4 de mar. de 2019

Os Contratipos e a História da Perfumaria

Cena do Filme O Perfume

Ainda que a ideia de um produto que seja inspirado em outro ou que seja praticamente uma cópia dele não seja algo exclusivo da perfumaria é nesse meio que tanto mexe com as emoções e reações mais instintivas do ser humano que temos tanto um grande interesse como um grande preconceito no assunto. Devido a vivermos um momento de crise econômica tal produto foi colocado nos holofotes novamente e por isso é um momento interessante para se discutir um pouco da própria história da perfumaria pela ótica dos contratipos e inspirações. Para não ficar muito pesado essa será uma série de artigos analisando a temática. Nesse primeiro trato um pouco do começo da perfumaria como a conhecemos hoje.

"Jamais tinha inventado algo. Não era um inventor. Era um cuidadoso confeccionista de aromas comprovados, como um cozinheiro que com rotina e boas receitas faz uma grande cozinha sem jamais, contudo, ter inventado um prato próprio. Toda aquela farsa de laboratórios e experimentações, inspirações e segredinhos, só a encenava porque fazia parte da imagem do ofício de um maitre parfumeur et gantier. Um perfumista era meio alquimista, alguém que faz milagres: assim o queriam as pessoas - e que assim fosse!"

Trecho do livro O Perfume, de Patrick Süskind

Ainda que seja uma história ficcional, a obra-prima de Patrick Süskind retrata muito bem dado a excelente pesquisa do autor os primórdios da perfumaria moderna. O perfume na complexidade, variedade e acessibilidade que conhecemos hoje é algo recente, oriundo das revoluções industriais nos séculos XVIII e XIX e da revolução química do século XX. O que não significa que o homem nunca foi fascinado pelos aromas, tendo a própria palavra perfume a conotação mística e ritualística que o ser humano dava aos aromas: através da queima de resinas e materiais aromáticos o ser humano se conectava ao divino em seus rituais. Algumas civilizações - como a egípcia e a árabe - levaram seu fascínio com os aromas para o campo dos estudos, a fim de se obter formas de extrair o aspecto aromático das ervas que tanto as encantavam.

Nesse primeiro momento e até mesmo até o começo do século XVIII  o perfume, de forma geral, era algo ou reservado aos rituais religiosos e mágicos ou reservado à própria nobreza - no Egito os Faraós possuíam o que seria uma espécie de perfumista que seria responsável pela criação das suas fragrâncias. Como o perfume até aí era ainda muito natural, seu custo o tornava algo reservado às elites, já que eram necessários toneladas de materiais em extrações de baixo rendimento. A limitação no processo de extração e custo também tornava a palheta de aromas algo mais restrito de forma que o perfume nesse momento ainda não era um processo autoral como vemos hoje, e sim mais uma tentativa do ser humano de por meio de combinações chegar aos aromas que tanto o fascinava. Dessa forma, nesse momento da perfumaria não é possível ainda falar, com certeza, em contratipos e inspirações. Entretanto, a partir do século XVIII e, principalmente, do século XIX isso certamente muda.

As transformações pelas quais a sociedade passou durante as revoluções industriais favoreceram a perfumaria a caminhar na direção que a conhecemos hoje, trazendo consigo o processo de inspiração e contratipação. Os aperfeiçoamentos das técnicas de destilação das matérias-primas naturais e certamente uma ascensão progressiva da classe operária à classe de consumo aos poucos tornaram o perfume algo mais acessível; some a isso uma mudança nos hábitos de higiene da sociedade na época e temos a criação de  uma demanda por fragrâncias como parte do ritual de higiene pessoal. Ainda sim nessa época o perfume ainda era visto como retrata Patrick Suskind em seu livro, como uma espécie de receita de bolo vendido ao cliente na forma de um ritual de alquimia. Fórmulas de sucesso - como a fictícia Amor e Psiquê que Baldine tenta copiar - eram incorporadas aos negócios e vendidas sejam com novos nomes ou como interpretações próprias. No livro do britânico G.W. Septimus Piesse (A Arte da Perfumaria) há várias dessas fórmulas de sucesso da época que encantavam os consumidores. Podemos dizer que é justamente nesse momento é que já temos junto com as bases da perfumaria a ideia do contratipo como um produto que se molda em relação a outro, mesmo que não sob esse nome ou com as mesmas características.