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23 de set de 2018

Guerlain Derby Avaliação Original - Avaliação/Resenha/Review


Português (click here for english):

Uma coisa que nunca tinha me ocorrido até utilizar os perfumes masculinos da Guerlain em sequência é que até hoje nos seus pilares mais bem sucedidos a marca oscila entre o que eu poderia chamar de luz e escuridão, entre perfumes mais românticos, sedutores e aromas mais secos, amadeirados e até mesmo seguros. Mouchoir de Monsieur foi mais romântico, Vetiver mais seco, Habit Rouge mais romântico e então o próximo da sequência, Derby, volta para um estilo mais sóbrio e tradicional masculino.

É interessante que ao mesmo tempo que pensamos nos anos 80 como um ano de fragrâncias extravagantes, potentes e sedutoras nos esquecemos que socialmente e economicamente foram anos difíceis. Uma característica que sempre reflete na perfumaria é que por mais inovadora que ela seja em tempos difíceis volta-se para o que é seguro e confortável. Da perspectiva masculina, eu penso que a luta pelos direitos femininos na década de 70 certamente refletiu na perfumaria masculina dos anos 80, que gira em sua maioria entre fougéres, fougéres couro e chypres amadeirados. É um arquétipo da masculinidade tradicional, porém amplificada com os megafones da potência dos perfumes dos anos 80.

Derby foi criado pela Guerlain em 1985, 20 anos após a criação de Habit Rouge, e se enquadra nessa estética oitentista, porém a Guerlain tenta fazê-la sob a sua ótica, sem perder a sofisticação em troca da performance. Por isso Derby era vendido sob o slogan de "Bárbaro, porém civilizado" e curiosamente seu aroma também é inspirado no mundo da cavalaria assim como Habit Rouge, porém sob a ótica dos cavalos de corrida em vez do cavaleiro em si. É como se Derby celebrasse a essência masculina tradicional, porém sem a barbaridade.

Do ponto de vista do aroma, os aficionados e especialistas comentam que se Habit Rouge está para Shalimar, Derby está para Mitsouko, o que não deixa de ser verdade. Tanto mitsouko como Derby depende de um eixo aromático chypre seco, que se utiliza da bergamota, cravo e musgo de carvalho como elementos principais. A diferença é que se mitsouko dá uma adoçada e suavizada na saída com seu toque powdery pêssego Derby acrescenta uma camada fougére herbal e reforça o caráter masculino e amadeirado na base com um acorde de couro e madeiras.

A saída de Derby é perfeita para os que curtem o aroma de um perfume masculino mais clássico bem feito e sua evolução é como acompanhar uma sinfonia bem orquestrada. Derby abre com o toque picante e seco do cravo da índia em contraste com os cítricos da bergamota e laranja. Quando você percebe o perfume começa a evoluir para um aroma herbal mais ardido, quase meio amargo e curiosamente um pouco doce também, entendo eu que pela combinação da artemísia, menta piperita e a noz-moscada. Há flores em derby, porém elas funcionam mais como uma ponte para a base, sustentado a impressão spicy do cravo e preparando para o momento mais amadeirado e seco da composição. A base é bem sofisticada, um couro sóbrio em meio a um patchouli terroso, um toque úmido de musgo e o aroma amadeirado de vetiver e sândalo.


É dito que Derby não foi um grande sucesso da marca, creio eu que por seu aroma ser sofisticado, redondo e sem elementos exagerados. Faltou-lhe um pouco de toque oitentista na sua barbaridade. Porém, um aspecto positivo disso é que seu cheiro envelheceu de forma elegante e manteve um público fiel ao ponto de renascer dentro da linha mais exclusiva da marca, os Parisiens. A principal diferença entre a versão original e a reformulada refere-se principalmente a diminuição do cravo da índia pelas restrições de eugenol, o que impacta na percepção inicial do perfume. A sinfonia amadeirada, terrosa e fougere herbal continua e foi bem rebalanceada. Vale a pena ter a versão atual em vez de caçar a versão original, que costuma ser bem mais rara e item de colecionador.

English version

One thing that had never occurred to me until I used Guerlain's masculine perfumes in sequence is that up to today, in its most successful pillars, the brand oscillates between what I could call light and darkness, between perfumes that are more romantic and seductive  and drier, woody and even safe compositions. Mouchoir de Monsieur was more romantic, Vetiver drier, Habit Rouge more romantic and then the next in the sequence, Derby, back to a more sober and traditional masculine style.

It is interesting that while we think of the 80s as a year of extravagant, powerful and seductive fragrances we have forgotten that socially and economically those were difficult years. One characteristic that always reflects in the perfumery is that however innovative it may be in difficult times it turns to what is safe and comfortable. From the male perspective, I think that the struggle for women's rights in the 1970s certainly reflected the male perfumes of the 1980s, which mostly revolves around fougéres, leather fougéres and woody chypres. It is an archetype of traditional masculinity, but amplified with the power megaphones of the perfumes of the 80's.

Derby was created by Guerlain in 1985, 20 years after the creation of Habit Rouge, and fits in with the style of the decade, but Guerlain tries to do it under its optics, without losing the sophistication in exchange for performance. That is why Derby was sold under the slogan "Barbarian, but civilized" and curiously its scent is also inspired in the world of cavalry as well as Habit Rouge, but under the optics of race horses instead of the rider itself. It is as if Derby celebrates the traditional masculine essence, but without the barbarity.

From the point of view of the aroma, fans and experts comment that if Habit Rouge is for Shalimar, Derby is for Mitsouko, which makes sense. Both mitsouko and Derby depend on a dry chypre aromatic shaft, which uses bergamot, cloves and oak moss as main elements. The difference is that if mitsouko gives a sweetened and smoothed out with a powdery peach Derby adds a herbal fougére layer and enhances the masculine and woody character at the base with a leather and woods accord.

The Derby opening is perfect for those who enjoy the scent of a more classic masculine scent well done and its evolution is like accompanying a well orchestrated symphony. Derby opens with the spicy, dry touch of cloves in contrast to citrus fruits of bergamot and orange. When you realize the scent begins to evolve into a more ardent herbal scent, almost half bitter and curiously a bit sweet too, which i understand is due the combination of artemisia, peppermint and nutmeg. There are flowers in Derby, however they function more like a bridge to the base, sustaining the spicy carnation impression and preparing for the woody and dry moment. The base is very sophisticated, a sober leather amidst an earthy patchouli, a moist touch of moss and the woody aroma of vetiver and sandalwood.


It is said that Derby was not a big success of the brand and I believe this is because its aroma is sophisticated, round and without exaggerated elements. It lacked a bit of an eighties touch in its barbarity. But one positive aspect of this is that its scent has aged elegantly and kept a loyal audience to the point of being reborn within the brand's most exclusive line, the Parisiens. The main difference between the original version and the reformulated version mainly refers to the reduction of the clove by the restrictions of eugenol, which impacts on the initial perception of the perfume. The woody, earthy  and herbal fougere symphony remained and was well rebalanced. It is worth having the current version instead of hunting for the original one, which is usually much rarer and a collector's item.