22 de mai de 2019

Thera Cosméticos Lael - Avaliação/Resenha/Review


Conceito: 3 Olfativo: 4.5 Técnico: 4.5 Apresentação: 4 Nota Final: 4,1 Nota Faixa: 4,1 Faixa de Preço: 1 - Até 150 reais Lael é certamente um perfume com um nome atípico dentro da coleção de contratipos da Thera Cosméticos. É difícil determinar se ele faz referência a um figura bíblica ou se entra dentro da nova etapa que dá nome aos perfumes baseada no significado de palavras de idiomas antigos, já que recentemente foi lançado Amatus, que significa amado em Latim e Lael significa pertencente a Deus em hebraico. Independente desse aspecto mais intrigante esse é certamente um dos lançamentos da marca que causou uma certa polarização entre quem sentiu. O motivo para esse acontecimento é a escolha feita para adaptar o perfume em questão, que é o Dunhill Icon. Para uma boa parte do público um dos momentos que mais define a fidelidade de um perfume é a saída, só que a saída do Dunhill Icon tem um ar floral datado com um bom potencial de rejeição. ALém disso, esse é um perfume que por mais sofisticado que seja possui uma fixação de média para fraca, o que seria um motivo de crítica em um contratipo. Lael acaba fazendo escolhas para melhorar esses aspectos, o que em partes compromete a semelhança, deixando o contratipo no limite de ser um flanker do original. O que se pode dizer, entretanto, que esse risco por mais que gere críticas valeu a pena. O perfume retém a sofisticação e boa parte do charme do original. A saída em vez de ter um aspecto cítrico floral e mais amargo ganha um aroma cítrico limpo e suculento que remete a laranja. Lael acaba ressaltando mais a iris, presente no original mas não em evidência, dando um charme levemente atalcado e bem sofisticado. No corpo do perfume parte do aspecto floral do neroli se mistura ao frescor da lavanda e recria a identidade do tradicional. Quando o perfume chega na base as notas mais amadeiradas ganham maior evidência e fixam o perfume na etapa final sem prejudicar o frescor. A projeção aqui acaba sendo melhorada também e o perfume exala bastante quando a pele se aquece mais. Certamente seu aroma é divino como o nome promete, mas fica a cautela com relação a quem espera uma tradução literal do original.

Dotti Perfumes Vík - Avaliação/Resenha/Review



Conceito: 4,7 Olfativo: 4,7 Técnico: 4,7 Apresentação: 4,5
Nota Final: 4,7 Nota Faixa: 4,7
Faixa de Preço: 2 - de 150 a 300 reais

Da trilogia de perfumes lançada recentemente pela Dotti Vík é o que mais se aproxima de um perfume perfeito quando se olha os aspectos conceituais, olfativos e técnicos. Executar esse tipo de trabalho que tenta ser comercial e mais exclusivo não é fácil e encaixar isso com todo um conceito simbólico é ainda mais difícil. Entretanto a ideia se desenrola com alta sinergia: a runa escolhida tem um simbolismo associado ao nome, a Valquíria, que se unifica muito bem a ideia olfativa trabalhada aqui, a de um chypre floral branco. E esse chypre floral branco consegue um equilíbrio entre perfumaria clássica e moderna que é bem interessante tbm.

O perfume cria uma fantasia olfativa de uma planta chamada chá-dos-alpes, que se relaciona com a mitologia das valquírias, associada a runa proposta, e com o ambiente proposto, visto que Vík é uma região da Islândia com um clima mais ameno, propício para um aroma mais rico. Para traduzir essas referências e para trazer o simbolismo de proteção que a runa possui Vík explora um chypre e põe mais ênfase justamente ao aspecto mais terroso da base.

Se Rokk representa o elemento mais masculino da coleção Vík é que tem uma identidade mais feminina e que se revela conforme o perfume evolui na pele. O perfume parece que se integra com a peça central da trilogia, Nakinn, ao trazer um aroma mais terroso, meio amadeirado e úmido que serve tanto para sugerir a parte final do centro da trilogia como para trazer uma referência mais clássica chypre e para simbolizar o habitat dos carvalhos das ninfas que servem de musas aqui. Há um contraste entre o lado mais canforado do patchouli e a ligação com os outros perfumes da coleção ao trazer a princípio um toque herbal mentolado e meio amargo.

Conforme evolui Vík se torna mais luminoso, sensual e o lado das ninfas/valquírias começa a sobressair. O perfume evolui para uma referência chypre mais moderna que evita uma doçura exagerada para trazer um equilíbrio entre um toque frutado vermelho, flores brancas cítricas e um patchouli luminoso com aspectos de musk. A parte floral branca surpreende ao não ir para o típico aroma de jasmim, criando um aroma mais complexo que mistura nuances de laranjeira, jasmim e da magnólia, cobrindo diferences nuances florais brancas. Por fim, o aroma termina mais familiar, projetando uma aura limpa, amadeirada e sensual.

Vík fecha muito bem a trilogia e como integrante final consegue favorecer aromas típicos de notas de base sem sufocar os elementos de saída e corpo da composição. E serve junto com Rokk e Nakinn para permitir ao usuário um ato de uso combinado das fragrâncias que servia para criar uma assinatura pessoal própria que certamente será misteriosa, de boa performance e muito agradável. Vale muito a pena conhecer todos os perfumes para ter essa visão mais completa e profunda do conceito total de um trabalho muito bem executado.

21 de mai de 2019

Dotti Iceland Collection Rokk - Avaliação/Resenha/Review


Conceito: 4,5 Olfativo: 4,7 Técnico: 4,5 Apresentação: 4,5
Nota Final: 4,6 Nota Faixa: 4,6
Faixa de Preço: 2 - de 150 a 300 reais

Uma coisa muito rara de coleções é ter uma grande coerência entre todos os integrantes, de forma que apenas uma parte da coleção realmente se destaca e o resto parece apenas servir para fazer volume nas prateleiras. A Iceland Collection da Dotti perfumes evita isso ao limitar o número de integrantes a 3 deles, concentrando esforços criativos e econômicos em 3 fragrâncias muito bem desenvolvidas. Mas a Iceland Collection vai além de uma coerência olfativa ao redor do tema. O perfume cria uma narrativa onde as fragrâncias por meio das runas escolhidas contam uma história onde cada perfume se complementa em uma sequência com começo, meio e fim, onde as fragrâncias compartilham acordes em comum mas tem comportamentos condizentes com essa dinâmica.


Se a runa associada a Nakinn o coloca como peça central da trilogia Rokk é o ínicio da coleção, com a Runa associada a ele mostrando o caminho a ser seguido, uma jornada de transformação e evolução permanente. Uma coisa que percebo com os perfumes da Iceland Collection é que o significado das runas é mais forte que os conceitos trabalhados nas descrições. Rokk por exemplo, tem como conceito algo que é muito difícil de trabalhar em um perfume que pretender ser comercial e com sofisticação conceitual de nicho. A ideia envolve um contraste entre o quente e o frio para representar um Vulcão na paisagem da neve. Seu nome inclusive significa a Rocha e se alguém espera um perfume que tenha algo quente e mineral versus algo frio não encontrará isso de maneira literal.

Eu vejo o contraste entre algo mais denso/fechado e mais leve na forma como Rokk se comporta na pele. Há até um contraste mais direto entre materiais ambarados e quentes e tons mentolados, entretanto como o perfume tem uma aura mais abstrata e complexa isso se perde. Ainda sim, é bem interessante como o aroma mentolado é trabalhado passando um frescor verde e que não remete a pasta de dente. E ele serve de abertura para uma ideia mais clássica fougere.

Rokk trás um acorde fougere que parece remeter ao aroma clássico dos primeiros Fougeres, trazendo um aroma de lavanda e coumarina que cria um aroma verde com nuances de seiva e grama cortada, que é balanceado com o aspecto mais mentolado e fresco da composição. Esse primeiro impacto do perfume mascara algo interessante, nuances especiadas e de um aroma mais floral verde de gerânio. Vejo que não há coincidência aqui, pois justamente nessa fase o perfume remete ao Profusion, como se de microfoco da Spectrolite fóssemos para algo mais macro conceitualmente.

Se Rokk começa com uma saída mais clássica e complexa ele evolui para um aroma fougere com nuances orientais de musk, algo mais moderno e até mesmo mais leve. Nessa última fase por acaso o perfume acaba fazendo uma homenagem indireta a um clássico descontinuado da Gucci, o perfume Gucci Envy, e é uma referência que se encaixa feito uma luva aqui, visto que Envy possui um perfume de coloração verde neon que encaixa muito bem com a temática da coleção e com o aroma de Rokk. Das 3 criações parece ser o mais comercial e fácil de ser apreciado, mas ainda sim seu impacto inicial engana pois o perfume tem bastante personalidade e dinâmica na pele e faz um trabalho complexo de encaixar referências, notas e vários de níveis de conceito em um perfume aparentemente simples em sua superfície.

Thera Cosméticos Amatus - Avaliação/Resenha/Review



Conceito: 4,7 Olfativo: 4,7 Técnico: 4,5 Apresentação: 4
Nota Final: 4,7 Nota Faixa: 4,7
Faixa de Preço: 1 - até 150 reais


Com Amatus a Thera cosméticos continua a diversificar suas referências culturais com as quais é sempre possível aprender algo se você pesquisar rapidamente. A marca já explorou divindades gregas, figuras ilustres da ciência, cidades históricas e agora com Amatus também oferece palavras em Latim. Amatus é um verbo que significa aquele que foi amado e talvez tenha sido escolhido pela sonoridade visto que o tempo passado dá entender um ato que finalizou enquanto seu aroma gourmand muito bem feito tem mais chances de ser um amor contínuo e existente no presente.

Inspirado na fragrância I Love New York for All da grife Bond No 9 é uma grande surpresa que a Thera Cosméticos tenha lançado tal fragrância e uma surpresa ainda maior com o resultado final. Há algumas pequenas diferenças no aroma em si, mas de forma geral o perfume chega bem próximo da perfeição em reproduzir uma fragrância que é vendida a um preço mais elevado. É uma proeza técnica que num orçamento menor isso seja possível. E é uma grata surpresa que um perfume pouco conhecido do público em geral se torne acessível, certamente uma aposta do Mário em algo que tem potencial de ser um sucesso de vendas.

Amatus captura muitíssimo bem os principais aspectos do perfume que o inspira, o aroma gourmand que é um contraste entre um aroma de açúcar queimado, cheiro de café torrado e um chocolate que começa mais gentil e vai aos poucos crescendo na pele, ganhando um aroma que é doce e ao mesmo tempo meio amargo. Diria que o que difere em Amatus é uma escolha pessoal do Mário, que prefere dar uma saída ligeiramente mais cítrica para criar uma dinâmica crescente e tornar o perfume mais harmônico e menos enjoativo. A pimenta me parece ter sido trocada por um leve toque de cardamomo também, que dá um aspecto fresco muito bem vindo.

As diferenças porém duram pouco tempo e rapidamente o perfume vai aquecendo na pele. A princípio o chocolate parece vir de um uso inteligente do que me parece ser patchouli e, suponho, o musk cashmeran, criando uma textura mais atalcada de chocolate. Logo em seguida o aroma de açúcar queimado vai surgindo, junto com o cheiro de café torrado. O chocolate vai se tornando mais denso, adquirindo uma textura de licor de chocolate, e o perfume então entra numa fase final que equilibra tudo com o aroma das madeiras e couro. A performance me parece muito boa, talvez pela avaliação estar em um dia frio o perfume não parece projetar tanto, mas certamente mesmo em um ambiente mais frio o perfume é bem perceptível. Talvez surpreenda que um contratipo possa ter uma nota tão alta, entretanto considerando faixa de preço, honestidade no que é entregue e fidelidade à fragrância Amatus não decepciona é um grande achado.

20 de mai de 2019

Dotti Iceland Collection Nakinn - Avaliação/Resenha/Review


Conceito: 4,5 Olfativo: 4,5 Técnico: 4,5 Apresentação: 4,5
Nota Final: 4,5 Nota Faixa: 4,5
Faixa de Preço: 2 - de 150 a 300 reais

Com Profusion a Dotti perfumes abriu um espaço bem distinto no cenário da perfumaria brasileira, colocando-se como uma perfumaria artesanal e independente com acabamento e cara de perfumaria comercial. Profusion foi um perfume distinto, algo feito pela paixão de Gerson Dotti com a Spectrolite. Ao mesmo tempo que isso trouxe um conceito bem individual foi alvo de críticas também por ter um aspecto mais conceitual. Por isso, foi natural que o empresário e dono da marca tenha decidido ir em uma direção mais comercial com os perfumes que sucederiam Profusion. Confesso que quando soube inicialmente dessa decisão temi pelo resultado final, mesmo sabendo que haveria um conceito bem delineado para essas fragrâncias. Ao receber a trilogia da Iceland Collection vi que meu receio foi infundado.

Nakinn, Vík e Rokk são executados de uma maneira que em teoria parece simples de ser feito e na prática não é nada fácil: perfumes comerciais com um Olfativo mais próximo de uma perfumaria comercial e com um aspecto técnico de performance e evolução do jeito que o brasileiro espera. Há um conceito unificando todas as fragrâncias e mesmo não o conhecendo é possível perceber isso observando cada um dos perfumes. E ao mesmo tempo que as 3 fragrâncias estão relacionadas com Profusion esse elo não precisa estar evidente para que se entenda as criações (a spectrolite personifica em seu multicolorido a aurora boreal e é uma pedra apreciada pelos povos nórdicos, que são homenageados via o povo escandinavo nessa trilogia).

Vejo 3 níveis de significado em cada fragrância: o nível simbológico, relacionado às Runas, servindo para representar como as Runas e os aromas são elementos que transmitem mensagens misteriosas e com significados bem definidos. Num segundo nível, cada perfume é como se fosse uma peça de um quebra cabeça que tentasse capturar a paisagem nórdica de uma maneira comercial e fácil de ser apreciada. E em um terceiro nível, a trilogia é um estudo sobre como pe fumaria comercial e de nicho se encontram em diferentes famílias olfativas conhecidas do público.

Nakinn representa uma Runa que está relacionada ao fim de um ciclo e começo de outro e seu nome deriva de uma palavra islandesa que significa nu ou nua. Nakinn captura um aspecto da vegetação da tundra mais rasteiro, seu cheiro representando os arbutos, as frutas silvestres, o aroma das madeiras e o aspecto mais terroso. Do ponto de vista da família olfativa representada é um estudo em aromas cítricos e amadeirados.

Nakinn não é perfeito, mas é um projeto muito bem executado. Diria que o maior problema está relacionado ao nome, pois a ideia de nu ou nua te faz esperar um perfume segunda pele que se baseie em musks. Ele está longe disso e a única ótica pela qual eu vejo a nudez aqui é uma tentativa de emular um aroma da natureza mesmo que utilizando sintéticos e com um aspecto mais comercial, no qual ele é muito bem sucedido. Ele é complexo, intrigante nas nuances, mas muito agradável.

Há uma utilização inteligente do aroma de cedro e musgo de carvalho aqui, criando um aspecto amadeirado e terroso que passa bem um aroma vegetal-amadeirado e úmido. As notas cítricas junto com aspectos verdes e mentolados sugerem o colorido mais verde da composição e criam um frescor bem harmônico e aconchegante. Frutos silvestres verdes e azedinhos são sugeridos no corpo da composição e de alguma forma um  misterioso acorde de avelãs permeia essa tundra amadeirada e cítrica escondido no meio dos cítricos, folhas, madeiras e frutos silvestres. É um toque levemente gourmand que torna a experiência ainda mais intrigante.

Nakinn é certamente um cítrico amadeirado que preenche muito bem todas as lacunas do conceito e posicionamento. Seu aroma deixa um rastro verde-amadeirado que é bem agradável, familiar mas ao mesmo tempo distinto e intrigante. Mesmo que sua nudez não seja óbvia seu perfume parece ser uma peça central da coleção, interrelacionado com o fim de um dos perfumes e o começo de outro.