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23 de set de 2018

Guerlain Heritage Edt (Versão Original) - Avaliação/Resenha/Review


Português (click here for english):

Quando se fala tradicionalmente dos anos 90 na perfumaria pensa-se imediatamente nos perfumes aquáticos como a definição do estilo da década. Porém, quando se olha os perfumes lançados nessa época por um levantamento de classificação olfativa percebe-se claramente que na verdade os aquáticos foram apenas o estilo mais disruptivo com a década anterior. Tem-se também os perfumes aromáticos que ressurgem motivados pela popularidade do novo frescor. Mas um fato interessante é que a mesma década que surge como uma reação ao estilo exagerado e narcisista da década anterior também é a década que desponta com perfumes que retomam a extravagância e romantismo dos orientais e os levam a um novo caminho, o dos aromas gourmands.

A Guerlain era uma marca que tinha muitas chances de ter sido bem sucedida nessa época caso tivesse feito uma leitura correta das tendências. Afinal, orientais sempre foram um dos setores onde a marca se destacou e sua assinatura olfativa envolve notas que fazem sentido nesse contexto: baunilha, tonka, amêndoas, heliótropo, cereja. Estranhamente, Heritage e Samsara são seus dois únicos perfumes que de fato vão pela linha oriental e não é a toa que são duas de suas criações que continuam em produção até hoje. São perfumes que conseguiram aliar a extravagância e romantismo à estética Guerlain e ao mesmo tempo apresentar aromas com um estilo mais direto de evolução. A não recorrência dessas 2 características foram erros da Guerlain na década de 80 e 90, não o deslocamento de foco da perfumaria para o marketing.

É interessante que haja comparativos de Heritage com Zino Davidoff apontando Zino como uma possível inspiração. Eu discordo disso pois ainda que Zino seja um Oriental seu aspecto fougére é bem evidente. Heritage, entretanto,beira o oriental gourmand e sua faceta fougére acaba se modificando. Caso a Guerlain tivesse optado por notas açucaradas e torradas, Heritage seria basicamente uma antecipação da versão feminina de um dos ícones gourmands da década de 90, o feminino Angel.

Heritage contrasta com o aspecto sóbrio e mais reservado de Derby e é tanto um herdeiro indireto de Habit Rouge como da Guerlinade, o DNA que percorre os perfumes da marca desde Jicky e que ganha um foco de marketing nesse lançamento. Percebe-se que aqui o estilo Oriental ganha uma luminosidade e saturação maior do que o equilibrio mais abstrato da marca do passado. O Patchouli é um fio condutor e creio que foi utilizado alguma destilação especial que ressalta o aspecto mais luminoso do material, aspecto tal que ganharia força nos perfumes femininos de 2000 em diante com o surgimento dos Chypres Modernos. Assim, Heritage ganha uma sofisticação e sobriedade mas ao mesmo tempo uma aura mais direta e menos desafiadora. Ainda sim, temos o aspecto clássico dos cítricos da saída, o aroma mais aromático de um fougére e o combo de baunilha, tonka e benjoin dando o lado quase gourmand da composição, com uma baunilha mais adocicada e que se encaixa muito bem com o aroma amadeirado terroso e mais luminoso do perfume. A performance de Heritage consegue encontrar um meio termo entre a extravagância oitentista e a leveza dos anos noventa e dessa vez estamos novamente diante de uma inovação na perfumaria masculina: Heritage foi um dos pioneiros da década a ousar criar uma eau de parfum para homens, que nessa época ainda era visto como algo reservado para o público feminino. É um perfume que deveria ter sido o case de sucesso e caminho a seguir da marca mas que infelizmente foi uma exceção ao que aconteceria nas 2 criações posteriores.


English version


When we usually talk about the 90s in the perfumery we think immediately in the aquatic perfumes like the definition of the style of the decade. However, when one looks at the perfumes launched at that time by their olfactory classification, one clearly perceives that in fact the aquatic ones were only the most disruptive style with the previous decade. There are also the aromatic perfumes that were revived motivated by the popularity of the new freshness. But an interesting fact is that the same decade that emerges as a reaction to the exaggerated and narcissistic style of the previous decade is also the decade that emerges with perfumes that take back the extravagance and romanticism of the Orientals and take them to a new path, that of the gourmands aromas .

Guerlain was a brand that was very likely to have been successful by this time if it had read the trends correctly. After all, Orientals have always been one of the sectors where the brand stood out and its signature olfactory involves notes that make sense in this context: vanilla, tonka, almonds, heliotrope, cherry. Strangely, Heritage and Samsara are their only two perfumes that actually go the Oriental direction and it is no wonder that they are two of its creations that continue in production to this day. They are perfumes that have managed to combine the extravagance and romanticism to the aesthetics Guerlain and at the same time to present aromas with a more direct style of evolution. The non recurrence of these 2 characteristics were errors of Guerlain in the 80's and 90's, not the shifting of focus from perfumery to marketing.

It is interesting that there are comparisons of Heritage with Zino Davidoff pointing to Zino as a possible inspiration. I disagree with this because although Zino is an Oriental its fougére aspect is quite evident. Heritage, however, borders the oriental gourmand and its fougére facet ends up changing. If Guerlain had opted for sugary and roasted notes, Heritage would be essentially an anticipation of the female version of one of the gourmands icons of the 1990s, the feminine Angel.


Heritage contrasts with Derby's sober and reserved aspect and is both an indirect heir to Habit Rouge and Guerlinade, the DNA that has been scouring the brand's perfumes since Jicky and that gained a marketing focus in this launch. It is noticed that here the Oriental style gains a luminosity and saturation greater than the more abstract balance of the brand in the past. Patchouli is a guiding thread and I believe that some special distillation was used which emphasizes the brighter aspect of the material, an aspect that would gain strength in women's perfumes from 2000 onwards with the emergence of Modern Chypres. Thus, Heritage gains sophistication and sobriety but at the same time a more direct and less challenging aura. Still, we have the classic citrus aspect of the opening, the most aromatic aroma of a fougére and the combo of vanilla, tonka and benjoin giving the almost gourmand side of the composition, with a vanilla more sweet and that fits very well with the  woody and brighter aroma. Heritage's performance can find a middle ground between the eighties extravagance and the lightness of the nineties and this time we are again faced with an innovation in masculine perfumery: Heritage was one of the pioneers of the decade daring to create an eau de parfum for men, which at that time it was still seen as something reserved for the female audience. It is a perfume that should have been the case of success and way to follow to the brand but that unfortunately was an exception to what would happen in the 2 subsequent creations.