20 de nov. de 2019

Boticario Zaad Go - Avaliação/Resenha/Review



Estendendo a temática de viagens olfativas aconchegantes e luxuosas o Boticário cria na linha Zaad o perfume Zaad Go. De certa forma a criação parece uma tentativa da marca de competir com a Natura em sua utilização de óleos exóticos naturais. Só que em vez de focar nos disponíveis dentro do Brasil a marca direciona seus esforços para um natural proveniente na China e disponibilizado pela Firmenich, a fruta Evodia. Zaad Go propõe todo um conceito de viagem até a China para a criação de um perfume que exalte o aroma agradável e exótico dessa fruta.

O mesmo problema que eu vejo no Zaad tradicional e no Zaad Mundo também se repete no Zaad GO. Os 3 são capazes de produzir perfumes sofisticados e elegantes em suas primeiras horas, porém morrem na pele na evolução. É curioso que a marca continue a insistir nisso ainda que continue a ser metralhada de críticas, como se fosse surda às reclamações do público.

Zaad Go parece uma viagem que não chega em seu destino, o que é uma pena pois seu aroma abre de maneira bem interessante. O perfume parece bem construído na saída apra explorar os aspectos verdes, florais, frutados e aromáticos da Evódia. Ao redor dela temos um leve frescor aquático, nuances especiadas picantes, um toque de incenso, fava tonka e até mesmo a presença de um oud exótico que parece remete ao perfume The Blend porém melhor trabalhada. A frustração é que depois de 3-4 horas acaba o dinheiro dessa viagem e você fica no meio do caminho, esperando por uma finalização decente que nunca vem. A marca não consegue fazer perfumes que sejam frescos, exóticos e com performance e infelizmente Go só confirma isso. Para um perfume nacional de mais de 200 reais é algo que desaponta.

Lancôme Idôle - Avaliação/Resenha/Review

Se de certa forma existe na perfumaria comercial uma corrida para gerar o grande sucesso de vendas pode-se dizer que a vencedora dessa corrida na década de 2010 foi a Lancôme com seu La Vie Est Belle. Investindo em um ar nostálgico, sofisticado e acessível La Vie ganhou inúmeras seguidoras e inúmeros perfumes similares que tentavam replicar seu sucesso. E se preparando para a nova década que está por vir a Lancôme lança o Idôle, o perfume que tem claramente as intenções de ser um sucesso tão grande quanto La Vie Est Belle.

Em Idôle a Lancôme investe pesado em proposta e inovação tecnológica mas infelizmente deixa a desejar no aroma. Idôle se propõe como ícone de uma nova geração de mulheres fortes, que representam o futuro, que sonham grande, que permanecem fortes e que são capazes de fazer o que desejarem. O perfume investe em uma atriz ícone de uma nova geração (Zendaya Coleman) e propõe um perfume feminista feito por perfumistas mulheres, um perfume feito para ser floral, leve e luminoso. Para completar a ousadia do projeto a marca propõe o frasco mais fino do mundo.

O problema é que se você tira o nome Lancôme, as propostas e até mesmo o frasco inovador e fino você fica com um perfume floral fresco que ainda que seja bem feito e equilibrado é comum e não tem uma identidade marcante como o La Vie Est Belle possuia. Idôle parece ir pelo mesmo caminho do Dior Joy e confunde oferecer um perfume floral fresco luminoso com um tedioso e que não parece sofisticado. A saída frutal fresca e brilhante me remete a produto de passar roupas e por mais que a marca dê destaque ao aroma da rosa o que se destaca primeiro é um jasmim verde e meio artificial, ressaltando o aspecto de esmalte do jasmim. A rosa aparece depois, delicada e fresca e também indistinta. O perfume depois disso evolui para uma base segunda pele predominante em musk. É um perfume seguro, fácil de usar, agradável e sem muita personalidade.

Acho irônico que o presidente da Lancôme diga em entrevista que Idôle pretende fazer uma afirmação política e feminista com Idôle, de mulheres que questionam o status-quo, se libertam das tradições e redefinem o sentido do sucesso. A perfumaria feminina nunca esteve tão descolada disso como atualmente, usando todos os códigos possíveis do que é caricatura do papel e representação da mulher. Ainda que pretenda fazer tais afirmações, Idôle é vazio de atitude política e feminista ao trazer um líquido rosa, uma atriz que representa um ideal de beleza longe da realidade e um aroma floral leve e radiante, justamente o que se espera de uma mulher e feito para que ela não marque com atitude o ambiente. É um perfume vazio de significado, indistinto e que se destaca mais pela inovação do frasco.

19 de nov. de 2019

Boticario Zaad Mondo EDP - Avaliação/Resenha/Review


Lançado em 2017, Zaad Mondo poderia ser visto como uma espécie de celebração/comemoração dos 10 anos de existência do perfume Zaad. Não que esse seja o primeiro flanker do Zaad disponível no mercado: em 2010 foi criado o Zaad Amber, em 2012 o Zaad Exclusivo e em 2015 o Zaad Vision. Entretanto, Mondo é o primeiro entre eles a retornar para os mesmos pontos fortes e fracos do perfume original, como uma espécie de sucessor do seu legado. Não concidentemente, Zaad Mondo também vai por um caminho Amadeirado e fresco, trocando dessa vez o frescor Aromático/Fougére por algo aquático e com nuances especiadas e frutadas.

No perfume Zaad que originou a família há uma temática implícita da busca de ingredientes de diversas regiões do Mundo e isso fica mais evidente na narrativa do Zaad Mondo, que une madeiras exóticas, especiarias de regiões diferentes, frutas cítricas, lavanda e ervas aromáticas. Acredito que a parte aquática e ozônica acabe refletindo o oceano e o céu, representando a viagem ao redor do mundo com esses ingredientes. É uma viagem bem comercial, diga-se de passagem, mas uma feita com muito conforto e um certo grau de sofisticação.

Não sei se é efeito dos testes na fita olfativa ou se houve uma pequena reformulação na mudança de frasco mas essa versão atual do Zaad Mondo abre com menos ênfase no acorde aquático e oceânico, abrindo espaço para o aroma especiado leve e refrescante do cardamomo. O zimbro surge logo em seguida, dando um toque spicy seco de bebida, esse se misturando a nuances aquáticas e verdes de violeta e um leve toque frutado.

Numa última fase Zaad Mondo mostra seu lado mais amadeirado e exótico, onde há um blend equilibribado de vetiver, cedro, sândalo patchouli e um leve toque exótico de cipriol, utilizado em geral para compor acordes comerciais de agarwood. Essa fase parece uma boa melhoria em relação ao Zaad original mas ainda sim se mostra suave para uma fragrância eau de parfum. De maneira geral, Mondo configura um perfume versátil, seguro, entre um aroma casual e algo mais refinado/elegante. Certamente um pouco mais de projeção/intensidade não faria mal a ninguém aqui.

Sisley Izia - Avalaição/Resenha/Review


A marca de perfumaria e cosméticos Sisley é praticamente uma resistência a forma como o mundo de luxo e da perfumaria evoluiu ao longo dos anos. Não é uma marca de nicho e também sequer se comporta como uma marca comercial contemporânea, com a pressão de perseguir tendências e lançar anualmente flankers e variações de suas fragrâncias. Os perfumes para a Sisley são como parte da família Ornano e refletem seu estilo de vida luxuoso, um luxo clássico e do passado e que pode se dar ao gosto de lançar uma nova fragrância a cada 3,5 ou até mesmo a cada 10 anos.

Dependendo de como você enxergar o lançamento da linha Eau de Sisley Izia seria o primeiro grande pilar feminino da marca após a criação de Soir De Lune em 2006. O perfume é um ode a maneira clássica de contar uma história na perfumaria: é o retrato de jardins de rosas no castelo de Lancut na Polônia, local onde Isabelle d'Ornano passou sua infância. Izia é o seu apelido em polonês e é um tributo a sua herança polonesa. É um trabalho onde a perfumista Amandine Clerc-Marie tinha o propósito de recriar o aroma das rosas favoritas de Isabelle. E o perfume mantém a narrativa familia ao trazer em sua campanha sua sobrinha.

Esse cuidado com a herança familiar e com a natureza preciosa e atemporal das rosas torna Izia justamente o que muitos perfumes tentam fazer e falham, uma jóia olfativa de rosas onde a grande estrela brilha trabalhada cuidadosamente, polida e exaltada pelo que a cerca. Izia é um ode clássico às rosas e seu aroma me faz pensar principalmente na rosa de maio e vejo que essa não é uma composição barata de rosas. Um aroma aveludado e verde de rosas tem seu caleidoscópio de nuances trabalhado em perfeita sintonia: o toque aldeídico e brilhante, tons frutados que remetem a frutas silvestres, o aroma mais verde e vegetal para representar as folhas. No centro reina em esplendor e beleza o toque aveludado, levemente atalcado e apimentado da rosa de maio, que é clássica sem soar antiquada aqui. A base cria ecos distantes de madeiras, musks e ambars para segurar o protagonismo da rosa até o último momento.

Eu vejo em Izia o verdadeiro luxo, aquele que sabe utilizar materiais preciosos para contar uma história mais pessoal, uma que tem a capacidade de ser relevante e interessante para um bom público. Não é um perfume que precisa vender a excelência de seus materiais, pois o seu aroma já fala por si só. É um clássico moderno capaz de trazer a rainha das flores e dar ela o trono que ela merece ter.