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13 de nov de 2017

Le Jardin Retrouvé Eau des Delices, Citron Boboli e Cuir de Russie - Avaliações


A minha jornada pelos perfumes da Jardin Retrouvé começou por um acaso, em uma postagem onde o proprietário da marca lançava uma discussão com relação ao que definiria ou não uma marca de nicho. Essa discussão levou a uma troca de pontos de vista entre eu e Michel Gutsatz e que, no final das contas, rendeu uma proposta para que eu conhecesse os perfumes da marca, que eu resolvi aceitar para entender que tipo de nicho a Jardin Retrouvé seria.

Uso a palavra tipo pois na minha percepção/experiência há um erro hoje quando se fala de nicho como sendo uma entidade só. A partir das demandas que o mercado de massa não conseguia atender surgiu um universo bem complexo de players trabalhando em diversas faixas de preço e criatividade/originalidade. Isso de fato só aconteceu devido ao sucesso de público e de críticas com relação a criações nesse setor.

Pois bem, a Le Jardin Retrouvé se posiciona como uma pioneira no setor de nicho e certamente se não foi a primeira marca a criar as bases para isso foi uma das pioneiras. Em história da perfumaria nem sempre isso é claro, visto que tristemente é um setor que prefere não preservar ou abrir ao público seus detalhes históricos. Criada em 1975, a marca surgiu das insatisfações o perfumista Yuri Gutsatz com a falta de liberdade criativa e o foco em marketing, que diminuía a verba para formulação. Talvez o perfumista tenha percebido que a indústria ia em um caminho sem volta em um mundo de negócios onde a perfumaria passaria cada vez mais a ser um negócio massificado em vez de um complemento de identidade e um negócio de óficio e com toques de arte.

No cenário atual, eu diria que o espírito de criação e existência da marca a posiciona em uma espécie de nicho clássico que parece preservar as origens da perfumaria antes dessa transição da qualidade e individualidade para o marketing e a massificação. É um cenário onde muitas marcas mais tradicionais acabaram de certa forma posicionando vários do seu patrimônio de clássicos em distribuições mais seletivas e em tiragens mais exclusivas (vide a Chanel e seu Les Exlusifs). É um tipo de nicho onde a preocupação maior é de certa forma com a harmonia e estética e não com notas que estejam na moda ou necessidades obsessivas com fixação e projeção.



Eau des Délices é talvez uma das criações mais clássicas e atemporais da marca. Oferecido como uma Eau Fraichê, seu aroma me faz pensar nas clássicas Colognes feitas em um tempo onde seu objetivo principal era finalizar o processo de banho e um uso reaplicado durante o dia para trazer mais frescor. É um aroma leve, refrescante, que gira em torno da suculência dos cítricos, dos tons meio amargos do petigrain e do aroma aromático, floral e citilante. Há uma preocupação em criar uma base discreta com tons de musgo e madeiras, mas a ênfase aqui é mais no frescor e delicadeza do que na preocupação com a intensidade de fato. Eau des Délices em sua execução me remete ao clássico Eau de Cologne da Chanel.


Citron Boboli também é uma criação com nuances cítricas e frescas, entretanto a palheta de cores em relação a Eau des Delices é bem diferente. Enquanto Eau des Delices convém um tom alaranjado transparente em seu aroma, Citron Boboli cria uma aura verde, brilhante e bem vívida nos seus primeiros minutos. É uma harmonia que contrasta a intensidade cítrica verde do limão com um gálbano mais delicado, que tem nuances de grama cortada porém não tem o peso e o aroma de couro que o resinóide de gálbano possui. O uso de cravo da índia e pimenta preta cria uma harmonia interessante, um contraste entre algo quente, seco e picante e algo citríco, fresco e verde. A laranja e o petitgrain que entram na composição arredondam o exotismo da ideia e a trazem para o campo do frescor e delicadeza. O perfume parece perdurar na pele em um leve sussuro amadeirado e almiscarado e uma versão intensa de sua ideia seria bem interessante.


Na minha primeira leva de impressões, Cuir de Russie se mostrou um dos favoritos. Acho curioso como perfumes que convém esse tipo de qualidade e elegância acabaram deixando de serem populares e passando a ser específicos para serem vendidos como exclusivos e de nicho, mas é assim que os tempos funcionam. Acho interessante que a versão atual do Couro Russo da Le Jardin consegue ser ao mesmo tempo clássica e versátil, equilibrando muito bem o aroma de couro mais clássico, resinoso, com o bouquet floral, e o toque atalcado. A inclusão da canela cria um charme extra a fragrância, trazendo um aspecto quente e um contraste que costuma faltar nesse tipo de perfume. De certa forma, as nuances de couro, flores e tons powdery me remetem ao clássico de mesmo nome da Chanel antes da marcar resolver, infelizmente, levá-lo em uma nova direção com a sua última formulação. Para quem gostaria de conhecer um perfume mais clássico de couro com qualidade e menos complicado de usar eu recomendo essa excelente proposta da casa.