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21 de jan de 2018

4160 Tuesdays Eau My Soul - Resenha/Review

É interessante observar que o processo de desenvolvimento de uma fragrância durante a história da perfumaria é uma tarefa em geral que ou é solitária ou envolve um grupo bem pequeno de pessoas. Nesse sentido a perfumaria é muito parecida com a arte, de forma que um perfume acaba sendo um reflexo do ponto de vista de uma pessoa ou um pequeno grupo de pessoas.
Talvez isso se deva devido a dificuldade que temos em compartilhar nossas impressões e sensações de uma forma 100% objetiva com relação a um perfume - é como falar uma língua onde conhecemos as palavras mas a forma como elas são usadas e interpretadas acaba sendo muito pessoal. Porém, é interessante observar o como a propagação e crescimento das redes sociais gerou uma comunidade onde as pessoas trocam conhecimentos, impressões e palavras sobre esses perfumes. Um desses lugares é o grupo inglês Eau My Soul, feito para ser um espaço de convivência pacífica, inclusiva e agradável.
Eau My Soul, o perfume, surgiu de uma discussão preliminar de sua fundadora, Christi, convidando as pessoas a compartilharem como elas imaginavam o perfume e com quais notas. O que surgiu a princípio como uma brincadeira tomou ares de algo sério quando Sarah McCartney se propôs a desenvolver um perfume com tais notas, abrindo inclusive uma enquete para que as pessoas votassem em suas prediletas. O estilo aventureiro e destemido de Sarah é perfeito para tal tarefa, já que envolve justamente em tentar capturar essa difícil tarefa de abstrair aquilo que tentamos transmitir de forma igual com palavras diferentes.
E o fato é que Eau My Soul na pele é delicioso, uma espécie de perfume contemplativo que me faz pensar inclusive na essência das origens do perfume, a queima de resinas aromáticas em rituais religiosos. Há uma aura zen, pacífica na criação e certamente Sarah conseguiu capturar bem as notas mais votadas. Ao mesmo tempo, ela capturou nelas a essência de um grupo: nenhuma nota grita mais que a outra, Eau My Soul o perfume é uma sinfonia de todas as notas, uma aura de paz por meio dos aromas escolhidos. É curioso o como as essências escolhidas pelo grupo casam muito bem com os conhecimentos de yoga da perfumista, o que lhe dá espaço, inclusive, para criar uma harmonia que trás a sensação de paz usando essências clássicas com esse propósito. Consigo observar um pano de fundo amadeirado e delicado, obtido com um sândalo de qualidade, envolvido em resinas adocicadas, ambaradas e fumegantes. Sobre ele há pequenos detalhes de várias essências, sendo que as que eu capto melhor me informam uma abertura cítrica, brilhante e adocicada evoluindo para um corpo floral de rosa e laranjeira, imersos no cheiro de incenso. Há algo em Eau My Soul que me faz pensar em um incenso indiano, só que feito com uma qualidade que torna a ideia fluída, delicada e abstrata, algo obtido com bons materiais e com o talento da perfumista. E ainda que nesse tipo de projeto o desenvolvimento dependa do talento de uma pessoa, Eau My Soul é uma prova de que é possível fazer, mesmo que em pequena escala, a criação de um perfume de uma forma mais colaborativa e inclusiva.