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4 de mar de 2018

Sauf Plein Jeu III-V - Fragrance Review



Com Contre Bombarde 32 descobri que há uma história e uma cultura relacionada aos órgãos musicais que eu desconhecia completamente. Plein Jeu dá continuidade a exploração dessa história e homenageia um tipo específico de órgão francês de tubos. O perfume assim como Contre Bombarde 32 também é uma homenagem ao aroma litúrgico do incenso.

O objetivo aqui é criar um incenso que seja contemporâneo, leve e com um efeito de colônia, A princípio isso não é evidente, visto que o aroma resinoso e mentolado do olíbano é o que aparece na pele.Conforme o perfume evolui, seu aroma vai se transformando em algo moderno, leve e persistente.

A estrutura em si me faz pensar em um perfume de incenso que a hermés poderia ter lançado. O aroma evolui para uma base amadeirada mineral, transparente, com toques de cítricos e tons apimentados secos. O perfume quase cria a ilusão de uma textura de iris, algo que é sedoso sem ser terroso ou atalcado. A persistência delicada do incenso dá um toque especial a composição e garante o link do começo ao fim com a inspiração proposta.

O Boticario Uomini - Avaliação

Um dos clássicos do Boticário, é interessante como a marca deixa implícito que teve inspirações italianas na criação desse perfume. No site explica que Uomini é uma palavra italiana de origem do Latim e que significa homem. A composição em si também se assemelha a um perfume da grife Dolce & Gabbana, chamado simplesmente de Pour Homme. Mas considerando seu surgimento na década de 90, não há nada de novo nessas inspirações mais explícitas, a perfumaria comercial brasileira dessa década reflete tanto a crise econômica como as barreira de importação, o que tornaram perfumes comerciais importados objetos de luxo dentro do nosso mercado e assim abriram espaço para uma perfumaria nacional que suprisse quem não tinha acesso a eles.
Curiosamente, com o passar dos anos muitos perfumes foram reformulados ou descontinuados por questões de público ou de restrições (que são menos rigorosas no território nacional), de forma que algumas criações clássicas hoje sobrevivem nas inspirações que as originaram. É o caso aqui e é uma pena que a Dolce & Gabbana tenha apostado nisso, visto que a ideia por trás de Uomini e D&G Pour Homme é a de um clássico que está praticamente se tornando extinto: o fougere aromático clássico.
Me lembro de ter sentido esse perfume quando tinha meus 18 anos e o ter detestado por ter um aroma muito seco ao meu nariz. Os anos passam, as percepções mudam e hoje acho Uomini uma criação bem feita e elegante. A empresa lista na pirâmide olfativa a folha de limão, mas na prática Uomini para mim parece girar nas nuances do aroma da laranjeira, como se a criação tivesse o amargo das folhas de laranjeira e uma leve aura floral cítrica de neroli. Esse aspecto floral acaba funcionando como estrutura, na qual nuances aromáticas de ervas são misturadas e cujo o uso de gálbano entra mais para conferir um toque verde. Apesar de não ter listado também, é possível perceber tanto nuances de lavanda como de fava tonka agindo juntas para passar o aroma fougere, um frescor limpo de lavanda que se mistura a um aroma levemente adocicado da laranjeira e o aroma amendoado quase seco da coumarina fazendo o papel de tonka. A fase que talvez mais decepcione em Uomini para mim é a base, que poderia ter mais amadeirado de sândalo e vetiver e um toque mais evidente de musgo de carvalho para reforçar a aura clássica. Mesmo assim, é um excelente perfume para o que se propõe, um que poderia existir numa versão mais intense ou deo parfum até.

Eudora Diva - Avaliação


Eu diria que um dos problemas mais comuns de perfumaria é justamente nas expectativas que um conceito e um nome de perfume geram. Por mais que gostemos do aroma, o fato é que a percepção de um perfume é influenciada pelo frasco, pela percepção que temos da marca e até mesmo pela sua descrição e notas.
Eudora Diva falha precisamente na parte do conceito e do nome, mirando muito mais alto do que de fato consegue entregar. Chamar um perfume de Diva já cria para si a expectativa de algo marcante, diferente e que no mínimo tenha um pouco de drama ou tensão na forma como evolui. A marca é ciente disso e descreve como o perfume de uma mulher poderosa, marcante, referência por sua beleza e atitude inconfundível.
Infelizmente, o aroma em si não é nada disso e de Diva só tem o nome e a descrição. Em vez de termos uma mulher poderosa e marcante, temos no perfume uma moça meiga e jovem, certamente bela porém sem se destacar muito. É uma combinação segura, que entrega toques frutados entre o fresco e o suculento na saída. Depois, evolui para um gourmand suave, mais baunilha do que caramelo, um que ganha um pouco de sofisticação pelo buquê floral que parece girar ao redor do jasmim. Conforme evolui Diva se torna mais discreto, mais delicado, um perfume de pele de musk e baunilha. Nada em seu cheiro se destaca muito mas não há nada de errado com o seu aroma. É como se fosse uma versão mais requintada de um body splash adocicado.

Lacqua di Fiori Cumplice - Fragrance Review

Acho bem positivo que mesmo com o processo de reinvenção após a quase falência a Lacqua di Fiori se preocupou em manter seu catálogo de perfumes, oferecendo as criações clássicas que marcaram seus tempos de ouro. Uma dessas criações é Cúmplice, descrito como um oriental floral marcante e envolvente, com notas exóticas de flores, especiarias, musk e toques frutais de uva.
Há muitos comparativos entre Cúmplice e um dos sucessos da década de 80, o Dior Poison, um perfume que certamente merece o título de perfume Diva pelo seu caráter intenso, complexo e marcante. Cúmplice parece seguir os passos do Poison, entretanto não é exatamente um mata borrão dele, e sim uma inspiração de interpretação mais livre.
Enquanto Poison é bem saturado no aroma frutal suculento que emana entre as flores, Cúmplice dá mais destaque ao caráter verde, narcótico e quase animálico da tuberosa e do jasmim. Há alguns toques frutais na saída, entretanto o aspecto mais verde e mentolado da tuberosa é o que se destaca. A saída é bem intensa e certamente assustaria aos que estão acostumados com perfumes mais modernos, entretanto passado sua entrada imponente Cúmplice se torna mais moderado, levando a tuberosa mais para o caminho de um jasmim delicado, É curioso como na base o perfume se torna quase masculino para os padrões femininos atuais, um aroma amadeirado de vetiver e musk com leves tons resinosos. É um perfume com um certo quê datado talvez, mas que se destaca no cenário atual pois poucas fragrâncias nacionais ainda entregam esse tipo de drama.

Phaedon Illanguara - Fragrance Review


Com a sua terceira marca, Phaedon, o perfumista Pierre Guillaume assume nesse momento um papel similar ao de Frederic Malle, mesmo que de forma não explícita. Isso pois Pierre apesar de ser um perfumista independente abre as portas de sua marca para os projetos de outros perfumistas que possuem experiência na indústria mas ainda não tem sua própria marca.
Em Ilanguara, o convidado da vez é Gérard Bertrand, que fez sua carreira na Givaudan e se especializou no processo de reformulações complicadas, aquelas que envolvem substituir bases antigas e encontrar as matérias-primas corretas. Em Illanguara, o perfumista convidado utiliza seus talentos formulando com vários bálsamos de diferentes origens em um contexto tropical e aconchegante, um casulo perfumado que põe ênfase ao ylang e as amêndoas Guara, provenientes de uma região espanhola.
O resultado final é realmente um perfume exótico e aconchegante, um que te envolve em uma aura macia de musks e resinas que me remetem a benjoim e baunilha. A forma como Ilanguara é equilibrado me faz pensar no clássico Un Bois Vanille de Serge Lutens, mas ao passo que Un Bois Vanille tende a se tornar sufocante e a evoluir como um bloco na pele Ilanguara me parece funcionar de forma mais harmônica e fluída. As amêndoas aparecem de forma moderada na saída, remetendo a um licor meio amargo de amêndoas que se vai antes que se torne enjoativo. No lugar assume o ylang, uma extração que parece focar mais no aspecto floral luminoso do que no narcótico. Ylang é uma flor que sofre uma certa injustiça na perfumaria, pois se dá mais ênfase ao jasmim e a rosa mas a versatilidade, riqueza e possibilidade de extrações tornam o ylang um coringa na paleta do perfumista. Além disso, é uma flor que se encaixa com maestria em bases com musks, resinas e toques atalcados, que é o caso aqui, se unindo a tais temas de uma maneira muito natural. Pela temático de um perfume casulo, Ilanguara põe bastante ênfase na base e rapidamente evolui para ela, se tornando um aroma cremoso com aquele adocicado mais adulto e moderado que bálsamos acrescentam a uma composição. Poderia muito bem ser o trabalho de Pierre Guillaume e isso torna a estreia de Gérard dentro da Phaedon um sucesso.

Mahogany Zanzibar - Fragrance Review

Da mesma forma que o Dolce & Gabbana Pour Homme original hoje sobrevive na incarnação do Boticário (Uomini), a versão feminina da grife italiana se mantém sob a interpretação da Mahogany. Suspeito que por questões mercadológicas e regulamentações européias mais rígidas a grife italiana se viu obrigada a tirar um perfume que se não é um sucesso de vendas certamente em seu público cativo. Mas um fenômeno interessante e que tem acontecido com alguns perfumes ao passar do tempo é que boas interpretações em território nacional tem mantido determinados perfumes vivos, o que é o caso aqui.
Elogio a Mahogany pois por mais que seus perfumes mais antigos lembrem clássicos da perfumaria internacional isso não é desculpa para traduções ruins. Tenho a impressão de que os perfumistas que a marca contratou conseguem superar limites técnicos e de custos e fazer variações que dão nova vida a melodias já conhecidas. Acho interessante também o como a marca recontextualiza o floral spicy aldeídico dando-lhe o nome de uma exótica ilha que é importante produtora de especiarias.
Zanzibar é o tipo de perfume que está mais ligado a potência dos anos 80 do que a delicadeza da década de 90 e o tipo de composição que se distanciou terrivelmente da perfumaria feminina atual de forma que hoje cairia, como muitos clássicos, em um contexto de nicho e, arrisco eu a dizer, até mesmo unissex. É uma composição com um contraste: de um lado temos um aroma floral spicy bem quente e seco que simula o aroma de flor de cravo e por outro lado temos um aroma floral meio soapy e com aldeídos conferindo aquela aura luminosa e metálica intrigante, algo que lembra ao mesmo tempo a alma de frutas cítricas (várias delas tem aldeídos na casca) ao mesmo tempo que remete a incenso. Há um fundinho de ylang, rosa e jasmim tendendo que tenta levar o perfume para uma direção mais feminina, mas que comparado com os florais atuais é bem diferente. A base novamente mostra que estamos em território clássico já que dá uma boa ênfase a um sândalo seco em meio a baunilha e musk. No conjunto da obra eu não sei dizer se é um perfume que eu usaria, mas é bem distinto e bom para quem busca algo diferente com um preço bom. Vale a pena destacar que a Mahogany como sempre se destaca pela linha completa de produtos que oferece até mesmo para seus perfumes mais acessíveis, de forma que você pode tornar a experiência de se perfumar bem completa.

Boticario Malbec Gold - Avaliação


Eu diria que uma das coisas que mais me chamou a atenção no lançamento do Malbec Gold não foi o perfume em si, mas sim a estratégia de lançamento. É muito positivo que a empresa se esforce em oferecer amostras para o público geral a fim de que você possa conhecer o produto antes de investir. Porém, faltou talvez um dimensionamento dos interessados, pois pelo tempo que demorou para a amostra ser enviada e entregue é possível inferir que a empresa teve problemas logísticos para atender todo mundo que se cadastrou.
Independente disso, o fato é que isso chamou a atenção para o Malbec Gold e seu perfume foi bem discutido após lançado, seja pelas semelhanças com outras criações seja pelo caráter marcante de sua composição. Muitos perfumes foram citados como parecidos com o Malbec Gold e sentindo o perfume na pele é possível entender o motivo.
O fato é que no momento atual da perfumaria, seja nacional ou internacional, estamos em um vácuo de inovação disruptiva, que é quando surge um perfume totalmente diferente, ame ou odeie, que começa com vendas fracas e vai crescendo em volume com o tempo. Ou que mesmo que venda bem, demora para pegar. O próprio Malbec foi assim, um risco que a empresa correu e que se mostrou acertado ao longo do tempo. Mas o fato é que em momento de crise ninguém quer correr riscos, então se investe no que funciona e se mascara a mesmice com conceitos de marketing. No caso de Gold, isso é aplicado com uma invencionice de uma tecnologia GoldSense que a marca taca na descrição do produto sem se dar ao trabalho de explicar para que serve.
Invencionices e conceitos de marketing a parte, Malbec Gold investe no que tem agradado rapidamente, que é uma combinação entre notas mais frescas e notas potentes, pois por mais que as pessoas citem que querem inovação na prática o que elas querem é performance. Por isso, Gold investe naquela base que lembra madeira, ambar, couro, tabaco, lembra tudo e lembra nada ao mesmo tempo e que aparece em muitos outros perfumes. Por cima disso se constrói uma segunda camada potente de resinas incensadas e com uma leve pegada árabe para cobrir também quem curte isso. Por fim, um pouco de notas frutadas na saída, um quê de especiaria quente, um leve toque floral para arredondar e completamos Gold como perfume. Um ponto positivo é que por mais que seu aroma seja de fato manjado é bem equilibrado. É o equivalente de uma boa comédia, você conhece as situações apresentadas mas a atuação convence e você dá risada mesmo assim.

4160 Tuesdays The Sexiest Scent In The World (IMHO) - Fragrance Review

Uma das criações mais antigas dentro da coleção da 4160 Tuesdays, The Sexiest Scent in The World surgiu de um dos workshops dados por Sarah onde uma das bases feitas por Sarah acabou chamando a atenção dos presentes e sendo chamado por uma pessoa de o perfume mais sexy do mundo. É necessário ver que há um ar de humor/ironia no título, que a 4160 Tuesdays é uma marca que leva a sério a qualidade de criação dos perfumes mas isso não a impede de ter ares de humor também.
Mas eu consigo entender o como muitas pessoas enxergariam tal perfume como sexy e até mesmo como o mais sexy. Sarah aqui utiliza uma composição de naturais e sintéticos que certamente agradam - coisas como vanilina, bergamota e iso e super. O resultado final é o de uma composição perfeita para quando você deseja um perfume bem feito e que não seja desafiador.
Na concentração parfum, o uso de iso e super me faz pensar em perfumes amadeirados masculinos mais modernos, tais como Terre d'Hermes. A combinação da bergamota com a baunilha cria um cítrico gourmand que de fato remete a torta de limão e que evita inclusive que o perfume se torne muito masculino e amadeirado. O curioso é que a vanilina aqui acaba criando a ilusão junto com outros materiais do aroma de musks, pois segundo Sarah não há nenhum musk na fórmula. Isso talvez pois muitos musks se beneficiam da ajuda da vanilina para se tornarem perceptíveis ao nariz e, creio eu, acabamos fazendo uma ligação indireta entre os dois aromas. Eu suspeito que também haja ambroxan ou algum análogo ajudando a recriar o efeito harmônico e agradável de uma acorde limpo de ambergris na pele. É um aroma moderno, abstrato, um misto de amadeirado e gourmand, de um perfume de pele e um perfume que projeta uma aura. Pode não ser o perfume mais sexy do mundo de fato mas é um bem aconchegante.

Lubin Attique - Fragrance Review


No final de 2017 a casa de perfumaria Lubin lançou uma nova trilogia de perfumes, denominada Evocations de Lubin. O objetivo aqui me parece ser focar em 2 características muito apreciadas pelo público que consome perfumaria de nicho e perfumaria exclusiva: minimalismo na composição e foco na nobreza dos materiais envolvidos. Tanto que os novos perfumes são descritos como caracterizados por sua simplicidade, com foco em 2 ou 3 materiais nobres que se juntam para criar perfumes que evocam aromas ao ar livre, duradouros e frescos ao mesmo tempo.
É importante ter ciência disso para que Attique faça sentido, pois tudo que pode ser um ponto fraco de seu aroma como um todo está justamente relacionado a execução condizente com o que a coleção evoca. Attique faz uma alusão poética a obra de um jurista, escritor e gramático latino para evocar o aroma da figueira e é exatamente isso que o perfume faz do começo ao fim.
Eu acho curioso que o foco em Attique seja a figueira considerando que o foco da coleção Evocations é no uso de materiais naturais. Isso pois não há extrações naturais do aroma de figo, principalmente pois há substâncias no natural que são perigosas a saúde. Mas o que Attique faz é uma boa reprodução sintética do aroma fresco e suculento de figo. De certa forma remete a um benchmark desse tipo de composição, o Premier Figuer da L'Artisan. O que os diferencia é que attique põe uma ênfase maior em capturar um frescor mentolado que se contraponha ao aroma suculento e lactônico do figo, provavelmente para por mais ênfase no ambiente ao ar livre que é o foco da coleção. A performance acaba sendo melhor também que o da L'Artisan, entretanto não é um perfume que se destaca pela potência de seu aroma. É simples, harmônico e uma boa reprodução do aroma fresco e suculento dos figos.

Gri Gri Parfums Tara Mantra - Fragrance Review


É interessante como ninguém havia lançado até recentemente uma linha de perfumes que se inspirasse e celebrasse o universo da tatuagem. Os dois possuem um propósito básico em comum, que é o de passar uma mensagem/simbolismo ao mundo utilizando-se da pele. O perfume, em último caso, é como se fosse uma tatuagem invisível e evanescente e que dessa forma precisa ser renovadas.
Tirando as similaridades, o universo da tatuagem, pelo pouco que pesquisei, é bem rico para se construir conceitos e a perfumista Anais Biguine os aproveita muito bem na sua coleção Gri Gri Parfums. Cada elemento é inspirado em um tipo de tatuagem e em um local distinto de tradição e em Tara Mantra ela se volta para a cultura Budista e as tatuagens em sanscrito, tentando capturar em Tara Mantra o aspecto espiritual, sagrado, contemplativo e protetor das mesmas.
Tara Mantra é um perfume curioso pois se comporta de uma maneira invertida na pele: você primeiro sente o impacto das notas de base, depois percebe o que funcionaria como saída e em seguida nota o corpo. A primeira impressão é a de um aroma amadeirado, terroso e animálico, uma mistura de patchouli e couro que é como se refletisse o momento de sintonia entre o espiritual e o carnal. Após passar essa impressão, o perfume revela nuances mais delicadas e fluídas, condizentes com a caligrafia das tatuagens. Há um aroma spicy, fresco e levemente frutado da combinação de cardamomo e açafrão. É possível notar também, em meio ao incenso, couro e especiarias uma aura floral delicada e que completa a bela harmonia dessa composição. Há algo de atemporal e sagrado na escolha e harmonia dos ingredientes e que combina perfeitamente com o conceito proposto. Aconchegante de uma forma inusitada.

Montale Day Dreams - Fragrance Review



Eu sei que pela definição técnica a Montale pode ser considerada uma grife de nicho, mas para mim com o decorrer dos anos e o surgimento de outras marcas ela se tornou uma espécie de indefinição.
Seus perfumes não são baratos, mas também não são exatamente caros/inacessíveis, de forma que ela não se enquadra mais como uma perfumaria de luxo ou exclusiva. E a vantagem competitiva da marca, os perfumes de oud, se popularizou e se expandiu de forma que até condicionador com aroma de oud se tem hoje, logo oud não cria mais seletividade/exclusividade. Na tentativa de expandir para novos mercados a marca me parece que atira para todo lado sem desenvolver uma identidade clara e sem investir necessariamente em perfumes que pareçam luxuosos.
Com Day Dreams ela tenta cobrir um público mais feminino com um perfume que é um pouco de 3 coisas: frutado, gourmand e floral. Confesso que se eu sentisse no escuro a fragrância acharia que é uma criação comercial ou um perfume da Zara e acharia excelente para a faixa de preço que a Zara cobra. Parece aqueles perfumes da Zara que começam frutados e docinhos e depois evoluem para algo mais floral cremoso e agradável, nada muito marcante. A base é simples também, levemente amadeirada, doce e almiscarada. Eu não pagaria 120 dólares por 50 ml disso mas se fosse um perfume comercial até faria sentido.

Oliver & Co Nebula 1 e Nebula 2 - Fragrance Reviews


Com a dupla Nebula o perfumista independente Oliver Valverde mira conceitualmente em um lugar pouco explorado para a criação de perfumes, o espaço. É o tipo de abordagem criativa que abre bastante espaço para interpretações arriscadas e distintas e o artista não decepciona no que entrega. Eu diria que Orion e Carina são dois dos seus perfumes mais ousados, complexos e arriscados.
Nebula 1 homenageia a Nebulosa de Orion, que fascinou o perfumista devido a sua estrutura complexa de nuvens moleculares, efeito que o perfumista tenta reproduzir em sua fórmula. O que eu acho mais impressionante em Orion é que a combinação de diversos materiais florais resulta em algo com uma aura tão clássica e tão masculina. A nuvem estelar negra que é descrita na apresentação do perfume é uma nuvem de couro clássico amadeirado, animálico e lustroso Ele é povoada por diversos materiais herbais, uns mais secos, outros mais mentolados. Ao redor dessa ideia couro fougere é que orbitam as flores, e é interessante que o lado menos delicado delas é extraído ao mesmo tempo que elas trazem harmonia a composição.
Nebula 2 homenageia a Nebulosa Carina, descrita como uma nebulosa que tem vários aglomerados abertos de estrelas. A homenagem aqui é mais abstrata, uma fantasia que imagina um planeta nessa nebulosa feito de florestas infinitas com aromas minerais que permeiam o ar, aromas verdes e flores extra-terrestres. O perfume não decepciona a essa descrição excêntrica e Nebula 2 é como se fosse um vetiver amadeirado de outra galáxia de fato. Há uma aberta exótica, um pouco desconfortável até, onde você tem a impressão de estar adentrando uma floresta fechada, um ar permeado de ervas , aromas mentolados e um leve quê plástico negro. Depois do susto da saída Nebula 2 suaviza para um vetiver mais mineral acompanhado de um amadeirado seco de sândalo. Ao meu nariz as flores acabam se perdendo no aroma pungente da vegetação herbal mas nada que seja um problema na composição. Tanto Nebula 1 como Nebula 2 soam como perfumes masculinos arriscados e sofisticados, composições para quem busca o que é diferente.

By Killian Woman in Gold - Fragrance Review


Em 2017 a marca de nicho By Kilian completou 10 anos de existência, o que não é pouco tempo dentro desse segmento. Kilian Henessy entendeu desde o começo um aspecto importante, de que há um bom público para composições que sejam capazes de oferecer o que os perfumes comerciais do passado ofereciam, aromas que tenham um quê de familiar mas que ao mesmo tempo soem luxuosos em seu acabamento. A marca se especializou nisso ao longo de sua jornada, oferecendo apresentações espetaculares ao mesmo tempo que se mostrava democrática ao oferecer refis por um preço acessível. Na celebração de sua primeira década, Kilian celebra o ouro e o trabalho de Gustav Klimt em duas composições inspiradas em suas obras.
Woman in Gold é inspirado no belíssimo retrato de Adele Bloch-Bauer, uma das pinturas famosas de Klimt, e é um jogo de contrastes entre luz e escuridão como Kilian descreve, só que visto sob a estética do ouro. O que representa o ouro aqui é o patchouli, que ao mesmo tempo que é terroso se mostra mais luminoso do que composições clássicas de patchouli. O uso de cítricos ao redor de um aroma de laranja ajuda a reforçar um tom luminoso na composição. Entre essas duas pontas se desenvolve um sofisticado e atemporal aroma floral powdery, que gira ao redor das rosas ao mesmo tempo que sugere um leve quê floral branco.
A combinação de rosas, patchouli e um quê de baunilha me faz pensar em uma versão moderna do delicioso Rochas Tocade, só que a harmonia é deslocada para favorecer o aroma brilhante e terroso do patchouli, moderando o aroma powdery floral e diminuindo bastante a doçura. É um típico perfume Kilian, familiar, bem acabado e elegante. A marca assim continua apostando em seu público e fazendo o que sabe fazer bem.

O Boticario Egeo Man - Fragrance Review

Um dos perfumes clássicos da marca o Boticario, Egeo Man fez parte da minha história num período de transição. Antes de me tornar apaixonado por perfumes e me debruçar sobre esse assunto ganhei em um dos meus aniversários um frasco dele de presente de aniversário, usei até o fim e depois acabei não voltando nunca mais a ele mesmo quando nos meus 16-17 anos entrei para o vício. Ainda sim, tenho lembranças de um perfume agradável, suave mas ao mesmo tempo persistente e usando ele novamente hoje tenho a impressão de que pouca coisa mudou nesses anos, o que é algo raro para um perfume.
Egeo Man é descrito como um perfume sedutor e o seu próprio nome está atrelado a isso. O boticário menciona que Egeo vem do latim e que está relacionado a ser impetuoso, a querer e a desejar. Eu acho curioso uma descrição dessas, visto que a própria marca o descreve a evolução de seu aroma como algo quente que chamar a atenção de forma sutil. Acho muito difícil você ser impetuoso e sutil ao mesmo tempo, mas coerência e marketing raramente andam juntos. E de qualquer forma, Egeo Man é de uma era onde o perfume tomou esse rumo, onde o sensual era ser sutil depois da saturação erótica dos anos 80. Hoje em dia, não é mais um perfume que reflete isso em seu nome.
Tirando essas digressões, o que Egeo Man faz bem é ser um perfume confortável, básico e bem feito. Acho interessante que seu aroma toque na família do novo frescor sem necessariamente ser aquático. Há um toque do frescor cítrico meio azedinho do dihidromircenol fazendo parte do aroma da lavanda e criando o aroma fresco, cítrico e transparente. Conforme evolui, Egeo ganha traços de um fougere com o acréscimo da tonka e do gerânio na evolução. O momento descrito pela marca da sofisticação sutil vem logo em seguida, uma base dominada por musks e aveludada por doses de baunilha e madeiras que tornam seu aroma aconchegante e bem moderadamente quente (talvez mais quente dependendo de como você perceber os musks e a baunilha). Provavelmente a minha experiência influencia aqui, mas esse é um perfume perfeito para alguém que está entrando na adolescência, tornando-se mais vaidoso e começando a se perfumar e se importar com perfumes. Creio que para esse público Egeo ainda retém seu toque de sedução, mesmo que não seja impetuoso como o nome promete.

O Boticario Myriad - Fragrance Review

Eu tava pensando aqui que perfumes são como pessoas, algumas quando morrem não fazem diferença nenhuma e não deixam saudades. Outras fazem diferença, mesmo que delimitada a uma pequena parte são importantes e marcantes. Assim são os perfumes, e o fato é que como as pessoas os perfumes morrem, mesmo que gostemos deles.
No caso dos perfumes, reincarnações acontecem, mas dificilmente eles voltam como eram antes. Myriad foi um dos perfumes do Boticario que sofreu esse processo de morte e reincarnação. Não entendo por qual motivo, pois um perfume que gera flankers certamente não é um perfume que seja ruim de vendas. E Myriad consegue um feito interessante, ser aquele tipo de perfume que é familiar ao mesmo tempo que distinto, marcante ao mesmo tempo que suave.
Sempre fui fã de Myriad, mesmo quando ainda não tinha conhecimentos sobre perfumes ou ousava a usar o que eu bem quisesse. Experimentando hoje, sei que esse seria um que eu teria frasco do Boticario se continuasse do jeito que é. Seu aroma é encantador, uma sinfonia que começa com um leve toque de cerejas, evolui para notas de ameixas meio doces e meio frescas e te envolve numa aura aconchegante de baunilha, musks, notas florais e especiarias. Myriad de fato tem várias nuances para um perfume que soa como um abraço quente e que nunca acaba. Por que matar um perfume assim? E por que colocá-lo em um frasco feio e como um flanker de um perfume que nada tem a ver com ele? A Morte de um perfume também deixa questões não respondidas da mesma forma que a morte de pessoas queridas.

4160 Tuesdays Inevitable Crimes of Passion - Fragrance Review


A Coleção Crimes of Passion tem uma proposta bem ousada. Sarah McCartney se propõe a criar perfumes tão maravilhosos que você seguiria a pessoa até o fim do mundo apenas para sentí-los novamente. Inevitable Crimes of Passion é de certa forma um representante da coleção e seu nome me faz pensar em um título de um livro romântico. A própria descrição também remete a isso, a de um gourmand de chocolate.
Porém, assim como não se pode julgar um livro pela capa não se pode julgar um perfume pelas notas e descrição. O tipo de Romance que a Sarah parece evocar aqui é um clássico, da Jane Austen. Eu me pego por isso automaticamente mudando o nome do perfume para algo como Crime e Paixão para lembrar justamente a forma como a autora nomeava seus livros.
Inevitable Crimes of Passion é um gourmand, porém de uma outra época. É como se voltássemos no tempo e tivessemos um oriental clássico gourmand atualizado para uma roupagem atual, mais direta e sem tantos adornos. É um perfume que veste um aroma de ambar adocicado e cacau em uma aura negra de labdanum, musks, sândalo e madeiras. É uma dança de conquista das notas, algo como uma atuação que por mais que comedida que possa parecer revela uma aura erótica por debaixo dos panos. Não é um gourmand açúcarado, é um chocolate amargo que deve ser degustado lentamente para que se observe suas nuances.

Avon Mulher e Poesia Elogios - Avaliação

A Linha de Perfumes Vínicius de Moraes (atualmente Mulher & Poesia) da Avon é um caso interessante de uma espécie de linha de celebridade que se inspira no famoso poeta para oferecer composições sensuais e sofisticadas para a faixa de preço onde elas se encontram. Recentemente tal linha ganhou um novo perfume, em concentração deo parfum, mostrando que a marca está antenado com as exigências maiores do brasileiro em relação a intensidade e duração das fragrâncias.
Mais que isso, o Perfume Elogios mostra que a marca está antenada no que vem acontecendo na sociedade, criando um conceito interessante. Além de procurar celebrar em suas notas materiais nacionais (Ipê Rosa e Jabuticaba que são combinados a cerejeira e sândalo), o perfume em vez de fazer alusão ao jogo de sedução entre os sexos celebra a amizade entre as mulheres, a mulher como inspiração para seus pares.
Na pele, a fragrância se mostra interessante para um frutal com nuances florais e amadeiradas. Assim que senti na amostra o cheiro me chamou a atenção pois lembrava o aroma de um licor frutal exótico e suculento, e dava vontade de beber. Usando na pele essa nuance se mostra menos intensa e o frutal da jabuticaba é mais evidente, com um leve quê de fruta silvestre. Apesar da marca não divulgar flores, há um acorde floral sofisticado e fresco com um leve quê de iris também. Ele conduz para um corpo onde o musk prevalece e envolve o sândalo e um toque de madeira exótica. Elogios cria um perfume comercial simples e bem feito, um que tenta marcar presença sem dominar o espaço. Sinto que seu aroma é amigável e sensual e consegue de certa forma capturar o que se propõe a fazer. Talvez não seja bem uma deo parfum, mas tem uma performance decente na pele.

Avon Attraction Her e Attraction Him - Avaliações


Voltar a conhecer os perfumes da avon depois de tantos anos sem senti-los tem sido uma experiência mais interessante do que eu esperava.Tenho um certo carinho pela Avon pois minha história de perfumaria começou com ela, era o que eu tinha acesso e condições de ter quando pré-adolescente. Mas isso não me leva a idealizar a marca também.Eu diria que os perfumes da Avon do ponto de vista do marketing e publicidade não possuem apelo e isso é complicado para um produto como perfume, que é algo abstrato e que depende desses elementos para conquistar. Por isso, as fragrâncias da marca tem que se sustentar pelo aroma, o que as vezes acontece e as vezes não.
Na dupla Attraction, é um caso onde os perfumes da marca por mais que não tenho o apelo de uma marca desejada são excelentes criações que traduzem muito bem o que o consumidor considera como atraente no momento. São aromas que poderiam estar dentro de nomes prestigiados do cenário comercial internacional e que por isso são opções interessantes para quem deseja o perfume pelo aroma em si.
O Attraction For Him foca em um mix de 4 camadas que traduzem o que é considerado atraente hoje como perfume comercial masculino. A primeira delas é o frescor aquático, que não é mais evidente mas que pode ser percebida na saída. Se você tiver sensibilidade ao calone certamente notará de forma bem clara esse lado da composição. Misturada a essa camada vem as especiarias, onde o cardamomo faz a ponte entre esse lado mais fresco e o lado mais cremoso e sensual da composição. Numa terceira etapa temos o lado mais fougere, com o uso da coumarina e um toque de lavanda para reforçar o elemento fougere. Por último, e possível perceber de forma constante um aroma amadeirado e ambarado na composição, algo que é bem comum em perfumes masculinos no momento e que conforme a composição avança mostra um amadeirado mais cremoso, aveludado pelos musks. Interessante que na base o perfume retorna parte do seu frescor especiado e é possível notar de forma mais nítida o gengibre no perfume.
O Attraction for Her me parece mais direto em sua inspiração do que o masculino e eu vejo claramente que a marca mirou no que tem sido um benchmark do mercado feminino no momento: La Vie Est Belle. Porém, não é um clone dele, e sim um perfume que emula a dinâmica entre elementos gourmands, amadeirados e um pouco atalcados. Na saída o perfume revela um aroma frutal suculento e já mostra o toque açúcarado e tostado da ideia do praliné. Parece que vai se tornar enjoativo, porém o uso da pêra quebra o tom muito doce e junto com o jasmim produz a sensação de um lírio do vale bem agradável. Conforme evolui o perfume se torna aconchegante, um aroma levemente powdery, amadeirado cremoso que remete a sândalo com toques de baunilha. Se mostra um pouco mais linear que o masculino, mas é um perfume bem harmônico com uma evolução muito bem feita. É um excelente trabalho da perfumista Honorine Blanc para a marca.

Amouage Opus III - Second Fragrance Review

É interessante como as percepções dos perfumes mudam conforme a gente muda com o tempo. É uma pena que eu não consiga voltar em todos os perfumes que eu já avaliei, mas o Opus II é um que eu fazia questão de revisitar pois quando o avaliei eu me decepcionei bastante com o seu cheiro. Mas eu escrevi a muito tempo atrás sobre ele, quando tinha 22 anos e era bem mais idealista e acreditava que um perfume de nicho deveria ser algo exuberante e que boa parte do investimento deveria ir para a fórmula sem entender como um negócio de perfumaria funciona de fato.
Pois bem, muitos anos depois e analisando Opus II com outros olhos vejo seu valor e suas intenções. O perfume se encaixa muito bem na trilogia das primeiras composições, que homenageavam clássicos do passado. Mas mais que isso, Opus II representa o início das intenções da marca de expandir seu mercado e público-alvo para muito além da perfumaria tipicamente árabe.
Assim, essa é uma criação que tenta fundir os dois mundos, o árabe e o ocidental, o exótico e o moderno, o acessível e o luxuoso. E dependendo do que você sentir nela é que poderá ver o valor. Hoje acho curiosa a combinação: a saída fougere herbal é ousada sem ser agressiva, uma combinação de lavanda e absinto e algo que remete a folha de louro. Misturada a ela temos um contraste de pimentas, uma pimenta mais seca e um cardamomo que dá um frescor mentolado especiado típico da nota. Conforme Opus II evolui ele se encaminha para uma base amadeirada ambarada. E o que mais me impressiona é que todos esses anos embaixo do meu nariz esteve encaixado um acorde de agarwood que eu nunca tinha notado. É uma combinação inusitada, um fougere oud, e a facilidade de uso talvez mascare justamente seu trunfo. Eu diria que Opus II é um perfume de entrada no universo da Amouage da mesma forma que o Reflection e é uma criação que se propõe a fazer o acessível de forma bem feita. Quanto ao preço, a verdade é que em perfumaria é uma questão mais de posicionamento, distribuição e público e considerando o tempo que ele está disponível no mercado entendo que Opus II cumpre seu propósito.

Amouage Opus II - Second Fragrance Review


É interessante como as percepções dos perfumes mudam conforme a gente muda com o tempo. É uma pena que eu não consiga voltar em todos os perfumes que eu já avaliei, mas o Opus II é um que eu fazia questão de revisitar pois quando o avaliei eu me decepcionei bastante com o seu cheiro. Mas eu escrevi a muito tempo atrás sobre ele, quando tinha 22 anos e era bem mais idealista e acreditava que um perfume de nicho deveria ser algo exuberante e que boa parte do investimento deveria ir para a fórmula sem entender como um negócio de perfumaria funciona de fato.
Pois bem, muitos anos depois e analisando Opus II com outros olhos vejo seu valor e suas intenções. O perfume se encaixa muito bem na trilogia das primeiras composições, que homenageavam clássicos do passado. Mas mais que isso, Opus II representa o início das intenções da marca de expandir seu mercado e público-alvo para muito além da perfumaria tipicamente árabe.
Assim, essa é uma criação que tenta fundir os dois mundos, o árabe e o ocidental, o exótico e o moderno, o acessível e o luxuoso. E dependendo do que você sentir nela é que poderá ver o valor. Hoje acho curiosa a combinação: a saída fougere herbal é ousada sem ser agressiva, uma combinação de lavanda e absinto e algo que remete a folha de louro. Misturada a ela temos um contraste de pimentas, uma pimenta mais seca e um cardamomo que dá um frescor mentolado especiado típico da nota. Conforme Opus II evolui ele se encaminha para uma base amadeirada ambarada. E o que mais me impressiona é que todos esses anos embaixo do meu nariz esteve encaixado um acorde de agarwood que eu nunca tinha notado. É uma combinação inusitada, um fougere oud, e a facilidade de uso talvez mascare justamente seu trunfo. Eu diria que Opus II é um perfume de entrada no universo da Amouage da mesma forma que o Reflection e é uma criação que se propõe a fazer o acessível de forma bem feita. Quanto ao preço, a verdade é que em perfumaria é uma questão mais de posicionamento, distribuição e público e considerando o tempo que ele está disponível no mercado entendo que Opus II cumpre seu propósito.

Amouage Opus IV - Fragrance Review

O que eu não percebi em Opus IV quando tive um frasco dele a muitos anos atrás é que ele é um perfume que se encaixa perfeitamente no propósito original da coleção, o de ser uma biblioteca de aromas. Se em Opus II temos uma homenagem moderna aos perfumes fougeres e em Opus III a marca faz uma referência a época de ouro da perfumaria no volume IV ela volta as origens do perfume e se coloca em um território onde a marca se sente confortável e que domina muito bem, o aroma clássico, atemporal e misterioso das resinas aromáticas.
Há algo nessa composição que me faz pensar em um aspecto litúrgico, creio que o uso do incenso em confluência com outras resinas. Nós temos a falsa impressão de que o incenso em si é pesado, mas o fato é que o OE do incenso curiosamente é um aroma esfumaçado leve e mentolado. O que dá o aspecto quente, fumegante e ritualístico no incenso é a combinação das resinas de árvores e arbustos aromáticos, que tem esse cheiro mais denso, quase queimado. Para mim mesmo que não acha mirra listado percebo claramente isso hoje, pois mirra é uma resina que tem um cheiro que mistura frutas secas, uma leve nuance de couro e um cheiro ceroso adocicado que é único dela.
Pois bem, a espinha dorsal de Opus IV é essa aura fumegante e adocicada de resinas clássicas. Por cima disso se constroe um perfume complexo, exuberante, que mistura nuances de frutas doces, ervas secas e cheiro de especiarias. Na saída você tem um aroma bem pungente de cravo seco e canela em meio a doçura das resinas e o aroma das frutas. Em um segundo momento surge um aroma herbal que chega quase a remete a cheiro de folha de louro, aquele aroma que tem um pé no cheiro das ervas e outro no de bebidas alcóolicas. E depois, Opus IV entra em um terrotório que é bem a cara da Amouage clássica: muito incenso, muita resina adocicada. Dos 4 primeiros esse talvez é um dos mais fortes e é um que projeta e exala muito bem, mesmo em dia frio (considere que minha pele é péssima nesses aspectos e só menciono isso quando realmente me chama a atenção). Para quem curte perfumes orientais clássicos e exuberantes é um prato cheio.

4160 Tuesdays Buddhawood Box - Fragrance Review

Uma paixão que fica evidente nos perfumes da Sarah em sua marca 4160 Tuesdays é a exploração de óleos essenciais preciosos e únicos, coisas que raramente são usadas em perfumaria comercial. É como se sua marca fosse uma espécie de showroom para eles, pronta a mostrar como eles podem se encaixar em perfumes acabados, mesmo que sejam perfumes bem diretos em sua abordagem. Confesso que não é uma tarefa fácil, alguns materiais mais exóticos demonstram nuances que são difíceis de contornar quando você tenta usar.
Em Buddhawood Box Sarah explora a extração do óleo essencial de uma madeira australiana conhecida popularmente como Buda Wood ou Falso Sândalo. Eu acho muito curioso essa espécie pois do ponto de vista botânico ela faria parte da família do Pau-Rosa (Rosewood), mas do ponto de vista químico aromático se assemelha ao agarwood. Porém na prática suas nuances remetem de fato ao aroma amadeirado e de lenha do sândalo. Talvez inspirado nessas facetas Sarah utiliza o exótico material em um bouquê de madeiras. um perfume que é amadeirado do começo ao fim. Sândalo e Cedro se juntam ao Agarwood e Buddahwood para uma história de quatro caixas amadeiradas que guardam preciosas opalas dentro de si. Simbolicamente, essas opalas também representam óleos essenciais raros: chá de rooibos, boronia, boxwood.
Na pele, Buddhawood me faz pensar em uma harmonia que cria uma aura serena e amadeirada de sândalo, algo polido e elegante, entre o cremoso do sândalo indiano e as nuances mais secas e que remetem a cedro do sândalo canadense. A saída é bem curiosa para mim, há um aroma que parece fantasmagórico, como se fosse a alma de ervas e especiarias meio salgadas, o fantasma do aroma de algo que foi guardado dentro de uma caixa de madeira. Mas para mim elas são mais um detalhe do que a peça central. Buddhawood é para quem curte sândalo do começo ao fim, em todas as suas nuances, ligeiramente adornado com toques exóticos preciosos. Um perfume simples porém precioso pelo que contém, e certamente uma ótima base para se aplicar outras criações que precisem de sustentação em seu aroma.

Avon Life For Him By Kenzo Takada - Fragrance Review


Ainda que a Avon não seja uma marca valorizada e que desperte curiosidade entre muitos entusiastas de perfumaria é interessante observar que ao longo da sua história a marca fez parcerias com nomes importantes, sejam celebridades, sejam empresários do mundo da moda. Certamente eles vêem na marca um expertise na produção e uma forma de atingir um público consumidor que de outra forma não teriam acesso.
Recentemente, foi a vez do estilista Kenzo Takada conceber um duo de fragrâncias com a marca com um conceito que refletisse a positividade de seus designs. Kenzo Takada se aposentou da marca que leva seu nome desde o final da década de 90 mas no circuito de perfumaria ele certamente é conhecido de muitos por composições que marcam momentos principalmente da década de 90 e de 2000. A Kenzo foi uma das primeiras a entrar no cenário dos perfumes aquáticos e de certa forma Life Him me faz pensar que Kenzo retorna justamente em uma época de sucesso profissional para explorar algo que ele sabe que continua vendendo bem.
É curioso que Life Him exemplifica perfeitamente uma das características que torna difícil a análise de um perfume quando se limita justamente a composição em si. O fato é que perfumes aquáticos não dependem de nenhum material natural ou sintético de custo elevado para conver seu conceito de frescor e leveza, de forma que é possível posicionar um perfume desses tanto em um segmento acessível como o da Avon como o de uma perfumaria comercial de maior prestígio. E dado que como os cítricos a família dos aquáticos depende pesadamente de variações de um mesmo tema, é um segmento difícil também de se diferenciar com inovações na dinâmica do aroma sem afetar as expectativas do público e, consequentemente, as vendas. E assumindo essa premisas, Life Him cumpre perfeitamente o que se propõe, ser um perfume relativamente barato com alguma aura de prestígio e um frescor aquático que agrada a muitos.
Quando penso na composição, Life Him está justamente no limite entre um perfume que soa genérico e um que parece condensar uma década de perfumes aquáticos em uma fragrância. Por exemplo, você enxerga traços da dinamica do frescor frutal aquático do Acqua di Gió, traços da temática aquática floral de violeta e calone, traças do novo frescor cítrico de um Davidoff Cool Water e até mesmo um contraste entre especiarias e aquáticos do Carolina Herrera Chic. São referências bem sutis que assim que se mostram rapidamente se dissipam em torno da aura aquática fresca que fica entre a violeta e um toque transparente de hedione, uma molécula que convem o lado luminoso do jasmim e muito utilizada em perfumes aquáticos. Como boa parte dos perfumes da década de 90 em diante, Life Him é praticamente linear, se sustentando em sintéticos de musk e madeiras que mantém a aura principal do perfume sem se destacar muito. É um bom trabalho, um perfume digno para se bater no dia-dia e que aparece em boas promoções, o que torna seu custo-benefício ainda melhor. Não é uma obra-prima, mas não dá para exigir isso de uma companhia que produz perfumes para a massa.

Amouage Opus V - Fragrance Review


É interessante a mudança de foco que a marca árabe Amouage faz na linha Opus com o perfume V da coleção. Nunca tinha prestado muita atenção nesse integrante da bibllioteca, mas ele continua a ideia de homenagear o passado, porém com uma pegada mais moderna, uma interpretação mais direta. O que temos de homenagem aqui é um dos materiais mais clássicos da perfumaria, a iris.
Quem conhece a nota apenas da perfumaria comercial e apenas baseado em perfumes como Dior Homme chega a conclusão de que o aroma de iris é atalcado e remete a maquiagem. O fato é que essa é apenas uma das facetas da raiz baseada em dois tipos de sintéticos que foram identificados e isolados tanto nas violetas como na iris: alfa e beta inononas. Entretanto, assim como o nosso vocabulário, as notas são como palavras e podem dizer inúmeras coisas. Iris, por exemplo, pode ser amadeirada também, aquática, metálica, terrosa e até mesmo ter nuances de couro. O precioso e caro absoluto de iris, por exemplo, tem em seu cheiro um aroma predominantemente terroso e vegetal, que remete a cenoura (isso acontece devido ao parentesco químico entre moléculas da íris e os carotenoídes da cenoura).
Voltando ao perfume em si, Opus V é uma homenagem multifacetada a riqueza da iris, só que atualizada em um contexto árabe. A expertise do perfumista Jacques Cavallier faz um trabalho de primeira ao mistura aromas amadeirados secos e fortíssimos com a aura ambarada do agarwood, os tons adocicados de bebida e a rainha da composição, a iris. Ela começa com um aroma de violeta, mostra suas nuances florais aquáticas e depois evolui para o seu lado mais terroso e amadeirado, apoiado em um tipo de jasmim que ajuda a reforçar essa nuance amadeirada da composição. Creio que os materiais amadeirados ambarados que acompanham a base adocicada de oud ajudam também a criar a ilusão de um aroma seco de tabaco de fundo. Opus V é intrigante, complexo nas suas nuances mas ao mesmo tempo relativamente linear, sem mudanças bruscas de aroma ou foco. Um dos melhores da linha Opus.

Amouage Opus VII e Opus VIII - Fragrance Reviews


Pode-se dizer que visualmente e conceitualmente a partir da edição VII a linha Opus sofreu uma repaginada em sua abordagem mesmo que isso não tenha se refletido de uma forma brusca na estética dos perfumes criados. Os conceitos a partir daqui passam a ir em direções mais abstratas e artísticas, sem necessariamente referenciar o passado de uma forma direta. Os frascos também se tornam mais luxosos e trabalhados, finalmente refletindo o preço mais luxuoso da linha. Mas os perfumes continuam como os outros integrantes da linha, complexos, ricos e intensos.
Opus VII é um dos membros mais interessantes da linha pela justaposição inovadora e inusitada de um acorde de agarwood com um aroma verde e esfumaçado de gálbano. A ideia conceitual retratada é a de uma justaposição entre harmonia e imprudência, o que talvez explique a aura dramática da composição. O perfume abre com um aroma verde, adocicado, especiado, fresco e ambarado, um misto de um aroma de agarwood, cardamomo, incenso, musks e gálbano. Uma aura mais floral aparece para equilibrar a composição, porém ele nunca sai da nuance exótica árabe incensada que é uma marca da amouage. É um dos perfumes mais marcantes dentro dessa coleção.
Já Opus VIII vai numa direção mais floral e amadeirada, propondo-se criar um conceito que mescla realidade e ilusão por meio da emulação com os aromas da técnica de pintura denominada trompe l'oeil, uma técnica que utiliza-se da perspectiva e ilusão ótica para criar a ilusão de uma terceira dimensão. Acho que o objetivo aqui parece ser dar textura a um bouquê floral imaginário, como se ao aplicar o perfume na pele as flores ganhassem vida. É um cheiro que mistura toques de tuberosa com aroma de laranjeira e um leve quê floral aquático. Temos aqui também especiarias, adocicadas e meio mentoladas, e uma base amadeirada luminosa, que apesar de não listar patchouli parece criar a ilusão de um com os elementos incensados, amadeirados e resinosos. É um perfume exuberante e bem marcante.

Avon Exclusive in Blue, Alpha Man e Luck Him - Avaliações


Quando se trata de perfumaria masculina, parece que a Avon ou acerta em cheio ou erra bastante. Sinto que a marca ousa bem pouco no que oferece para o público masculino, o que deixa pouco espaço para perfumes que dentro da proposta e faixa de preço sejam realmente bons. Isso fica perceptível de formas diferentes nos 3 perfumes dessa avaliação.
Em exclusive in blue, de acordo com as palavras do perfumista, o objetivo do perfume é criar um aroma elegância que possa ir tanto do formal ao casual. O perfume gira ao redor de um acorde bem gostoso de cardamomo, que lhe confere um frescor picante e com nuances de cítricos e lavanda. Conforme o perfume evolui, o toque da folha de violeta consegue criar a intenção de um perfume versátil, mas a base decepciona um pouco, faltando definição e sofisticação na ideia criada das madeiras.Exclusive in blue parece incompleto, como se o orçamento do perfumista para criar tivesse acabado.
Já Alpha Man me parece confuso, ainda que interessante em sua confusão. O perfume parece tentar cobrir várias bases da perfumaria masculina de uma vez e acaba não fazendo 100% bem nenhuma delas. Começa com um aroma fougére fresco mentolado, depois meio que evolui para um mix de especiarias quentes e adocicadas e depois se transforma em um amadeirado ambarado. Nesse momento me pareceu que o perfume ia crescer e se mostrar, entretanto de forma bem estranha ele simplesmente desaparece na pele.Vejo comentários de que sua fixação é muito boa, mas nas várias vezes que reapliquei senti falta dessa presença. Tem potencial e poderia ser bem melhor se durasse mais e não tentasse ser tanta coisa ao mesmo tempo.
O mais decepcionante para mim é Luck For Him. É bem claro que a marca deseja posicioná-lo como algo mais sofisticado e de preço acessível: concentração deo parfum, fragrância feita para o homem sofisticado e contagiante. Mas é justamente sofisticação o que falta aqui. Luck For Him me parece como uma versão sem orçamento do Allure Homme Edition Blanche. Substitui os cítricos por algo mais acessível, os musks por musks mais baratos, tira o gerânio do original e o toque de maçã e coloca lavanda e pimenta rosa. No fim das contas, tem cheiro de desodorante cítrico. E nem fixação de deo parfum tem para ser sincero.Pode até não ser caro, mas não é satisfatório.

Hermès Eau des Merveilles Bleue - Fragrance Review


Quando se fala em gênero na perfumaria, é fácil defender a separação entre masculino e feminino quando se pega exemplos que estão nos limites do que seria o 0 e o 1. Perfumes muito conhecidos ou então criações muito amadeiradas e florais que facilmente são utilizadas de exemplo para confirmar essa tese. Surgem porém perfumes como o Eau Des Merveilles Bleue que mostram que na prática isso tem mais nuances do que se imagina.
A Criação original, o Eau Des Merveilles, já era um perfume que poderia ser compartilhado facilmente, dado que seu aroma cítrico, efervescente e mineral não parecia assumir nenhuma identidade de gênero em especial. Já a versão Bleue parece transitar facilmente por ambos os terrenos de uma forma bem transparente.
A saída é bem próxima ao tradicional, entretanto com um reforço no aroma de bergamota. Logo em seguida surge uma versão um pouco mais floral da ideia do tradicional, que parece dizer que essa versão irá por um território mais feminino talvez. É um aroma transparente de lírio do vale e um jasmim luminoso que com um toque de madeira e a saída cítrica me faz pensar no estilo de alguns Francis Kurkdjian.
O perfume se parasse aí estaria bem claro seu direcionamento, entretanto curiosamente surgem as notas aquáticas depois dos cítricos e das flores. É nessa etapa que o aroma transparente, levemente metálico e fresco delas parece encarnar de alguma forma um dos clássicos do gênero masculino dos aquáticos, acqua di gió. E assim permanece o perfume na pele, com um toque aquático transparente em meio ao aroma amadeirado suave. É como se a composição simplesmente não se importasse com definições, ela é apenas o que deseja/deve ser, o resto são convenções ou gostos atrelados a ela.

Tom Ford Noir Anthracite - Fragrance Review


Quer você ame ou odeie Tom Ford, uma coisa é certa: o estilista tem um excelente instinto em perfumaria para conceitos que com o tempo se mostram bem sucedidos. A fórmula de sucesso dele me parece simples, um olhar simultâneo para o futuro, para o que pode se tornar tendência, e para o passado, resgatando aromas clássicas e os polindo para uma nova geração. Ultimamente muito da perfumaria do Tom Ford tem se baseado nessa segunda regra, talvez movido pelo movimento de nostalgia que vivemos.
Noir Anthracite é uma de suas novas apostas para o público masculino e apesar de ser um flanker do perfume Noir poderia tranquilamente ser uma criação independente, um novo pilar. A criação é vendida como um ícone de sedução, um reflexo da luz no escuro, uma dualidade entre contrastes. Isso traduzido para o aroma em si é vendido, na minha opinião, como uma tensão entre perfumaria clássica e perfumaria moderna, algo mais dark, "sujo", em meio a uma aura clean e polida.
O aroma em si me faz pensar em perfumes da década de 80 que utilizavam bases pesadas de couro e notas animálicas sintéticas junto com aromas de madeiras, notas florais de violeta e muitos outros detalhes, afinal, essa é uma década que transpira sexo e excesso. Noir Anthracite traduz isso em algo mais usável, porém não tolo. O aroma de couro e toques levemente animálicos continua lá, porém mais sutil. As madeiras ganham mais evidência, a violeta confere uma leve doçura sem dar um ar atalcado e datado a composição. As especiarias e os cítricos acabam ganhando mais destaque fazendo justamente o papel da luz em meio ao escuro. Como se trata de um perfume contemporâneo, Noir Anthracite se despe de camadas complexas e mantém uma aura amadeirada couro constante. É um perfume bem feito, equilibrado e que captura muito bem o estilo contemporâneo.

Mona di Orio Suede de Suede e Dojima - Fragrance Reviews

A perda da perfumista Mona di Orio a 7 anos atrás me deixou triste e temeroso pelo futuro da marca. Pelas entrevistas que li e pela chance que tive uma vez de interagir com ela Mona me parecia uma pessoa gentil, inteligente e bem criativa. A marca era um reflexo de sua pessoa e sua partida tão jovem certamente era um grande risco a sua continuidade.
Porém, seu amigo e parceiro de negócios Jeroen Oude Sogtoen tem feito um excelente trabalho em manter a marca concebida por Mona. Após uma elegante nova roupagem aos perfumistas existentes, Mona di Orio agora tem um perfumista in-house capaz de continuar a história começada. E pelo que entendi, Suède de Suède e Dõjima são seus primeiros trabalhos à frente da criação da marca.
Suède de Suède é inspirado pelas memórias olfativas do perfumista Fredrik Dalman, e pelo que parece seu objetivo aqui é criar uma fragrância que acaricia a pele com a textura de uma luva suíça. Não é exatamente uma interpretação literal da camurça, o que se encaixa bem com outros trabalhos da marca. Suède apresenta um couro levemente emborrachado, aveludado, que se descortina em nuances levemente adocicadas, ambaradas e powdery. Consigo identificar um toque de iris e uma base que apesar de não ter oud me faz pensar em uma versão moderada do aroma de agarwood retratado no clássico M7. Conforme o tempo passa, Suède de Suède revela o aroma mais delicado da camurça e termina numa base mais amadeirada e menos adocicada.
Dôjima é outra criação bem interessante, com uma inspiração que foge do óbvio. O nome remete ao mercado de negociações Dôjima, criado no Japão em 1697 para negociar o estoque de arroz. A ideia aqui é capturar um acorde powdery de arroz, apoiado no jasmim e na iris. Não é a toa que o perfume utiliza essas duas ancoragens para a ideia - a iris possui a textura powdery aveludada e o jasmim tem moléculas que nas devidas proporções são capazes de passar um aroma fantasia cremoso e lactônico e que remeta a arroz. Isso é complementado por nuances de canela, amêndoa e coco, o que me faz pensar no lado mais aromático do arroz-doce. Os outros elementos escolhidos aqui também giram ao redor dessas texturas: a base amadeirada, cremosa e lactônica de sândalo, a textura dos musks, o toque da baunilha, o aroma delicado e levemente frutado e almiscarado da ambrette. É um perfume fino, elegante e bem distinto, um que junto com Suède continua de forma bem bonita a herança deixada por Mona di Orio.

The House of Oud Blessing Silence, Dates Delight, Cypress Shade


No cenário atual da perfumaria de nicho, quando se é uma nova entretante no mercado é bom se destacar entre as demais, algo que certamente exige uma união entre perfume e apresentação. Quem fez um excelente trabalho nesse sentido é a The House of Oud, que estreiou para valer mesmo em 2016 com belíssimos frascos pintados a mão que parecem obras de arte. Os perfumes também não decepcionam, soando razoavelmente familiares para quem já conhece o que o mercado de nicho tem a oferecer, porém não parecendo criações genéricas.
Integrante da coleção Desert Day, Blessing Silence tem uma relação mais direta com o nome da casa e assim estamos diante de um perfume que trás o que conhecemos e esperamos de agarwood. Seu aroma, entretanto, consegue criar uma bela harmonia entre a rosa, agarwood e patchouli, criando um aroma floral frutado rico de rosas na saída que evolui para um agarwood animálico acompanhado de um patchouli terroso. A performance é muito boa e apenas um pouco já garante uma boa duração na pele.
Dates Delight já faz parte de uma outra coleção, a Klem Garden collection, que na minha opinião representa uma visão mais ocidental da marca. O oud nesse está presente, porém na forma de uma base sintética que transforma seu aroma em algo ambarado adocicado e que serve de pano de um fundo para que se desenvolva um aroma que mistura nuances de frutas tâmaras suculentas, mel, tonka, especiarias e baunilha. O conjunto da obra me faz pensar em algo que vai na mesma direção do Hermes Ambre Narguile, só que com o aroma frutal das tâmaras em evidência.
Cypress Shade não possui aroma de agarwood, o que confirma a minha impressão de que a Klem Garden Collection é a linha da marca para o público ocidental. A ausência dele não é notada, o perfume é excelente em torno do aroma que ele gira, algo verde, herbal, levemente lactônico e úmido. Não vejo nuances de coco ou figo listadas, porém sinto essa sensação logo na saída, acompanhando o aroma amadeirado seco do Cipreste que dá nome a composição. Essa nuance lactônica acaba se misturando ao aroma verde e amadeirado que vai se desenvolvendo, onde o aroma de vetiver e cedro vão se tornando evidentes na evolução do perfume. A ideia de forma geral me faz pensar também em outro Hermés, Vetiver Tonka, porém nesse caso mais verde, menos adocicado e mais encorpado/complexo. Dos 3 testados seria, por uma leve diferença, o melhor.

4160 Tuesdays London 1969 - Fragrance Review

É possível perceber claramente que Sarah McCartney possui uma paixão pela perfumaria do passado. Muitos dos seus perfumes possuem a complexidade e profundidade dos clássicos e utilizam uma quantidade de materiais naturais como nos tempos de ouro da perfumaria. Por isso, é natural que em 2014 tenha surgido em sua marca o projeto Vintage Tuesdays, que tem o propósito de criar novos perfumes porém inspirado em épocas do passado e utilizando os materiais disponíveis na época.
London 1969 é um dos integrantes de um quarteto de criações e ele foi feito, pelo que entendo, considerando-se três blends inspirados em pontos distintos de Londres (Hyde Park, King's Road, Soho). Um elemento importante da fórmula é o Hedione, uma molécula encontrada no jasmim e sintetizada em laboratório e que na década de 60 teve seu potencial descoberto pelos perfumistas, com Eau Sauvage sendo o primeiro perfume a utilizá-la como parte importante de sua ideia.
Testando London 1969 na pele, a maior surpresa é que esse é um dos perfumes mais contemporâneos e comerciais (em um bom sentido) da 4160 Tuesdays. Certamente isso se deve pela ênfase das notas de musk e ambergris na base e na predominância de cítricos, elementos atemporais apreciados pelo público até hoje. Se London 1969 representa bem seu tempo, eu não sei dizer. Mas consigo ver a sua ideia leve, positiva e cintilante atrelada talvez a aspectos do movimento hippie. É um perfume que abre com um aroma de limão e verbena, nuances de grama cortada e que rapidamente evolui para um corpo floral transparent e luminoso, características do hedione. Termina em uma base discreta e confortável de musk e ambergris. É um perfume limpo, despretensioso e fácil de usar.

The House of Oud Almond Harmony, Grape Pearls e Golden Powder - Fragrance Reviews


Após alguns dias de imersão nos perfumes da The House of Oud já a vejo como uma espécie de curadoria de ideias de nicho dos últimos anos. A marca fez um bom trabalho de seleção de perfumes que estruturalmente se assemelham a clássicos de mercado e a boas criações desconhecidas do público geral. O que é interessante nesse processo é que a forma como isso foi trabalhado não faz com que eles parecem imitações de outras criações e se sustentem por si só.
Almond Harmony me faz pensar nos primeiros anos de colecionador de perfumes dado a duas criações que cheguei a conhecer na época: Lush Snowflake e The People of The Labyrinths Luctor Et Emergo. Do primeiro há a semelhança entre a dinâmica das amêndoas e rosa e do segundo há a mesma dinâmica de amêndoa, coumarina, baunilha e heliotropina que remete a massa de modelar play-doh. Almond Harmony abre com o aroma mais amargo e medicinal das amêndoas e com nuances de especiarias e depois evolui para um aspecto um pouco floral e powdery. Depois, lentamente se transforma em um aroma doce e resinoso quente e que remete a massa de modelar.
Grape Pearls a princípio me decepcionou devido a forte presença de materiais ambarados secos, daqueles que reinam em todos os perfumes masculinos ultimamente. Entretanto, é um perfume de nuances, que cresce na pele durante o tempo. Há algo em seu aroma floral que realmente soa perolado e temos flores brancas trabalhadas em sua suculência frutal para remeter ao aroma de uva. Com o tempo, rosa e café se destacam e criam na pele um aroma quente, torrado e levemente adocicado, mantendo parte do aroma de uva. Nessa fase o perfume me faz pensar no Café Rose da Montale, porém mais harmônico e melhor trabalhado.
Golden Powder, pertencente a desert collection, já soa como uma homenagem moderna a uma ideia clássica da perfumaria, os perfumes de sândalo. A princípio seu aroma na pele decepciona um pouco, pois o cheiro amadeirado e seco do sândalo é evidente logo de cara e dá a impressão de que o perfume será linear. Entretanto, assim como Grape Pearls essa é uma criação que muda conforme o tempo passa, mostrando um aroma mais ambarado, levemente adocicado e que é quase uma espécie de assinatura olfativa da casa. De todos testados até o momento é um dos que menos me chamou a atenção, entretanto seu aroma de sândalo soa bem construído e passa a sensação de ser natural.