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15 de nov de 2017

Le Jardin Retrouvé Verveine d'Été,Rose Trocadero, Tubéreuse Trianon e Sandalwood Sacré - Avaliações


Há duas coisas que me vieram a mente enquanto passava pela minha segunda etapa de uso e entendimento dos perfumes da Le Jardin Retrouvé. São questionamentos que acabam surgindo não apenas pelos perfumes em si, mas pela proposta de valor que a marca cria.

A primeira delas é algo relacionado ao posicionamento da marca na busca de ingredientes de qualidade. Será que a percepção atual de qualidade do consumidor está realmente alinhada com isso? Percebo que uma parte do mercado vê qualidade não pela coerência do aroma em si ou pelos detalhes, mas sim pelos requisitos técnicos: se um perfume não projeta intensamente e dura muitas horas na pele, ele não tem não a qualidade esperada.É talvez um dos desafios que a marca enfrenta ou enfrentará em algumas de suas composições, que parecem delicadas aquarelas.

A segunda delas é como o mercado parece possuir um comportamento cíclico em relação aos conceitos de criação da perfumaria. Pense que tais criações são de uma época onde o mercado estava dominado por perfumes que criavam conceitos gigantescos (opium, poison, kouros, entre outros) e compare com a ênfase em um design mais direto que enfatiza e trabalha a riqueza de uma nota. E hoje, isso voltou a ser uma tendência, o que coloca a Jardin Retrouvé em uma curiosa posição onde ela soa tanto clássica como moderna em sua abordagem. É uma posição que inclusive a marca pode explorar mais no futuro se decidir ir além de seu catálogo histórico.



É interessante que mais grifes ainda não explorem perfumes com a temática de Verbena, um conceito cítrico herbal que além de conver um frescor que muitos apreciam passa uma sofisticação que não soa batida. Das 3 ofertas mais cítricas da marca, Verveine é a que possui uma aura um pouco mais masculina e a com a melhor performance na pele. O perfume abre com um delicioso aroma suculento de limão e as nuances de erva doce da verbena, completado com toques aromáticos de basilicão e mentolados de eucalipto. É um frescor delicioso, relativamente complexo e que evolui para uma base que mistura o aroma amadeirado e de capim do vetiver com um toque terroso e úmido de musgo de carvalho. Em estilo de composição, Verveine d'Été também me faz pensar em uma grife clássica francesa, a Guerlain, e poderia tranquilamente ser um lançamento da marca na sua linha de colognes.



Já Rose Trocadéro é um dos perfumes da marca que parece indiretamente posicionado mais para o público feminino dado seu aroma floral e delicado de rosas. É um outro caso onde o contraste entre clássico e moderno fica bem evidente na minha opinião: apesar da temática das rosas escolhidas aqui se aproximar mais da perfumaria clássica, a execução casa perfeitamente com o momento atual que busca uma execução da flor que exalta seu frescor e delicadeza. A composição de fato passa a qualidade da Rosa de Maio para mim, mostrando o lado mais orvalhado, acetinado e verde da rosa. Há um toque frutado de groselha que funciona em dois níveis: em um primeiro momento ele confere um aroma adocicado que quebra parte do lado mais azedinho da rosa e em um segundo momento ele acrescenta um lado frutal mais ácido e verde. O uso do cravo acaba sendo mais um acessório, complementando as nuances especiadas que podemos encontrar na rosa e criando uma harmonia com a groselha. Como em muitos perfumes modernos, a base é feita mais para segurar a saída e evolução e acaba se tornando quase transparente, um musk segunda pele que convida uma reaplicação para que voltemos a sentir a delicadeza floral e frutada da composição.



De todos os perfumes relançados pela marca um dos que mais se aproxima dos temas da década onde os negócios da Le Jardin Retrouvé se desenvolveram é Tubéreuse Trianon. Durante os anos 80 a temática da Tuberosa foi bem explorada em criações que lhe conferiam um aspecto estrutural gigantesco e neon e por mais que Tubéreuse Trianon vá por essa linha grandiosa há um cuidado maior com o equilíbrio e a aspereza que um acorde clássico de tuberosa pode passar. O aroma narcótico da flor e recriado por uma justaposição dos tons frutados e de flor de laranjeira do jasmim sambac com o aroma floral branco e complexo do ylang, complementado pelas nuances verdes da própria tuberosa. Curiosamente, o aspecto frutado da composição parece emergir depois que o tom narcótico dá uma suavizada, conferindo uma doçura de framboesa que parece terminar em uma base que também depende primariamente de um aroma de musk segunda pele mas que oferece um leve toque amadeirado junto.



Há um perfume que escapa da temática minimalista que permeia todos os perfumes da coleção, inclusive os mais intensos como Tubéreuse Trianon e Cuir de Russie. Aqui voltamos para os anos 80 com Sandalwood Sacré com um perfume repleto de camadas a serem desbravadas. A princípio isso pode parecer contraditório com a temática de um perfume que evoca o ambiente de um templo budista. Mas a primeira impressão é justamente a de um aroma de um incenso espiritual, permeado do aroma de um rico bouquet floral. Aqui há um mix de energias, yan e yang, onde o sagrado do incenso se mistura a um toque carnal de flores brancas que até mesmo mostram seu lado mais indólico em meio a seriedade da composição. Há nuances de couro, de iris e de violeta de uma forma secundária e por uma terceira vez me vejo pensando novamente em uma criação da Chanel. Passado o impacto zen-maximalista da saída, Sandalwood Sacré me remete e algo que eu não imaginava que gostaria mas que apreciei muito, uma versão menos powdery, mais limpa e direta do Antaeus. O sândalo eventualmente aparece, finalizando a composição com um tom amadeirado sóbrio, levemente cremoso e de muita qualidade. Desafiador a princípio mas um destaque na linha.