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21 de jan de 2018

Manos Gerakinis Imortelle Pivoine - Resenha

É interessante quando se encontra uma grife estreiante como Manos Gerakinis capaz de acertar de uma forma tão precisa a criação de uma coleção de perfumes de luxo que consigam ter um apelo mais amplo ao mesmo tempo que retém uma aura de distinção. Não é uma tarefa fácil, já que uma coisa é fazer um luxo mais popular, outra é fazer um luxo mais arriscado e distinto e, no caso analisado, fazer os dois bem não é para qualquer um.
Se a trilogia Sillage tem o foco na performance sem perder de vista a personalidade da composição, a dupla Parfums de Jour mira na versatilidade com a mesma característica. O propósito da coleção é o de criar fragrâncias profundas com notas sofisticadas e que possam ser usadas do dia para a noite e em qualquer estação.
Considerando esse propósito, foi uma surpresa ver um perfume baseado em Sempre-Viva, uma planta cuja a extração do óleo-essencial/absoluto produz um aroma tão potente e marcante que quando usado em uma composição tende a se destacar e dominá-la facilmente. Não é exatamente o tipo de inspiração que poderia ser chamada de versátil, entretanto Imortelle encontra um jeito de enquadrar a nota numa composição que é exótica sem ser sufocante, macia de uma forma que apesar de ter uma cara mais noturna encara bem um uso diurno depois que os primeiros minutos passam. A Imortelle tem uma nuance de açúcar queimado que é posta em evidencia na saída, uma associação inteligente com, creio eu, Ethil Maltol, dando um toque gourmand tostado que soa distinto e bem equilibrado. De fundo, há um contraste entre especiarias quentes e frias e uma nota lactônica que cria a ilusão de um aroma de chai. Ele rapidamente suaviza para uma base amadeirada com nuances de musks e resinas adocicadas e nesse momento é possível perceber o aspecto de feno-seco e meio amadeirado que é dominante na sempre-viva.
Pivoine vai conceitualmente num sentido totalmente oposto ao da Imortelle. A Peônia costuma ser uma flor que eu não aprecio em perfumaria pois os sintéticos que são utilizados para retráta-la me passam a sensação de produtos de perfumaria funcional. Isso também contribuí para a impressão de que seu aroma não é marcante o suficiente para encarar um uso noturno, faltando uma presença mais marcante para isso. Manos faz um excelente trabalho em tirar a peônia de seu lugar-comum e torná-la sensual e versátil. O perfume apresenta uma riqueza de nuances que é incomum quando a composição foca essa flor. A Peônia aqui é retratada com o frescor floral levemente frutado que é familiar para quem espera essa temática. Porém, o segredo está, assim como em Imortelle, nas nuances da composição. Há um delicioso aroma frutado e floral que remete a vinho com um leve que floral aquático que dá um brilho interessante a flor. De fundo, um jasmim sofisticado e adulto confere um aroma robusto ao acorde sem roubar a atenção da Peônia. A base na composição é mínima, com um toque aveludado que sustenta as flores e o que impressiona é que a saída e o corpo acabam se sustentando muito bem e mantendo uma aura fresca, sensual e complexa por um bom tempo. É um perfume que tende um pouco mais para o feminino e que assim como Imortelle possui uma execução impecável.