31 de jan de 2019

Natura Ília Dual - Avaliação/Resenha/Review

Havia um risco de 2018 ter sido um ano atípico dentro da perfumaria da Natura, um onde a marca teria se destacado nos lançamentos porém algo que ela não levaria adiante como algo estratégico. Mas se existia esse medo a marca já está dando sinais de que continuará em 2019 com a excelente perfumaria criativa e elegante que ela desenvolveu. Um dos primeiros lançamentos a apontar para isso é o surpreendente Ília Dual que é outro acerto em cheio da marca.

Com Ília Dual a Natura mostra que não é uma empresa de um truque só e é interessante ver como ela tem diversificado seus estilos na perfumaria. Ao mesmo tempo que passou a atender ao clamor das consumidoras e entregar perfumes doces e chypres a marca tem apostado em perfumes mais ousados e arriscados, como a dupla Essencial Oud no ano passado. Ília Dual vai pelo mesmo caminho do arriscado, até mesmo na proposta: um perfume de opostos que se complementam.

Há duas formas de ver esses opostos que se complementam: Ília Dual trabalha dentro de uma fragrância feminina com notas mais masculinas (couro, madeiras) e notas mais femininas (flor de mel, flores brancas). Mas ao mesmo tempo o perfume vai em uma direção de segmentos distintos de perfumaria também, com uma fragrância que parece afinar um aspecto mais arriscado de uma perfumaria de nicho para uma linguagem mais massificada de perfumaria comercial. Não é algo fácil, já que você pode acabar criando algo que ou não agrada o consumidor ou que fica mais na teoria do que na prática. Entretanto aqui há um equilíbrio e o perfume entrega mesmo o que promete.

Acho perigoso descrevê-lo como um floral intenso, o que pode levar as pessoas a entenderem que sua fragrância será fortíssima. Borrifando-se fico com a impressão de que seu aroma é harmônico e versátil e de boa presença, nada enjoativo ou exagerado demais. O perfume propõe um buquê floral interessante, algo que entrega um aspecto de mel pelo aroma das flores, como se você sentisse o aroma do néctar da flor, de seu pólen. Junto a isso há uma espécie de floral discretamente verde e cítrico que me faz pensar no aroma da flor tília, que muitas vezes é conhecido como flor de limão.

A marca combina a isso especiarias cremosas e frias e constrói de fundo uma base de couro que tem um aspecto terroso discreto, como se houvesse um toque de geosmin aqui, sugerindo um aroma de terra molhada depois da chuva. O aroma de couro sugere nuances chypres de patchouli e tem um aspecto mais rústico, mas nada que torne o perfume muito conceitual. É interessante pois a marca poderia ter apostado num estilo de couro menos arriscado, algo meio camurça e musk, mas ainda sim entrega algo elegante, potente e ousado para o público que se propõe.

Talvez pela própria natureza de opostos e por nuances que acena para uma perfumaria mais criativa e livre de restrições Ília Dual poderia tranquilamente ser um perfume compartilhado, já que não é nem exageradamente feminino ou masculino (não que isso de fato importe, mas para muitos ainda é um tabú usar algo que não esteja proposto para seu sexo). Ília Dual entrega um todo muito coerente e atraente em talvez uma das apresentações mais bonitas da marca. É uma fragrância para mostrar que a empresa não vai começar 2019 brincando de surfar no sucesso que teve em 2018. Obrigado Natura por fazer perfumes decentes,coerentes, ousados e atraentes dentro do mercado nacional!