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17 de out de 2017

Dawn Spencer Hurwitz Become The Shaman e Il Marinaio da Capri


Português (click for english version):

Quanto mais perfumes da Dawn eu conheço mais me convenço de que a Artista é capaz de canalizar diversos estilos de criação. É como se não existissse uma única Dawn Spencer em seu estúdio, e sim um batalhão de Dawns capazes de criar em diversas direções. E é como se a cada projeto da perfumista ela encarnasse uma diferente, o que visivelmente afeta a forma como o perfume é criado e se desenvolve na pele.

Quando você usa muitos dos seus designs clássicos isso não fica tão evidente, entretanto quando se testa duas de suas criações tão diametralmente opostas entre si como as dessa avaliação fica claríssimo que há mais de uma Dawn Spencer Hurwitz da mesma forma que Fernando Pessoa se utilizava de diferentes eus poéticos para escrever.

Em Become The Shaman Dawn canaliza sua perfumista mais primitiva, sua sacerdotiza dos aromas. Criado para um projeto do site CaFleureBon cujo tema criativo era "Projeto Talisman/Água de Proteção", Dawn se inspira na temática do Palo Santo e seu uso pelos Incas para purificar e limpar o espírito. É um perfume que para mim personifica perfeitamente a palavra perfume - uma fumaça aromática que mistura uma aura amadeirada, cremosa e sagrada que lembra sândalo com tons resinosos, amadeirados e de incenso em algo que soa natural sem ser pesado demais, defumado demais. É um belo estudo sobre as nuances do palo santo e para quem curte um perfume amadeirado com incenso é um prato cheio.

Já Il Marinaio di Capri personifica o lado mais comercial da Dawn, não necessariamente um dos meus favoritos para ser sincero mas um que certamente põe suas habilidades em formas olfativas mais diretas e menos desafiadoras caso você não esteja preparado para seus perfumes mais clássicos. O Objetivo aqui é começar uma série de florais masculinos e personificar um chypre de madressilva com nuances aquáticas sutis. Ainda que a ideia não tenha o calone para dar um ar aquático típico, a aura aquática acaba roubando um pouco a cena da madressilva e leva o perfume mais numa direção aquática almiscarado do que floral chypre aquática. O que eu acho interessante, entretanto, é o aroma verde e que remete a grama cortada logo na saída, um contraste entre uma idealização de mar e o aroma verde da terra. Pessoalmente, poderia ter mais ênfase no aspecto chypre e no floral, porém considerando que este é um floral para o público masculino acho que o aspecto contido é proposital no design.

English:

The more Dawn perfumes I test the more I am convinced that the artist is able to channel various styles of creation. It is as if there was not a single Dawn Spencer in her studio, but a battalion of Dawns capable of creating in different directions. And it is as if every perfumist's design embodies a different one, which visibly affects the way perfume is created and develops on the skin.

When you use many of her classic designs this is not so obvious, however when you test two of her creations as diametrically opposed to each other as the ones in this review is clear that there is more than one Dawn Spencer Hurwitz in the same way that Fernando Pessoa used different poetic selves to write.

In Become The Shaman Dawn channels her most primitive perfumer, her priestess of aromas. Created for a CaFleureBon site project whose creative theme was "Talisman Project / Eau de Protection", Dawn draws inspiration from the theme of Palo Santo and its use by the Incas to purify and cleanse the spirit. It is a perfume that perfectly embodies the word perfume - an aromatic smoke that mixes a woody, creamy and sacred aura that resembles sandalwood with resinous, woody and incense tones in something that sounds natural without being too heavy, too smoky. It is a beautiful study on the nuances of palo santo and for those who enjoy a woody scent with incense is a full plate.

Already Il Marinaio di Capri embodies the more commercial side of Dawn, not necessarily one of my favorites to be honest but one that certainly puts her skills in more direct and less challenging olfactory forms if you're not prepared for her more classic ones. The goal here is to start a series of male florals and impersonate a honeysuckle chypre with subtle aquatic nuances. Although the idea does not have the calone to give a typical aquatic air, the aquatic aura ends robbing the scene of the honeysuckle a little and takes the perfume more in a musky watery/ozonic direction than floral chypre aquatic. What I find interesting, however, is the green scent that smells like cut grass right in the beginning, a contrast between an idealization of the sea and the green scent of the earth. Personally I could put more emphasis on the chypre and floral aspect, however considering that this is a floral for the male audience I think the restrained aspect is purposeful in the design.