Pesquisar este blog

21 de jan de 2018

Frederic Male Sale Gosse - Resenha/Review

Um dos meus aprendizados ao longo do tempo com relação a dinâmica mercadológica da perfumaria entre seus segmentos comercial, nicho e exclusivo é o fato de que qualquer estilo de composição pode ser transposto de um universo para o outro. Inclusive setores onde não há necessariamente um ganho significativo em termos de qualidade na fórmula ou no resultado final, como é o caso das Colognes, que continuam sendo produzidas de forma barata e cumprindo seu propósito, que é o de prover um frescor agradável. Entretanto, nos últimos anos o gênero ganhou um novo prestígio e hoje você pode cobrar o preço que quiser para passar a ideia de qualidade e seleção premium dos materiais. E se há um nome que tem prestígio e credibilidade artística para isso é o de Frederic Malle.
Sale Gosse é um típico exemplo do que a perfumaria de nicho se tornou nos últimos anos, vítima do mesmo problema da perfumaria comercial: mais conceito do que execução em si. O nome é provocativo, remetendo a uma criança mal criada, sem modos. A Marca promete também um perfume que se baseia na formulação de uma Cologne com algo "ousado" - nuances de doces, de violetas, de chiclete. Mas sinceramente, isso é mais conceito/desculpa para surfar no fato de que Colognes clássicas vendem de acordo com a forma que você as apresenta.
Para um perfume que se apresenta como provocativo e que se vende com nuances gourmands Sale Gosse não convence. Pelo contrário, esse é o aroma de uma criança engomadinha, limpa e bem comportada, arrumada pela mãe e que obedece as ordens dela para não se sujar. Por mais que o perfume prometa notas que possam soar como modernas e rebeldes dentro do gênero, o resultado final é bem próximo a interpretação de uma Cologne ao estilo do da Acqua di Parma: um cítrico floral que não foge das nuances aromáticas. Eu vejo o como o uso de um aroma de flor de laranjeira poderia passar um aroma mais adocicado e frutado, porém a marca se mantém longe disso e a perfumista aqui foca nas nuances cítricas, medicinais e meio amargas da flor. Curiosamente, a forma como ela é trabalhada quase faz com que a laranjeira em alguns momentos soe quase como uma rosa verde e cítrica pontuada por aromas herbais. E mesmo na base o perfume é bem comportado, evoluindo para um sussuro limpo e almiscarado condizente com o gênero e com uma performance que é até razoável para uma cologne mas que decepciona um pouco para um perfume da faixa dele. Se essa é a ideia de Frederic Malle do que é uma criança malcriada/mal-comportada, eu acho que a marca ou o perfumista precisam conhecer mais crianças, mas na minha opinião o conceito aqui é que nem o de outras marcas, um mero pretexto para a criação.