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25 de out de 2017

O'DRIÙ Sea Angel - Fragrance Review


Português (click for english version):

Se a perfumaria pode ser considerada uma arte, e em muitos momentos ela é de fato, eu diria que Angelo Orazio Pregoni é um bom exemplo do expressionismo na perfumaria. Há uma certa subversão na forma como Angelo concebe suas criações que pode se perder caso você não as considere como um conjunto. Entretanto, a deformação de ideias conhecidas, uso de saturações aromáticas para criar o efeito vibrante das cores e uma certa recusa em seguir o aprendizado técnico, optando por sua sensibilidade me faz pensar em como os perfumes da Odriu poderiam ser um estudo de caso desse movimento na perfumaria contemporânea.

É possível ver com certa cautela e ceticismo quando o criador diz que ao lançar Sea Angel seu objetivo é usar sua irreverência e estilo provocativo para propor um perfume marinho diferente, ousado e que fuja da banalidade dos perfumes aquáticos. É uma descrição que de fato se encaixa perfeitamente com o perfume na pele, porém na minha opinião é mais claro ver Sea Angel como a visão expressionista de Angelo em relação ao Oceano e ao que um perfume marinho poderia ser.

A palavra-chave aqui é marinho e não aquático, pois Sea Angel não possui nada de um frescor oceânico que dominou a perfumaria na década de 90 em diante. O expectro aqui estaria mais para algo animálico, úmido e herbáceo, algo que é possível pelo uso do absoluto de alga-marinha, uma matéria-prima de um perfil aromático fora do comum e que é perfeita para uma exploração mais artística.

Conforme prometido, Sea Angel de fato espanta nos primeiros minutos na pele, principalmente pelo aroma úmido, verde, salino e animálico das algas. É uma visão de um oceano mais agressivo, intimidante até, águas que parecem engolir quem ousar entrar em seus dominíos. Entretanto, há muitas camadas simultâneas em Sea Angel e é curioso que ao mesmo tempo há um aspecto funcional acontecendo de fundo, algo que, interpreto eu, poderia ser uma crítica aos perfumes aquáticos. Misturado a essa impressão intimidante há um aroma que me remete imediatamente a uma fofa e delicada espuma de sabão em pó, um contraste vívido entre animálico e límpo na pele.

E então, Sea Angel começa a se transformar em uma saturação de especiarias, aldeídos especiados, flores e madeiras. Estaríamos talvez em um navio em alto mar, com a perspectiva do oceano sendo vista de uma tempestade? Em um momento onde tudo parece se desmoronar ao mesmo tempo que resiste? É difícil de saber, já que há uma colisão das notas citadas com toques frutais de maçã e um aroma floral distorcido que dá quase uma vibe vintage a algo que poderia ser um perfume da CDG nesse momento (e que remete muito a determinados trechos do clássico CDG2 Man).


O momento final de Sea Angel é talvez o seu ponto mais comercial, ainda mais para a perfumaria masculina. Mas não é algo que me surpreende, pois é bem claro que Angelo conhece as regras da perfumaria clássica e moderna, apenas as utiliza quando o interessa para atingir seus objetivos. Depois da tempestade de notas, Sea Angel acenta em um aroma amadeirado seco que faz um uso até que moderado das moléculas potentes de ambar que dão um cheiro bem seco e quase de tabaco a muitos perfumes por aí. Na minha prévia de como eu imaginava que seria Sea Angel previa que esse poderia ser um Anjo esquizofrênico em seu comportamento e de fato ele é, oscilando entre antigo e moderno, ousado e comercial, colidindo diversas nuances para depois acalmar na pele. Talvez ele não seja um perfume que reflita plenamente Angelo mas é uma criação que certamente está entre os seus melhores e mais polêmicos.

English:

If perfumery can be considered an art, and in many instances it is in fact, I would say that Angelo Orazio Pregoni is a good example of expressionism in perfumery. There is a certain subversion in the way Angelo conceives his creations that can be lost if you do not consider them as a whole. However, the deformation of known ideas, use of aromatic saturations to create the vibrant effect of colors and a certain refusal to follow technical learning, opting for its sensitivity makes me think of how Odriu's perfumes could be a case study of this movement in contemporary perfumery.

It is possible to see with some caution and skepticism when the creator says that when launching Sea Angel his objective is to use his irreverence and provocative style to propose a different marine perfume, bold and that flee from the banality of the aquatic creations. It is a description that indeed fits perfectly with the scent on the skin, but in my opinion it is clearer to see Sea Angel as the expressionist vision of Angelo in relation to the Ocean and what a marine scent could be.

The key word here is marine and not aquatic, as Sea Angel has nothing of an oceanic freshness that dominated the perfumery in the 90's onwards. The expectation here would be more for something animalic, moist and herbaceous, something that is possible by the use of seaweed absolute, a raw material with an unusual aromatic profile and perfect for a more artistic exploration.

As promised, Sea Angel really amazes at the first few minutes on the skin, mainly by the humid, green, saline and animalic scent of algae. It's a sight of a more aggressive, even intimidating ocean, waters that seem to swallow whoever dares enter their domains. However, there are many simultaneous layers in Sea Angel and it is curious that at the same time there is a functional aspect going on in the background, something that, I interpret, could be a criticism of aquatic perfumes. Coupled with this intimidating impression there is a scent that immediately reminds me of a soft, delicate foam of powdered soap, a vivid contrast between animalish and clean on the skin.

And then, Sea Angel begins to turn into a saturation of spices, spicy aldehydes, flowers and woods. Are we perhaps on a ship at sea, with the perspective of the ocean being seen from a storm? In a moment where everything seems to collapse while resisting? It is difficult to know, as there is a collision of the notes cited with fruity apple touches and a fuzzy floral scent that gives almost a vintage vibe to something that could be a CDG perfume at this moments (and that refers a lot to certain parts of the classic CDG2 Man).

The final moment of Sea Angel is perhaps its most commercial point, even more seen in the masculine perfumery. But it is not surprising, since it is clear that Angelo knows the rules of classic and modern perfumery, only uses them when he is interested in achieving his goals. After the storm of notes, Sea Angel accents on a dry woody scent that makes a moderate use of the potent amber molecules that give a very dry and almost tobacco smell to many perfumes out there. In my preview of how I imagined Sea Angel would be I predict that this could be a schizophrenic Angel in his behavior and indeed he is, oscillating between old and modern, daring and commercial, colliding various nuances and then soothing in the skin. Perhaps it is not a perfume that fully reflects Angelo but is a creation that is certainly among his best and most controversial.