Pesquisar este blog

15 de nov de 2017

Le Jardin Retrouvé Verveine d'Été,Rose Trocadero, Tubéreuse Trianon e Sandalwood Sacré - Fragrance Reviews



There are two things that came to mind as I went through my second stage of using and understanding the perfumes of Le Jardin Retrouvé. They are questions that end up appearing not only by the perfumes themselves, but by the value proposition that the brand creates.

The first of these is something related to the positioning of the brand in the search for quality ingredients. Does the current perception of consumer quality really align with this? I realize that a part of the market sees quality not because of the coherence of the aroma itself or the details, but because of the technical requirements: if a perfume does not project intensely and lasts many hours on the skin, it has not the expected quality. These are challenges that the brand faces or will face in some of its compositions, which seem delicate watercolors.

The second is how the market seems to be cyclical in relation to the concepts in perfumery creation. Think of such creations from a time when the market was dominated by perfumes that created gigantic concepts (opium, poison, kouros, among others) and compared with the emphasis on a more direct design that emphasizes and works the richness of a note. And today, this has returned to be a trend, which puts Jardin Retrouvé in a curious position where it sounds both classic and modern in its approach. It is a position that the brand can further explore in the future if it decides to go beyond its historical catalog.



It is interesting that you don't have  more brands exploring perfumes with the theme of Verveine, a herbal citrus concept that besides conveying a freshness that many appreciate passes a sophistication that does not sound tired. Of the 3 most citrus offerings of the brand, Verveine is the one that has a slightly more masculine aura and the one with the best performance on the skin. The fragrance opens with a delicious juicy lemon scent and the nuances fenne nuances in verbena, complete with aromatic basil touches and mentholated eucalyptus ones. It is a delightful, relatively complex freshness that evolves into a base that blends the woody, grassy scent of vetiver with a moist, earthy touch of oak moss. In composition style, Verveine d'Été also makes me think of a classic French brand, Guerlain, and could be a brand launch in its colognes line.



Rose Trocadéro is one of the perfumes that seems indirectly positioned more for the female audience given its floral and delicate aroma of roses. It is another case where the contrast between classic and modern is very evident in my opinion: although the theme of the roses chosen here is closer to the classic perfumery, the execution perfectly matches the current moment that seeks a flower execution that exalts its freshness and delicacy. The composition actually smells Rosa Centifollia to me, showing the more dewy, satiny and green side of the rose. There is a fruity touch of blackcurrant that works on two levels: at first it imparts a sweet aroma that breaks part of the sour side of the rose and in a second it adds a fruity side more acid and green. The use of the clove ends up being another accessory, complementing the spicy nuances that we can find in the rose and creating a harmony with the berry touch. As in many modern perfumes, the base is made more to hold the opening and evolution and ends up becoming almost transparent, a second skin musk that invites a reapplication so that we return to feel the floral and fruity delicacy of the composition.



Of all the perfumes relaunched by the brand one of the closest to the themes of the decade in which Le Jardin Retrouvé's business has developed is Tubéreuse Trianon. During the 80's the Tuberose theme was well explored in creations that gave it a gigantic and neon structural aspect and no matter how Tubereuse Trianon goes along this grandiose line there is greater care with the balance and the roughness that a classic tuberose accord can pass. The narcotic aroma of the flower is recreated by a juxtaposition of the fruity and orange blossom tones of jasmine sambac with the white and complex floral aroma of the ylang, complemented by the green nuances of the tuberose itself. Curiously, the fruity look of the composition seems to emerge after the narcotic tone gives a smoother, imparting a raspberry sweetness that seems to end up on a base that also depends primarily on a musk second skin scent but which offers a light woody touch together.



There is a scent that escapes the minimalist theme that permeates all the perfumes of the collection, including the most intense ones like Tubéreuse Trianon and Cuir de Russie. Here we return to the 80s with Sandalwood Sacré in a perfume full of layers to be unfolded. At first this may seem contradictory to the theme of a perfume that evokes the ambience of a Buddhist temple, but the first impression is precisely that of an aroma of a spiritual incense, permeated by the aroma of a rich floral bouquet. Here there is a mix of energies, yan and yang, where the sacred incense mixes with a carnal touch of white flowers that even show their most indolent side in the midst of the seriousness of the composition. There are nuances of leather, iris and violet in a secondary way and for a third time I find myself thinking again of a Chanel creation. After the zen-maximalist impact of the opening, Sandalwood Sacre brings reminds me of something I did not imagine I would like but I appreciated a lot, a less powdery and amore cleaner and direct Antaeus version. The sandalwood eventually appears, finishing the composition with a sober woody tone, slightly creamy and of great quality. Challenging at first but a highlight on the line.

Le Jardin Retrouvé Verveine d'Été,Rose Trocadero, Tubéreuse Trianon e Sandalwood Sacré - Avaliações


Há duas coisas que me vieram a mente enquanto passava pela minha segunda etapa de uso e entendimento dos perfumes da Le Jardin Retrouvé. São questionamentos que acabam surgindo não apenas pelos perfumes em si, mas pela proposta de valor que a marca cria.

A primeira delas é algo relacionado ao posicionamento da marca na busca de ingredientes de qualidade. Será que a percepção atual de qualidade do consumidor está realmente alinhada com isso? Percebo que uma parte do mercado vê qualidade não pela coerência do aroma em si ou pelos detalhes, mas sim pelos requisitos técnicos: se um perfume não projeta intensamente e dura muitas horas na pele, ele não tem não a qualidade esperada.É talvez um dos desafios que a marca enfrenta ou enfrentará em algumas de suas composições, que parecem delicadas aquarelas.

A segunda delas é como o mercado parece possuir um comportamento cíclico em relação aos conceitos de criação da perfumaria. Pense que tais criações são de uma época onde o mercado estava dominado por perfumes que criavam conceitos gigantescos (opium, poison, kouros, entre outros) e compare com a ênfase em um design mais direto que enfatiza e trabalha a riqueza de uma nota. E hoje, isso voltou a ser uma tendência, o que coloca a Jardin Retrouvé em uma curiosa posição onde ela soa tanto clássica como moderna em sua abordagem. É uma posição que inclusive a marca pode explorar mais no futuro se decidir ir além de seu catálogo histórico.



É interessante que mais grifes ainda não explorem perfumes com a temática de Verbena, um conceito cítrico herbal que além de conver um frescor que muitos apreciam passa uma sofisticação que não soa batida. Das 3 ofertas mais cítricas da marca, Verveine é a que possui uma aura um pouco mais masculina e a com a melhor performance na pele. O perfume abre com um delicioso aroma suculento de limão e as nuances de erva doce da verbena, completado com toques aromáticos de basilicão e mentolados de eucalipto. É um frescor delicioso, relativamente complexo e que evolui para uma base que mistura o aroma amadeirado e de capim do vetiver com um toque terroso e úmido de musgo de carvalho. Em estilo de composição, Verveine d'Été também me faz pensar em uma grife clássica francesa, a Guerlain, e poderia tranquilamente ser um lançamento da marca na sua linha de colognes.



Já Rose Trocadéro é um dos perfumes da marca que parece indiretamente posicionado mais para o público feminino dado seu aroma floral e delicado de rosas. É um outro caso onde o contraste entre clássico e moderno fica bem evidente na minha opinião: apesar da temática das rosas escolhidas aqui se aproximar mais da perfumaria clássica, a execução casa perfeitamente com o momento atual que busca uma execução da flor que exalta seu frescor e delicadeza. A composição de fato passa a qualidade da Rosa de Maio para mim, mostrando o lado mais orvalhado, acetinado e verde da rosa. Há um toque frutado de groselha que funciona em dois níveis: em um primeiro momento ele confere um aroma adocicado que quebra parte do lado mais azedinho da rosa e em um segundo momento ele acrescenta um lado frutal mais ácido e verde. O uso do cravo acaba sendo mais um acessório, complementando as nuances especiadas que podemos encontrar na rosa e criando uma harmonia com a groselha. Como em muitos perfumes modernos, a base é feita mais para segurar a saída e evolução e acaba se tornando quase transparente, um musk segunda pele que convida uma reaplicação para que voltemos a sentir a delicadeza floral e frutada da composição.



De todos os perfumes relançados pela marca um dos que mais se aproxima dos temas da década onde os negócios da Le Jardin Retrouvé se desenvolveram é Tubéreuse Trianon. Durante os anos 80 a temática da Tuberosa foi bem explorada em criações que lhe conferiam um aspecto estrutural gigantesco e neon e por mais que Tubéreuse Trianon vá por essa linha grandiosa há um cuidado maior com o equilíbrio e a aspereza que um acorde clássico de tuberosa pode passar. O aroma narcótico da flor e recriado por uma justaposição dos tons frutados e de flor de laranjeira do jasmim sambac com o aroma floral branco e complexo do ylang, complementado pelas nuances verdes da própria tuberosa. Curiosamente, o aspecto frutado da composição parece emergir depois que o tom narcótico dá uma suavizada, conferindo uma doçura de framboesa que parece terminar em uma base que também depende primariamente de um aroma de musk segunda pele mas que oferece um leve toque amadeirado junto.



Há um perfume que escapa da temática minimalista que permeia todos os perfumes da coleção, inclusive os mais intensos como Tubéreuse Trianon e Cuir de Russie. Aqui voltamos para os anos 80 com Sandalwood Sacré com um perfume repleto de camadas a serem desbravadas. A princípio isso pode parecer contraditório com a temática de um perfume que evoca o ambiente de um templo budista. Mas a primeira impressão é justamente a de um aroma de um incenso espiritual, permeado do aroma de um rico bouquet floral. Aqui há um mix de energias, yan e yang, onde o sagrado do incenso se mistura a um toque carnal de flores brancas que até mesmo mostram seu lado mais indólico em meio a seriedade da composição. Há nuances de couro, de iris e de violeta de uma forma secundária e por uma terceira vez me vejo pensando novamente em uma criação da Chanel. Passado o impacto zen-maximalista da saída, Sandalwood Sacré me remete e algo que eu não imaginava que gostaria mas que apreciei muito, uma versão menos powdery, mais limpa e direta do Antaeus. O sândalo eventualmente aparece, finalizando a composição com um tom amadeirado sóbrio, levemente cremoso e de muita qualidade. Desafiador a princípio mas um destaque na linha.

13 de nov de 2017

Le Jardin Retrouvé Eau des Délices, Citron Boboli e Cuir de Russie - Fragrance Reviews


My journey through the Jardin Retrouvé perfumes began by chance, in a post where the brand owner launched a discussion as to what would define a niche brand or not. This discussion led to an exchange of views between Michel Gutsatz and myself, and ultimately lead to a proposal for me to have a chance to try the brand's perfumes, which I decided to accept in order to understand what kind of niche Jardin Retrouvé would be.

I use the word type because in my perception / experience there is an error today when talking about niche as being a single entity. From the demands that the mass market could not meet, a very complex universe of players working in different price ranges and creativity / originality emerged. This in fact only happened due to the success of public and critics with respect to the creations in this sector.

Well, Le Jardin Retrouvé positions itself as a pioneer in the niche sector and certainly if it was not the first brand to create the bases for this was one of the pioneers. In perfumery history this is not always clear, since sadly it is a sector that prefers not to preserve or open to the public its historical details. Created in 1975, the brand emerged from the dissatisfaction of the perfumer Yuri Gutsatz with the lack of creative freedom and the focus on marketing, which reduced the avaliable costs for formulation. Perhaps the perfumer realized that the industry was going on a no-go path in a business world where perfumery would increasingly become a mass-market business rather than a complement of identity and a craft business with touches of art.

In the current scenario, I would say that the spirit of creation and existence of the brand positions it in a kind of classic niche that seems to preserve the origins of perfumery before this transition from quality and individuality to marketing and massification. It is a scenario where many more traditional brands have somehow ended up positioning several of their classics assets into more selective distributions and more exclusive runs (see Chanel and their Les Exlusifs). It is a type of niche where the greater concern is in a way with harmony and aesthetics and not with notes that are in fashion or obsessive needs with fixation and projection.




Eau des Delices is perhaps one of the most classic and timeless creations of the brand. Offered as an Eau Fraiche, its scent makes me think of the classic Colognes made at a time where its main purpose was to finalize the toilette process and a reapplied use during the day to bring more freshness. It is a light, refreshing aroma that revolves around the citrus juiciness, the half bitter aspects of the petigrain and the fragrant, floral and aromatic aura. There is a concern in creating a discreet base with shades of moss and woods, but the emphasis here is more on coolness and delicacy than on concern for the intensity of fact. Eau des Délices in its execution reminds me of Chanel's classic Eau de Cologne.



Citron Boboli is also a creation with citrus and fresh nuances, however the color palette compared to Eau des Delices is quite different. While Eau des Delices owes a translucent orange hue to its scent, Citron Boboli creates a bright, vivid green aura in its first few minutes. It is a harmony that contrasts the green citrus intensity of the lemon with a more delicate galbanum, which has nuances of cut grass but does not have the weight and the aroma of leather that the galbanum resinoid possesses. The use of clove and black pepper creates an interesting harmony, a contrast between something hot, dry and spicy and something citrus, fresh and green. Orange and petitgrain that go into composition round out the idea's exoticism and bring it to the field of freshness and delicacy. The scent seems to linger on the skin in a light musky, musky whisper and an intense version of his idea would be very interesting.



In my first run of impressions, Cuir de Russie proved to be a favorite. I find it curious how fragrances that suit this kind of quality and elegance have ceased to be popular and become specific to be sold as exclusive and niche, but this is how times work. I find it interesting that the current version of Le Jardin's Cuir de Russie can be both classic and versatile, balancing very well the classic, resinous leather scent with the floral bouquet and the powdery touch. The inclusion of cinnamon creates an extra fragrance charm, bringing a warm and contrast that is often lacking in this type of perfume. In a way, the nuances of leather, flowers and powdery tones remind me of the classic of the same name of Chanel before the brand, unfortunately, took it in a new direction with its latest formulation. For those who would like to know a more classic leather perfume with quality and less complicated to use I recommend this excellent proposal of the house

Le Jardin Retrouvé Eau des Delices, Citron Boboli e Cuir de Russie - Avaliações


A minha jornada pelos perfumes da Jardin Retrouvé começou por um acaso, em uma postagem onde o proprietário da marca lançava uma discussão com relação ao que definiria ou não uma marca de nicho. Essa discussão levou a uma troca de pontos de vista entre eu e Michel Gutsatz e que, no final das contas, rendeu uma proposta para que eu conhecesse os perfumes da marca, que eu resolvi aceitar para entender que tipo de nicho a Jardin Retrouvé seria.

Uso a palavra tipo pois na minha percepção/experiência há um erro hoje quando se fala de nicho como sendo uma entidade só. A partir das demandas que o mercado de massa não conseguia atender surgiu um universo bem complexo de players trabalhando em diversas faixas de preço e criatividade/originalidade. Isso de fato só aconteceu devido ao sucesso de público e de críticas com relação a criações nesse setor.

Pois bem, a Le Jardin Retrouvé se posiciona como uma pioneira no setor de nicho e certamente se não foi a primeira marca a criar as bases para isso foi uma das pioneiras. Em história da perfumaria nem sempre isso é claro, visto que tristemente é um setor que prefere não preservar ou abrir ao público seus detalhes históricos. Criada em 1975, a marca surgiu das insatisfações o perfumista Yuri Gutsatz com a falta de liberdade criativa e o foco em marketing, que diminuía a verba para formulação. Talvez o perfumista tenha percebido que a indústria ia em um caminho sem volta em um mundo de negócios onde a perfumaria passaria cada vez mais a ser um negócio massificado em vez de um complemento de identidade e um negócio de óficio e com toques de arte.

No cenário atual, eu diria que o espírito de criação e existência da marca a posiciona em uma espécie de nicho clássico que parece preservar as origens da perfumaria antes dessa transição da qualidade e individualidade para o marketing e a massificação. É um cenário onde muitas marcas mais tradicionais acabaram de certa forma posicionando vários do seu patrimônio de clássicos em distribuições mais seletivas e em tiragens mais exclusivas (vide a Chanel e seu Les Exlusifs). É um tipo de nicho onde a preocupação maior é de certa forma com a harmonia e estética e não com notas que estejam na moda ou necessidades obsessivas com fixação e projeção.



Eau des Délices é talvez uma das criações mais clássicas e atemporais da marca. Oferecido como uma Eau Fraichê, seu aroma me faz pensar nas clássicas Colognes feitas em um tempo onde seu objetivo principal era finalizar o processo de banho e um uso reaplicado durante o dia para trazer mais frescor. É um aroma leve, refrescante, que gira em torno da suculência dos cítricos, dos tons meio amargos do petigrain e do aroma aromático, floral e citilante. Há uma preocupação em criar uma base discreta com tons de musgo e madeiras, mas a ênfase aqui é mais no frescor e delicadeza do que na preocupação com a intensidade de fato. Eau des Délices em sua execução me remete ao clássico Eau de Cologne da Chanel.


Citron Boboli também é uma criação com nuances cítricas e frescas, entretanto a palheta de cores em relação a Eau des Delices é bem diferente. Enquanto Eau des Delices convém um tom alaranjado transparente em seu aroma, Citron Boboli cria uma aura verde, brilhante e bem vívida nos seus primeiros minutos. É uma harmonia que contrasta a intensidade cítrica verde do limão com um gálbano mais delicado, que tem nuances de grama cortada porém não tem o peso e o aroma de couro que o resinóide de gálbano possui. O uso de cravo da índia e pimenta preta cria uma harmonia interessante, um contraste entre algo quente, seco e picante e algo citríco, fresco e verde. A laranja e o petitgrain que entram na composição arredondam o exotismo da ideia e a trazem para o campo do frescor e delicadeza. O perfume parece perdurar na pele em um leve sussuro amadeirado e almiscarado e uma versão intensa de sua ideia seria bem interessante.


Na minha primeira leva de impressões, Cuir de Russie se mostrou um dos favoritos. Acho curioso como perfumes que convém esse tipo de qualidade e elegância acabaram deixando de serem populares e passando a ser específicos para serem vendidos como exclusivos e de nicho, mas é assim que os tempos funcionam. Acho interessante que a versão atual do Couro Russo da Le Jardin consegue ser ao mesmo tempo clássica e versátil, equilibrando muito bem o aroma de couro mais clássico, resinoso, com o bouquet floral, e o toque atalcado. A inclusão da canela cria um charme extra a fragrância, trazendo um aspecto quente e um contraste que costuma faltar nesse tipo de perfume. De certa forma, as nuances de couro, flores e tons powdery me remetem ao clássico de mesmo nome da Chanel antes da marcar resolver, infelizmente, levá-lo em uma nova direção com a sua última formulação. Para quem gostaria de conhecer um perfume mais clássico de couro com qualidade e menos complicado de usar eu recomendo essa excelente proposta da casa.

10 de nov de 2017

Maison Martin Margiela Beach Walk - Fragrance Review


Português (click for english version):

Eu diria que o sentido do olfato compartilha com sentidos como o da visão e o do paladar a capacidade de um mesmo estímulo ter diferentes interpretações em dias e momentos distintos do dia. Sentir um perfume ou aroma é muitas vezes como olhar para uma imagem e detesta-la em um momento para em outro momento sentir-se encantado com o sentido de tudo. Ou então como provar um determinado prato e não achar graça em determinado dia e em outro dia amar o sabor. Não é a imagem/aroma/sabor que mudou, e sim a interpretação que foi dada a ele.

Quando recebi o kit de perfumes da linha Replica, logo de cara teve um que se destacou negativamente para mim: Beach Walk. É pensar no nome e já ficar tenso com um aroma aquático que poderá se desenvolver. Separando ele para utilizá-lo já antevia uma péssima avaliação, visto que o aroma tinha uma cara de que seria um L'Eau d'Issey feminino em um novo nome e formato.

Mas, como dizem, as aparências enganam e ao mergulhar na terceira memória da série Réplica me sinto encantado com Beach Walk. É uma criação que quebra as expectativas a princípio ao mesmo tempo que tem uma aura condizente com a ideia de uma memória coletiva. É interessante como sentir Beach Walk me faz pensar exatamente no que ele propõe: um dia verão, um aroma ensolarado.

O ano em que estamos é 1972 e novamente estamos em território francês, Calvi. A diferença é que não estamos mais no inverno, e sim no verão e na costa marítima da França. Um cenário apropriado para retratar um dia de verão com um perfume solar que simula o aroma de uma pele salgada e ensolarada. A memória em si procura capturar esse aspecto ensolarado e brilhante reproduzindo aspectos do ambiente aquático e do aroma da pele, provavelmente perfumada pelo protetor solar.
E entendendo esses elementos é possível extrair um sentido mais amplo da memória retratada. Há um elemento aquático de fato e se você for sensível a moléculas aquáticas isso pode cegar seu nariz inicialmente da mesma forma que ficar muito tempo no sol afeta a visão. Porém, a molécula que é usada para passar o aroma aquático (transluzone) é mais refinada e coloca o perfume em um contexto mais floral e luminoso depois que passa o cheiro frutado. E da mesma forma que os olhos se ajustam com o sol o nariz se ajusta com o cheiro e curte a bela paisagem.


Se você curte perfumes de laranjeira, Beach Walk dá uma bela interpretação de uma laranjeira ensolarada em um dia de verão. É interessante como o acorde da flor é trabalhado para ter esse lado cítrico e apenas sugerir a carnalidade da flor de uma forma bronzeada, sem perder seus contornos sensuais. De fundo nota-se nuances de mel e marshmallow se misturando com um aroma floral levemente salgado e exótico, algo que me remete a protetores solares clássicos e que faz um bom elo entre a memória mais clássica e a interpretação mais moderna. Beach Walk é como uma foto vintage revitalizada e aplicada com um filtro moderno, uma mistura de um mundo analógico e um mundo digital. A ênfase em seu cheiro parece ser mais no aspecto ensolarado, privilegiando assim as notas de saída e de coração. A base porém as sustenta de uma forma que elas parecem durar muito. É um belíssimo perfume se você estiver disposto a dar uma chance a ele.

English:

I would say that the sense of smell shares with senses such as vision and taste the ability of the same stimulus to have different interpretations at different days and times of the day. Feeling a perfume or scent is often like looking at an image and loathing it in a moment for another time to feel enchanted with the sense of it all. Or how to taste a certain dish and not find grace on a certain day and another day to love the taste. It is not the image / aroma / taste that has changed, but the interpretation that was given to it.

When I received the perfume kit from the Replica line, I immediately had one that stood out negatively for me: Beach Walk. Just to think of the name and I became tense with an aquatic aroma that could develop from it. Separating it to use it already foresaw a bad evaluation, since the scent had an impression that would be a female L'Eau d'Issey in a new name and format.

But, as they say, first impressions can deceive and delving into the third memory of the Replica series I feel enchanted with Beach Walk. It is a creation that breaks expectations at first while having an aura that is consistent with the idea of ​​a collective memory. It's interesting how feel Beach Walk makes me think exactly what it proposes: a summer day, a sunny scent.

The year we are in 1972 and again we are in French territory, Calvi. The difference is that we are no longer in the winter, but in the summer and in the maritime coast of France. An appropriate setting for portraying a summer's day with a scent of sunshine that simulates the scent of salty and sunny skin. The memory itself seeks to capture this sunny, bright aspect by reproducing aspects of the aquatic environment and the scent of the skin, probably perfumed by sunscreen.
And when understanding these elements is possible to extract a broader sense of the memory portrayed. There is an aquatic element indeed and if you are sensitive to aquatic molecules this can blind your nose initially in the same way as staying too long in the sun affects vision. However, the molecule that is used to pass the aquatic aroma (transluzone) is more refined and puts the perfume in a more floral and luminous context after the fruity scent passes. And just as the eyes adjust with the sun the nose fits in with the scent and experiences the beautiful landscape.


If you like orange blossom fragrances, Beach Walk gives a beautiful interpretation of a sunny one on a summer day. It is interesting how the flower accord is worked to have this citric side and only suggest the carnality of the flower in a tanny way, without losing its sensual contours. From the background you can see nuances of honey and marshmallow mixed with a slightly salty and exotic floral scent, something that brings me to classic sunscreens and that makes a good link between the more classic memory and the more modern interpretation. Beach Walk is like a vintage photo revitalized and applied with a modern filter, a blend of an analog world and a digital world. The emphasis on their smell seems to be more on the sunny side, thus giving preference to the opening and heart notes. The basis however sustains them in a way that they seem to last a long time. It is a beautiful perfume if you are willing to give it a try.

9 de nov de 2017

Maison Martin Margiela Replica By The Fireplace - Fragrance Review


Português (click for english version):

Uma das coisas que surgiu na minha cabeça hoje ao dar meu segundo passo em direção a série de reviews baseados na coleção Replica foi: quem é de fato Martin Margiela? Instintivamente algo me dizia que isso era importante para entender o que eu estava sentindo e como os perfumes se relacionam entre si para passar sua mensagem.

Pesquisando achei uma definição sobra a alma do trabalho e persona do estilista, que parece se manter depois de seu retiro da marca e na criação da sua linha de perfumes. Margiela é uma figura misteriosa, quase anônima inclusive, que trabalha com princípios bem definidos. Sua essência se rebela contra a moda dos anos 80 e oferece algo desconstruído (inacabado intencionalmente), que desafia expectativas e tenta trabalhar o conceito do anônimato dentro das suas coleções.

É curioso perceber que seu estilo é também uma antítese no mundo da perfumaria, ainda que esteja mais alinhado no presente momento com o que tem acontecido. Ainda que o aspecto desconstruído case muito bem com o conceito de coleções de nicho/exclusivas, a ideia do misterioso e anônimo vai contra a corrente onde são necessários figuras definidas para serem estrelas dentro de uma marca e onde expectativas procuram mais serem atendidas do que desafiadas.

Na segunda memória coletiva da coleção Replica eu percebo claramente esse aspecto do inacabado e do desafio de expectativas. O ano agora é 1971, o local é um vilarejo francês e o momento é o de captura de uma manhã de inverno, com o cheiro aromático das madeiras sendo queimadas se espalhando no ambiente e se misturando com o aroma das castanhas torradas.


By the Fireplace me parece quase linear, um protótipo baseado em um briefing onde os perfumistas receberam o conceito,fotografias e notas para trabalhar e submeteram uma primeira versão. É algo que parece pedir mais elementos e aí eu vejo que a ideia do desconstruído se revela bem. Apesar do ano sugerir um aroma vintage talvez, as expectativas são quebradas em um aroma amadeirado, tostado e quase defumado. A expectativa de algo gourmand também é quebrada, já que By The Fireplace não trabalha notas adocicadas, e sim o aroma torrado, especiado e quase lactônico de algo sendo lentamente tostado perto do fogo. É uma memória curiosa, simples e complexa, aconchegante, moderna, mas de fato anônima. A quem ela pertence? Ela pode ser de qualquer um, mesmo que você não tenha vivenciado a experiência do rótulo. É de certa forma a mesma sensação de observar uma fotografia se transportar/imaginar naquele ambiente.

English:

One of the things that came into my mind today when taking my second step towards the series of reviews based on the Replica collection was: who is Martin Margiela really? Instinctively something told me that this was important to understand what I was trying and how perfumes relate to each other to get their message across.

Researching about it made me found a definition on the soul of the work and persona of the stylist, who seems to remain after his retirement from the brand and in the creation of perfume line. Margiela is a mysterious figure, almost anonymous even, who works with well-defined principles. Its essence rebels against the fashion of the 80s and offers something deconstructed (intentionally unfinished), which defies expectations and tries to work the concept of anonymity within their collections.

It is curious to realize that his style is also an antithesis in the world of perfumery, although it is more aligned at the present moment with what is happening. Although the deconstructed aspect fits nicely with the concept of exclusive / niche collections, the idea of ​​the mysterious and anonymous goes against the current where definite figures are needed to be stars within a brand and where expectations seek more to be met than challenged .

In the second collective memory of the Replica collection I clearly see this aspect of the unfinished and the challenge of expectations. The year is now 1971, the place is a French village and the moment is the capture of a winter morning, with the aromatic smell of the woods being burned spreading in the environment and mingling with the aroma of toasted chestnuts.

By the Fireplace seems almost linear, a prototype based on a briefing where the perfumers received the concept, photographs and notes to work and submitted a first version. It seems to ask for more elements and then I see that the idea of ​​the deconstructed turns out well. Although the year suggests a vintage scent perhaps, expectations are broken into a woody, toasted and almost smoked scent. The expectation of something gourmand is also broken, since By The Fireplace does not work sugary notes, but rather the crisp, spicy and almost lactonic aroma of something being slowly toasted near the fire. It is a curious, simple and complex memory, warm, modern, but in fact anonymous. Who does it belong to? It can be from anyone, even if you have not experienced the moment on the label. It is in some ways the same sensation of observing a photograph and imagining yourself in that landscape.

Maison Martin Margiela Replica Lipstick On - Fragrance Review


Português (click for english version):

Às vezes eu tenho a impressão de que o conceito de perfumes como coleção é apenas uma desculpa para marcas tentarem atingir um mercado mais amplo de interesses olfativos ao mesmo tempo que otimizam os custos, padronizam a imagem e facilitam a criação. O fato é que uma coleção de perfumes pode ser exclusiva e interessante ao mesmo tempo que é diversificada. E um exemplo legal de se observar isso é a coleção Replica da Martin Margiela.

Concebida como uma espécie de cápsula do tempo, a coleção Replica procura transformar memórias em aromas e contextualizá-las em locais, períodos e públicos específicos. É uma ideia genial na minha opinião pois como conceito permite que se trabalhe diferentes estilos olfativos ao mesmo tempo que se cria um propósito de coleção e foge-se do óbvio. Como será que ninguém pensou nisso antes? É uma espécie de curadoria de aromas como se fossem fotografias. E decidi seguir a jornada que eles contam de uma forma cronológica para ver como as memórias estariam relacionadas ao que já foi lançado até o presente momento.

Por isso, essa jornada começa em Lipstick On, que é categorizado como uma memória pertencente ao ano de 1952 e a Chicago. Essa memória olfativa representa um momento de ritual de beleza de uma mulher, onde ela finaliza a sua maquiagem com toques de talco e um suntuoso batom vermelho. O perfume em si passa bem essa ideia e por isso nos entrega um aroma powdery e brilhante, algo que combina basicamente iris, raiz de cenoura, heliotropina e toques vanílicos e coumarinicos para completar o quadro. O aroma tem uma aura chique e vintage sofisticada que combina bem com esse estilo floral powdery retrô. A ideia em si remete de fato ao Mísia da Chanel, principalmente pelo aroma powdery de iris e violeta. A diferença talvez é que enquanto Misia parece algo mais específico, Lipstick On tem uma aura mais abstrata condizente com a ideia de uma memória capturada.

Para quem curte esse tipo de perfume, o aroma é delicioso e de alta qualidade. Há uma harmonia sofisticada que sabe equilibrar bem o aroma mais atalcado, brilhante e adocicado das iononas (moléculas que passam o aroma de iris e violeta) com o toque mais terroso e vegetal da raiz de cenoura. A heliotropina acrescenta um toque amendoado, um pouquinho amargo e que ajuda a completar a sensação cosmética da composição. E a criação evolui de uma forma languida para uma base cremosa de baunilha, toques amadeirados e de fava tonka, uma espécie do equivalente gourmand do passado. Considerando que tal tipo de composição voltou aos holofotes recentemente com uma espécie de onda nostálgica permeando diversos aspectos culturais, eu recomendaria Lipstick On como um exemplar de um perfume atalcado à moda antiga e que não parece datado, que é de qualidade e que tem um bom custo benefício.

English:

Sometimes I have the impression that the concept of perfumes as a collection is just an excuse for brands  trying to reach a wider market of olfactory interests while optimizing costs, standardizing the presentation and making easier the creation process. But the fact is that a collection of perfumes can be unique and interesting while being diversified. And a cool example of this is the Replica collection of Martin Margiela.

Conceived as a kind of time capsule, the Replica collection seeks to transform memories into scents and contextualize them into specific places, periods and audiences. It's a genius idea in my opinion, because as a concept it allows you to work different olfactory styles while creating a collection purpose and avoiding the obvious. How has no one has thought of this before? It is a kind of curation of scents as if they were photographies. And I decided to follow the journey that they tell in a chronological way to see how the memories would work (considering, of course, the already available memories).

Therefore, this journey begins with Lipstick On, which is categorized as a memory belonging to 1952 and to Chicago. This olfactory memory represents a moment of ritual beauty of a woman, where she finishes her makeup with touches of talcum powder and a sumptuous red lipstick. The perfume itself goes well with this idea and therefore gives us a powdery and glossy aroma, something that basically combines iris, carrot root, heliotropin and vanilla and coumarinic touches to complete the picture. The scent has a chic and sophisticated vintage aura that matches well with this retro powdery floral style. It does indeed refer to Chanel Misia, mainly because of the powdery aroma of iris and violet. The difference is perhaps that while Misia seems something more specific, Lipstick On has a more abstract aura consistent with the idea of ​​a captured memory.


For those who enjoy this type of perfume, the aroma is delicious and of high quality. There is a sophisticated harmony that knows how to balance well the powdery, glossy and sweet aroma of the ionones (molecules that pass the aroma of iris and violet) with the earthy and vegetable touch of the carrot root. Heliotropin adds an almondy, slightly bitter touch that helps complete the cosmetic feel of the composition. And the creation evolves in a languid way to a creamy base of vanilla, woody touches and tonka beans, a kind of gourmand equivalent of the past. Considering that this type of composition has returned to the spotlight recently with a nostalgic wave permeating various cultural aspects, I would recommend Lipstick On as an exemplar of an old-fashioned perfume that does not look so dated, that has quality and a good cost-benefit .