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25 de set de 2018

La Via Del Profumo Milano Caffé - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

É muito difícil fazer um perfume 100% natural que tenha dinamismo e fixação mas o perfumista Dominique Dubrana tem um talento para isso que parece ter sido refinado ao longo dos anos. Seus perfumes conseguem ser variados e intrigantes, utilizando o que poderia ser uma fraqueza como força. Eu diria que um de seus melhores perfumes é Milano Caffé, uma homenagem do perfumista a Milão e seu aroma onipresente de café.

Milano Caffé possui uma elegância difícil de se atingir com notas naturais, que tendem a ter uma certa brutalidade em suas nuances. Tudo parece se integrar perfeitamente aqui: o aroma torrado do café, o toque gourmand secundário de chocolate, as especiarias, equilibradas entre especiarias frias e quentes e um leve aspecto de cominho talvez, o que dá uma sensualidade discreta à composição. O perfume termina em uma excelente base amadeirada ambarada, que me parece combinar vetiver, labdanum, um toque de baunilha e sândalo de alta qualidade. Milano Caffé mostra o que a perfumaria natural pode ser com a proposta certa e nas mãos certas.

English version

It is very difficult to make a 100% natural perfume that has dynamism and fixation but the perfumer Dominique Dubrana has a talent for this that seems to have been refined over the years. His perfumes can be varied and intriguing, using what could be a weakness as a force. I would say that one of his best perfumes is Milano Caffé, a homage of the perfumer to Milan and his omnipresent aroma of coffee.

Milano Caffé has an elegance hard to reach with natural notes, which tend to have a certain brutality in their nuances. Everything seems to integrate perfectly here: the roasted aroma of the coffee, the secondary gourmand touch of chocolate, the spices, balanced between hot and cold spices and a slight aspect of cumin perhaps, which gives a discreet sensuality to the composition. The fragrance finishes in an excellent amber woody base, which seems to combine vetiver, labdanum, a touch of vanilla and high quality sandalwood. Milano Caffé shows what the natural perfumery can be with the right proposal and in the right hands.

Caron Tabac Blond EDP - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

Se houvesse uma forma de preservar comercialmente patrimônios históricos da perfumaria Tabac Blond certamente estaria nessa lista. Prestes a completar 100 anos, infelizmente com o anúncio da possível venda da parfums Caron ele corre risco de ser descontinuado. É uma pena pois sua composição é um testamento a uma época de ouro da perfumaria onde o perfumista podia então fazer o que antes era apenas um sonho.

É um fato que as inovações da época assustaram os perfumistas tradicionais, acostumados a trabalhar principalmente com materiais naturais. Para facilitar a utilização dos potentes e brutais sintéticos as casas de perfumaria da época criaram o conceito de base, que são composições prontas para serem incorporadas em uma criação. Novatos na perfumaria como François Coty e Ernest Daltroff abraçariam com entusiasmo essas inovações e tornariam as bases uma parte importante e crucial de perfumes que se tornaram lendas na história da perfumaria.

Tabac Blond seria um dos primeiros se não o primeiro da marca a utilizar a lendária base Mousse de Saxe da companhia DeLaire em uma composição que celebraria uma liberação feminina da época: a mulher que fumava. Tabac Blond criaria um perfume feminino inspirado em um ítem tipicamente do universo masculino e sua maior proeza é a de criar uma temática convincente sem chegar a utilizar o absoluto de tabaco em si.

É interessante testá-lo na pele, ver que uma composição carregada em cravo, couro e notas darks possa ter sido feminina no passado é um testamento do quanto o gênero de perfumaria feminina mudou drasticamente ao longo do tempo. A base Mousse de Saxe contribui com o aroma dark e elegante de couro que envolve o aroma do cravo e o aroma ao mesmo tempo atalcado e terroso da iris. O contraste entre o aspecto spicy seco do cravo e o aroma dark e macio de couro vendem bem a abstração de um tabaco, um que tende mais para o de um cachimbo flavorizado. É interessante que Tabac Blond quebra a visão que temos de uma perfumaria clássica complicada, entretanto é importante salientar o como sua composição consegue utilizar a elegância da complexidade das bases em um tema bem definido. Certamente seu sucesso ajudou a definir a identidade da Caron que apareceria em criações posteriores, em clássicos como En Avion e Nuit de Noel. Uma obra-prima da perfumaria.

English version

If there was a way to commercially preserve the historical heritage of perfumery Tabac Blond would certainly be on this list. Already about to turn 100, unfortunately with the announcement of the possible sale of the Caron parfums it runs the risk of being discontinued. It's a shame because this composition is a testament to a golden era of perfumery where the perfumer could then do what was once just a dream.

It is a fact that the innovations of the time scared the traditional perfumers, accustomed to work mainly with natural materials. To facilitate the use of the potent and brutals synthetic the perfumery houses of the time created the concept of bases, which are compositions ready to be incorporated into a creation. Perfume novices like François Coty and Ernest Daltroff would enthusiastically embrace these innovations and make them the bases an important and crucial part of perfumes that have become legends in the history of perfumery.

Tabac Blond would be one of the earliest if not the first of the brand to use DeLaire's legendary Mousse de Saxe base in a composition that would celebrate a women's freedom of the time: the woman who smoked. Tabac Blond would create a feminine scent inspired by an item typically of the masculine universe and its greatest prowess was to create a convincing theme without getting to use the tobacco absolute itself.

It is interesting to test it on the skin: to see that a composition loaded on carnation, leather and darks notes may have been feminine in the past is a testament to how much the feminine fragrance genre has changed drastically over the years. The Mousse de Saxe base contributes to the dark and elegant scent of leather that surrounds the scent of the clove and the powdery and the same time earthy of the iris. The contrast between the dry spicy aspect of the clove and the dark and soft aroma of leather sell well the abstraction of a tobacco, one that tends more to that of a dry pipe one. It is interesting that Tabac Blond breaks the view that we have of a complicated classic perfumery, however it is important to emphasize how his composition manages to use the elegance of the complexity of the bases in a well defined theme. Certainly its success helped to define the identity of Caron that would appear in later creations, in classics like En Avion and Nuit de Noel. A masterpiece of perfumery.

Caron Yatagan - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

Fazem tantos anos desde a última vez que senti yatagan na pele que redescobri-lo é praticamente como conhecê-lo novamente, com outros olhos. É bem provável que tanto eu como ele tenham mudado nesse meio tempo e que isso facilite a nossa aproximação nesse momento. Não sou muito chegado a esse tipo de analogia que farei agora, mas ela se encaixa perfeitamente em perfumes dessa época: é uma criação que procura ressaltar o aspecto mais durão e espartano da perfumaria masculina, que constrói a sua aura interessante e atraente exatamente por meio de elementos que em geral possuem uma aura repelente.

O tipo de combinação existente em Yatagan - ervas amargas, lavanda, madeiras, aromas animálicos - é bem presente em diferentes criações, a maioria delas com grande poder de fixação e rastro, e foi um dos estilos que apareceu predominantemente na década de 80. A Caron antecedeu essa tendência ao lançar em 1978 um perfume que se encaixa nessa categoria, com um nome baseado num tipo de arma branca turca. A lembrança que eu tenho de Yatagan era exatamente de sua aura repulsiva, complicada, extremamente animálica. E como eu disse no começo é provável que tanto eu como ele tenham mudado nesse meio tempo e hoje o vejo como um dos mais sofisticados dessa tendência masculina.

O Aroma animálico de Yatagan pode assustar a princípio, mas depois de entendido percebe-se que ele está balanceado com o aroma herbal seco e mentolado que o cerca. O que me desperta a curiosidade é que esse aroma animálico me parece não vir do Castoreum em si, mas da mistura de ervas que o compõe. É um aroma que em menor escala pode ser identificado no junípero e também na sálvia esclaréia - um aroma que remete a oleosidade de pele e, de certa forma, a xixi também. O segredo é não se focar nesses aspectos, até por que eles não duram tanto.

É interessante o como a lavanda em Yatagan cria uma aura distante levemente adocicada, quase imperceptível em meio ao aroma herbal seco e mentolado e ao cheiro amadeirado do pinho e, em menor grau, de cedro. O Gálbano e patchouli, outras duas potências da perfumaria masculina oitentista, aparecem finamente equilibradas aqui também, apenas criando parte da aura terrosa de fundo, que contextualiza o aroma herbal quente e seco. Alguns podem até dizer que Yatagan é um perfume datado, mas é curioso notar que sua ideia recentemente ressurgiu, simplificada e com outra ênfase, em uma criação mais recente, o perfume de absinto da grife árabe Amouage chamado Memoir Man. Yatagan é um exemplo de um perfumaria masculina que consegue oferecer qualidade e refinamento aqueles que se sentem mais confortáveis com perfumes que favorecem uma aura mais durona

English version

It's been so many years since I've smelled yatagan on the skin that rediscovering it is practically like knowing it again with other eyes. It is very likely that both I and it have changed in the meantime and that this will facilitate our approach now. I am not very keen to this kind of analogy that I will do now, but it fits perfectly into perfumes of that time: it is a creation that seeks to emphasize the hardest and spartan aspect of masculine perfumery, which builds its interesting and attractive aura exactly through of elements that usually have a repellent aura.

The type of combination existing in Yatagan - bitter herbs, lavender, woods, animal scents - is very present in different creations, most of them with great fixation power and sillage, and it was one of the styles that appeared predominantly in the 80's. Caron preceded this trend by launching in 1978 a perfume that falls into this category, with a name based on a type of Turkish white weapon. The memory I have of Yatagan was exactly of its repulsive, complicated, extremely animalic aura. And as I said at the beginning, it is likely that us both have changed in the meantime and today I see it as one of the most sophisticated of this masculine trend.

Yatagan's animalic Aroma may scare at first, but once understood it is noticed that it is balanced with the dry and mint herbal scent that surrounds it. What arouses my curiosity is that this animalic aroma does not seem to me to come from the Castoreum itself, but from the mixture of herbs that compose it. It is a scent that on a smaller scale can be identified in the juniper and also in the clary sage - an aroma that refers to the oiliness of the skin and, to a certain extent, to urine as well. The key is not focusing on these aspects since they do not last as long.

It is interesting how the lavender in Yatagan creates a distant slightly sweet aura, almost imperceptible amid the dry and mentholated herbal scent and the woody scent of pine and, to a lesser extent, cedar. Galbanum and patchouli, two other potencies of the masculine fragrance, are finely balanced here too, only creating part of the earthy background aura that contextualizes the warm and dry herbal aroma. Some may even say that Yatagan is a dated perfume, but it is curious to note that its idea has recently resurfaced, simplified and with another emphasis, in a more recent creation, the absinthe perfume of the arab brand Amouage called Memoir Man. This is a masculine perfumery that manages to offer quality and refinement for those that feel more comfortable with perfumes that favor a more tough aura.

Elie Saab Essence No 4 Oud - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

Eu diria que no presente momento é possível afirmar que a tendência de criação de perfumes com Oud é semelhante a criação no mundo da moda da alfaitaria. É um processo onde não se encontra muita inovação e fugir muito do esperado espanta os clientes em vez de atraí-lo. Assim, investe-se na execução impecável e nos materiais utilizados, sendo que no caso da perfumaria o diferencial aqui não seriam nos naturais e sim na excelência dos sintéticos utilizados. Destaca-se criações assim com um pequeno detalhe, que é o caso do que acontece em Elie Saab Essence No 4 Oud.

Parte da coleção exclusiva do designer libanês, Essence No 4 Oud é um terno de oud, possui o tom exótico e marcante esperado na temática porém não acrescenta nada de inovador. Ainda sim é um perfume bem construído, elegante, fluído em sua execução. Ele não possui um aspecto áspero ou um aroma que soa artificial como em algumas criações da temática. E é sua saída que acrescenta o toque especial para conferir um leve aspecto de distinção.

No caso de Essence Oud, esse toque é um reforço no aspecto spicy que em vez de depender primariamente do aroma de açafrão acrescenta uma boa dose de pimenta preta, o que confere um aspecto picante, quente, levemente fresco e incensado. Não é listado rosa na composição, entretanto o acorde de oud parece depender secundariamente dela, com uma rosa do jeito que se espera num perfume árabe: com nuances de mel, tabaco e bebida. Ainda sim, é curioso que nos detalhes secundários haja uma nuance atalcada, algo que remete bem distante a um acorde cosmético. Como um detalhe, isso serve para criar identidade sem fugir do tema, que se encaminha para uma base amadeirada, incensada e com um aspecto resinoso.

Assim como ternos, ter muitos perfumes de Oud acaba se tornando redundante a não ser que essa seja sua opção cotidiana de uso e que não haja problemas em se distinguir apenas pelos detalhes. Para quem considera um primeiro perfume de oud bem elaborado ou que deseja conhecer mais perfumes nessa temática esse é um que vale a pena colocar na lista para testar.

English version

I would say that at present it is possible to state that the trend of creating perfumes with Oud is similar to the creation in the fashion world of the suit tailoring. It is a process where one does not find much innovation and running away too much of what is expected scare customers instead of attracting them. Thus, it is invested in the impeccable execution and in the materials used, being that in the case of perfumery the differential here would not be in the natural ones but in the excellence of the synthetics used. It stands out creations so with a little detail, which is the case of what happens in Elie Saab Essence No 4 Oud.

Part of the exclusive collection of the Lebanese designer, Essence No 4 Oud is an oud suit, it has the exotic and striking tone expected in the theme but adds nothing innovative. Yet it is a well-built, elegant, fluid perfume in its execution. It does not have a rough aura or an aroma that sounds artificial as in some creations of the theme. And it is its opening that adds the special touch to give a slight aspect of distinction.

In the case of Essence Oud, this touch is a spicy enhancement that instead of relying primarily on the aroma of saffron adds a good dose of black pepper, which gives it a spicy, warm, slightly fresh and a incense appearance. There is not rose listed in composition, however the oud accord seems to depend secondarily on it, with a rose the way it is expected in an Arab scent: with nuances of honey, tobacco and boozy drink. Yet, it is curious that in the secondary details there is a powdery nuance, something that has distantly a cosmetic touch. As a detail, this serves to create identity without running away from the theme, which leads to a woody base, incensed and with a resinous appearance.

As well as suits, having many Oud perfumes ends up becoming redundant unless this is your everyday choice of use and there are no problems in distinguishing just by the details. For those who consider a first well elaborated oud perfume or who want to know more perfumes in this theme this is one that is worth putting on the list to try.

Martin Margiela Across Sands - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

É interessante verificar como uma mesma temática pode ser interpretada de maneiras diferentes por grifes diferentes, porém mantendo um ponto em comum entre elas. Nesse caso estou falando de como o deserto pode inspirar criações orientais que capturam o aspecto exótico do ambiente e sua contradição entre um ambiente árido e a vida que persiste nele mesmo assim. Se na criação Barkhane da grife Teo Cabanel as dunas de um deserto são utilizadas para moldar uma exploração focada em oud, ambar e resinas aromáticas a grife Martin Margiela propõe algo mais abstrato ao explorar um Oásis em meio a esse ambiente desértico.

Como se trata de um segmento da coleção Réplica que captura memórias de fantasia, o Oásis proposto aqui não é uma reprodução realista, e sim uma miragem em meio ao calor e infinitude desértica. Como uma memória, ele funciona mais como a captura de elementos olfativos dessa miragem, como se estivéssemos distante dela. Sendo assim, o perfume mais sugere do que dá corpo pleno aos aspectos frutais e florais, entretanto eles estão presentes na composição.

Ao considerar que a temática do perfume era a de um oriental oud, a primeira surpresa que tive ao borrifá-lo na pele sem conhecer o conceito foi a de perfume a sugestão de um aroma aquático frutado, algo muito raro de se ver nesse tipo de temática. Mas ele está aqui justamente para sugerir a ilusão das frutas, com algo que confere contornos cítricos e também remete a melancia. Essa ilusão se dissipa rapidamente, abrindo espaço para que se perceba as outras duas ilusões desérticas propostas, o aroma das frutas e das flores. Quanto as flores apesar de termos a davana na prática temos um aroma floral meio torrado e seco típico da sempre-viva, que casa com a temática desértica e que vem junto com toques de especiarias. Temos também uma rosa não muito evidente mas na linha do que se espera de um perfume de oud. As flores de davana junto com o osmanthus e as tâmaras cria o aroma frutal exótico e suculento que outros perfumes orientais costumam apresentar, me lembrando talvez algo do Jubilation XXV da Amouage.

Como esse Oasis nada mais é que uma ilusão em meio ao deserto, assim que o nariz recobra a sanidade da visão que os olhos teve voltamos a um ambiente resinoso e incensado, algo mais "árido". Ainda sim é uma impressão harmoniosa, um blend de aroma terroso de patchouli, um oud mais amadeirado e com conotações de incenso. É uma exploração da temática Oud e do deserto de uma maneira muito criativa e cheia de nuances a serem descobertas.

English version

It is interesting to see how the same theme can be interpreted in different ways by different brands, but maintaining a point in common between them. In this case I am talking about how the desert can inspire oriental creations that capture the exotic aspect of the environment and its contradiction between an arid environment and the life that persists in it anyway. If in the Teo Cabanel Barkhane the dunes of a desert are used to shape an exploration focused on oud, amber and aromatic resins the brand Martin Margiela proposes something more abstract when exploring an Oasis in the middle of this desertic environment.

As it is a segment of the Replica collection that captures fantasy memories, the Oasis proposed here is not a realistic reproduction, but a mirage amid the heat and infinity of the desert. As a memory, it works more like catching the olfactory elements of this mirage, as if we were distant from it. Thus, the perfume more suggests than gives full body to the fruit and floral aspects, however they are present in the composition.

Considering that the theme of the perfume was that of an oriental oud, the first surprise I had when spraying it on the skin without knowing the concept was of a suggestion of a fruity aquatic aroma, something very rare to see in this type of thematic But he is here to suggest the illusion of fruit, with something that creates citrus and watermelon countours. This illusion dissipates quickly, making room for the other two desertic illusions proposed, the aroma of fruits and flowers. Regarding the flowers although we have the davana in practice we have a floral aroma half roasted and dry typical of imortelle, that matches the desert theme and that comes along with touches of spices. We also have a rose not very evident but in line with what is expected of an oud perfume. The davana flowers along with the osmanthus and dates create the exotic and juicy fruity aroma that other oriental perfumes usually present, perhaps reminding me something of Amouage's Jubilation XXV.

As this Oasis is nothing more than an illusion in the middle of the desert, as soon as the nose recovers the sanity of the vision that the eyes had returned to a resinous and incensed, something more "arid" environment. Yet it is a harmonious impression, a blend of earthy patchouli aroma, a more woody oud with connotations of incense. It is an exploration of the Oud and desert themes in a very creative and in a way full of nuances to be discovered.

Yves Saint Laurent Cuir - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

Até meados da década de 2000 a Yves Saint Laurent era uma das grifes mais ousadas na perfumaria comercial, com perfumes empolgantes como Kouros, Opium, M7, Nu e que nunca foram unanimidades, perfumes divisores de águas, com uma atitude de fato rebelde e rock'n'roll em sua essência. O que veio depois disso não é ruim, porém não empolga quando se olha o histórico da marca. Os tempos são outros, os consumidores também e a casa busca rentabilidade na perfumaria para sustentar-se.

Nesse cenário de sobrevivência em vez de liderança e ousadia, a YSL surfou todas as tendências possíveis que tem sido utilizadas no mercado: relançamento de clássicos como coleções uniformes, e lançamento de simultâneas coleções exclusivas, cobrindo desde o lado mais comercial do que significa ser exclusivo/nicho até o aspecto mais ostentação/oriental/árabe da ideia. No meio do camanho há um trio de fragrâncias lançados como uma parte noturna da coleção exclusiva original. E como perfume de couro é esperado/vende bem/está na moda, um deles é justamente Cuir.

Cuir apresenta um dos problemas que eu até entendo quando se trata de perfumaria comercial mas que vejo como um erro quando se fala de perfumaria exclusiva: proposta não condiz com a entrega. A Marca promete capturar o aspecto rock'n roll, chique e animálico do couro, mas não é o que ela entrega. Dos 3 descritores, o que é possível dizer é que Cuir foca no chique e propõe um couro que não é rebelde nem ousado, mas que é elegante e interessante mesmo assim.

Mesmo o nome Cuir não é exatamente uma boa representação do perfume, dado que a composição tende mais para um aroma amadeirado mineral do que couro em si. Aparentemente a ideia do couro parte de um sintético que representa o açafrão na composição, mas do jeito que ele é combinado com as madeiras na base ele acaba ressaltado justamente o aspecto amadeirado e mineral da composição em contraste com o aspecto especiado. Por cima disso tem uma saída intrigante, algo que me faz pensar num contraste entre um aroma cítrico e algo que remete a bebida. A sensação que é produzida é a de um licor de laranja, algo inusitado e que eu não me lembro de ter sentido em muitos perfumes.

Essa combinação de um cítrico alcóolico e um amadeirado spicy sólido soa como algo noturno, divertido e é curioso que a marca não tenha explorado esse lado mais boêmio da ideia. Vejo uma oportunidade perdida em aumentar a presença do osmanthus, que poderia contribuir com um aspecto de couro oleoso que daria um lado mais distinto na composição. Entre a ousadia e o espírito rock'n roll e a previsibilidade comercial a marca escolheu o segundo, mesmo que isso sacrificasse a coerência com o conceito proposto.

English version

Until the mid-2000s, Yves Saint Laurent was one of the boldest brands in commercial perfumery, with exciting cerations such as Kouros, Opium, M7, Nu, creations never unanimous, water-splitting perfumes, with a rebellious deed and rock attitude 'n'roll in its essence. What came after that is not bad, but it does not excite you when you look at the brand history. The times are different, consumers too and the house seeks profitability in the perfumery to sustain itself.

In this survival scenario instead of leadership and daring, YSL has surfed all the possible trends that have been used in the market: relaunching classics as uniform collections, launching exclusive exclusive collections, covering from the more commercial side of what it means to be exclusive / niche to the more ostentatious / oriental / arabic aspect of the idea. In the middle of the path there is a trio of fragrances released as a night part of the original exclusive collection. And as leather perfume is expected / sells well / is fashionable, one of them is Cuir.

Cuir presents one of the problems that I even understand when it comes to commercial perfumery but I see it as a mistake when talking about exclusive perfumery: proposal does not fit the execution. The Brand promises to capture the rock'n roll, chic and animalic aspect of leather, but it is not what it delivers. Of the 3 descriptors, what can be said is that Cuir focuses on the chic and proposes a leather that is neither rebellious nor daring, but that is elegant and interesting nonetheless.

Even the Cuir name is not exactly a good representation of perfume, since the composition tends more towards a woody mineral scent than leather itself. Apparently the idea of leather is part of a synthetic that represents the saffron in the composition, but as it is combined with the woods at the base it just emphasizes the woody and mineral aspect of the composition in contrast to the spicy aspect. On top of that there is an intriguing opening, something that makes me think of a contrast between a citrus scent and something that brings smells like alcoholic drinks. The sensation that is produced is that of an orange liqueur, something unusual and that I do not remember to have felt in many perfumes.

This combination of an alcoholic citrus and a solid spicy wood sounds like something fun, and it's curious that the brand has not explored this bohemian side of the idea. I see a missed opportunity in increasing the presence of osmanthus, which could contribute to an oily leathery appearance that would give a more distinct side in the composition. Between boldness and rock 'n' roll spirit and commercial predictability, the brand chose the latter, even if this sacrificed consistency with the proposed concept.

Azzaro Decibel - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

As vezes perfumes ousados passam batidos como criações comerciais de pouco sucesso - e não é surpresa isso, pois é justamente a ousadia delas que costuma determinar esse suposto fracasso de venda. Uma marca que rotineiramente ousa sem esse medo de não vender é a Azzaro. Por mais que ela possua sucessos consolidados como Azzaro Pour Homme e Azzaro Chrome a marca continua investindo em criações interessantes, principalmente quando se considera a faixa de preço onde ela atua e um público alvo mais jovem. Decibel, criado nessa perspectiva, é um grande ponto fora da curva do que se espera de uma criação comercial para um público jovem e é um perfume ousado.

A lista de notas do Decibel já é algo em si intrigante: aldeídos, incenso e alcaçuz juntos para um público jovem? Aparentemente o perfume resolveu levar a imagem de ousadia e rebeldia para a fragrância em si com uma combinação que para muitos lembra inclusive incenso de boate - o que talvez tenha sido parte da proposta. Mas eu diria que o perfume vai além de um aroma exótico de incenso, ele é um exercício de inclusão de aspectos clássicos em uma estrutura moderna.

Quem conhece perfumaria clássica vai perceber logo de cara um contraste entre uma nota brilhante e metálico de aldeídos e ela parece apoiada no aroma atalcado de nitromusks. Se parássemos por aí teríamos um feminino clássico estilo Chanel No 5, porém os aldeídos aqui são utilizados para enfatizar o aspecto do incenso e conferir um ar ousado, futurista. De fundo, acho curioso que há um aspecto animálico de musks mascarados pelo aroma doce e negro do alcaçuz, que lentamente vai evoluindo para algo mais torrado, conduzido por um aroma secundário de violeta. Numa fase final Decibel se torna mais convencional, combinando o aroma de vetiver, baunilha e tonka que não é muito diferente da ideia que encontramos no Armani Code. É um perfume muito intrigante e o fato de não ter feito sucesso o torna uma criação que tem muito a oferecer por um valor bem baixo.

English version

Sometimes daring perfumes pass as unsuccessful commercial creations-and not surprisingly, for it is precisely their daring nature that usually determines this supposed failure to sell. One brand that routinely dares without this fear of not selling is Azzaro. Although it has consolidated successes like Azzaro Pour Homme and Azzaro Chrome, the brand continues to invest in interesting creations, especially when considering the price range where it operates and a younger target audience. Decibel, created in that perspective, is a big point out off the curve of what is expected of a commercial creation for a young audience and is a bold scent.

Decibel's list of notes is already intriguing in itself: aldehydes, incense and licorice together for a young audience? Apparently the perfume decided to take the image of boldness and rebellion to the fragrance itself with a combination that many remember even nightclub incense - which perhaps was part of the proposal. But I would say that the perfume goes beyond an exotic incense scent, it is an exercise in including classic aspects in a modern structure.

Anyone who knows classical perfumery will soon notice a contrast between a shiny and metallic note of aldehydes that seems supported by the stale aroma of nitromusks. If we stopped by then we would have a classic female Chanel No 5 style, but the aldehydes here are used to emphasize the aspect of the incense and give it a bold, futuristic look. In the background, I find it curious that there is an animalic aspect of musks masked by the sweet black aroma of licorice, which slowly evolves into something more roasted, driven by a secondary aroma of violet. In a final phase Decibel becomes more conventional, combining the aroma of vetiver, vanilla and tonka which is not much different from the idea found in the Armani Code. It is a very intriguing perfume and the fact that it has not been successful makes it a creation that has much to offer for a very low price.

Cartier Declaration Parfum - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

Em 2018 o perfume Declaration da Joalheria Cartier completa 20 anos e mesmo que ele não seja um dos perfumes com maior popularidade no momento atual ele é um dos mais influentes e ainda um dos mais vendidos. Eu diria que foi um dos primeiros momentos de massivo sucesso do perfumista Jean Claude Ellena e o ponto ele conseguiu construir uma estrutura complexa e ao mesmo tempo simples e transparente, algo que ele levaria futuramente para perfumes Terre d'Hermes, Bigarade Concentree e Cologne Bigarado, por exemplo. Após tornar-se perfumista in-house da Hermès coube a talentosa Mathilde Laurent continuar o legado de exploração do maior sucesso de vendas da Cartier e a sua segunda década é festejada em grande estilo, com uma concentração Parfum.

É interessante observar que no momento atual mais grifes investem em perfumes com uma concentração ainda maior que uma Eau de Parfum, mas esse ainda é um território muito novo para o público masculino, um território antes considerado tabu por uma concentração assim ser destinada ao público feminino. Por isso, ainda há confusões com outras concentrações e até mesmo uma falta de entendimento de que o aumento de uma concentração na fórmula não equivale a um aumento de performance e projeção, ainda mais em uma perfumaria moderna que depende pesadamente de musks e materiais sintéticos como iso e super, que duram porém não com projeção nuclear. E não basta fazer um mero aumento de essência, tradicionalmente criar diferentes concentrações é dar vida nova a fórmula original, explorar nuances diferentes que o aumento da concentração permite. E isso Mathilde faz muito bem aqui.

Declaration Parfum na minha visão têm 2 objetivos: manter a assinatura original e torná-lo mais rico, nesse caso ampliando a presença do cedro e das especiarias e acrescentando uma faceta de couro. Curiosamente isso faz que o perfume vá em alguns momentos numa direção similar a do descontinuado Gucci Pour Homme I, porém sem o peso que este possui, encaixando na ideia do cedro, especiarias e incenso do GPH I o aroma mais transparente do cardamomo, gerânio e da base de iso e super do tradicional.

O perfume abre de forma similar ao tradicional, entretanto pondo mais ênfase a um aspecto fresco e especiado, dando mais protagonismo aos cítricos, cardamomo e a uma nuance de gerânio não listada na pirâmide. Nesse momento o perfume chega a remete inclusive ao Voyage d'Hermés, mas antes que esse comparativo comece já é possível perceber um aspecto mais áspero e rústico de couro. Ele antecede o aroma mais seco de cedro, o lado de incenso das resinas da base e o toque seco das especiarias, onde para mim se destaca o cominho e pimenta preta. Conforme evolui o perfume vai para uma direção mais mineral e abstrata como o tradicional, porém mais encorpado, mantendo parte do aspecto especiado e incensado. Essa concentração consegue explorar o que mais importa em um parfum além da esperada performance, conferindo riqueza em cada uma das camadas de evolução do perfume porém sem deixar de lado o DNA. É um trabalho de mestre de uma perfumista que eu muito admiro.

English version

In 2018 the fragrance Declaration of jewelry brand Cartier completes 20 years and even though it is not one of the most popular perfumes at the moment it is one of the most influential and still one of the best selling. I would say it was one of the first moments of the massive success of the perfumer Jean Claude Ellena and the point where he managed to construct a complex and at the same time simple and transparent structure, something that he would take in future for perfumes like Terre d'Hermes, Bigarade Concentree and Cologne Bigarade , for example. After becoming an in-house perfumer of Hermès, it was designed to the talented Mathilde Laurent to continue the legacy of Cartier's biggest selling success, and its second decade is celebrated in style with a Parfum concentration.

It is interesting to note that at the moment more brands invest in perfumes with a concentration even greater than an Eau de Parfum, but this is still a very new territory for the male audience, a territory previously considered taboo by a concentration aimed at the female audience . So there are still confusions with other concentrations and even a lack of understanding that increasing a concentration in the formula does not equate to an increase in performance and projection, even more so in a modern perfumery heavily dependent on musks and synthetic materials like iso and super, which last but not with nuclear projection. Creating a parfum is not just make a mere increase in essence,traditionally creating different concentrations is to give new life to the original formula, explore different nuances that different concentrations allows. And that Mathilde does very well here.

Declaration Parfum in my vision have 2 goals: keep the original signature and make it richer, in that case expanding the presence of cedar and spices and adding a facet of leather. Curiously, this makes the perfume go in a few moments in a similar direction to the discontinued Gucci Pour Homme I, but without the weight it has, fitting the idea of cedar, spices and incense of GPH I the most transparent aroma of cardamom, geranium and of the iso base and super of the traditional one.

The perfume opens in a similar way to the traditional one, however putting more emphasis on a fresh and spicy aspect, giving more prominence to the citrus, cardamom and a nuance of geranium not listed in the pyramid. At that moment the perfume even comes to remind me of Voyage d'Hermes, but before this comparative begins it is possible to perceive a more rough and rustic leather touch. It precedes the drier aroma of cedar, the incense side of the resins af the base and the dry touch of spices, where to me is more noticeable the cumin and black pepper. As it evolves the perfume goes in a more mineral and abstract direction as the traditional, but more full-bodied, keeping part of the spicy and incense aspect. This concentration can explore what matters most in a parfum beyond the expected performance, giving richness in each of the layers of evolution of the perfume but without leaving aside the DNA. It's a masterpiece of a perfumer I admire.

Teo Cabanel Barkhane - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

É interessante ressaltar que quando se trata de perfumaria árabe há mais o que se explorar além da trinca oud, açafrão e rosas que tem dominado os lançamentos ano após ano. Mesmo não sendo especialista em perfumaria árabe pelas percepções que tenho digo que essa é uma perfumaria pautada principalmente na riqueza dos aromas, sem medo de explorar o peso de notas de base que a perfumaria ocidental adquiriu pós decada de 90. E nessa riqueza de aromas temos um mundo versátil de resinas quentes, de timbre baixo e de nuances diversificadas, capazes de criar belas nuances exóticas e conferir os atributos de performance tão desejados no momento atual.

Gosto que em Barkhane Teo Cabanel não vai direto para o óbvio, nem na temática nem nos ingredientes. Barkhane faz uma alusão direta ao deserto, com seu nome sendo referência as dunas de areia em forma de arco que são formadas por meio dos ventos. E para um perfume que homenageia o deserto e as areias nada melhor do que focar sua exploração árabe em dois exsudados extraídos diretamente de espécies que sobrevivem nesse ambiente: mirra e ládano.

Barkane é de fato o que sua descrição promete, refinado, elegante, potente e sutil ao mesmo tempo, como se o calor de suas resinas multifacetadas fosse carregado pelos ventos cortantes do deserto. Apesar da composição ter cítricos e florais, o centro de seu aroma está na riqueza do labdanum, mirra, baunilha e tonka, que criam um aroma ambarado seco, com nuances frutadas, um aspecto atalcado seco e algo sutilmente doce. Temos rosa, gerânio, cominho e curry aqui para conferir um lado mais sensual e quente a esse deserto e o oud apesar de estar presente na composição acaba se mesclando ao cenário das resinas e ajudando a compor a aura de incenso ambarado que envolve Barkhane do começo ao fim. Certamente em dias de calor muito intenso Barkhane irá favorecer mais seu lado potente do que o aspeco sutil, porém com um clima menos abafado seu aroma atinge a harmonia misteriosa e rica de um perfume que toca em aspectos clássicos da perfumaria árabe com um quê de equilíbrio da perfumaria francesa.

English version

It is interesting to note that when it comes to Arab perfumery there is more to be explored than the triplet of oud, saffron and roses that have dominated the launches year after year. Even though I am not a specialist in Arab perfumery, I say that this is a perfumery based mainly on the richness of the aromas, without fear of exploring the weight of base notes, a ferar that Western perfumery acquired after the decade of 90. And in this richmess of aromas we have a versatile world of hot resins, low-pitched and diversified nuances, capable of creating beautiful exotic auras and bestowing the performance attributes so desired at the present time.

I like that in Barkhane Teo Cabanel does not go straight to the obvious, neither thematic nor the ingredients. Barkhane makes a direct reference to the desert, with its name being reference to the arc-shaped sand dunes that are formed through the winds. And for a perfume that honors the desert and the sands nothing better than focusing its Arab exploration on two exudates directly extracted from species that survive in this environment: myrrh and labdanum.

Barkane is indeed what his description promises, refined, elegant, powerful and subtle at the same time, as if the heat of its multifaceted resins were carried by the biting winds of the desert. Although the composition has citrus and floral, the center of its aroma is in the richness of labdanum, myrrh, vanilla and tonka, which create a dry amber aroma, with fruity nuances, a dry and somewhat subtly sweet aspect. We have rose, geranium, cumin and curry here to give a more sensual and warm side to this desert and the oud despite being present in the composition ends up merging with the resin scene and helping to compose the amber incense aura that surrounds Barkhane from the beginning to the end. Certainly in days of very intense heat Barkhane will favor more its powerful side than the subtle aspect, but with a less muffled atmosphere its aroma reaches the mysterious and rich harmony of a perfume that touches on classic aspects of the Arab perfumery with a balance thing of French one.

Reyane Insurrection II Wild - Avaliação/Resenha/Review




Quando se trata de processo criativo na perfumaria a inspiração reina absoluto. Basta que um perfume se torne sucesso de público e de vendas para que vire um benchmarking no mercado. O mais comum é que as grifes de prestígio mascarem isso, utilizando o sucesso com referência para criar algo seu, igual porém diferente. Na ponta oposta temos as grifes especializadas nos contratipos e similares, que fazem o processo de inspiração de uma forma explícita, com um objetivo de oferecer uma semelhança dentro do custo disponível. No meio do caminho temos marcas como Reyane Tradition e perfumes como Insurrection II Wild.

Eu diria que o que diferença Insurrection II Wild de um contratipo/similar é a falta de preocupação em tornar explícito pela identidade visual a qual perfume ele se refere. Ainda sim, pelo aroma em si é possível perceber que a Reyane Tradition tinha o objetivo de criar dentro de seu portfolio uma alternativa aos fãs de um perfume em um patamar de preço maior, nesse caso o Amen Pure Havane. É uma alternativa que chega bem perto do original, mas que provavelmente não se assemelha 100% ou para evitar processo de plágio ou por limitações a componentes específicos da fórmula que a Mugler tem acesso por meio da casa de fragrâncias que desenvolveu Pure Havane.

E como os dois se comportam na pele? Insurrection II Wild também gira ao redor do aroma de mel, tabaco e patchouli que predomina em Pure Havane, mas comparando os dois lado a lado percebe-s que a versão da Reyane Tradition acaba pondo mais em evidência o aspecto adocicado do aroma do tabaco, pondo em segundo plano um lado mais seco e picante da ideia. A saída assim parece um pouco mais simples, ainda sim com um aroma próximo ao de mel e tabaco de Pure Havane, faltando algo meio seco e torrado - comparando os dois inclusive percebi que o Havane tem um aroma de café que nunca tinha me dado conta antes. Por um breve momento há um acorde doce de tonka entre o mel em Isurrection II Wild e que me surpreende ao lembrar rapidamente a mesma ideia presente em Tonka Imperiale da Guerlain - porém a semelhança para por aí e o perfume rapidamente adentra o aroma de tabaco e patchouli, um patchouli pouco terroso e bem luminoso, amparado em um aroma de ambar que me parece ter mais ambroxan que o original. Sinto que a base de Wild II é um pouco mais simples, novamente parece mais doce em relação ao original e de alguma forma menos encorpada - o perfume fixa na base mas parece desaparece na pele se o ambiente não está quente.

Creio que dado as limitações - sejam judiciais, de preço ou de acesso aos materiais - Insurrection II Wild faz um bom trabalho em oferecer uma alternativa para quem não faz questão de ter o Amen Pure Havane. Eu vejo que ele pode ser interessante para quem tem também e não quer gastar o da Mugler no dia-dia. E um último caso onde esse perfume ainda pode ser útil no futuro é caso Thierry Mugler resolva descontinuar o Pure Havane, cumprindo uma das missões das inspirações/contratipos, que é a de manter a ideia original viva.

English version

When it comes to the creative process in perfumery inspiration reigns absolute . All you need for that is a perfume to becomes a success of public and sales to it becomes a benchmarking in the industry. Usually prestige labels masquerade this, using success with reference to create something of theirs, similar bubt different. At the opposite end we have the brands specialized in the dupes and similars, that make the process of inspiration explicitly, with a goal of offering a similarity within the available budget. Along this path we have brands like Reyane Tradition and perfumes like Insurrection II Wild.

I would say that what Insurrection II Wild differs from of a countertype / similar by the lack of concern in making explicit in its visual identity to which perfume it refers. Still, by the aroma itself you can see that Reyane Tradition had the goal of creating within its portfolio an alternative to fans of a perfume at a higher price level, in this case the Amen Pure Havane. It is an alternative that comes very close to the original but probably does not resemble 100% either to avoid plagiarism process or by limitations to specific components of the formula that Mugler has access through the house of fragrances that developed Pure Havane.

And how do the two behave in the skin? Insurrection II Wild also revolves around the aroma of honey, tobacco and patchouli that prevails in Pure Havane, but comparing the two side by side you notice that the Reyane Tradition version ends up highlighting the sweetness of the aroma of tobacco, putting to the background a drier and more spicy side of the idea. The opening seems a bit simpler, but with an aroma close to that of Pure Havane's honey and tobacco, missing something half dry and roasted - comparing the two I even realized that Havane has a coffee aroma that I had never noticed before. For a brief moment there is a sweet tonka accord between the honey in Insurrection II Wild and that surprises me by quickly remembering the same idea present in Guerlain's Tonka Imperiale - but the resemblance stops there and the perfume quickly enters into the aroma of tobacco and patchouli, a patchouli slightly earthy and very bright, supported by an amber aroma that seems to me to have more ambroxan than the original. I feel that the base of Wild II is a little simpler, again it seems sweeter than the original and somehow less full-bodied - the perfume fixed at the base but seems to disappear on the skin if the environment is not warm.

I believe that given the limitations - whether legal, formula budget, or access to materials - Insurrection II Wild does a good job at offering an alternative to anyone who doesn't mind to have the original Amen Pure Havane. I see that it can be interesting for those who have it too and do not want to spend Mugler's day-to-day life. And one last case where this perfume can still be useful in the future is if Thierry Mugler resolves to discontinue Pure Havane, fulfilling one of the inspirations / dupe missions, which is to keep the original idea alive.

Valentino Uomo Noir Absolu - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

Além do crescimento massivo da perfumaria de nicho e da perfumaria exclusiva pode-se perceber que uma outra grande tendência atual é o foco em criações voltadas especificamente para o público árabe. Isso se reflete tanto na criação de edições limitadas para esse público como na produção de flankers com uma pegada oriental. Atento a essa tendência a maison Valentino criou para seu sucesso recente, Valentino Uomo, um flanker Noir Absolu, chamando-o de um misteriosa eloquente oriental amadeirado. E o que surpreende é que o perfume realmente vende isso muito bem.

Uma das primeiras surpresas em Uomo Noir Absolu é que o perfume não vai pela rota mais óbvia da aura árabe, não recorrendo nem a patchouli, nem a agarwood e nem a ambar para criar essa aura misteriosa. Em vez disso a composição encontra uma harmonia que veste a iris gourmand do tradicional com sândalo, especiarias e incenso, criando de fato uma aura misteriosa e um perfume que fala fluentemente a harmonia oriental de uma maneira muito elegante.

Da forma como o perfume é construído em vez do sândalo se comportar como uma nota de base ele já é evidente logo na saída. O acorde de sândalo é muito bonito, ficando entre o aroma amadeirado meio adocicado e cremoso de um sândalo indiano e o cheiro mais seco de um sândalo australiano. Esse aroma amadeirado acaba mascarando o aspecto mais atalcado da iris e pondo em evidência seu lado mais terroso e vegetal, que é complementado por um aroma quente e levemente doce de canela. Talvez pela iris não ser protagonista ela não é listada na pirâmide, entretanto seu cheiro continua presente lá. A princípio o perfume parece que ficará linear nessa harmonia, entretanto o aroma de incenso começa a crescer na pele e um aspecto doce e ambarado surge, algo que me sugere a utilização de mirra ou opoponax por uma nuance secundária de frutas secas.

Valentino Uomo Noir Absolu cria a riqueza e mistério que se esperaria de um flanker Noir voltado para o público-alvo, porém sem cair em clichês. É um belíssimo perfume e a minha única crítica a ele se dá ao fato da sua distribuição, o que o torna bem difícil de ser conseguido. Mas vale a pena o esforço.

English version

In addition to the massive growth of niche and exclusive perfumery it can be seen that another major current trend is the focus on creations aimed specifically at the Arab public. This is reflected both in the creation of limited editions for this audience and in the production of flankers with an Eastern footprint. Attentive to this trend, Valentino created for his recent success, Valentino Uomo, a flanker Noir Absolu, calling it a mysterious and eloquent woody oriental creation. And what is surprising is that the perfume really sells it very well.

One of the first surprises in Uomo Noir Absolu is that the perfume does not go by the most obvious route of Arabian aura, not resorting to patchouli, agarwood, or amber to create this mysterious aura. Instead the composition finds a harmony that wears the traditional gourmand iris with sandalwood, spices and incense, creating in fact a mysterious aura and a scent that speaks fluently Eastern harmony in a very elegant way.

From the way the perfume is built instead of the sandalwood behave like a base note it is already evident right off the opening. The sandalwood accord is very beautiful, sticking between the half-sweet, creamy woody scent of an Indian sandalwood and the driest smell of an Australian sandalwood. This woody scent eventually masks the powdery aspect of the iris and brings out its more earthy and vegetable side, which is complemented by a warm, slightly sweet cinnamon scent. Maybe because of the iris not being the protagonist it is not listed in the pyramid, however its scent is still present there. At first the scent seems to be linear in this harmony, though the scent of incense begins to grow on the skin and a sweet, incense and amber aura appears, something that suggests the use of myrrh or opoponax by a secondary nuance of dried fruits.

Valentino Uomo Noir Absolu creates the richness and mystery you would expect from a flanker Noir aimed at the target audience, but without falling into clichés. It is a beautiful perfume and my only criticism of it is the fact of its distribution, which makes it very difficult to purchase. But it's worth the effort.

Renegades Mark Buxton - Avaliação/Resenha/Review



There is something very ironic about the independent project created by Mark Buxton, Geza Schoen and Bertrand Duchaufour. When creating a project called Renegades the trio of classically trained perfumers want to have fun, do something different and strive to establish something unique. The problem is that apparently the only thing they have actually achieved is to have fun, since the promise to do something challenging that seems to break with the corporate world in practice reflects is that they may not even realize that they have incorporated corporate practices, since the world of business has more faces and sizes than a caricature of mass perfumes.

Of the 3 perfumers perhaps the most unknown is Mark Buxton, since its commercial apogee happened at the moment in which the niche perfumery began to gain body. He is together with Bertrand Duchaufour a great responsible for establishing the line of perfumes of the Comme des Garcons like vanguardista in the decade of 90 and 2000, creating icons like the original CDG and the CDG 2. Looking at the fragrantica it is possible to see that it has a catalog extensive and diversified that goes from mass perfumery to more traditional and authorial perfumery. Mark Buxton is not exactly a Renegade, he is one of the minds that has helped shape the more subtle and pervasive sides of the niche and commercial perfumery of the past two decades.

The fact is that I expected his fragrance free of charge and full of creativity and natural elements something innovative and that would take his style to a new level, but his perfume seems more a reflection of his career than something innovative. Renegades Mark Buxton reminds me of his most well-known and complex perfume, CDG 2 Man, but instead of being more daring the composition seems more restrained, just as if someone had pruned his freedom. There are also echoes of the scent of his friend, Geza Schoen, with a green note reminiscent of the Kinski perfume cannabis idea. It is as if this were more a collage of ideas, as if the 3 perfumers had thrown their favorite chords on the table, using and choosing a mix of them. I also see influences of the green and acid scent of Rhubarb from the perfume of Douchafour for Aedes de Venustas . What perhaps strikes me most here is something that assumes a slightly earthy and vegetable scent of iris that gains a prominence amidst a vegetable base and a brilliant aldehyde scent on the way out.

What I think is sadder of this is that 3 such talented perfumers have to use the same tricks and besteirol of marketing that they say fight. Why the hell are you going to create an avatar in a project where you will ultimately reflect your own style? Or reject the system by mixing ideas you used in it? Conceptually the Renegades project is a mess that does not make sense, but the compound perfume is good after all because even with a ridiculous concept the 3 perfumers can do something decent because they are really good perfumers.

Renegades Bertrand Duchaufour - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

Sinceramente eu me pergunto, o que leva um trio de perfumistas respeitados e criadores de fragrâncias que se consagraram ao longo do tempo a criar um projeto que no mínimo é meia-boca e no máximo é cínico? Será que ao criar perfumes com distribuição limitada e em um projeto apartado tais perfumistas estavam testando os limites do bom senso e reconhecimento do consumidor e da crítica? São perguntas que me vem a cabeça ao ter avaliado a criação de Marx Buxton e que são reforçadas após ter a experiência de utilizar a criação de Bertrand Duchaufour na pele.

Um projeto que inclua Bertrand como um Renegado já me soava como suspeito desde começo, já que se há um perfumista que abraçou o ritmo massivo de lançamentos da indústria comercial e de nicho é ele. Não é a toa que Bertrand seja um dos mais conhecidos, basta ver seu extenso histórico de fragrâncias desenvolvidas. Existem 168 perfumes que levam o nome de Bertrand Duchaufour na base de dados do fragrantica, sendo 21 deles lançados só em 2017. Dá para dizer que esse é um perfumista que rejeita os padrões da indústria?

Deixando isso de lado, Bertrand descreve sua criação como além da vanguarda, como algo de alguém que passou de seus limites. Não deixa de fazer sentido, porém não do jeito que esperaríamos. Em vez do perfume mais louco já feito por Bertrand eu vejo a criação mais medíocre e preguiçosa que ele já criou. É como se o perfumista tivesse gastado no máximo meia hora resgatando algum esqueleto do seu catálogo de fórmulas e chamando isso de um projeto inovador.

É realmente desapontador, como pode o perfume de um projeto independente soar tão seguro a ponto de parecer uma criação comercial? É como se tivessem mandado Bertrand encaixar algo criativo em um orçamento apertado e não em um perfume de 210 dólares. A abertura tem um aroma que fica entre o frutado e spicy fresco, com algo a sugerir um toque de gálbano talvez. Seria o momento mais criativo do perfume, mas o que vem depois parece uma base genérica sintética de madeira e algo que se não é iso e super passa bem próximo. O cheiro inclusive não é muito distante de um detergente líquido. Sinceramente, é um aroma onde o perfumista não deu a mínima para quem irá usar. É uma grande palhaçada, se você curte as obras dele sugiro não conhecer para não mudar seus conceitos a respeito do perfumista. Péssimo.

English version

Honestly I wonder, what leads a trio of respected perfumers and fragrance creators who have devoted themselves over time to creating a project that is at its best half-cooked and at its worst cynical? Could it be that by creating perfumes with limited distribution and in a separate project such perfumers were testing the limits of common sense and consumer recognition and criticism? These are questions that come to mind when I have evaluated the creation of Marx Buxton and that are reinforced after having the experience of using the creation of Bertrand Duchaufour on the skin.

A project that included Bertrand as a Renegade already sounded suspicious to me from the start, since if there is a perfumer who embraced the massive pace of commercial and niche industry releases it is him. It is no wonder that Bertrand is one of the best known by the public, just see its extensive history of developed fragrances. There are 168 perfumes that take the name of Bertrand Duchaufour in the database of the fragrantica, 21 of them only launched in 2017. Can you say that this is a perfumer who rejects industry standards?

Leaving this aside, Bertrand describes his creation as beyond the vanguard, as something of someone who has gone beyond its limits. It does make sense, but not the way we would expect. Instead of the craziest perfume ever made by Bertrand I see the more mediocre and lazy creation he has ever created. It's as if the perfumer had spent at most half an hour rescuing some skeleton from his catalog of formulas and calling it an innovative design.

It's really disappointing, how can the scent of an independent project sound so secure as to seem like a commercial creation? It's as if Bertrand had gotten something creative on a tight budget and not a $ 210 perfume. The opening has an aroma that sits between the fruity and fresh spicy, with something to suggest a touch of galbanum perhaps. It would be the most creative moment of the perfume, but what comes next seems like a generic synthetic base of wood and something that if it id not iso and super seems close. to it. The smell is not too far from a liquid detergent. Honestly, it's a scent where the perfumer did not give a shit about who will use it. It's a sad joke, if you enjoy his works I suggest not trying this one so as not to change your concepts about the perfumer. Terrible.

Franck Muller Aeternitas - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

A proposta da relojoaria Franck Muller é basicamente traduzir o conceito de cada um de seus caríssimos relógios em perfumes extravagantes de luxo, o que no cenário melhor intencionado amplifica o universo da marca e no cenário com intenções escusas cria uma vaca leiteira de um produto que é barato de fazer e que leva as pessoas a acreditarem que estão consumindo luxo de fato. Me parece que a intenção era a primeira, porém na prática pelos dois perfumes que senti o resultado final é o segundo.

Aeternitas é uma das séries de relojos mais complexas da marca, possuindo 36 segredos. O nome é uma referência ao conceito de eternidade e teoricamente o relógio está ajustado para marcar o tempo eternamente. É um relógio para a elite da elite dado que seu preço é em torno de 2,7 milhões de dólares. A ideia do perfume em si era a de a capturar o conceito de complexidade e eternidade, escolhendo, não sei o porque, a nota de cereja para isso.

Aí produzem um perfume de 210 euros para refletir o luxo e sofisticação de um relógico de 2,7 milhões de dólares e que termina sendo uma criação que parece uma mistura de joop com sabonete com fougere da década de 80? Eu acho estranhíssimo, certamente é complexo, porém não da forma como deveria ser. Há algo do aroma floral neon do Joop aqui, mas nada a ponto de parecer uma cópia como acontece com alguns Xerjoff e Clive Christian. Ainda sim, é uma lembrança estranha, misturada com um aroma de cerejas que por horas é frutal e por horas é mais amêndoado e medicinal. Quando o perfume evolui ele começa a remeter um desses fougere couro mais antigos, não sei por que me vem a cabeça o Drakkar Noir mas é o que eu penso. Há algo também que remete a algum sabonete palmovile que eu usei quando criança. É estranho, pois o perfume parece bem feito, só que é confuso e aponta para referências que dizem exatamente o oposto do que seria a proposta. Não é algo que eu me veria usando e me imaginando fazer parte do universo elitista da marca.

English version

Franck Muller's watchmaking proposition is basically to translate the concept of each of its expensive watches into extravagant luxury perfumes, which in the best-intentional scenario amplifies the universe of the brand and in the scenario with misguided intentions creates a cash cow of a product that is cheap to do and that leads people to believe they are actually consuming luxury. It seems to me that the intention was the first, but in practice by the two perfumes I tested the final result is the second.

Aeternitas is one of the most complex watch series of the brand, possessing 36 secrets. The name is a reference to the concept of eternity and theoretically the clock is set to mark time eternally. It is a watch for the elite of the elite given that its price is around 2.7 million dollars. The idea of ​​perfume itself was to capture the concept of complexity and eternity, choosing, I do not know why, the cherry note for it.

There they produce a 210-euro perfume to reflect the luxury and sophistication of a $ 2.7-million-dollar reliquary that ends up being a creation that looks like a mix of Joop with a soapy fougere from the 1980s? I think it's strange, it's certainly complex, but not the way it should be. There's something of the neon floral scent of Joop here, but nothing to the point of looking like a copy like some Xerjoff and Clive Christian. Still, it is a strange memory, mixed with a cherry scent that for some hours is fruity and for others is more almond and medicinal. When the perfume evolves it starts to refer one of those older leather fougere, I do not know why my head comes to Drakkar Noir but that's what I think. There is something also that reminds me of some palmovile soap that I used as a child. It's strange, because the perfume seems well done, only it is confusing and points to references that say exactly the opposite of what the proposal would be. It's not something I would see myself using and imagining myself to be part of the brand's elite universe.

Les Liquides Imaginaires Peau de Bete - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

A perfumaria por ser uma arte que não é possível guardar memória coletiva se aproveita disso quando deseja reciclar suas ideias. Sempre é possível vender o antigo como novo e inovador para uma nova geração de consumidores que não teve acesso as referências mais antigas e assim não será capaz de criticar o marketing e conceito. É o que tenta a marca Les Liquides Imaginaires com Peau de Bete, com a promessa de inovar utilizando a sensualidade e naturalidade de um aroma animálico.

De inovador Peau de Bete não possui nada e mesmo que seu aroma seja arriscado o fato é que outras fragrâncias abriram caminho e ousaram antes dele. Um dos primeiros a arriscar nesse sentido foi Serge Lutens e seu Muscs Koublai Khan, um aroma que carrega em várias nuances animálicas distintas e cria um cheiro fecal que de fato tem a ferocidade que Peau de Bete promete em seu nome. Outro que me vem a cabeça é Byredo M/Mink, que me parece beber da fonte do perfume de lutens e combiná-lo com um aroma animálico e metálico para uma experiência de fato ousada. Peau de Bete, comparado a esses, é seguro na sua exploração.

O que eu acho muito estranho é a tentativa da marca de chamá-lo de um aroma natural, visto que a nova exploração de perfumes animálicos tem partido principalmente de aromas sintéticos. Entendo que talvez a naturalidade refira-se a tentativa de criar um aroma de pele, um conceito de "feio" que seja esteticamente agradável. Nesse sentido acho que a marca se sai bem sucedida, criando uma aura que apesar de unissex poderia facilmente passar como o aroma da pele masculina.

Os primeiros momentos de Peau de Bete são os mais desafiadores, abrindo com uma explosão de civeta, castóreum e musks que criam um cheiro de couro com um aroma fecal. A orchestração ao redor dele me faz pensar num dos clássicos da perfumaria masculina, Kouros, porém sem o aspecto powdery, como se Peau de Bete focasse no animálico e nas ervas. Quanto mais o tempo passa mais o perfume se torna seguro na pele, mantendo um tom sutil animálico, algo que de forma distante remete a pele e suor, e mascarando isso por meio de um aroma amadeirado com nuances de incenso, algo que parece girar ao redor do cedro.

Talvez um dos pontos fortes de Peau de Bete seja justamente o de não ser inovador, pois ao não querer subir o volume dos aromas animálicos ele oferece uma experiência mais confortável passado os momentos iniciais. É um perfume interessante que aproveita o caminho aberto por outras criações mais inovadoras ao mesmo tempo que parece referenciar a perfumaria masculina clássica.

English version

Perfumery for being an art that can not save collective memory takes advantage of this when it wants to recycle ideas. It is always possible to sell the old as new and innovative to a new generation of consumers who did not have access to the older references and so will not be able to criticize the marketing and concept. It is what the brand Les Liquides Imaginaires tries with Peau de Bete, with the promise to innovate using the sensuality and naturality of an animalic aroma.

Of innovative Peau de Bete has nothing and even if its aroma is risky the fact is that other fragrances have made their way and dared before it. One of the first to venture in this direction was Serge Lutens and his Muscs Koublai Khan, a scent that is heavy in various animalic nuances and creates a fecal smell that in fact has the ferocity that Peau de Bete promises in its name. Another one that comes to mind is Byredo M / Mink, who seems to drink from the fountain of the lutens perfume and combine it with an animalic and metallic scent for a really daring experience. Peau de Bete, compared to these, is safe in its bet.

What I find very strange is the brand's attempt to call it a natural scent, since the new exploration of animalic fragrances is largely based on synthetics. I understand that perhaps the naturalness refers to the attempt to create a skin scent, a concept of "ugly" that is aesthetically pleasing. In that sense I think the brand is successful, creating an aura that although unisex could easily pass as the scent of male skin.

The first moments of Peau de Bete are the most challenging, opening with an explosion of civet, castoreum and musks that create a scent of leather with a fecal aroma. The orchestration around it makes me think of one of the classics of masculine perfumery, Kouros, but without the powdery appearance, as if Peau de Bete focused on the animalic and the herbs. The longer the time passes the more the perfume becomes safe on t skin, maintaining a subtle animalic tone, something that distantly refers to skin and sweat, and masking it through a woody scent with nuances of incense, something that seems to revolve around cedar.

Perhaps one of the strengths of Peau de Bete is precisely that of not being innovative, because not wanting to raise the volume of the animalic aromas it offers a more comfortable experience past the initial moments. It is an interesting perfume that takes advantage of the way opened by other more innovative creations at the same time that it seems to referenciate the classic masculine perfumery.

Creed Viking - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

Antes mesmo de começarmos a falar do novo perfume masculino da Creed é necessário deixar claro que Viking não é o Aventus. Alguns perfumes são como álbuns de música que atingem um sucesso tão insano que é praticamente impossível de criar um sucessor que seja capaz de superar expectativas tão altas que surgem. É o caso do Aventus, um perfume que apoiado no marketing digital das midias sociais foi capaz de conquistar várias pessoas com um aroma que fica entre uma perfumaria moderna e uma perfumaria clássica e que tem uma certa simplicidade e presença em seu aroma que o torna agradável e um perfume com o qual muitos se identificam. Ainda que Viking tenha características similares ele é um projeto com personalidade própria.

Acho legal que a Creed, nesse sentido, tenha se arriscado e não tenha feito um Aventus II, mudando apenas algumas coisas. Viking me parece aproveitar um momento de popularidade da casa para resgatar a assinatura olfativa mais clássica de seus perfumes descontinuados ao mesmo tempo que tenta descomplicar isso para o nariz moderno. Ao mesmo tempo, com o conceito a Creed reforça a paixão da família pelo oceano e pela viagens marítimas mirando num tipo de barco simbólico na história da Europa, os barcos víquingues.

Acho interessante a escolha de uma família de perfumaria clássica para simbolizar esse espírito aventureiro, os fougéres. É como se a casa tentasse manter os elementos aromáticos e spicy desse tipo de perfume sem o descaracterizar porém tirando o ar de barbearia e o aspecto datado dos fougéres mais clássicos. É algo que eu vejo que fazem muito bem, mas que talvez por tender um pouco mais para o clássico do que para o moderno não vá agradar a todos.

A saída de Viking já possui algo que o público espera de um perfume Creed, uma saída cítrica bem redonda, agradável e leve. Isso é feito em contraste com um acorde de lavanda, ervas e especiarias que trazem elementos fougeres ao perfume. Sinto algo levemente aquático também, um interessante acorde que me remete a algas e que me faz pensar em um aspecto "selvagem" moderado, feito para não assustar ninguém. Conforme Viking evolui, as especiarias ganham mais ênfase e dão um aspecto quente e algo me faz pensar em frutas e chá aqui junto com as especiarias. Por fim, o perfume termina de uma forma bem moderna, uma base amadeirada fluída, nada muito seco, muito pesado mas que persiste na pele de uma forma mais discreta (talvez um dos maiores motivos de decepção). A princío a presença do tom cremoso e mais rente a pele do sândalo natural me chamou a atenção, mas usando percebo que há sintéticos e musks fazendo o papel do vetiver aqui, criando uma segunda pele amadeirada que pode até não projetar muito, mas que perdura mais de 8 horas na pele. Não consigo dizer que Viking não é um projeto bem feito, vejo coerência entre a identidade da casa, estilo de composição e temática aborbada. Apenas acho que ele infelizmente sofrerá de uma crise de comparação com o seu irmão muito mais popular e popstar.

English version

Before we even start talking about Creed's new masculine scent it is necessary to make it clear that Viking is not the Aventus. Some perfumes are like music albums that achieve such an insane success that it is virtually impossible to create a successor who is able to overcome such high expectations that they arise. This is the case of Aventus, a perfume that supported by the digital marketing of social media was able to conquer several people with an aroma that is between a modern perfumery and a classic one and that has a certain simplicity and presence in its aroma that makes it pleasant and a perfume with which many identify. Although Viking has similar characteristics, it is a project with its own personality.

I think it's cool that Creed, in that sense, took risks and did not do an Aventus II, changing only a few things. Viking seems to take advantage of a moment of popularity of the house to rescue the most classic olfactory signature of its discontinued perfumes while trying to uncomplicate it to the modern nose. At the same time, with the concept Creed reinforces the passion of the family for the ocean and sea voyages, targeting a kind of symbolic boat in the history of Europe, the Vikings.

I find it interesting to choose a family of classic perfumery to symbolize this adventurous spirit, the fougéres. It is as if the house tried to maintain the aromatic and spicy elements of this type of perfume without decharacterizing it but taking away the air of barbershop and the dated aspect of the classic fougéres. It's something that I see that they do very well, but that perhaps by tending a little more to the classic than to the modern does not go to please everyone.

The Viking opening already has something the public expect of a Creed scent, a very round, pleasant and light citrus aroma. This is done in contrast to a combination of of lavender, herbs and spices that bring fougeres elements to the perfume. I feel something slightly aquatic too, an interesting note that brings me to algae and makes me think of a moderate "wild" aspect, made so as not to scare anyone. As Viking evolves, the spices gain more emphasis and give a warm aura and something makes me think of fruits and tea here along with the spices. Finally, the fragrance finishes in a very modern way, a fluid woody base, nothing very dry, very heavy but that persists in the skin in a more discreet way (perhaps one of the biggest reasons for disappointment). At first the presence of the creamy tone and closer to skin of the natural sandalwood caught my attention, but using it I realize that there are synthetics and musks playing the role of vetiver here, creating a second woody skin that may not project much, but that endures more than 8 hours. I can not say that Viking is not a well done project, I see consistency between the house's identity, composition style and proposed theme. I just think it will unfortunately suffer from a crisis of comparison with its much more popular popstar brother.

Creed Erolfa - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

Um fato que eu considero curioso com relação a casa Creed é de ela ter sido uma das pioneiras no estilo do Novo Frescor ao lançar, em 1985, o perfume Green Irish Tweed. Na época ainda nem se falava em perfumaria de Nicho e estávamos no meio da década dos perfumes de projeção quilométrica e composição complexa. Mas chegando os anos 90 tudo mudou e vimos um mundo que buscava viver tempos mais minimalistas, zen e puros. Por isso, nada mais natural do que a criação de Erolfa, uma espécie de transição da casa Creed para os anos 90, uma continuação do caminho que começou em Green Irish Tweed.

A inspiração aqui é a de muitos perfumes dessa década, o Oceano, porém personificada nas experiências de velejamento da família pelo Mediterrâneo. Sendo assim, Creed Erolfa mira numa experiência que mescla notas cítricas (pelas quais a marca seria adorada nos anos posteriores), toques aquáticos, notas verdes, e um acorde salino e meio marinho à composição.

Erolfa é a o mesmo tempo não é um perfume simples, um fato curioso para uma criação minimalista dos anos 90. Teste ele em dias diferentes e em momentos diferentes do dia e você perceberá isso, que há uma mescla de elementos aromáticos de volatilidade muito parecida e que acabam chamando a atenção do nariz de forma diferente dependendo do dia.Considerando que seu nome representa 3 dos membros da família (ERwin,OLivia, FAbienne), entendo que isso evidencia 3 perspectivas diferentes do ocenano consolidadas em uma fragrância.

Quando o recebi, imediatamente notei um frescor mentolado, toques aquáticos de melão e um aroma de folhas verdes recém cortadas. Provando na pele, porém, as notas cítricas se destacam, o aspecto do novo frescor aparece discreto e um toque de folha violeta é bem equilibrado aqui sem dar o aroma de plástico que alguns perfumes tem quando esse aroma é utilizado. Acho curioso que haja um cheiro bem salino na composição, que chega a me remeter a sal grosso e dá um toque oceânico diferente, que poucos perfumes aquáticos possuem. Prestando um pouco mais de atenção, vejo um delicado bouquê floral emergindo como uma terceira perspectva no perfume, um toque levemente floral e verde que remete a lírio do vale e flores aquáticas. O único senão de Erolfa é a base, que é bem discreta, predominante em musks e com leves aspectos de sândalo e cedro. Isso dá a impressão de que o perfume não fixa na pele quando ele na verdade fica bem discreto e rente a pele. Mas colocado em perspectiva, isso faz parte do começo de uma década que procurava celebrar a leveza ante a ressaca dos excessos da década anterior.

English version

One fact that I find curious about Creed's perfume house is that they were one of the pioneers in new freshness style when they launched the Green Irish Tweed perfume in 1985. At the time we were not even talking about Niche perfumery and we were in the middle of the decade of perfumes of kilometric projection and complex composition. But by the 90s everything changed and we saw a world that sought to live more minimalist, zen and pure times. So, nothing more natural than the creation of Erolfa, a kind of transition from the house Creed to the 90's, a continuation of the path that began in Green Irish Tweed.

The inspiration here is that of many perfumes of that decade, the Ocean, but personified in the family experiences of sailing through the Mediterranean. So, Creed Erolfa looks at an experience that mixes citrus notes (for which the brand would be adored in later years), aquatic touches, green notes, and a saline and half-marine accird to the composition.

Erolfa is at the same time not a simple perfume, a curious fact for a minimalist creation of the 90's. Test it on different days and at different times of the day and you will realize this, that there is a mix of aromatic elements of very similar volatility and which end up catching the attention of the nose differently depending on the day. Considering that its name represents 3 of the family members (ERwin, OLivia, FAbienne), I understand that this shows 3 different perspectives of the ocean consolidated in a fragrance.

When I received it, I immediately noticed a mint freshness, water melon touches and a scent of freshly cut green leaves. Proving in the skin, however, the citrus notes stand out, the freshness aspect appears discreetly and a touch of violet leaf is well balanced here without giving the plastic aroma that some perfumes have when this note is used. I find it curious that there is a very salty scent in the composition, which reminds me of coarse salt and gives a different oceanic touch, which few aquatic perfumes have. Paying a little more attention, I see a delicate floral bouquet emerging as a third perspective in the perfume, a lightly floral and green touch that says lily of the valley and aquatic flowers. The only drawback from Erolfa is the base, which is very discreet, predominant in musks and with slight aspects of sandalwood and cedar. This gives the impression that the perfume does not stick to the skin when it actually looks very discreet and close to it. But put in perspective, this is part of the beginning of a decade that sought to celebrate the lightness against the hangover of the excesses of the previous decade.

24 de set de 2018

Victor & Rolf Magic Liquid Diamonds e Dancing Roses - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

Eu percebo que a Magic Collection da Viktor & Rolf possui problemas mesmo no nível conceitual de construção da coleção. O tema da magia não é integrado de forma uniforme e clara em todos os integrantes iniciais e isso ajuda a deixar evidente inclusive os problemas de integração entre os perfumes entre si. Falta uma identidade que permeie e transforme de fato todos os integrantes em uma coleção de fato.

Liquid Diamonds tem uma relação muito pobre com o conceito da coleção, o da magia dos diamantes como pedra preciosa. Mas que magia? E é curioso que eles escolham justamente um buquê de flores relativamente frescas e comuns para representar essa pedra preciosa. A fórmula ainda sim é muito bem feita, com uma representação de peônia que foge do aroma funcional e captura um aspecto delicado e fresco da flor. A construção em cima de uma base de musks, porém, torna o perfume em sua combinação algo bem comum, soando como uma versão de luxo de uma ideia comercial.

Dancing Roses é outro que sinceramente tem um conceito muito mal construído. O que tem a ver transformar a rosa em um licor com fazê-la gravitar e o que isso tem a ver com o nome? Curiosamente esse é um dos perfumes mais fortes da coleção, uma construção que trás um aroma de bebidas e frutas similar a um ambre narguilé porém com um toque apimentado e um lado frutal comercial. A rosa é de fato ressaltado em suas nuances de bebidas e é integrada com uma base amadeirada abstrata, mineral e de excelente performance. É um perfume complexo, que sempre transita entre nicho e comercial, masculino e feminino, e é um dos poucos que parece de fato entregar, assim como Dirty Trick, um truque do ponto de vista olfativo.

English version

I realize that Viktor & Rolf's Magic Collection has problems even at the conceptual level of building the collection. The theme of magic is not uniformly and clearly integrated in all the initial members and this helps to make evident even the problems of integration between the perfumes with each other. There is a lack of an identity that permeates and effectively transforms all members into a collection of fact.

Liquid Diamonds has a very poor relationship with the concept of the collection, the magic of diamonds as a precious stone. What magic? And it is curious that they choose just a bouquet of flowers relatively fresh and common to represent this gem. The formula is still very well made, with a representation of peony that escapes the functional aroma and captures a delicate and fresh aspect of the flower. The construction on top of a base of musks, however, makes the perfume in its combination somewhat common, sounding like a luxury version of a commercial idea.

Dancing Roses is another one that honestly has a very poorly constructed concept. What does it have to do to turn the rose into a liqueur with to make it gravitate and what does it have to do with the name? Curiously, this is one of the strongest perfumes in the collection, a construction that brings a scent of drinks and fruit similar to an ambre narguile but with a spicy touch and a commercial fruity side. The rose is in fact emphasized in its nuances of drinks and is integrated with an abstract, mineral and excellent performance woody base. It is a complex perfume, which always transits between niche and commercial, male and female, and is one of the few that seems to actually deliver, as well as Dirty Trick, a trick from the olfactory point of view.

Vitkor & Rolf Magic Dirty Trick - Avaliação/Resenha/Review



Português (click here for english):

De todos os 6 integrantes da Magic Collection apenas 1 deles realmente leva em si o espírito mais ousado de uma coleção criativa, preenchendo a lacuna esperada do perfume arriscado. Dirty Trick é um oriental que gira ao redor de 3 elementos: um acorde de tinta, iris e couro, mas seu aroma soa mais complexo na pele do que isso. O truque sujo ao qual o perfume parece ser referir é o de criar uma iris nobre com um acorde de tinta.

Na pele, o perfume entrega justamente isso e mais, aplicando outros 2 truques sujos que quase passam batido da forma que são encaixados. Mas comentando o truque principal, a princípio tem-se a impressão de que o tema principal do perfume na pele é um aroma animálico, algo como um castoreum com nuances de civeta. Mas antes que isso se torne repulsivo percebe-se que a grande estrela é a iris, que ressalta justamente o aspecto mais terroso e vegetal do absoluto.

Há algo ousado aqui e pouco explorado ainda, que é uma justaposição de aromas animálicos e doces. Ao mesmo tempo que temos o acorde animálico de tinta e o aroma da iris há algo gourmand e cremoso atuando junto. Além disso, na saída há um contraste entre um aroma negro e um muito brilhante, um aspecto frutado e aquático que aparece rapidamente e passa batido se você não prestar atenção. Esse é o primeiro truque sujo escondido do perfume.

O segundo truque se revela na evolução, quando você percebe de fato que é o responsável pela doçura cremosa do perfume. Conforme a iris vai suavizando na pele um aroma de couro se revela e aí percebe-se que a perfumista conseguiu encaixar a mesma ideia de couro doce frutado do Tuscan Leather sem que o perfume pareça similar a ele. Ele se fundo a um aroma abstrato de madeiras e resinas na pele que sustenta o perfume nos momentos finais de sua evolução. Certamente não é um perfume que agrade a todos, porém é justamente para isso que uma coleção exclusiva serve para se atender desejos que não são viáveis comercialmente de forma massificada.

English version

Of all the 6 members of the Magic Collection only 1 of them really carries within themselves the bolder spirit of a creative collection, filling the expected gap of the risky perfume. Dirty Trick is an oriental that gravitates around 3 elements: an accord of ink, iris and leather, but its aroma sounds more complex in the skin than that. The dirty trick to which the perfume seems to be referring is to create a noble iris with an ink chord.

On the skin, the perfume delivers just that and more, applying other 2 dirty tricks that almost pass beaten the way they are docked. But commenting on the main trick, at first one has the impression that the main theme of the perfume on the skin is an animalic aroma, something like a castoreum with civet nuances. But before this becomes repulsive it is perceived that the great star is the iris, which stands out precisely the most earthy and vegetable aspect of the absolute.

There is something daring here and little explored yet, which is a juxtaposition of sweet and animalic aromas. At the same time that we have the animalic accord of ink and the aroma of the iris there is something gourmand and creamy acting together. In addition, at the opening there is a contrast between a dark aroma and a very bright, fruity and watery nuance that appears quickly and passes beaten if you do not pay attention. This is the first dirty trick hidden from the perfume.

The second trick is revealed in evolution, when you actually realize what is responsible for the creamy sweetness of the perfume. As the iris softens on the skin a scent of leather reveals itself and there it is perceived that the perfumer has managed to fit the same idea of fruity leather of Tuscan Leather without the perfume seeming similar to it. This is combined with a base of an abstract aroma of woods and resins on the skin that sustains the perfume in the final moments of its evolution. Certainly not a perfume that pleases everyone, but it is precisely for this reason that a unique collection serves, to meet desires that are not commercially viable in a mass form.