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2 de dez de 2018

Comme des Garcons EDP e Comme des Garcons 2 - Avaliação/Resenha/Review


Português (scroll down for english version):

É seguro afirmar que a marca parisiense Comme des Garcons foi uma das precursoras da perfumaria de nicho, em especial o segmento dela que levou o perfume a um caminho conceitual que a perfumaria comercial da década de 90 não podia mais atender. É algo que se encaixa na proposta de existência da marca, que sempre adotou no mundo da moda uma postura anti-fashion e bem excêntrica.

Por mais que soe marcante e exótico, o primeiro perfume da marca tem um impacto muito maior quando contextualizado na década de 90, onde a perfumaria ia para um caminho mais aquático e leve e onde o desenvolvimento do público do perfume era tão importante quanto o perfume em si. Fugindo disso, Commes des Garcons foi criado buscando ser algo novo, não comercial, criativo e sem muitas diretrizes, uma antítese do desenvolvimento de perfumaria da época. E isso é o que definiria a imagem da marca nas próximas 2 decádas.

Criado por Marx Buxton, Comme des Garcons seria o seu primeiro perfume em parceria com a marca e que ajudaria a sedimentar a criativa e icônica parceria entre ambos. Buxton partiu aqui para uma abordagem mais pessoal, coletando uma mistura dos cheiros sentidos ao passear por Marrocos: o aroma das especiarias, o incenso, o aroma de ambar e tudo mais que lhe chamou a atenção. Sua criação é uma explosão de especiarias e aromas marcantes e algo que até hoje poucas marcas arriscam apostar. O cheiro abre com um forte cheiro aldeídico em contraste com o aroma das especiarias, criando uma textura quente e ao mesmo tempo animálica, amarga e oleosa. De fundo surge um rico aroma de ambar, incenso, madeiras e mel, um blend de cheiros como se esperaria sentir em um mercado árabe. Em vez de se preocupar com uma evolução mais regrada ou mais harmônica, esse anti-perfume captura em sua essência um ambiente, o aspecto viciante e ao mesmo tempo assustador de tal cacofonia de cheiros.

Esperaria-se talvez que o segundo perfume pilar da marca adotaria uma continuação dessa ideia ou conceito, entretanto CDG e CDG2 funcionam praticamente como yin e yang ainda que ambos estejam claramente firmados no mundo conceitual e anticomercial da década. Se em CDG é desafiado a noção do que é um perfume, em CDG2 o perfumista e a marca brincam com a noção de gênero indiretamente ao trabalhar no perfume o conceito da dualidade. É interessante que CDG2 em sua síntese está completamente alinhado com o estilo mais linear de perfumaria da época, entretanto há algo arriscado, interessante e moderno em suas dualidades. Há um aspecto cristalino e futurista em uma combinação que abre com um cheiro brilhante e cítrico de aldeídos em contraste com um aroma leve de incenso e cedro. Logo surge uma textura levemente esfumaçada de tinta em contraste com um sutil aroma floral, novamente brincando com os opostos e gêneros.


A base apresenta um aroma mais amadeirado com um musk confortável, tomando o cuidado de trabalhar o patchouli e ambar para que não seja confortavelmente masculino ou feminino. Essa exploração de contrastes e dualidades faz com que CDG2 consiga ser um perfume a atingir a ideia de uma fragrância genderless muito antes desse conceito ser discutido de fato. Assim como CDG 1 é um perfume à frente de seu tempo e uma obra prima.

English:

It is safe to say that the parisian brand Comme des Garcons was one of the precursors of niche perfumery, especially the segment of it that took the perfume to a conceptual path that the commercial perfumery of the 90's could no longer attend. It is something that fits in the proposal of existence of the brand, that always adopted in the world of fashion an anti-fashion and well eccentric stance.

As striking and exotic as it sounds, the brand's first perfume has a much greater impact when contextualized in the 1990s, where perfumery went to a more aquatic and light way and where the public's development of perfume was as important as perfume in itself. Avoiding this, Commes des Garcons was created looking for something new, not commercial, something creative and without many guidelines, an antithesis of the development of perfumes of the time. And that's what would define the brand image in the next 2 decades.

Created by Marx Buxton, Comme des Garcons would be their first perfume in partnership with the perfumer and would help cement the creative and iconic partnership between them. Buxton went here into a more personal approach, collecting a mixture of the smells he felt while touring Morocco: the aroma of spices, the incense, the aroma of amber and everything else that caught his attention. Its creation is an explosion of spices and striking aromas and something that until today few brands risk betting. The smell opens with a strong aldehyde smell in contrast to the spice aroma, creating a warm and at the same time animalic, bitter and oily texture. In the background comes a rich aroma of amber, incense, woods and honey, a blend of scents as you would expect to feel in an Arab market. Instead of worrying about a more harmonious evolution, this anti-scent captures in its essence an environment, the addictive and at the same time scary aspect of such a cacophony of smells.

It would perhaps be expected that the second pillar perfume of the brand would adopt a continuation of this idea or concept, however CDG and CDG2 function practically as yin and yang although both are clearly established in the conceptual and anticomercial world of the decade. If in CDG the notion of what a perfume is challenged, in CDG2 the perfumer and the brand play with the notion of gender indirectly when working on perfume the concept of duality. It is interesting that CDG2 in its synthesis is completely in line with the more linear style of perfumes of the time, however there is something risky, interesting and modern in its dualities. There is a crystalline and futuristic look in a combination that opens with a bright and citrus scent of aldehydes in contrast to a light scent of incense and cedar. Soon there is a slightly smoky texture of paint in contrast to a subtle floral scent, again playing with opposites and genres.


The base features a more woody aroma with a comfortable musk, taking care of working the patchouli and amber so it is not comfortably male or female. This exploration of contrasts and dualities causes CDG2 to be a perfume to achieve the idea of ​​a genderless fragrance long before this concept is actually discussed. Just as CDG 1 is a scent ahead of its time and a masterpiece.