaluation as pure as possible, since you forget perfumer, notes, name and even concepts.

By using the Black Flanker from the My Burberry franchise I eventually had this moment of oblivion and I caught myself asking what perfume I was wearing and thinking it was very good. My Burberry Black purports to be a more sensual and nocturnal version of the scent of yellow flowers from My Burberry and I would say that it does so on its terms. And more than that, the aroma itself is really pleasant.


It is a surprise that the perfumer in question is Francis Kurkdjian since both My Burberry and My Burberry Black flee from the floral orange signature that Kurkdjian has already performed until exhaustion in both his brand and in the niche / commercial market. My Burberry Black makes me think that the perfumer has adapted a more sensual and daring concept for a more commercial perfume and the result is very good. Black's aura is that of an abstract floral, with traces of the original yellow flowers and an aroma that reminds me of a nectar of flowers. This aroma is mixed with an aura of ripe fruits, which at some point makes me think of pineapple and in others remindes me of the silky fruity touch of peach. At the base we have a very elegant and persistent aura of musks, patchouli and amber, something slightly soft, slightly oily, warm and maybe even with a nuance of leather to my nose. We are facing a flanker who can escape the curse of black and night perfumes and who in fact delivers what its promises. More than that, this is a very well executed commercial creation that escapes the conventional style of the perfumer. It is worth trying (and forgetting what you are using).

Bottega Veneta Parco Paladiano VIII - Fragrance Review



Nessa etapa da perfumaria de nicho, por mais que se afirme que o que tem levado o crescimento é a qualidade e a inovação dos perfumes minha percepção me diz que para o consumidor médio isso se traduz na verdade em 2 fatores: experiência proporcionada e coerência. Novos entrantes e veteranos tem lançado coleções de nicho ou exclusivas e o fato de sucesso delas está muito relacionado a como se desenvolve o conceito e a experiência do usuário associado ao aroma em si. Até por que, antes de se conhecer o aroma em si somos moldados pela experiência estética, conceitual e da marca em si.

A grife italiana Bottega Veneta fez um bom trabalho nesse sentido com Parco Palladiano. Em vez de explorar diretamente a riqueza dos materiais e ser mais uma com uma coleção nesse sentido, a marca se voltou para as suas raízes italianas e criou um conceito e experiência que vende o luxo que a faixa de preço entrega. Sua coleção exclusiva é uma exploração pelos aromas e experiências em um jardim palladiano. O palladianismo foi um estilo de arquitetura baseado em princípios clássicos e idealistas que Andrea Palladio pôs em prática durante o século 16 para a nobreza italiana.

Assim, VIII faz todo o sentido, um perfume que exalta a flor de laranjeira de uma forma rica, idealista e purista, um perfume que explora o luxo no que é clássico e atemporal, sem pirotecnias ou modernismos que não caberiam no conceito aqui. O objetivo da marca era capturar o oroma da laranjeira por completo, pétalas, casca e árvore e é isso que é entregue. O perfume explora um aspecto mais verde e levemente aldeídico na saída, que me faz pensar na parte dos raios de sol que a marca descreve em sua composição. Depois, o perfume exibe uma nuance mais floral da laranjeira, envolta no seu aspecto cítrico amargo e um quê levemente funcional e limpo que remete mais ao neroli e é bem orquestrado para combinar com o resto. A base não é muito evidente, creio eu que feita de musks que seguram a laranjeira sem roubar-lhe a cena. É uma tradução de um momento de contemplação diante do belo aroma que as laranjeiras tem a oferecer, filtrado por uma estética clássica e de luxo. Os detalhes aqui são a chave para a experiência que a marca entrega e que fazem toda a diferença. Muito bom.

In this stage of niche perfumery, however much it is said that what has led to growth is the quality and innovation of perfumes my perception tells me that for the average consumer this translates in facto into two factors: consumer experience and consistency. New entrants and veterans have launched niche or exclusive collections and their case of success is very much related to how the concept and user experience associated with the aroma itself develops. Because before we know the aroma itself, we are shaped by the aesthetic, conceptual and brand experience itself.

The Italian label Bottega Veneta did a good job in this regard with Parco Palladiano. Instead of directly exploring the richness of the materials and being another one with a collection accordingly, the brand has turned to its Italian roots and created a concept and experience that sells the luxury that the price range delivers. Its exclusive collection is an exploration of aromas and experiences in a Palladian garden. Palladianism was a style of architecture based on classic and idealistic principles that Andrea Palladio put into practice during the 16th century for the Italian nobility.

Thus, VIII makes perfect sense, a perfume that exalts the orange blossom in a rich, idealistic and purist way, one that explores luxury in what is classic and timeless, without pyrotechnics or modernisms that would not fit the concept here. The goal of the brand was to capture the oroma of the orange tree completely, petals, bark and tree and this is what is delivered. The perfume explores a greener and slightly aldehyde-like appearance at the opening, which makes me think of the part of the sun's rays that the brand describes in its composition. Then the perfume displays a more floral nuance of the orange blossom, shrouded in its bitter citrus nuances and with a slightly functional and clean note, which refers more to the neroli and is well orchestrated to match the rest. The base is not very evident, I believe that made of musks that hold the orange tree impression without stealing the scene. It is a translation of a moment of contemplation before the beautiful aroma that the orange trees have to offer, filtered by a classic and luxury aesthetic. The details here are the key to the experience that the brand delivers and that make all the difference. Very good.

8 de out de 2017

Yves Rocher Accord Chic - Fragrance Review


Português (click for english version):

Eu diria que uma das perguntas mais difíceis que eu tenho que responder relacionado a perfumaria é quando me perguntam quais são meus perfumes favoritos. Confesso que por dentro entro em pânico, pois sinto que as expectativas são altas e é uma tarefa árdua para mim limitar toda a minha jornada de descobertas de vários perfumes fascinantes a uma lista compacta. Ainda sim, algumas criações marcaram a minha jornada e uma delas que é inesquecível e muito querida é o fantástico Nu EDP da Yves Saint Laurent. Nu está para mim entre uma das quintessências do incenso: sensual, misterioso, entre o espiritual e o voluptuoso. É um dos pontos fortes da direção artística de Tom Ford na perfumaria da Yves Saint Laurent e que junto com outro favorito meu, M7, me fez respeitar o estilista.

Infelizmente, o Nu EDP foi descontinuado da sua versão original e hoje existe na versão La Collection, que chega bem próximo dele porém de uma forma mais floral. Para a minha surpresa, porém, a francesa Yves Rocher o reincarnou em uma nova roupagem e conceito. Com o trabalho dos perfumistas Oliver Cresp e da excelente Marie Salamagne surge Accord Chic, que se propõe a oferecer um floral oriental spicy que exala qualidades de elegância, audacidade e distinção.

Esses são adjetivos que certamente cabem muito bem tanto em Nu EDP como em Accord Chic e é interessante perceber o como uma determinada forma olfativa pode surgir em outro contexto, bem legível mas com outra interpretação. A combinação de incenso, pimenta, resinas e musks formas a aura de elegância e audácia que Accord Chic propõe, equilibradas por um acorde floral não óbvio que se mistura muito bem ao aroma misterioro de incenso e resinas. Se você considerá-lo no contexto da perfumaria comercial feminina, é realmente algo ousado e arriscado, ainda mais em um mercado que puxa sempre a mulher para criações onde flores, frutas e tons gourmands são levados a explorar os clichês de como uma mulher deve cheirar hoje.


Classificar Accord Chic como feminino, porém, é um equívoco da mesma forma que classificar NU também foi. A aura é perfeitamente uma de nicho, uma construção que simplesmente não possui gênero, idade ou mesmo identidade. Isso se encaixa com o conceito do que seria ser chique, já que a essência/acorde da elegância não pertence a um gênero em específico. Para os que nunca conheceram Nu mas possuem curiosidade em seu aroma, recomendo fortemente conhecer a criação de Yves Rocher.

English:

I would say that one of the most difficult questions I have to answer regarding perfumery is when I am asked which are my favorite perfumes. I confess that inside I panic because I feel that expectations are high and it is an arduous task for me to limit my whole journey of discovering several fascinating perfumes to a compact list. Still, some creations have marked my journey and one of them that is unforgettable and very dear is the fantastic Nu EDP from Yves Saint Laurent. Nu lies to me among one of the quintessences of incense: sensual, mysterious, between the spiritual and the voluptuous. It is one of the strengths of Tom Ford's artistic direction in Yves Saint Laurent's perfumery and along with another favorite of mine, M7, made me respect the stylist.

Unfortunately, the Nu EDP has been discontinued from its original version and now exists in the La Collection version, which comes very close to it but in a more floral way. To my surprise, however, the french house Yves Rocher reincarnated it in a new outfit and concept. With the work of the perfumers Oliver Cresp and the excellent Marie Salamagne comes Accord Chic, which proposes to offer a spicy oriental floral that exudes qualities of elegance, audacity and distinction.

These are adjectives that certainly fit very well both in Nu EDP and Chic Accord and it is interesting to note how a certain olfactory form may arise in another context, well readable but with another interpretation. The combination of incense, pepper, resins and musks forms the aura of elegance and boldness that Accord Chic proposes, balanced by an unobtrusive floral chord that blends nicely with the scent of incense and resins. If you consider it in the context of feminine commercial perfumery, it's really something daring and risky, even more so in a market that always pulls the woman to creations where flowers, fruit and gourmands tones are driven to explore the cliches of how a woman should smell today.


Classifying Accord Chic as feminine, however, is a misnomer in the same way that classifying NU was as well. The aura is perfectly one of a niche perfume, a construction that simply does not have gender, age or even identity. This fits in with the concept of what it would be to be fancy, since the essence / accord of elegance does not belong to a particular genre. For those who have never met Nu but have curiosity in their aroma, I strongly recommend trying the creation of Yves Rocher.

4160 Tuesdays - The Lion Cupboard

Português (click for english version):

Na sua essência, a marca de Sarah McCartney representa bem a perfumaria de nicho da década de 80 e 90, uma marca mais experimental que possui desde perfumes simples, modernos e agradáveis a até chypres a moda antiga que agradam um público bem específico. Sarah parece estar preocupada em usar as essências e suas habilidades para contar histórias e isso inclui qualquer história que atraia sua atenção e curiosidade.

The Lion's Cupboard é um dos perfumes do início da marca, de quando ela surgiu após Sarah escrever um livro onde os perfumes tinha um papel crucial na história dos personagens e de então resolver colocar em prática isso. E em Lion's Cupboard ela volta para uma memória sua e de sua irmã, uma representação de um armário onde seu pai guardava suas luvas, lenços e chapéus. É a memória dos aromas de um ente querido, um aroma familiar e aconchegante. Ao mesmo tempo, a perfumista tem a habilidade de tornar essa memória uma experiência mais universal e compartilhável.

Acho interessante o que Lion's Cupboard oferece, uma mescla de nostalgia e modernindade, uma junção do mundo da perfumaria natural com a perfumaria sintética. A saída dele me faz pensar em algo bem inglês, uma mescla de lavanda aromática, quase medicinal e ervas aromáticas/cítricos com alguma coisa que me remete a um quê ambarado. Seria um aroma mais maduro e com ares de perfumaria natural se o que viesse depois não fosse uma interessante mescla amadeirada, que em alguns momentos me faz pensar em oud, em outros em cedro e em outros em sândalo. Perdido entre as madeiras encontra-se também um excelente aroma de tabaco, mais seco que em seu perfume the Dark Heart of Old Havana.


O mais interessante disso tudo é que a mescla de aromas amadeirados e cologne clássica forma perfeitamente a visão do armário e do aroma retido nos objetos. Ainda sim, não parece que vc está diante de um conceito que existe meramente para ser cheirado e entendido, mas sim de um perfume completo, bem equilibrado, um excelente aroma amadeirado de qualidade. Uma história muito bem contada.

English:

In essence, Sarah McCartney's brand represents what niche perfumes where in the 1980s and 1990s, a more experimental brand that ranges from simple, modern and pleasing perfumes to chypres to old-fashioned fashion that appeals to a very specific audience. Sarah seems to be preoccupied with using essences with her storytelling skills and this includes any story that draws her attention and curiosity.

The Lion's Cupboard is one of the early scents of the brand, from when it came about after Sarah wrote a book where perfumes played a crucial role in the story of the characters and then set about putting that it into practice. And in Lion's Cupboard she goes back to a memory of her and her sister, a representation of a closet where their father kept his gloves, scarves and hats. It is the memory of the scents of a loved one, a familiar and cozy aroma. At the same time, the perfumer has the ability to make this memory a more universal and shareable experience.

I find interesting what Lion's Cupboard offers, a blend of nostalgia and modernity, a junction of the world of natural perfumery with synthetic perfumery. Its opening makes me think of something very English, a blend of aromatic lavender, almost medicinal, and aromatic herbs / citrus with something that brings me back to something of an amber aroma. It would be a more mature aroma and air of natural perfumery if what came later wasn't an interesting woody mixture, which at times makes me think of oud, others in cedar and others in sandalwood. Lost among the woods is also an excellent aroma of tobacco, drier than the one in the Dark Heart of Old Havana.


Most interesting of all is that the blend of woody aromas and classic cologne perfectly shapes the impression of the cabinet and the aroma retained in the objects sinde it. Still, it does not seem that you are faced with a concept that exists merely to be smelled and understood, but rather a complete, well-balanced perfume, an excellent woody aroma of quality. A story very well told.

Givenchy Eau de Vetiver/Vetyver - Fragrance Review


Português (click for english version):

Que o Vetiver tenha demorado tanto tempo para aparecer como uma nota proemiente da perfumaria masculina me parece mais uma questão mercadológica do que técnica. É razoavelmente comum sentir nos perfumes femininos vintage a sua presença, um aroma amadeirado que vinha principalmente de sintéticos e dava uma aura mais robusta a perfumaria em uma época que a mulher lutava por sua liberdade no mundo. A perfumaria masculina dessa época, porém, limitava-se mais a sua função na rotina de higiene do homem, complementando o ritual de barbear e de banho. Isso mesmo que lentamente foi mudando e no final da década de 50 a grife francesa Carven foi muito bem sucedida em então criar o primeiro perfume masculino com proeminencia na raiz de aroma amadeirado e robusto, algo perfeito para dar performance e maior complexidade aos perfumes masculinos. O sucesso foi tal que 2 anos depois surgiam perfumes para rivalizar com ele: a criação da Guerlain, de mesmo nome e o Le Vetiver/Vetyver da Givenchy, ambos lançados em 1959.

O Marketing menciona que Le Vetyver era um dos preferidos de Hubert de Givenchy e pelo que eu me lembro o perfume só foi descontinuado depois da morte do estilista. Provavelmente apesar do belo aroma que estou sentido Le Vetyver não ressoa bem com uma audiência mais jovem da mesma forma que o Vetiver da Guerlain (que também foi reformulado) e o da Carven. Há uma aura nesses 3 de uma sofisticação do velho mundo, um perfume pensado para evoluir em camadas, mostrar seus detalhes lentamente, não uma composição panorâmica com a preocupação de agradar imediatamente. A onipresença de novos materiais sintéticos que dão uma aura mais mineral na evolução de perfumes de vetiver certamente não ajudou com a popularidade dos mais antigos.


Para os que se aventuram, Le Vetyver é uma composição que combina aspectos cítricos clássicos, toques especiados, o aroma amadeirado da raiz e nuances powdery secundárias que arredondam as arestas da composição. O aroma do óleo essencial do vetiver em si não é dos mais fáceis, possuindo tanto uma nuance emborrachada em seu cheiro como um aroma meio úmido e aquático. Das 3 criações clássicas citadas eu diria que o Le Vetyver é o que mais suaviza essas nuances, enfatizando mais os cítricos suculentos e ardidos e os toques especiados secos. O vetiver vai aparecendo aos poucos, dando um ar mais amadeirado a composição, complementado por leves nuances atalcadas e adocicadas. É uma composição muito harmônica do começo ao fim e que vale a pena ir atrás.

English:

That the Vetiver took so long to appear as a main note in masculine perfumery seems to me more of a marketing matter than a technical one. It is fairly common to feel the presence of it in vintage fragrances for woman, a woody scent that came mostly from synthetic materials and gave a more robust aura to perfumery in a time when the woman was fighting for her freedom in the world. The masculine perfumery of that time, however, was limited more its function in the routine of hygiene of the man, complementing the ritual of shaving and of bath. That changed slowly tough and in the late 1950s the French label Carven was very successful in creating the first masculine perfume with prominence in with the robust and woody aroma of this root, something perfect to give performance and greater complexity to the masculine perfumes. The success was such that two years later perfumes appeared to rival it: the creation of Guerlain, of the same name and Le Vetiver / Vetyver of Givenchy, both released in 1959.

Marketing mentions that Le Vetyver was one of Hubert de Givenchy's favorites and as far as I remember the perfume was only discontinued after the stylist's death. Probably in spite of the beautiful aroma I'm feeling Le Vetyver does not resonate well with a younger audience in the same way as Guerlain's Vetiver (which has also been reworked) and Carven's. There is an aura in these 3 of an old world sophistication, a scent thought to evolve layers, show their details slowly, not a panoramic composition with the concern to please immediately. The omnipresence of new synthetic materials that give a more mineral aura in the evolution of vetiver perfumes certainly did not help with the popularity of the older ones.


For those who venture, Le Vetyver is a composition that combines classic citrus, spicy touches, the woody aroma of the root with powdery secondary nuances that round the edges of the composition. The aroma of vetiver essential oil itself is not one of the easiest, having both a rubbery nuance in its scent and a slightly moist and aquatic aroma. Of the 3 classic creations I would say Le Vetyver is the one that most softens these nuances, emphasizing more the succulent and bitter citrus and the dry spicy touches. The vetiver gradually appears, giving a more woody air to the composition, complemented by light powdery and sweet nuances. It's a very harmonic composition from beginning to end and worth going after.

Marni EDP - Fragrance Review


Português (click for english version):

De certa a forma a perfumista Daniela Andrier se tornou uma das principais vozes no minimalismo nos últimos 10 anos. Talvez a criação e sucesso do Prada Infusion em 2007 tenha dado forma a carreira de Daniela Andrier de uma forma que antes não era clara. Porém, já havia indícios desse caminho em criações como Lancome Attraction e Gucci Rush Man.
Dito isso, a perfumista se tornou uma escolha natural para casa de fragrâncias que na perfumaria comercial desejam se posicionar de uma forma mais distinta sem perder o apelo comercial, um estilo que o minimalismo de Andrier encaixa muito bem quando bem aplicado. Uma delas foi a Italiana Marni, que desejava criar algo mais individual, para uma mulher que não seguisse tendências. E nesse sentido, a casa optou por uma composição floral amadeirada e spicy, algo que se encaixaria perfeitamente em uma linha de nicho.
De certa forma, Andrier fez uma infusão de incenso e rosa para a Marni, um pefume bem elegante e usável. A rosa é vista pelos filtros das especiarias, que lhe conferem uma aura menos frutada e delicada e mais sensual. A Base de incenso, patchouli e madeiras é trabalhada de uma forma mais aerea, porém persistente. Não há o aspecto seco das madeiras ou o lado mais esfumaçado do incenso, e sim um aroma equilibrado de resinas e madeiras que se misturam as pétalas de rosa.
Apesar de lançado como feminino, Marni EDP é uma ótima pedida para o público masculino também. Considerando que nos últimos anos a tendência de florais masculinos com rosa em destaque cresceu, é uma criação que vale a pena ser conferida e descoberta por um novo público.

English:

In a certain way the perfumer Daniela Andrier has become one of the main voices in minimalism in the last 10 years. Perhaps the creation and success of Prada Infusion in 2007 shaped the career of Daniela Andrier in a way that was not clear before. However, there were indications of this path in creations such as Lancome Attraction and Gucci Rush Man.
That said, the perfumer has become a natural choice for brands that in commercial perfumery wish to position themselves in a more distinctive way without losing the commercial appeal, a style that Andrier minimalism fits very well when properly applied. One of them was the Italian Marni, who wanted to create something more individual, for a woman who did not follow trends. And in that sense, the house opted for a floral and spicy floral composition, something that would fit perfectly into a niche line.
In a way, Andrier made an infusion of incense and rose for Marni, a very elegant and usable pefume. The rose is seen by the filters of spices, which give it a less fruity and delicate and more sensual aura. The base of incense, patchouli and woods is worked in a more aerial but persistent way. There is not the dry look of the woods or the smoky side of the incense but a balanced scent of resins and woods that blend rose petals.
Although launched as a feminine fragrance, Marni EDP is a great fit for the male audience as well. Considering that in recent years the trend of male florals with rose in prominence has grown, it is a creation that is worth being conferred and discovered by a new audience.

Ajmal Senora - Fragrance Review


Português (click for english version):

Acho interessante como aspectos culturais influenciam muito a percepção das preferências olfativas para um determinado público. Vejo que a forma como a mulher e seus gostos olfativos são percebidos na cultura árabe e na ocidental são muito diferentes. Enquanto na nossa cultura a tendência dominante no momento são perfumes que raramente refletam uma personalidade mais ousada, na perfumaria árabe a mulher é vista com um gosto muito mais exótico (e, na minha opinião pessoal, bem mais interessante).

Isso talvez explique o motivo da Ajmal fazer um perfume como Senora, voltado ainda por cima para um público que na perfumaria ocidental raramente é tratado com muito refinamento: as moças jovens fazendo a transição entre a adolescência e a fase adulta. Apesar do nome talvez nos fazer pensar em uma mulher de idade mais avançada, a marca o posiciona (e o frasco ajuda a perceber isso), como uma criação para uma mulher em processo de descobrimento de si mesma. E é certamente o descobrimento poderoso, pautado numa combinação de especiarias, flores e notas almiscaradas.

Se o perfil olfativo estiver correto, as jovens árabes basicamente tem gosto de perfumaria de nicho ou dos perfumes mais ousados da perfumaria comercial do começo da década de 2000. Ajmal me faz pensar em um dos perfumes mais exóticos que eu já vi lançados dentro da perfumaria comercial, e que obviamente foi um fracasso de vendas: o feminino Madness da Chopard. É uma combinação que poucas vezes eu vi, um blend de especiarias secas, frutadas e ultra picantes acompanhadas de uma rosa quase que flamejante e uma base de musks aconchegantes e materiais incensados, amadeirados e ambarados. Senora consegue balancear mais a parte selvagem do Madness, de forma que a sua figura olfativa se torne mais almiscarada, confortável, mas sem perder o exotismo. É um perfume interessantíssimo disfarçado em um frasco rosa para um público jovem.

English:

I find it interesting how cultural aspects greatly influence the perception of olfactory preferences for a particular audience. I see that the way the woman and her olfactory tastes are perceived in Arab and Western culture are very different. While in our culture the dominant trend at the moment is perfumes that rarely reflect a more daring personality, in Arab perfumery the woman is seen with a much more exotic taste (and, in my personal opinion, much more interesting).

This may explain why Ajmal makes a perfume as Senora, which is directed to an audience that is rarely treated with much refinement in Western perfumery: young girls making the transition between adolescence and adulthood. Although the name may make us think of a woman of more advanced age, the brand positions it (and the bottle helps to perceive it) as a creation for a woman in the process of discovering herself. And it is certainly a powerful discovery, based on a combination of spices, flowers and musky notes.

If the olfactory profile is correct, Arab girls basically have a taste for niche perfumery or the more daring perfumes of commercial perfumery from the early 2000s. Ajmal makes me think of one of the most exotic perfumes I've ever seen thrown into the perfumery commercial, and that obviously was a sales failure: the feminine Chopard Madness. It is a combination that I have rarely seen, a blend of dry, fruity and ultra hot spices accompanied by an almost flaming rose and a base of warm musks and incense, woody and amber. Senora can balance much better the wild part of the Madness idea, so that her olfactory figure becomes more musky, comfortable, but without losing the exotic touch. It is an interesting perfume disguised in a pink bottle for a young audience.


Fresh Cannabis Rose - Fragrance Review

Português (click for english version):

Entendo que boa parte das marcas de perfumes evitam composições com destaque a nota de maconha por todo o aspecto pejorativo que está associado ao uso da mesma. Certamente não é o caso da Fresh, que em 2006 lançou seu Cannabis Santal e que se provou um sucesso entre o público masculino e feminino. 2 anos depois, em 2008, a marca criou Cannabis Rose, voltada mais para o público feminino mas que na prática é bem unissex também.

A co-fundadora da marca comenta que o objetivo era criar uma composição quente e atraente, o que de fato combina muito bem com a aura criada. É importante mencionar que não há nenhum aspecto herbal defumado ou nada que possa remeter ao aroma de maconha na forma de baseado e que a erva apenas contribui para reforçar o aspecto herbal da composição e contribuir com a aura sensual. As verdadeiras estrelas aqui são o patchouli e a rosa.


A Rosa de Cannabis Rose é mais carnal, bem intensa nos primeiros momentos, um aroma brilhante e licoroso de rosa com um quê meio vintage em sua aura. O Romã acaba contribuindo com um toque frutal um pouco ardido e que se mistura bem com a nuance de chocolate amargo, maconha e patchouli da composição. E conforme os momentos mais tórridos e o clímax de Cannabis Rose passam a composição se encaminha para um momento mais relax, uma aura aconchegante de musks e um leve quê amadeirado também. Não é um perfume polêmico, até porque a polêmica está mais no uso atribuído a erva do que ao aroma da erva em si. O resultado final é bem marcante e distinto, de fato sensual como se propõe a ser.

English:

I understand that most of the perfume brands avoid compositions with the marijuana note highlighted for all the pejorative aspect that is associated with the use of it. Certainly is not the case of Fresh, who in 2006 launched their Cannabis Santal which proved to be a success between the male and female audience. 2 years later, in 2008, the brand created Cannabis Rose, geared more towards the female audience but in practice very unisex as well.

The co-founder of the brand says that the goal was to create a warm and attractive composition, which in fact combines very well with the aura created. It is important to mention that there is no smoked herbal aspect or anything that can refer to the aroma of marijuana in the joint form and that the herb only contributes to strengthen the herbal and sensual aspect of the composition. The real stars here are the patchouli and the rose.


The Rose of Cannabis Rose is more carnal, very intense in the first moments, a bright and licorious aroma of rose with a kind of vintage aura. The pomegranate ends up contributing with a slightly fruity bitter touch that blends well with the nuance of bitter chocolate, cannabis and patchouli of the composition. And as the most torrid moments and the climax of Cannabis Rose pass, the composition moves towards a more relaxed moment, a cozy aura of musks and a light woody one as well. It is not a controversial perfume, even because the controversy is more in the use attributed to the herb than to the aroma of the herb itself. The end result is very striking and distinctive, indeed sensual as it purports to be.