12 de jun. de 2019

Zoologist Perfumes Dodo - Avaliação/Resenha/Review



Conceito: 2 Olfativo 2,7 Técnico: 4 Apresentação: 4.7
Nota Final: 3 Nota Faixa: 3
Faixa preço: 4 - De 600 a 1000 reais
1-Ruim 2-Regular 3-Bom 4-Ótimo 5-Excelente

Certamente a Zoologist é uma das marcas que no cenário atual eu admiro e faço questão de testar todos os lançamentos. Victor Wong é uma exceção ao trabalhar organicamente, com coerência e ousadia uma marca que não é mais do mesmo e que constrói narrativas olfativas intensas mesmo que isso possa causar estranheza no consumidor. Ao mesmo tempo, admiro o trabalho do perfumista escolhido para a criação de Dodo. Joseph Delapp é um perfumista que se destaca pelo trabalho exemplar com perfumaria natural e attars e por oferecer produtos como agarwood e ambergris numa qualidade excepcional. Por isso vejo como frustrante e surpreendente o resultado que a colaboração de duas figuras ousadas e competente fazem na criação de Dodo, que para os padrões da marca é no máximo mediano.

Uma das coisas que eu admiro e ressalto na direção criativa de Victor Wong é o cuidado meticuloso que ele tem com a conceitualização dos animais que servirão de inspiração para os seus perfumes, fazendo com que o olfativo entregue sirva para contar uma história mais profunda e complexa. Mas em Dodo essa conceitualização é rala e a escolha do animal é praticamente um pretexto e uma tentativa de encaixá-lo no propósito: o objetivo aqui era criar um fougere e associar os dodos ao conceito por meio de uma abstração onde essas extintas e grandes aves que não podem voar correm em meio às florestas das ilhas Maurício, cobertas com folhas de samambaia. A ideia também era associar os fougeres ao algo clássico e extinto, assim como as aves que os representariam aqui. Eu diria que nesse caso em particular a Zoologist comete o mesmo crime da perfumaria comercial, que é o de forçar uma história e um conceito apenas para cumprir um propósito, o de ter um perfume fougere na marca. O problema é que nem a história é contada e nem o propósito é atingido nesse caso.

É uma grande miopia ver a estrutura fougere clássica como algo datado e extinto. Certamente os fougeres clássicos não são mais sinônimo de jovens, mas perfumes como Azarro e Polo Green mostram que não apenas a ideia não morreu como tem mercado consumidor até o dia atual. E se a perfumaria exclusiva e de nicho serve como parâmetro, criações como o relançamento de Fougere Royale,Chanel Boy e Tom Ford Fougere Platine nos mostram é que o Fougere não somente não morreu como se renovou para ser visto como uma família olfativa de luxo e não mais como uma ideia barata. O segundo defeito em Dodo é enxergá-lo como um fougere: como pode ser chamado de fougere um perfume onde a parte terrosa e de musgo não se destaca, onde o aspecto da coumarina não é evidente e onde o dinâmica de lavanda e bergamota é inexistente?

Certamente por eliminação Dodo poderia ser visto como fougere, visto que na perfumaria masculina os fougeres são flexíveis o suficiente para acomodar o que não seja oriental, especiado, amadeirado, cítrico, animálico ou até mesmo aromático. O problema é que nesse processo o perfume esbarra numa família olfativa que de fato é sinônimo de tempos extintos e da época de ouro da perfumaria: os perfumes animálicos. E dodo visto como animálico tenta de fato um movimento de unir o moderno ao clássico, como Joseph Delapp sugere em sua entrevista para o site da Zoologist.

O problema é que Dodo não unifica essas duas partes e em vez de exótico soa estranho e desconfortável. Na prática há dois perfumes aqui, grudados um ao outro por superbonder e lutando para se destacar. E isso fica ainda mais evidente em dias mais quentes, onde a criação me causou uma grande estranheza e repulsa. No calor a saída do Dodo me soa barata e artificial, remetendo ao aroma agressivo, fresco e mentolado de uva verde presente no perfume Silver Scent de Jacques Bogart - a última coisa que eu esperaria sentir num perfume artístico e pensado conceitualmente. No frio, um aspecto meio mentolado, frutal e cítrico se ressalta na saída de Dodo e parece uma variação da mesma ideia apresentada na primeira versão do Zoologist Panda - o que também me surpreende, visto que Panda foi reformulado pois não vendia bem; qual é objetivo então de insistir com um novo lançamento em algo que já foi provado que não funciona?

Quando passa essa saída bizarra e desconfortável o perfume se transforma em um aroma animálico onde o talento do Joseph Lapp realmente começa a aparecer. É nessa fase que podemos perceber que o perfumista explora o que domina muito bem e cria uma textura aveludada animálica com um discreto aspecto floral. A princípio o aroma meio salino, animálico e oceânico do ambergris predomina e aos poucos um aroma de musk mais animálico aparece, bem equilibrado não se mostrando muito fecal ou sujo e ambrindo espaço para que uma demorada e intrincada base amadeirada se revela, com direito até mesmo a musks sintéticos e muito bem encaixados no final da evolução.

Essa construção de show de horrores em Dodo cria a princípio a sensação de que o perfume não fixa na pele, pois depois de explodir com uma ave gritando a plenos pulmões o perfume se aquieta na predominância de musks e ambergris, mas permanece o dia inteiro na pele e cria uma aura sensual que se revela conforme o corpo aquece. Como fougere Dodo é um grande erro e uma péssima ideia. Como animálico funcionaria muito bem se a saída fosse removida e uma dinâmica aquática e comercial fosse encaixada. Ou então o aspecto do ambergris poderia servir como alusão a plumagem cinza da ave e um lado mais dócil poderia ter sido desenvolvido para simbolizar um animal que confortável em sua vida deixou de voar e temer predadores. O que é entregue passa longe disso, com um perfume que só sossega de fato depois de espantar todo mundo de maneira agressiva. Como a marca realmente investe em sua apresentação e no preço da fórmula e a evolução olfativa faz sentido isso é que acaba salvando Dodo de ser um perfume entre o regular e o ruim.