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31 de dez de 2017

Retrospectiva 2017 - Parte 2

Em 2017 a indústria como um todo repetiu a tendência dos últimos anos, com o foco nos investimentos em linhas de perfumaria exclusiva e com características de nicho. Nicho é a palavra da vez, seja na indústria, nas notícias ou nos grupos sociais. E obviamente todo esse foco atrai marcas que só querem surfar na onda sem oferecer algo interessante. Felizmente novos estreantes tem trazido também belos conceitos e uma paixão por perfumes bem feitos e elaborados. Junto com a parte 1, a parte 2 dessa retrospectiva tenta ressaltar justamente o que tem dado certo na perfumaria, com um foco maior no segmento de perfumaria de nicho e independente/indie.


DSH Perfumes Onycha

Em todas as retrospectiva que tenho feito há sempre espaço para um ou dois perfumes da perfumista e artista independente Dawn Spencer Hurwitz. Ela para mim personifica perfeitamente o que é perfumaria independente e criativa: sem pressões mercadológicas, sem seguir tendências, livre para criar o quanto e quando quiser. Essa liberdade e fidelidade a si mesma tem produzido criações como Onycha, que tem sua inspiração nos aspectos mais ancestrais da perfumaria e que é ao mesmo tempo inovador ao trazer um aroma animálico único e pouquíssimo explorado, uma extração do aroma de conchas.



Papillon Perfumes Dryad


Outra marca que tem se destacado no setor de perfumaria indie nos últimos 2 anos é a Papillon Perfumes, projeto de Liz Moores. Para os que se sentem saudosistas pelo estilo clássico e complexo do passado, os perfumes de Liz são um prato cheio. Dryad remete a época dos perfumes carregados em Gálbano, trazendo um frescor cítrico que o torna contemporâneo. Ao mesmo tempo, faz uma bela exploração do aroma floral do narciso e jonquilho. É outro clássico maravilhoso da marca e que justifica sua presença mais um ano na lista dos melhores momentos.




O'DRIÚ Sea Angel

 Ainda que a presença da marca de Angelo Orazio Pregoni não seja novidade na retrospectiva, Sea Angel foi um momento único no blog, onde Angelo compartilhou todas as suas referências de criação e propôs o desafio de entender Sea Angel antes mesmo de conhecê-lo. Mas o motivo pelo qual o perfume entra na list anão é esse, e sim seu momento único na perfumaria. Angelo explora uma das categorias mais batidas da perfumaria, os aromas aquáticos. E o resultado é uma visão expressionista da beleza impetuosa da violência do oceano. Assim como Onycha, Sea Angel explora um material difícil e pouco utilizado e que se encaixa perfeitamente no conceito: o absoluto de algas.



Santi Burgas Palindrome II

 
Você sabe quando está diante de um perfume que realmente te marcou quando se pega pensando nele ocasionalmente depois de ter avaliado. Durante esse ano Palindrome II foi um amor a primeira vista para mim. Um conceito interessante proposto por Santiago Burgas e interpretado pelo talentoso perfumista Rodrigo Flores-Roux. Seu centro de gravidade é o patchouli, um ao mesmo tempo terroso e luminoso e um ricamente adornado por flores, cítricos e couro, uma construção que de fato explora os contrastes entre escuridão e luminosidade que o conceito propõe. Uma magnífica criação.



Talismans Osang

 Algo que pode ser notado de constante entre as escolhas da retrospectiva de 2017 é a plena união entre conceito, perfume e apresentação. Uma marca que faz isso muito bem em sua essência é a italiana Mendittorosa. Em 2017 a marca agrupou parte de suas criações na nova marca/coleção chamada de Talismans. Osang foi o primeiro novo perfume a estrear na marca, pegando uma inspiração em algo sagrado e místico/mítico: a transformação do sangue de São Januário. A combinação de pirazinas e aldeídos cria um aspecto único e bem intrigante no aroma de Osang, que faz uma transição lenta para um aroma de mel e imortelle.




Dusita Le Sillage Blanc


Alguns podem ter visto com olhares céticos e críticos em 2017 a estreante Dusita pela sua presença quase onipresente nos grupos virtuais e nos blogs. Isso é um erro, pois por mais que haja uma estratégia muito bem elaborada de divulgação a marca se sustenta com perfumes luxuosos e sofisticados e um equilíbrio entre passado e presente nas inspirações da marca. Le Sillage Blanc é resultado da paixão de Pissara pelos perfumes clássicos, explorando em seu chypre couro uma referência ao clássico Bandit de Robert Piguet.




Margiela Replica Lipstick On

     
Dos perfumes da retrospectiva Lipstick On é um dos poucos que não foi lançado em 2017 ou recentemente. Porém apenas tive a oportunidade de conhecer a excelente coleção Replica em 2017 e ele foi um dos destaques e pontos altos do ano. A francesa Margiela faz um excelente trabalho ao criar uma coleção exclusiva acessível e bem trabalhado em perfumes como cápsulas do tempo. Em Lipstick On há uma representação de um momento de ritual de beleza de uma mulher em 1952 com um delicioso aroma powdery brilhante e floral.





Louis Vuitton Dans La Peau


Conceitualmente falando a estreia da coleção exclusiva de perfumes da Louis Vouitton deixou um pouco a desejar, mas entendo que foi talvez uma parte da estratégia da marca de interpretar de uma forma mais solta a inspiração nas viagens, com o objetivo de atingir um público mais eclético. Entretanto há momentos na coleção que a marca acertou em cheio na inspiração com um toque vintage e uma interpretação completamente moderna. O aroma delicado de couro de Dans La Peau é o que melhor representa de uma forma moderna a essência dos artigos de couro da marca.




January Scent Project Selperniku

 Uma das grandes surpresas em 2017 foi a estreia no mundo da perfumaria do artista plástico e colunista de perfumaria do fragrantica, John Biebel. Com uma estética simples e elegante e com uma coleção concisa de 3 perfumes John fez um belo impacto com o seu January Scent Project unindo criatividade, riqueza nas fragrâncias e fantasia nos conceitos. Seu Selperniku é um interessante estudo em branco com materiais que são difíceis de se moldar nessa tonalidade - como o aroma marcante da camomila e o exótico cheiro da imortelle. O equilíbrio desses materiais com musks macios, nuances lactônicas e toques herbais vende magnificamente um aroma familiar e inovador ao mesmo tempo.

Masque Milano L'Attesa


 Os últimos anos tem sido excelentes para criações com enfoque na iris, um material que ganhou as graças na perfumaria pela sua aura nobre, sua elegância e sua riqueza de nuances. Um dos perfumes recentes que captou perfeitamente a essência da iris domando seu lado mais cinzento e fúnebre foi L'Attesa da Masque Milano. Para isso, a marca balanceia o absoluto de iris com nuances florais mais brilhantes e uma belíssima base de vetiver, sândalo e camurça. Um dos destaques que fecha a lista desse ano e uma criação que entra para os melhores do que a marca tem a oferecer.