29 de set. de 2019

Santi Burgas Egnaro, Flaming Red, ÔKIB, Eau Dadette - Avaliação/Resenha/Review


Egnaro
Conceito: 9 Olfativo: 6,5 Performance: 9

Flaming Red
Conceito: 9 Olfativo: 8 Performance: 10

ÔIKB
Conceito: 10 Olfativo: 9 Performance: 10

Eau Dadette
Conceito: 9 Olfativo: 8 Performance: 7

Nota Final
Egnaro: 7,8
Flamming Red: 8,8
Ôkib: 9,5
Eau Dadette: 8

Composição Nota:

25% Conceito, 50% Olfativo, 25%Técnico
Preço Oficial: 145-155 euros 100ml/20ml (Eau Dadette)

Categoria: Nicho

Uma característica positiva que pode ser dita da White Collection de Santi Burgas é que não são perfumes comuns da maneira como a perfumaria de nicho tem operado. Com o objetivo de criar o inesperado e quebrar regras os resultados finais da coleção variam do mediano e confuso (Miss Betty Vair) a uma execução quase perfeita entre conceito, olfativo e performance (Oud de Burgas, Eau Dadá, ÔIKB). Ainda sim, em nenhum momento há perfumes tediosos, essas são criações que te tiram da zona de conforto e te fazem pensar sobre o que está sendo sentido, criações que desafiam determinadas regras e que se fossem polidas em sua abordagem e olfativo seriam perfeitas.

Egnaro

Com um nome que significa laranja ao contrário (Orange), o conceito de Egnaro te leva a esperar um perfume cítrico ao estilo de uma eau de cologne clássica, algo que se encaixe perfeitamente com a ideia da memória de cruzar a costa Mediterrânea em um dia de calor. Há um descolamento provavelmente proposital entre memória e perfume entregue, pois por mais que Egnaro seja de fato um perfume centrado ao redor do aroma da laranja é um dos momentos mais estranhos da coleção, misturando uma forte impressão fecal e animálica de civeta, musk e castoreum ao cheiro cítrico e amargo de laranja. Ao acostumar-se com o cheiro percebe-se mais uma dissonância, o aroma fresco e picante do gengibre e do anis que ajudam a dar um frescor inesperado ao aroma de laranja amarga. Num primeiro momento Egnaro é como uma memória muito intensa, vívida, porém conforme evolui para a base se torna algo mais confortável, distante e comportado assim que o sândalo e o ambar sustentam o perfume na fase final de composição. A ideia é interessante e desafiadora de fato, porém não parece ter sido executada da melhor maneira possível e não te conta do motivo pelo qual os elementos mais desafiantes estão aqui, qual é o papel deles com o conceito proposto.

Flaming Red

Esse é talvez um dos mais diretos e fáceis de serem entendidos dentro da coleção: a representação da flama vermelha e ardente de um amor intenso e verdadeiro, daqueles que passa por cima da razão e se conecta diretamente com o campo das emoções. Santi Burgas utiliza um símbolo clássico para representar esse amor, a rosa, e o combina com algo espiritual, moderno e bem comercial até, um mix de oud animálico e ambar amadeirado sintético. O toque inesperado e original aqui vêm da nota frutada de maracujá que acrescenta um aspecto frutado exótico e meio amargo que forma um contraste interessante com a rosa ardente e o oud animálico. O único senão é que há algo nesse acorde frutado que te remete a produto de limpeza e que parece deslocado da composição. Assim que passa essa primeira impressão o toque frutado de maracujá que fica casa muito bem com a rosa, oud e o aroma ambarado de fundo. A performance de Flaming Red é uma das melhores da linha, durando bastante e criando um rastro massivo que te acompanha. Uma saída melhor trabalhada tornaria a ideia perfeita.

ÔIKB

Os melhores resultados da coleção white collection são atingidos quando Santiago Burgas homenageia seu movimento criativo favorito, o Dadaísmo, e quando ele consegue transgredir da maneira correta as regras da perfumaria. ÔIKB junta o melhor desses dois mundos em si e ao fazer uma composição no Neo-Dadaísta Yves Klein e em seu poema que fala da profundidade vazia e profunda do azul a marca entrega um belo aroma melancólico e clássico de iris, lavanda, violeta e heliótropo, colocando uma alta dose de ambroxan para dar uma aura moderna e difusiva à composição. ÔIKB é bem próximo do perfeito, um pouco bruto inicialmente em seu aroma de iris. Conforme evolui um elegante couro e um aroma powdery e de violeta se misturam ao aroma da iris, que fica entre o atalcado e o terroso. Há um leve toque animálico distante que complementa muito bem o perfume como um todo e torna a evolução macia e luminosa mais complexa e interessante. Talvez um aspecto frutado silvestre teria funcionado muito bem aqui, um mirtilo e sua tonalidade azul complementariam bem a ideia proposta. Ainda sim ÔIKB é um elegante exercício de perfumaria clássica aplicado a um contexto moderno.

Eau Dadette

Feito em edição limitada e com um frasco feito à mão Eau Dadette é certamente um dos perfumes mais exclusivos da marca e um dos mais diferentes, uma criação moderna composta no estilo clássico de perfumaria árabe, o Attar. Santiago Burgas dedica Eau Dadette a uma musa desconhecida do Dadaísmo, Juliette Roche, e oferece Eau Dadette á todos os artístas desconhecidos. De todos os perfumes dadaístas de Santiago Eau Dadette é certamente o mais dadaísta, e seu aroma parece uma coleção de momentos intrigantes e as vezes desconexos: um cheiro de chocolate com framboesa, um aroma floral branco com cereja e heliotropo, um aroma animálico sujo misturado a um musk limpo, um cheiro amadeirado mais seco. A composição em attar faz com que esses momentos não gritem e não se tornem sufocantes porém prejudica a evolução, fazendo com que a ideia pareça se exaurir depois de algumas horas na pele e se tornar um musk sem nada muito intrigante. Não fica muito claro como isso se relaciona com Juliette Roche e os artistas desconhecidos mas acredito que o encapsulamento de várias direções olfativas seja como um combo de perfumes anônimos misturados em um só o que é algo intrigante em si.