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3 de dez de 2017

Prada Olfactories Mirages Soleil Au Zenith - Fragrance Review


Português (click for english version):

De forma geral a linha Olfactories tentou uma abordagem mais ousada em seus conceitos e inspirações mas falhou nas interpretações que deu aos aromas em si, de forma que a inspiração surrealista e as referências cult se perdem nos produtos. Ainda que na coleção Mirages a marca ainda mire alto em suas inteções, a falta de foco/coerência parece ter sido deixada para trás. O objetivo aqui é claro, reinterpretar a dinâmica dos perfumes orientais com uma abordagem global. A marca certamente mira aqui no momento cultural atual que valoriza perfumes potentes e está claramente de olho no mercado árabe.

Soleil Au Zenith é o integrante da coleção que representa os perfumes orientais especiados e a marca promete uma sobrecarga de sensações, uma convergência de múltiplas culturas. E é exatamente isso que ela entrega com luxo e elegância no aroma. Soleil Au Zenith me parece uma viagem entre passado e presente, entre nuances que estão na moda versus aromas do passado. Poderia ser uma cacofonia de aromas, mas Daniela Andrier faz uma execução que torna tudo uma textura exótica arriscada e elegante.

A sobrecarga de sensações se traduz claramente em um perfume que me parece exigir multiplos usos para que se entenda melhor suas texturas. Em um nível mais superficial, vejo claramente a influência do aroma resinoso, doce e com nuances de canela do Spicebomb. É o aspecto mais contemporâneo dele, que escondo em seu centro uma execução mais clássica de um aroma de flor de cravo, mais seco e picante. Há um interessante aroma sedoso e lactônico de pêssego, que dá um toque frutal com um charme mais vintage a composição.

Apesar da marca apenas listar ylang entre as notas, vejo claramente influências de uma flora de laranjeira mais picante se misturando ao ylang e ao cravo, adornando o aroma das especiarias quentes e das nuances de bebida da composição. De fundo, a base também é complexa, em alguns momentos demonstrando o lado mais amadeirado e seco do sândalo e em outros pondo toda a ênfase nas resinas quentes e adocicadas. Ainda em outros momentos é possível perceber a influência de musks e nuances mais minerais intercalando com o resto da composição. É o tipo de composição que não usa a potência como desculpa para a falta do que falar e capricha na execução dos detalhes, unificando muito bem conceito e execução.

English:

Overall the Olfactories line attempted a bolder approach to its concepts and inspirations but failed in the interpretations that gave to the scents themselves, so that surrealist inspiration and cult references got lost in the products. Although in the Mirages collection the brand still aims high in its intentions, the lack of focus / coherence seems to have been left behind. The purpose here is to reinterpret the dynamics of oriental perfumes with a global approach. The brand certainly looks here at the current cultural moment that values ​​potent perfumes and is clearly eyeing the Arab market as well.

Soleil Au Zenith is part of the collection that represents spicyt oriental perfumes and the brand promises an overload of sensations, a convergence of multiple cultures. And that is exactly what it delivers with luxury and elegance in the aroma. Soleil Au Zenith seems to me a journey between past and present, between nuances that are trendy now versus aromas that aren't so much in fashion. It could be a cacophony of scents, but Daniela Andrier makes an execution that ties everything in an exotic texture risky and elegant.

The overload of sensations clearly translates into a perfume that seems to require multiple uses to better understand its textures. On a more superficial level, I clearly see the influence of Spicebomb's sweet, cinnamon-scented resinous aroma. It is the most contemporary aspect of it, which hides in its center a more classic execution of a carnation flower aroma, drier and more spicy. There is an interesting silky and lactonic peach aroma, which gives a fruity twist with a more vintage charm to the composition.

Although the brand only lists ylang among the notes, I clearly see influences of a more spicy orange blossom blending into the ylang and carnation, adorning the aroma of the hot spices and the boozy nuances. In the background, the base is also complex, at times showing the woody and dry side of sandalwood and in others putting all the emphasis on the warm and sweetened resins. Still in other moments it is possible to perceive the influence of musks and nuances more minerals intercalating with the rest of the composition. It is the type of composition that does not use power as an excuse for lack of what to say and caprice in the execution of details, unifying concept and execution very well.

27 de nov de 2017

Maison Martin Margiela Replica Funfair Evening - Fragrance Review


Português (click for english version):

Uma coisa interessante com relação as memórias é a forma como elas vêm a nossa mente. Alguns eventos nos são tão marcantes que de certa forma os lembramos como se estivessemos os vivenciando novamente, com todos os detalhes, texturas e cores possíveis. Em outros casos, a memória é mais uma lembrança distante, que quase escapa das nossas lembranças, uma espécie de borrão do que de fato vivenciamos. O perfume Funfair Evening da coleção Replica mistura as duas coisas em sua existência.

Na teoria, a marca parece desejar capturar um momento ultra-realista que registra uma feira de diversões no seu momento de entardecer. Um ambiente que registra o calor da noite, as risadas, melodias, cores marcantes e o aroma doce e açúcarado das guloseimas se espalhando pelo ar. É um ambiente vívido, intenso e que denota uma execução gourmand de forma bem clara.

E ainda sim, tudo isso soa distante, mais como ecos olfativos que reverberam no nariz da mesma forma que o barulho do mar sugere a praia e o oceano de forma distante quando encostamos uma concha na orelha. Funfair Evening nunca entrega a saturação que ele promete, o que pode ser tanto uma frustração como um alívio dependendo do quanto você gosta de gourmands açucarados. É um perfume que usa a suavidade e maciez dos musks como se eles fossem o vento, carregando o aroma suculento das frutas, a sensualidade e a cor da flores e a doçura açúcarada e vanílica que estaria presente em um parque de diversões. No máximo, o calor da pele torna mais vivido essa impressão aérea, mas ainda sim é bem mais periférico do que vibrante como o conceito promete.

English:

One interesting thing about memories is the way they come to our mind. Some events are so striking that in a way we remember them as if we were experiencing them again, with all the possible details, textures and colors. In other cases, a memory is more of a distant picture, which almost escapes our mind, a kind of blur of what we've actually experienced. The Funfair Evening perfume from the Replica Collection blends the two things into its existence.

In theory, the brand seems to want to capture an ultra-realistic moment that records an funfair in its transition to the night. An atmosphere that records the heat of the night, the laughter, melodies, striking colors, and the sweet, sugary scent of sweets spreading through the air. It is a vivid, intense environment that denotes a gourmand execution in a very clear way.


And yet, all this sounds distant, more like olfactory echoes that reverberate in the nose in the same way that the sound of the sea suggests the beach and the ocean im distant form when we lean a shell in the ear. Funfair Evening never delivers the saturation it promises, which can be both a frustration and a relief depending on how much you like sugary gourmands. It is a perfume that uses the softness and delicacy of the musks as if they were the wind, carrying the juicy aroma of the fruits, the sensuality and the color of the flowers and the sugary and vanilla sweetness that would be present in an amusement park. At most, the heat of the skin makes this aerial impression more alive, but still it is much more peripheral than vibrant as the concept promises.

Maison Martin Margiela Replica Promenade In The Gardens e At The Barbers - Fragrance Review


Português (click for english version):

Quando fazemos um teste em sequência de perfumes na pele, a ordem que é feito esse teste influência nas expectativas com relação a cada perfume testado. E talvez a minha escolha cronológica não tenha sido a melhor para entender a linha Replica, visto que os 3 primeiros são muito bons e elevam as expectativas com relação aos outros da linha, algo que infelizmente não acaba acompanhando nos 2 que os sucedem. Não que no momento a linha possua perfumes ruins, mas Promenade in the Gardens e At The Barbers não encantam com suas interpretações das memórias propostas.

Promenade in the gardens é inspirado no romantismo dos jardins ingleses e ilustrado por uma bela paisagem de um caminho composto principalmente de vegetação verde, um perfume que parece propor um passeio pelo aroma fresco e verde do mesmo. É certo que uma das características da linha Replica é produzir memórias coletivas que sejam abstratas ao ponto de serem subjetivas e, até um certo ponto, inacabadas. Mas o que acaba sendo uma força nos perfumes anteriores aqui é justamente uma fraqueza. Promenade in the gardens parece mais um perfume que tenta fazer uma versão moderna de um chypre rosa dos anos 80, onde a base é simplificada, o patchouli se torna mais limpo e o acorde floral controla o aroma frutado e quase fluorescente que as rosas apresentavam nessa época. A saída que poderia sugerir o aroma verde do jardim acaba criando um aroma mais fresco do que verde, com um leve aspecto frutado. Essa caminhada pelos jardins soa mais como um passeio perto de uma roseira do que um passseio por um jardim verde.

Já At The Barbers possui justamente o problema inverso encontrado em Promenade in the Gardens. Inspirado na memória da barbearia, é o perfume que soa mais masculino dentro da linha e o mais literal de todos, evocando a alma dos fougéres herbáceos clássicos de uma maneira mais direta. Falta alguma surpresa na execução da ideia, algo que pudesse trazer um elemento surpresa ao que se espera a um aroma de barbearia. Mas para quem curte esse tipo de perfume fougére é um prato cheio: at the barbers faz um belo calibre entre o aroma fresco da lavanda, as nuances cítricas e o toque herbáceo/amendoado da coumarina. As ervas são utilizadas com moderação, o que evita o excesso de aroma medicinal a composição. O cheiro de couro é mais um sussurro, um aroma defumado que se esconde nas nuances de musk e no acorde mais moderno de musgo de carvalho. É um perfume seguro, que evoca de forma bem precisa o ambiente que seu nome sugere, faltando o aspecto "inacabado" proposital que é um dna da linha.

English:

When we do sequential fragrance evaluations on skin, the order that is made certainly influences the expectations with regard to each perfume tested. And perhaps my chronological choice was not the best to understand the Replica line, since the first 3 are very good and they raised expectations with respect to the others in the line, something that unfortunately is not sustained with the 2 that follow them. It's not that until now the Replica line has bad perfumes, but Promenade in the Gardens and At The Barbers do not enchant with their interpretations of the proposed memories.

Promenade in the gardens is inspired by the romanticism of English gardens and illustrated by a beautiful landscape of a path composed mainly of green vegetation, a scent that seems to propose a stroll through the fresh and green aroma of it. It is certain that one of the characteristics of the Replica line is to produce collective memories that are abstract to the point of being subjective and, to some extent, unfinished. But what ends up being a force in the previous perfumes here is just a weakness. Promenade in the gardens looks more like a perfume that tries to make a modern version of a rose chypre from the 80's, where the base is simplified, the patchouli becomes cleaner and the floral accord controls the fruity and almost fluorescent aroma that the roses presented in that era. The opening that could suggest the green scent of the garden ends up creating a fresher aroma than greener one, with a slight fruity aspect. This walk through the gardens sounds more like a walk near a rosebush than a walk through a green garden.


Already At The Barbers has just the opposite problem found in Promenade in the Gardens. Inspired by the barbershop's memory, it is the perfume that sounds more masculine within the line and the most literal of all, evoking the soul of classic herbaceous fougéres in a more direct way. There is no surprise in the execution of the idea, something that could bring a surprise element to what is expected to a barbershop aroma. But for those who enjoy this type of fougére perfume this one is a full plate: at the barbers makes a fine caliber between the fresh scent of lavender, the citrus nuances and the herbaceous / almondy touch of the coumarin. The herbs are used in moderation, which avoids the excess medicinal aroma in the composition. The scent of leather is more of a whisper, a smoky aroma that hides in the nuances of musk and the more modern oakmoss interpretation. It is a safe perfume, which evokes precisely the environment that its name suggests, lacking the purposeful "unfinished" aspect that is a dna of the line.

23 de nov de 2017

Serge Lutens Section d'Or Sidi Bel-Abbès - Fragrance Review



Ainda que a coleção Section d'Or represente um afastamento das raízes da marca, Serge Lutens não deu as costas para o que o inspirou desde o começo. É visível que Lutens sempre foi fascinado e influenciado pela perfumaria árabe e pelas suas experiências com perfumes em Marrocos. Dessa vez ele faz uma homenagem indireta no nome a um homem santo e patrono do Marrocos, Side Bel Abbas, que foi homenageado na Argelia com uma cidade que foi uma espécie de base militar francesa.

A temática do perfume em si e suas notas atingem níveis crípticos máximo, que superam até mesmo os padrões da marca. Não há notas oficiais divulgadas e nem uma grande descrição. Siddi Bel-Abbès é atribuído apenas a um amor proibido. E ao conhecer esse perfume, o que me parece que o amor proibido retratado aqui é a união da perfumaria ocidental com a perfumaria árabe.

Lutens revisita aqui um de seus perfumes mais antigos, Fumerie Turque, dando uma nova direção ao aroma denso e defumado de tabacco da composição original. Sidi Bel-Abbès utiliza o mesmo tipo de tabaco, porém de uma forma menos saturada, seguindo uma lógica similar de estilo a encontrada em L'Incendiaire. Os primeiros momentos são similares a Fumerie Turque, com um aroma que remete inicialmente a fumo de corda. Alguns minutos depois um aroma mais brilhante e luminoso se revela, algo que parece ser uma influência cítrica. A partir desse momento o perfume ganha uma aura mais equilibrada, abrindo espaço para que se misture ao tabaco defumado nuances florais de rosa e um toque adocicado discreto de baunilha e tonka. O aroma de tabaco nunca se vai, entretanto quanto mais o tempo passa mais discreto ele se torna. Sidi Bel-Abbès pode representar um amor proibido, entretanto tal amor não é uma explosão de emoções, e sim uma espécie de encontro e harmonização de energiais espirituais distintas.

Se Fumerie Turque e Sidi Bel-Abbès fossem representações de uma mesma pessoa, certamente poderiamos dizer que Fumerie Turque representa a rebeldia, energia e explosão da juventude. Já Siddi Bel-Abbès representa o equilíbrio, maturidade e refinamento que muitos de nós só adquirimos com as experiências ao longo da vida. O único senão é que esse refinamento tem um preço: um que é literal (o de um produto de luxo mais exclusivo) como um figurativo(o distanciamento da base de clientes mais antigos da marca).

English:

Although the Section d'Or collection represents a departure from the roots of the brand, Serge Lutens did not turn his back on what inspired him from the beginning. It is apparent that Lutens has always been fascinated and influenced by Arab perfumery and his experiences with perfumes in Morocco. This time he does an indirect homage in the name to a holy man and patron of Morocco, Side Bel Abbas, who was honored in Algeria with a city that was a kind of French military base.

The theme of the perfume itself and its notes reach maximum cryptic levels, which surpass even the brand's standards. There are no official notes and no great description. Sidi Bel-Abbès is attributed only to a forbidden love. And after trying this perfume, it seems to me that the forbidden love pictured here is the union of Western perfumery with Arab perfumery.

Lutens revisits here one of his earliest perfumes, Fumerie Turque, giving a new direction to the dense and smoked aroma of tabacco from the original composition. Sidi Bel-Abbès uses the same type of tobacco, but in a less saturated form, following a similar logic of style found in L'Incendiaire. The first moments are similar to Fumerie Turque, with an aroma that initially refers to smoky tobacco. A few minutes later a brighter aroma reveals itself, something that seems to be a citrus influence. From that moment the scent gains a more balanced aura, making room for smoky tobacco to blend into floral nuances of rose and a sweetly discreet vanilla and tonka touch. The aroma of tobacco is never gone, however the more time goes by the more discreet it becomes. Sidi Bel-Abbès may represent a forbidden love, but such love is not an explosion of emotions, but a kind of encounter and harmonization of distinct spiritual energies.

If Fumerie Turque and Sidi Bel-Abbès were representations of the same person, we could certainly say that Fumerie Turque represents the rebellion, energy and explosion of youth. Already Sidi Bel-Abbès represents the balance, maturity and refinement that many of us only get with life-long experiences. The only drawback is that this refinement comes at a price: one that is literal (that of a more exclusive luxury product) and also figurative (distancing from the brand's older customer base).

Serge Lutens Section d'Or L'Incendiaire - Fragrance Review


Português (click for english version):

A trajetória da marca Serge Lutens dentro do mundo da perfumaria pode ser comparada a de alguns músicos que começam com uma imagem comercial mais alternativa e que acabam fazendo a transição para a cultura pop conforme eles crescem e sua audiência cresce ao longo do tempo. É certo que desde o começo a marca e seu autor tinham indícios de que Lutens não se resumia apenas a estudos dramáticos e intensos dos aromas e isso pode ser visto em composições como Clair de Musc, Gris Clair e Fleurs de Citronnier. Mas nos últimos anos isso nunca esteve tão claro e em 2014 a coleção Section D'Or certamente marca o início de um novo capítulo na marca.

Serge Lutens considera a Section D'Or uma mudança radical de um mundo mais dark. Não apenas isso, é o início de uma saga onde o artista e sua marca miram no território da perfumaria exclusiva/seletiva, onde imagem, posicionamento e preço são cruciais para vender o luxo a uma clientela disposta a pagar o preço. Certamente há um risco maior nisso, e ideia de contrabalancear escuridão e luz é uma forma de fazer o lado mais dark, saturado de lutens um luxo mais fácil de ser consumido.

O primeiro perfume dessa saga, L'Incendiaire, é um forma perfeita de começar isso. Eu vejo que aqui há uma preocupação justamente em aliar escuridão e luz, luxo e instintos, e essa tentativa é algo que certamente pode soar menos interessante aos que gostam dos perfumes mais radicais da marca. Não há divulgação de notas, mas L'Incendiaire na minha impressão não foge muito do favorecimento da influência da perfumaria árabe em Lutens, aqui convertida do conceitual para o luxo.


L'Incendiaire tem um fio condutor, um aroma animálico que parece uma combinação de nuances de agarwood, castoreum e musks. É um aroma oleoso, com nuances de couro e algo que remete a suor de alguma forma. Entretanto, isso é balanceado com especiarias quentes e uma nuance que me remete a bebida, que ajuda a criar a ideia da chama que é vendida no conceito do perfume. Conforme evolui, o lado mais árabe/animálico/dark é suavizado e o perfume se rende a tons amadeirados mais cremosos e um toque sutil de flores que trás um maior equilíbrio a ideia. É curiosamente um perfume que parece depender pesadamente de notas de base ao mesmo tempo em que remove o peso delas e tenta trazer essa luminosidade e equilíbrio ao seu lado mais agressivo. Isso tem um preço, porém: apesar da concentração parfum, L'Incendiaire depois que passa a saída se torna um perfume bem mais delicado, o que certamente pode desapontar alguns. Apesar disso, é uma composição bem feita, elegante e condizente com o mercado de luxo a qual ela se direciona. É um perfume que, diferente de outros lutens, depende mais do conjunto da obra para ser apreciado do que apenas do perfume em si.

English:

The Serge Lutens brand trajectory within the world of perfumery can be compared to that of some musicians who start with a more alternative commercial image and who end up making the transition to pop culture as they grow and their audience grows over time. It is true that from the beginning the brand and its author had indications that Lutens was not restricted to only dramatic and intense studies of the aromas and this can be seen in compositions like Clair de Musc, Gris Clair and Fleurs de Citronnier. But in recent years this has never been so clear and in 2014 the Section D'Or collection certainly marks the beginning of a new chapter in the brand.

Serge Lutens considers Section D'Or a departure from a darker world. Not only that, it is the beginning of a saga where the artist and his brand look in the territory of exclusive/selective perfumery, where image, positioning and price are crucial to sell the luxury to a clientele willing to pay the price. Certainly there is a greater risk in this, and the idea of ​​counterbalancing darkness and light is a way of making the darker and saturated lutens side an easier luxury to be consumed.

The first perfume of this saga, L'Incendiaire, is a perfect way to start this. I see that here there is a concern precisely to ally darkness and light, luxury and instincts, and this attempt is certainly something that may sound less interesting to those who like the most radical perfumes of the brand. There is no disclosure of notes, but L'Incendiaire in my impression does not escape much of the arab perfumery influence in Lutens, here converted from conceptual to luxury.


L'Incendiaire has a strand, an animalic aroma that looks like a combination of nuances of agarwood, castoreum and musks. It is an oily scent, with leathery nuances and something that refers to sweat somehow. However, this is balanced with hot spices and a boozy naunce, which helps to create the idea of ​​the flame that is sold in the perfume concept. As it evolves, the more arab/animalic/ dark side is softened and the scent surrenders to more creamy woodsy tones and a subtle hint of flowers that brings more balance to the idea. It is curiously a scent that seems to rely heavily on base notes while it removes the weight of them and tries to bring luminosity to that and balance to its more aggressive side. This has a price, however: despite the parfum concentration, L'Incendiaire after the opening becomes a much more delicate fragrance, which certainly can disappoint some. Despite this, it is a well made composition, elegant and consistent with the luxury market to which it is directed. It is a perfume that, unlike other lutens, depends more on the whole of the work to be appreciated than just the perfume itself.

15 de nov de 2017

Le Jardin Retrouvé Verveine d'Été,Rose Trocadero, Tubéreuse Trianon e Sandalwood Sacré - Fragrance Reviews



There are two things that came to mind as I went through my second stage of using and understanding the perfumes of Le Jardin Retrouvé. They are questions that end up appearing not only by the perfumes themselves, but by the value proposition that the brand creates.

The first of these is something related to the positioning of the brand in the search for quality ingredients. Does the current perception of consumer quality really align with this? I realize that a part of the market sees quality not because of the coherence of the aroma itself or the details, but because of the technical requirements: if a perfume does not project intensely and lasts many hours on the skin, it has not the expected quality. These are challenges that the brand faces or will face in some of its compositions, which seem delicate watercolors.

The second is how the market seems to be cyclical in relation to the concepts in perfumery creation. Think of such creations from a time when the market was dominated by perfumes that created gigantic concepts (opium, poison, kouros, among others) and compared with the emphasis on a more direct design that emphasizes and works the richness of a note. And today, this has returned to be a trend, which puts Jardin Retrouvé in a curious position where it sounds both classic and modern in its approach. It is a position that the brand can further explore in the future if it decides to go beyond its historical catalog.



It is interesting that you don't have  more brands exploring perfumes with the theme of Verveine, a herbal citrus concept that besides conveying a freshness that many appreciate passes a sophistication that does not sound tired. Of the 3 most citrus offerings of the brand, Verveine is the one that has a slightly more masculine aura and the one with the best performance on the skin. The fragrance opens with a delicious juicy lemon scent and the nuances fenne nuances in verbena, complete with aromatic basil touches and mentholated eucalyptus ones. It is a delightful, relatively complex freshness that evolves into a base that blends the woody, grassy scent of vetiver with a moist, earthy touch of oak moss. In composition style, Verveine d'Été also makes me think of a classic French brand, Guerlain, and could be a brand launch in its colognes line.



Rose Trocadéro is one of the perfumes that seems indirectly positioned more for the female audience given its floral and delicate aroma of roses. It is another case where the contrast between classic and modern is very evident in my opinion: although the theme of the roses chosen here is closer to the classic perfumery, the execution perfectly matches the current moment that seeks a flower execution that exalts its freshness and delicacy. The composition actually smells Rosa Centifollia to me, showing the more dewy, satiny and green side of the rose. There is a fruity touch of blackcurrant that works on two levels: at first it imparts a sweet aroma that breaks part of the sour side of the rose and in a second it adds a fruity side more acid and green. The use of the clove ends up being another accessory, complementing the spicy nuances that we can find in the rose and creating a harmony with the berry touch. As in many modern perfumes, the base is made more to hold the opening and evolution and ends up becoming almost transparent, a second skin musk that invites a reapplication so that we return to feel the floral and fruity delicacy of the composition.



Of all the perfumes relaunched by the brand one of the closest to the themes of the decade in which Le Jardin Retrouvé's business has developed is Tubéreuse Trianon. During the 80's the Tuberose theme was well explored in creations that gave it a gigantic and neon structural aspect and no matter how Tubereuse Trianon goes along this grandiose line there is greater care with the balance and the roughness that a classic tuberose accord can pass. The narcotic aroma of the flower is recreated by a juxtaposition of the fruity and orange blossom tones of jasmine sambac with the white and complex floral aroma of the ylang, complemented by the green nuances of the tuberose itself. Curiously, the fruity look of the composition seems to emerge after the narcotic tone gives a smoother, imparting a raspberry sweetness that seems to end up on a base that also depends primarily on a musk second skin scent but which offers a light woody touch together.



There is a scent that escapes the minimalist theme that permeates all the perfumes of the collection, including the most intense ones like Tubéreuse Trianon and Cuir de Russie. Here we return to the 80s with Sandalwood Sacré in a perfume full of layers to be unfolded. At first this may seem contradictory to the theme of a perfume that evokes the ambience of a Buddhist temple, but the first impression is precisely that of an aroma of a spiritual incense, permeated by the aroma of a rich floral bouquet. Here there is a mix of energies, yan and yang, where the sacred incense mixes with a carnal touch of white flowers that even show their most indolent side in the midst of the seriousness of the composition. There are nuances of leather, iris and violet in a secondary way and for a third time I find myself thinking again of a Chanel creation. After the zen-maximalist impact of the opening, Sandalwood Sacre brings reminds me of something I did not imagine I would like but I appreciated a lot, a less powdery and amore cleaner and direct Antaeus version. The sandalwood eventually appears, finishing the composition with a sober woody tone, slightly creamy and of great quality. Challenging at first but a highlight on the line.

Le Jardin Retrouvé Verveine d'Été,Rose Trocadero, Tubéreuse Trianon e Sandalwood Sacré - Avaliações


Há duas coisas que me vieram a mente enquanto passava pela minha segunda etapa de uso e entendimento dos perfumes da Le Jardin Retrouvé. São questionamentos que acabam surgindo não apenas pelos perfumes em si, mas pela proposta de valor que a marca cria.

A primeira delas é algo relacionado ao posicionamento da marca na busca de ingredientes de qualidade. Será que a percepção atual de qualidade do consumidor está realmente alinhada com isso? Percebo que uma parte do mercado vê qualidade não pela coerência do aroma em si ou pelos detalhes, mas sim pelos requisitos técnicos: se um perfume não projeta intensamente e dura muitas horas na pele, ele não tem não a qualidade esperada.É talvez um dos desafios que a marca enfrenta ou enfrentará em algumas de suas composições, que parecem delicadas aquarelas.

A segunda delas é como o mercado parece possuir um comportamento cíclico em relação aos conceitos de criação da perfumaria. Pense que tais criações são de uma época onde o mercado estava dominado por perfumes que criavam conceitos gigantescos (opium, poison, kouros, entre outros) e compare com a ênfase em um design mais direto que enfatiza e trabalha a riqueza de uma nota. E hoje, isso voltou a ser uma tendência, o que coloca a Jardin Retrouvé em uma curiosa posição onde ela soa tanto clássica como moderna em sua abordagem. É uma posição que inclusive a marca pode explorar mais no futuro se decidir ir além de seu catálogo histórico.



É interessante que mais grifes ainda não explorem perfumes com a temática de Verbena, um conceito cítrico herbal que além de conver um frescor que muitos apreciam passa uma sofisticação que não soa batida. Das 3 ofertas mais cítricas da marca, Verveine é a que possui uma aura um pouco mais masculina e a com a melhor performance na pele. O perfume abre com um delicioso aroma suculento de limão e as nuances de erva doce da verbena, completado com toques aromáticos de basilicão e mentolados de eucalipto. É um frescor delicioso, relativamente complexo e que evolui para uma base que mistura o aroma amadeirado e de capim do vetiver com um toque terroso e úmido de musgo de carvalho. Em estilo de composição, Verveine d'Été também me faz pensar em uma grife clássica francesa, a Guerlain, e poderia tranquilamente ser um lançamento da marca na sua linha de colognes.



Já Rose Trocadéro é um dos perfumes da marca que parece indiretamente posicionado mais para o público feminino dado seu aroma floral e delicado de rosas. É um outro caso onde o contraste entre clássico e moderno fica bem evidente na minha opinião: apesar da temática das rosas escolhidas aqui se aproximar mais da perfumaria clássica, a execução casa perfeitamente com o momento atual que busca uma execução da flor que exalta seu frescor e delicadeza. A composição de fato passa a qualidade da Rosa de Maio para mim, mostrando o lado mais orvalhado, acetinado e verde da rosa. Há um toque frutado de groselha que funciona em dois níveis: em um primeiro momento ele confere um aroma adocicado que quebra parte do lado mais azedinho da rosa e em um segundo momento ele acrescenta um lado frutal mais ácido e verde. O uso do cravo acaba sendo mais um acessório, complementando as nuances especiadas que podemos encontrar na rosa e criando uma harmonia com a groselha. Como em muitos perfumes modernos, a base é feita mais para segurar a saída e evolução e acaba se tornando quase transparente, um musk segunda pele que convida uma reaplicação para que voltemos a sentir a delicadeza floral e frutada da composição.



De todos os perfumes relançados pela marca um dos que mais se aproxima dos temas da década onde os negócios da Le Jardin Retrouvé se desenvolveram é Tubéreuse Trianon. Durante os anos 80 a temática da Tuberosa foi bem explorada em criações que lhe conferiam um aspecto estrutural gigantesco e neon e por mais que Tubéreuse Trianon vá por essa linha grandiosa há um cuidado maior com o equilíbrio e a aspereza que um acorde clássico de tuberosa pode passar. O aroma narcótico da flor e recriado por uma justaposição dos tons frutados e de flor de laranjeira do jasmim sambac com o aroma floral branco e complexo do ylang, complementado pelas nuances verdes da própria tuberosa. Curiosamente, o aspecto frutado da composição parece emergir depois que o tom narcótico dá uma suavizada, conferindo uma doçura de framboesa que parece terminar em uma base que também depende primariamente de um aroma de musk segunda pele mas que oferece um leve toque amadeirado junto.



Há um perfume que escapa da temática minimalista que permeia todos os perfumes da coleção, inclusive os mais intensos como Tubéreuse Trianon e Cuir de Russie. Aqui voltamos para os anos 80 com Sandalwood Sacré com um perfume repleto de camadas a serem desbravadas. A princípio isso pode parecer contraditório com a temática de um perfume que evoca o ambiente de um templo budista. Mas a primeira impressão é justamente a de um aroma de um incenso espiritual, permeado do aroma de um rico bouquet floral. Aqui há um mix de energias, yan e yang, onde o sagrado do incenso se mistura a um toque carnal de flores brancas que até mesmo mostram seu lado mais indólico em meio a seriedade da composição. Há nuances de couro, de iris e de violeta de uma forma secundária e por uma terceira vez me vejo pensando novamente em uma criação da Chanel. Passado o impacto zen-maximalista da saída, Sandalwood Sacré me remete e algo que eu não imaginava que gostaria mas que apreciei muito, uma versão menos powdery, mais limpa e direta do Antaeus. O sândalo eventualmente aparece, finalizando a composição com um tom amadeirado sóbrio, levemente cremoso e de muita qualidade. Desafiador a princípio mas um destaque na linha.