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21 de set de 2018

Boticario Malbec Signature EDP - Avaliação/Resenha/Review


Há uma característica bem peculiar do mercado brasileiro relacionada ao marketing dos produtos de origem nacional. O brasileiro aceitar pagar um preço mais alto em produtos importados, entretanto quando uma marca nacional propõe um produto fora da faixa usual de preço ele não é valorizado e é crucificado por isso. Já esperamos que o resultado não será condizente com o produto final a ser entregue. E certamente essa é uma das expectativas que pesa ao novo flanker da linha Malbec do Boticario.

Que sejamos justos, nos últimos tempos a marca não tinha feito nada que justificasse muito entusiasmo, sem contar na percepção que fica de que muitos de seus perfumes foram reformulados para pior ao longo do tempo. Malbec Signature tinha tudo para ser como o projeto The Blend (adiado para 2019 por problemas de design): belo frasco, concentração edp, perfume morno. Talvez até mesmo uma variação do último sucesso de vendas, o flanker Gold.

Entretanto, quando menos se esperava que viria uma surpresa a marca lança o que para mim é o seu melhor perfume dessa década. Malbec Signature tem uma proposta ousada, seu slogan é: a melhor versão do Malbec. E isso o perfume entrega de uma forma conceitual que não deixa espaço para falhas, algo raro de se ver por aqui. O perfume é luxuoso em todos os seus detalhes: em uma apresentação mais elaborada, um líquido de cor dourada, um frasco que remete a uma garrafa especial de vinho, trabalhada com símbolos que remetem a marca Malbec. E o perfume em si dessa vez não decepciona, entregando um edp que dá gosto de ver por aqui.

O maior destaque dado pela marca é a nota de oud, que é combinada ao acorde do malbec para criar o que é chamado de acorde malbec signature. Porém, o perfume vai além disso, oferecendo uma composição com nuances frutadas, especiadas e um aspecto licoroso que fica entre tabaco e mel. Por alguns momentos o toque de especiarias e mel/tobacco remete ao clássico de Tom Ford, Tobacco Vanille, entretanto o perfume não é doce demais, mostrando-se mais harmônico. É possível perceber o aroma amadeirado de cedro, um que tem um aspecto mais terroso e úmido que se percebe no óleo essencial em si. O oud fica de fundo, compondo de fato o acorde e não como uma estrela que rouba o show. Ele tem um aroma com um aspecto bem sutil animálico e ele parece ser parte de uma nuance de couro que fica de fundo na composição. Ainda há espaço para uma evolução amadeirada que retém parte da doçura especiada e de mel e leva para um contexto onde o cedro e algo entre vetiver e sândalo.

Surpreende que a marca tenha resistido a fazer um perfume caro que prezasse por uma fixação quilométrica em vez de uma evolução refinada e complexa. É uma criação arriscada talvez, mas é justamente isso que vinha faltando na marca, perfumes que surpreendessem em seu risco. Dado que o grupo Boticário tem mirado em uma expansão em direção ao oriente médio não ficaria surpresso se, como o Essencial Oud da Natura, esse perfume soasse apenas como um teste interno de mercado. Ainda que seja isso e que o brasileiro talvez não valorize, vale a pena celebrar um perfume que poderia muito bem ser importado, até mesmo de uma marca mais exclusiva ou de nicho. Espetacular.