23 de set de 2019

Santi Burgas Eau Dadà - Avaliação/Resenha/Review

Conceito: 10
Olfativo: 9
Performance: 9
Nota Final: 9,3

Composição Nota:
25% Conceito, 50% Olfativo, 25% Técnico
Preço Oficial: 145 euros 100ml

Categoria: Nicho

Confesso que a princípio olhei Eau Dadà sem entender muito bem o que sua mensagem queria dizer mas quando refleti nos elementos em si vejo que Santi Burgas consegue entregar aqui um dos perfumes que melhor reflete a natureza artística de sua white collection. Essa coleção é feita para ser como uma elegante tela branca onde o design exalta o que vai dentro do frasco e o que se encaixa nesse frasco pretende em si ser algo artístico e relevante para o presente momento.

A princípio olhei para Eau Dadà e o achei muito tradicional até para o que esperava de um perfume inspirado no Dadaísmo. Mas essa é a parte mais dadaísta e brilhante desse perfume: ele subverte suas expectativas e não é possível avaliá-lo de forma totalmente lógica ou racional. Ainda sim, conceitualmente o perfume faz algo brilhante em termos de dadaísmo, propondo um oitavo manifesto do movimento, algo que nunca existiu, propondo um elemento olfativo ao dadaísmo, um manifesto que se perdeu no tempo, um manifesto olfativo e atemporal. E ao te fazer esperar uma ruptura olfativa, o perfume também subverte sua expectativa ao entregar um aroma bem usável, um belo patchouli ambarado.

Talvez o nível de conforto ou desconforto e de subversão que Eau Dadà entrega dependerá de quantos perfumes você conhece; certamente para o nariz contemporâneo que conhece apenas os perfumes comerciais dos últimos anos isso soará como algo desafiador. Eu o vejo como uma personificação do aspecto hippie e transgressor que teve o patchouli na cultura olfativa da década de 70. Eau dadá propõe um patchouli terroso, com um aspecto de chocolate amargo e um aroma metálico denso. Ao redor desse patchouli floresce pelas beiradas nuances florais, aspectos de incenso e um perfume ambar vanilla, algo bem clássico e harmônico, complementado por um leve aspecto animálico de oud.

Eau Dadà é um aroma com um aspecto clássico, atemporal, que certamente para alguns irá soar familiar e para outros soará bem estranho e diferente. É difícil dizer o quanto cada um enxergará de conexão de Eau Dadà o perfume com a ideia em si, mas acredito que isso é o ponto principal do conceito. Em termos de performance é muito bom e entrega um excelente perfume de patchouli clássico e mais sujo mas muito bem trabalhado.

Santi Burgas Eau Dadà - English Review


Concept: 10
Olfactory: 9
Performance: 9
Final Score: 9.3

Criteria:
25% Concept, 50% Olfactory, 25% Technical
Official Price: 145 euros 100ml

Category: Niche

I confess that at first I looked at Eau Dadà without quite understanding what its message meant but when I reflected on the elements themselves I see that Santi Burgas delivered here one of the perfumes that best reflects the artistic nature of his white collection. This collection is meant to be like an elegant white canvas where the design exalts what goes inside the bottle and what fits into that bottle is meant to be something artistic and relevant to the present moment.

At first I looked at Eau Dadà and found it very traditional even for what I expected from a perfume inspired by Dadaism. But this is the smartest, most Dadaist part of this perfume: it subverts your expectations and you cannot fully and rationally evaluate it. Still, conceptually the perfume project as whole does something brilliant in terms of Dada, proposing an eighth manifesto of the movement, something that never existed, proposing an olfactory element to Dada, a perfume timeless manifest that has been lost in time. And by making you expect a disruptive scent, the perfume also subverts your expectation by delivering a very wearable aroma, a beautiful amber patchouli.

Perhaps the level of comfort or discomfort and subversion that Eau Dadà delivers will depend on how many perfumes you know; Certainly for the contemporary nose that knows only the commercial perfumes of recent years this will sound challenging. I see it as a personification of the hippie, transgressive look that patchouli had in the olfactory culture of the 1970s. Eau dadá proposes an earthy patchouli with a dark chocolate aroma and a dense metallic part. Surrounding this patchouli flourishes by the floral nuances, aspects of incense and an amber vanilla scent, something very classic and harmonious, complemented by a slight animalic oud touch.

Eau Dadà is a classic fragrance, a timeless aroma that will surely sound familiar to some, and to others it will sound very strange and different. It is hard to say how much each one will see of Eau Dadà's connection to the perfume with the idea itself, but I believe that is the main point of the concept. In terms of performance it is very good and delivers an excellent classic and dirtier but beautifully crafted patchouli perfume.

15 de set de 2019

Art de Parfum Encore Une Fois - Avalição/Resenha/Review


Conceito: 9
Olfativo: 8
Técnico: 7
Nota Final: 7,8

Composição Nota:
25% Conceito, 50% Olfativo, 25% Técnico
Preço Oficial: 160 Libras 50ml

Categoria: Nicho

Fundada em 2016 a marca Art de Parfum além de estar na época a frente de tendências que se formariam também demonstrou ser uma marca com desenvolvimento atípico ao longo desses 3 anos. Criada por Ruta Degutyte a marca fez de sua essência uma perfumaria preocupada com o meio ambiente, algo que tem se tornado cada vez mais comum entre as marcas de nicho. Mas isso não foi um pretexto para lançar fragrâncias tolas e a Art de Parfum procurou focar em qualidade em vez de quantidade e em aliar uma sofisticação francesa à um estilo contemporâneo de perfumaria. Apenas 3 anos depois é que ela vem com uma nova criação ao mercado, Encore une Fois, permanecendo fiel aos seus princípios.

Confesso que Encore un Fois não é o meu favorito da marca e que fiquei confuso quanto ao preço superior em relação aos demais e com relação ao status de edição limitada. Não me faz muito sentido isso visto que o perfume parece investir em um estilo olfativo que poderia tanto ser parte fixa da coleção como até mesmo vender facilmente pelo agradável aroma. O certo é que conceitualmente o perfume entrega o que se propõe a entregar e consegue continuar com coerência o que foi iniciado em 2016.

Com um nome que se traduz como Mais Uma Vez o perfume foca na intimidade da pele da pessoa amada, o que talvez explique sua natureza intimista e segunda pele. Encore Une Fois parece ser mais um perfume que antecipa uma tendência por aromas mais intimistas, delicados e com uma temática mineral e salgada, centrada nessas qualidades de um acorde sintético de ambergris. Para criar um aroma distinto Encore Une Fois trás um acorde mineral de incenso à essa ideia e trabalha com os cítricos da saída para que eles passem um ar de sofisticação francesa.

Um uso bem sutil de aldeídos dá o toque francês clássico e ajuda a criar um aroma brilhante, intenso e que remete discretamente a incenso em meio ao aroma limpo da saída. Há algo meio resinoso e que remete a seiva e a bálsamo usado de uma maneira bem sutil, misturando-se ao aspecto cítrico de laranja e ao cheiro mais mineral de incenso, que ocupa o meio da composição no lugar do que seriam as flores. Aos que temem o caramelo, é um toque bem discreto, que parece estar aqui mais para criar um contraste com o aroma levemente salgado do ambroxan.

Minha decepção com Encore Une Fois é talvez a evolução, tornando-se discreto demais e intimista demais ao meu olfato. Os musks parecem predominar e o ambroxan não se destaca tanto, abrindo espaço para um aroma amadeirado distante. Dessa forma o perfume torna-se um pouco apagado depois que passa a dinâmica da saída e do coração e dá vontade de reaplicar para que seja possível sentir os melhores momentos do perfume na pele. É certamente um perfume que nesse momento só a pessoa amada e mais próxima de você será capaz de notar nitidamente.

Art de Parfum Encore Une Fois - English Review

Concept: 9
Olfactory: 8
Technical: 7
Final Score: 7,8

Score formula:
25% Concept, 50% Olfactory, 25% Technical
Official Price: 160 Pounds 50ml

Category: Niche

Founded in 2016, the Art de Parfum brand besides being at that time ahead of trends that would be formed also proved to be a brand with atypical development over these 3 years. Created by Ruta Degutyte the brand has made its essence an environmentally conscious perfumery, something that has become increasingly common among niche brands. But that was not a pretext for launching silly fragrances and Art de Parfum sought to focus on quality rather than quantity and in combining French sophistication with a contemporary style of perfumery. Only 3 years later the brand comes with a new creation to market, Encore une Fois, remaining true to its principles.

I confess that Encore une Fois is not my favorite of the brand and I was confused about the superior price over the others and about the limited edition status. It doesn't make much sense to me since the perfume seems to invest in an olfactory style that could either be a fixed part of the collection or even sell easily due the pleasant scent. What is certain is that conceptually the perfume delivers what it intends to and can continue with coherence what was started in 2016.

With a name that translates to Once Again the perfume focuses on the intimacy of the beloved's skin, which may explain its intimate nature and second skin aroma. Encore Une Fois seems to be yet another perfume that anticipates a trend towards more intimate, delicate and salty mineral-themed aromas, centered on those qualities of a synthetic ambergris accord. To create a distinctive aroma Encore Une Fois brings a mineral incense aura to this idea and works with the opening citrus to give it an air of French sophistication.

A very subtle use of aldehydes gives a classic French touch and helps create a bright, intense aroma that discretely refers to incense amid the clean aroma of the first minutes. There is something a bit resinous, reminiscent of sap and balm used in a very subtle way, blending in with the citrus-like aspect of orange and the more mineral smell of incense, which occupies the middle of the composition in the place of what is usually the  flowers. For those who fear caramel, it is a very discreet touch, which seems to be here more to create a contrast with the slightly salty aroma of the ambroxan-centered ambergris accord.

My disappointment with Encore un Fois is perhaps evolution, becoming too discreet and too intimate to my sense of smell. The musks seem to predominate and ambroxan doesn't stand out so much, making room for a distant woody aroma. This way the perfume becomes a little faded after the dynamics of the opening and the heart pass and makes you want to reapply so that you can feel the best moments of the perfume on the skin. It is certainly a perfume that at this moment only the loved one closest to you will be able to notice clearly.


5 de set de 2019

Condé Chypre Clair - Avaliação/Resenha/Review


Conceito: 9,5
Olfativo: 9,5
Técnico: 8,5
Nota Final: 9,25

Composição Nota:
25% Conceito, 50% Olfativo, 25% Técnico
Preço Oficial: 199 reais 50ml
Categoria: Nicho Artesanal

Chypre Clair complementa muito bem a primeira trilogia de perfumes clássicos propostos por Fábio Condé e dos 3 integrantes é certamente o que tem mais chances de agradar ao público feminino. Enquanto Cuir Vert e Tabac D'Or tendem a aromas intensos e barrocos Chypre Clair é, como o nome sugere, algo mais delicado, transparente e com um leve teor floral. O perfume acaba se destacando entre os 3 por propor um aroma que não possui tabaco nem couro em sua proposta, mas que se integra bem com os outros 2 pela presença dos elementos cítricos existentes aqui. É como se a coleção tivesse sido composta em diferentes graus de saturação, com Chypre Clair sendo o inicial, Tabac D'Or o intermediário e Cuir Vert o mais saturado (e consequentemente, o mais desafiador).

Como disse em minha avaliação de Tabac D'Or os perfumes Condé devem ser testados na pele e se possível em mais de um dia, pois nas fitas seus cheiros enganam e mostram uma semelhança entre eles que no uso se mostra enganadora. Chypre Clair certamente tem uma aura cítrica bem evidente e na fita é como se o perfume fosse uma tentativa de Condé de homenagear cítricos chypres clássicos, em especial o estilo Eau de Sud da Annick Goutal. Mas utilizando ele me vi surpreso com o aroma que é entregue.

Chypre Clair propõe algo criativo para a estrutura clássica Chypre, que é conhecida por girar ao redor do aroma do labdanum, musgo de carvalho, bergamota e eventualmente do jasmim. Condé utiliza o aroma fofo, úmido e terroso do musgo com um cheiro amadeirado mais clean de vetiver e trás o lado terroso da ideia para um aspecto mais macio ao encaixar uma nota distante de iris e violeta, que trás sensualidade ao perfume. Essa aura se revela só depois que a rica saída cítrica passa, que é uma sucessão de elementos cítricos, onde limão, verbena e petitgrain criam um cítrico elegante, levemente doce e um pouco ácido.

No corpo do perfume mora a surpresa, pois depois que os cítricos suavizam e a ideia da iris amplifica o aroma do musgo é que surge um corpo floral que se não é inovador é pouco utilizado. Condé trás o aroma do chá verde para fazer a ponte entre o aroma cítrico da saída e a base amadeirada e terrosa, encaixando toques discretos florais de jasmim e lírio para dar luminosidade a ideia. É uma ponte muito bem executada, muito elegante e que conduz bem o perfume ao cheiro mais amadeirado da base, onde uma de suas notas favoritas, o vetiver, trás um cheiro de capim e madeira seca que é bem aconchegante.

Para oferecer algo mais leve e fácil de usar Chypre Clair acaba sacrificando algo que nos outros perfumes da marca é evidente, a intensidade de seu cheiro. O perfume evolui para algo mais discreto, que não desaparece da pele mas que não cria um grande rastro como Cuir Vert e Tabac D'Or. Mas trabalhar predominantemente com materiais naturais e de maneira leve não é uma tarefa fácil e nesse sentido o que é entregue certamente dura de maneira condizente na pele e provavelmente em dias mais quentes se mostre com maior intensidade. É um perfume de muita elegância, maturidade e harmonia e fecha como uma grata surpresa a exploração da trilogia inicial da marca, principalmente quando se considera tais produtos como frutos de um perfumista que está se desenvolvendo e desenvolvendo sua marca. Uma coisa é certa, esse forte começo mostra um futuro promissor.