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23 de set de 2018

Guerlain Habit Rouge EDT (Versão Pós 2003) - Avaliação/Resenha/Review


Português (click here for english):

Um dos momentos mais inovadores e arriscados da perfumaria masculina aconteceu com a criação de Habit Rouge em 1965. Os especialistas em perfumaria apontam que Habit Rouge foi o primeiro perfume oriental masculino criado, mas esse é um fato discutível visto que Old Spice já existia desde 1938. De certa forma os dois são os primeiros perfumes orientais masculinos e isso acontece pois cada um deles personifica uma duas duas principais 'raças' de orientais clássicos existentes na perfumaria feminina. Old Spice é o primeiro oriental do tipo Mellis - esse é o nome técnico do acorde oriental que gira ao redor da estrutura do patchouli, flores especiadas e especiarias na saída. Já Habit Rouge é o primeiro oriental masculino do tipo Ambreine, que é uma estrutura que gira ao redor de baunilha, bergamota e, classicamente, civeta. Um dos maiores ícones desse gênero é inclusive uma criação da Guerlain da qual Habit Rouge é chamado de versão masculina dela - Shalimar.

Mas não é por conta de ser o primeiro oriental que Habit Rouge é um momento pioneiro e arriscado na história da perfumaria, é pelo que ele representa em termos de libertação do homem dentro da perfumaria. Quando você estuda a história da perfumaria percebe que enquanto na época de ouro você teve grandes avanços e obras-primas na perfumaria feminina a perfumaria masculina se manteve praticamente estável, presa a função de complementar o ritual de banho e de barba do homem. Por isso tem-se principalmente o desenvolvimento de perfumes cítricos e fougeres, cuja as características se encaixam bem nisso. Mesmo um old spice pode ser visto como uma tacada mais arriscada porém dentro do que se espera de um perfume masculino - apesar das flores, elas são especiadas e não há nada relativamente gourmand ou extravagante sem ser 'sóbrio'. Habit Rouge é uma ruptura com isso, é o primeiro grande perfume Dandi. O perfume passa nesse momento a não necessariamente ter que se enquadrar nos esteriótipos de ritual de limpeza e discrição masculina, ele passa a ter um valor estético também.

E isso aconteceu pois o jovem perfumista Jean Paul Guerlain sempre teve um fantástico senso de sofisticação para a criação de perfumes masculinos e foi bem ousado no começo de sua carreira. Ele mesmo admitiu em entrevistas recentes que foi inclusive criticado pela própria família por correr tal risco, mas esse foi um dos momentos de grande inovação da Guerlain. Habit Rouge trouxe toda a sensualidade e riqueza do Shalimar para a estética do cavalheiro e lhe deu um outro contexto - em vez da celebração do amor do imperador Shan Jahan pela sua esposa Mumtaz Mahal temos a celebração da alta-sociedade e da equitação. Certamente ainda sofisticado, sensual e estético, porém relativamente sóbrio em sua inspiração.

Pós 2003 Habit Rouge foi recalibrado em seu aroma - certamente por uma questão de gostos do público e para, creio eu, adequá-lo a restrições mais recentes. A versão atual continua muito sofisticada, sóbria e sensual, e se hoje ela soa madura é por que o nível de complexidade e detalhes dos perfumes ao longo da década foi se perdendo. O Habit Rouge mais antigo tendia a um aroma mais atalcado, mais doce e com um cítrico mais adstringente e 'sujo'. A versão atual dá uma cara cítrica menos atalcada e menos adocicada, mas ainda sim muito sofisticada. Habit Rouge é um perfume de nuances, uma questão de saturação de baunilha e bergamota que trabalha os detalhes ao redor disso. Há um acorde floral que explora o lado mais verde da rosa e o liga diretamente ao aroma cítrico de bergamota e limão da saída. De fundo você tem o aroma mais quente e ao mesmo tempo fresco do pau rosa e o aroma powdery e terroso da iris - um elemento não declarado na pirâmide da composição mas que pode ser percebido indiretamente por outras notas. Conforme Habit Rouge evolui a versão atual tende para uma base menos adocicada, com um acorde sóbrio de couro, cedro, madeiras e um leve quê de incenso. O aspecto mais animálico dos orientais mais clássicos não é evidente nas versões mais recentes.


É possível perceber que esse ainda é um dos perfumes mais bem sucedidos da Guerlain pela quantidade de flankers feitos. E mais que isso, a sua ideia é atemporal e única de uma forma que você pode estendê-la em diversas direções e ainda sim manter a assinatura do original reconhecível. Habit Rouge já se tornou musky, mais floral, com nuances de oud, carregado no frescor cítrico e continuou sendo Habit Rouge. E eu afirmaria que se hoje temos perfumes como um One Million ou até mesmo um Dior Homme Intense, que são celebrados pelo seu caráter marcante e mais mais ostentativo, eles devem muito a Habit Rouge ter preparado o caminho para a perfumaria masculina poder passar do ritual de cuidados pessoais para o de sedução. Tom Ford certamente é fã desse perfume da Guerlain também, visto que seu Tom Ford Noir ecoa em sua composição nuances de Habit Rouge.

English version

One of the most innovative and risky moments of masculine perfumery came from the creation of Habit Rouge in 1965. Perfume experts point out that Habit Rouge was the first masculine oriental scent created, but this is debatable since Old Spice had existed since 1938. In a sense, both are the first masculine oriental perfumes and this happens because each of them personifies one of the two main 'races' of classical oriental that exist in feminine perfumery. Old Spice is the first Oriental Mellis type - this is the technical name of an oriental accord that revolves around a structure of patchouli, spicy flowers and spices at the opening. Habit Rouge is the first masculine oriental of the Ambreine type, which is a structure that revolves around vanilla, bergamot and, classically, civet. One of the greatest icons of this genre is even a Guerlain one of which Habit Rouge is called the men's version of it - Shalimar.

But it is not because it is the first Oriental that Habit Rouge is a pioneering and risky moment in the history of perfumery, it is by what it represents in terms of the liberation of man within the perfumery. When you study the history of perfumery you realize that while in the golden age you had great advances and masterpieces in the feminine perfumery the masculine perfumery has remained practically stable, attached to complement the bath and shaving ritual of the man. This is why the development of citrus perfumes and fougeres, whose characteristics fit well in this, is mainly what happened in this time. Even an old spice can be seen as a more risky shot however within what is expected of a masculine scent - despite the flowers, they are spiced and there is nothing relatively gourmand or extravagant without being 'sober'. Habit Rouge is a break from it, it is the first great dandified perfume. The masculine creations from this moment do not need to necessarily having to fit the stereotypes of ritual cleansing and masculine discretion, they can now have an aesthetic value as well.

And this happened because the young Jean Paul Guerlain perfumer always had a fantastic sense of sophistication for the creation of masculine perfumes and was very daring at the beginning of his career. He even admitted in recent interviews that he was even criticized by his own family for taking such a risk, but this was one of Guerlain's breakthrough moments. Habit Rouge brought all the sensuality and richness of the Shalimar to the gentleman's aesthetic and gave it another context - instead of the celebration of Emperor Shan Jahan's love for his wife Mumtaz Mahal we have the celebration of high society and riding. Certainly still sophisticated, sensual and aesthetic, but relatively sober in its inspiration.

Post 2003 Habit Rouge has been recalibrated in its aroma - certainly for the sake of public tastes and for, I believe, fit it to more recent restrictions. The current version remains very sophisticated, sober and sensual, and if it sounds mature today is why the level of complexity and detail of the perfumes throughout the decade has been lost. The oldest Habit Rouge tended to a more fresh, sweet aroma and a more astringent and 'dirty' citrus. The current version gives a citrus face less powdery and less sweet, but still very sophisticated. Habit Rouge is a scent of nuances, a matter of vanilla saturation and bergamot that works the details around it. There is a floral accird that explores the greener side of the rose and connects it directly to the citrus scent of bergamot and lemon of the opening. In the background you have the warmest yet fresh aroma of the rosewiid and the powdery, earthy aroma of the iris - an element not stated in the composition pyramid but which can be perceived indirectly by other notes. As Habit Rouge evolves the current version tends to a less sweet base, with a sober accord of leather, cedar, woods and a light hint of incense. The most animalic aspect of the more classical Orientals is not evident in the more recent versions.


You can see that this is still one of Guerlain's most successful perfumes by the amount of flankers made. And more than that, its idea is timeless and unique in a way that you can extend it in several directions and still keep recognizable the signature of the original. Habit Rouge has already become musky, more floral, with nuances of oud, loaded into citrus freshness and still remained Habit Rouge. And I would argue that if today we have perfumes likeOne Million or even a Dior Homme Intense, which are celebrated for their striking and most ostentatious character, they owe much to Habit Rouge having prepared the way for the male perfumery to pass the ritual from personal care to seduction. Tom Ford certainly is a fan of this Guerlain perfume as well, since his Tom Ford Noir echoes in his composition nuances of Habit Rouge.