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23 de set de 2018

Guerlain Jicky EDT - Avaliação/Resenha/Review


Português (click here for english):

Se fosse possível condensar o momento divisor de águas na perfumaria moderna isso seria feito em um dos perfumes a mais anos em produção contínua, Jicky. Criado em 1889, Jicky não foi o pioneiro em utilizar sintéticos - Fougere Royale veio antes dele - porém esse é um dos perfumes que especialistas e perfumistas consideram como o momento em que a perfumaria deixou de ser uma mera reprodução dos aromas da natureza e passou a mirar em composições abstratas, que utilizam os sintéticos para atingir efeitos que somente com os naturais não seria possível de se obter.

Jicky utiliza 2 materiais que se hoje nós assumimos como algo comum foram revolucionários para a sua época: vanilina e coumarina. O primeiro deles é uma parte essencial no que se tornaria ao longo dos anos a assinatura romântica e complexa da Guerlain. O segundo além de parte importante da assinatura olfativa da Guerlain se tornaria um dos elementos estruturais mais importantes da perfumaria, essencial para a construção da família fougére. Jicky constrói um complexo buquê de nuances abstratas que vão do cítrico ao animálico em cima desses elementos.

Minha versão favorita do Jicky é a edt, visto que a versão edp coloca mais ênfase no aspecto animálico da civeta, da qual não sou muito fã. A versão edt reduz bastante isso  e permite que se possa perceber de forma mais evidente a faceta fougére de Jicky, que seria um perfume entre o fougére e o oriental. É interessante como temos os cítricos com a coumarina, especiarias, iris e lavanda formando uma sinfonia que apesar de ter um aspecto fresco soa bem dark ao mesmo tempo que romântica. É uma melodia que não é fácil de ser decomposta, um perfume difícil de se separar seus elementos - o que mais capta minha atenção é o aroma quase medicinal da lavanda, desprovido do aspecto limpo que muitos associam com produtos de limpeza.

O aspecto mais oriental de Jicky surge lentamente entre o lado mais aromático e animálico da composição. Depois de um tempo na pele percebe-se, mesmo na edt, o aroma amadeirado de sândalo com nuances de iris e de baunilha, com a baunilha aqui sendo utilizada para conferir harmonia e arredondar a composição. Não é um perfume de projeção quilométrica, até porque essa não é uma característica dos perfumes dessa época.


Um fato curioso com relação ao Jicky é que no seu começo de vida foi um perfume que nasceu, ao que tudo indica, como uma criação masculina, em um frasco de linhas simétricas e de cor azul cobalto. Entretanto, Jicky foi revolucionário para sua época e não foi muito bem recebido por tal público, de forma que a Guerlain o trocou de frasco e público. Hoje diria que seu aroma mais aromático, amadeirado e animálico certamente tem grandes chances de agradar aos homens que buscam algo elegante e atemporal.

English version

If it were possible to condense the modern perfumery watershed moment into a fragrances this would be done in one of the oldest perfumes in continuous production, Jicky. Created in 1889, Jicky was not the pioneer in using synthetics - Fougere Royale came before it - but this is one of the perfumes that experts and perfumers consider as the moment when the perfumery were no longer a mere reproduction of the scents of nature, starting to aim at abstract compositions, which use synthetics to achieve effects that only with the natural ones would not be possible to obtain.

Jicky uses 2 materials that if today we assume as something common were revolutionary for his time: vanillin and coumarin. The first of them is an essential part in what would become over the years the romantic and complex signature of Guerlain. The second and important part of Guerlain's olfactory signature would become one of the most important structural elements of perfumery, essential for the construction of the Fougere family. Jicky builds a complex bouquet of abstract nuances ranging from citrus to animalic on top of these elements.

My favorite version of Jicky is edt, since the edp version puts more emphasis on the animalic aspect of the civet, of which I am not much fan. The edt version greatly reduces this and allows one to more clearly perceive the fougére facet of Jicky, which is a perfume you classify between the fougére and the oriental. It is interesting how we have the citrus with the combination of coumarin, spices, iris and lavender forming a symphony that despite having a fresh aura sounds very dark at the same time as it is romantic. It is a melody that is not easy to decompose, a scent difficult to separate its elements - what catches my attention most is the almost medicinal aroma of lavender, devoid of the clean look that many associate with cleaning products.

The oriental aspect of Jicky appears slowly between the most aromatic and animalic side of the composition. After a while on the skin, the woody scent of sandalwood with nuances of iris and vanilla can be seen even in edt, with the vanilla being used here to confer harmony and round composition. It is not a perfume of nuclear projecton, because this is not a characteristic of the perfumes of that time.


A curious fact about Jicky is that in irs early life was a perfume that was born, it seems, as a masculine creation, in a bottle of symmetrical lines and cobalt blue. However, Jicky was revolutionary for its time and was not very well received by such a public, so that Guerlain changed the bottle and made it feminine. Today I would say that its aromatic, woody and animalic aroma certainly has great chances of pleasing the men who look for something elegant and timeless.