20 de mai de 2019

Dotti Iceland Collection Nakinn - Avaliação/Resenha/Review


Conceito: 4,5 Olfativo: 4,5 Técnico: 4,5 Apresentação: 4,5
Nota Final: 4,5 Nota Faixa: 4,5
Faixa de Preço: 2 - de 150 a 300 reais

Com Profusion a Dotti perfumes abriu um espaço bem distinto no cenário da perfumaria brasileira, colocando-se como uma perfumaria artesanal e independente com acabamento e cara de perfumaria comercial. Profusion foi um perfume distinto, algo feito pela paixão de Gerson Dotti com a Spectrolite. Ao mesmo tempo que isso trouxe um conceito bem individual foi alvo de críticas também por ter um aspecto mais conceitual. Por isso, foi natural que o empresário e dono da marca tenha decidido ir em uma direção mais comercial com os perfumes que sucederiam Profusion. Confesso que quando soube inicialmente dessa decisão temi pelo resultado final, mesmo sabendo que haveria um conceito bem delineado para essas fragrâncias. Ao receber a trilogia da Iceland Collection vi que meu receio foi infundado.

Nakinn, Vík e Rokk são executados de uma maneira que em teoria parece simples de ser feito e na prática não é nada fácil: perfumes comerciais com um Olfativo mais próximo de uma perfumaria comercial e com um aspecto técnico de performance e evolução do jeito que o brasileiro espera. Há um conceito unificando todas as fragrâncias e mesmo não o conhecendo é possível perceber isso observando cada um dos perfumes. E ao mesmo tempo que as 3 fragrâncias estão relacionadas com Profusion esse elo não precisa estar evidente para que se entenda as criações (a spectrolite personifica em seu multicolorido a aurora boreal e é uma pedra apreciada pelos povos nórdicos, que são homenageados via o povo escandinavo nessa trilogia).

Vejo 3 níveis de significado em cada fragrância: o nível simbológico, relacionado às Runas, servindo para representar como as Runas e os aromas são elementos que transmitem mensagens misteriosas e com significados bem definidos. Num segundo nível, cada perfume é como se fosse uma peça de um quebra cabeça que tentasse capturar a paisagem nórdica de uma maneira comercial e fácil de ser apreciada. E em um terceiro nível, a trilogia é um estudo sobre como pe fumaria comercial e de nicho se encontram em diferentes famílias olfativas conhecidas do público.

Nakinn representa uma Runa que está relacionada ao fim de um ciclo e começo de outro e seu nome deriva de uma palavra islandesa que significa nu ou nua. Nakinn captura um aspecto da vegetação da tundra mais rasteiro, seu cheiro representando os arbutos, as frutas silvestres, o aroma das madeiras e o aspecto mais terroso. Do ponto de vista da família olfativa representada é um estudo em aromas cítricos e amadeirados.

Nakinn não é perfeito, mas é um projeto muito bem executado. Diria que o maior problema está relacionado ao nome, pois a ideia de nu ou nua te faz esperar um perfume segunda pele que se baseie em musks. Ele está longe disso e a única ótica pela qual eu vejo a nudez aqui é uma tentativa de emular um aroma da natureza mesmo que utilizando sintéticos e com um aspecto mais comercial, no qual ele é muito bem sucedido. Ele é complexo, intrigante nas nuances, mas muito agradável.

Há uma utilização inteligente do aroma de cedro e musgo de carvalho aqui, criando um aspecto amadeirado e terroso que passa bem um aroma vegetal-amadeirado e úmido. As notas cítricas junto com aspectos verdes e mentolados sugerem o colorido mais verde da composição e criam um frescor bem harmônico e aconchegante. Frutos silvestres verdes e azedinhos são sugeridos no corpo da composição e de alguma forma um  misterioso acorde de avelãs permeia essa tundra amadeirada e cítrica escondido no meio dos cítricos, folhas, madeiras e frutos silvestres. É um toque levemente gourmand que torna a experiência ainda mais intrigante.

Nakinn é certamente um cítrico amadeirado que preenche muito bem todas as lacunas do conceito e posicionamento. Seu aroma deixa um rastro verde-amadeirado que é bem agradável, familiar mas ao mesmo tempo distinto e intrigante. Mesmo que sua nudez não seja óbvia seu perfume parece ser uma peça central da coleção, interrelacionado com o fim de um dos perfumes e o começo de outro.