24 de set. de 2019

Santi Burgas Torroela de Montgri - Avaliação/Resenha/Review



Conceito: 9,5
Olfativo: 9,5
Performance: 9
Nota Final: 9,3

Composição Nota:
25% Conceito, 50% Olfativo, 25% Técnico
Preço Oficial: 120 euros 100ml

Categoria: Nicho

Ao mesmo tempo que é uma celebração de 10 anos da marca a coleção Primal Waters parece refletir o futuro no qual a marca de Santiago Burgas irá seguir. Com a coleção Primal Waters a marca me parece ter encontrado uma boa sintonia entre criar uma perfumaria que soe artística e que tenha um refinamento comercial, algo com o qual o consumidor mais inexperiente consegue se identificar, ver valor e ao mesmo tempo não se sentir assustado. Não é uma tarefa fácil, porém a direção artística aliada à experiência e execução do perfumista Rodrigo Flores Roux produz um resultado muito robusto que se torna ainda mais atraente quando se olha a faixa de preço posicionada.

Torroela de Montgri faz parte de uma trilogia denominada Primal Waters, onde vejo um desejo da marca de resgatar uma perfumaria primitiva e artesanal ao mesmo tempo que a trás para algo mais polido (um reflexo desse conceito pode ser visto na tampa única de madeira que cada perfume possui versus o frasco transparente, simples e direto). Torroela de Montgri é uma homenagem de Santiago a sua terra natal e à riqueza da mesma e é um blend de ervas aromáticas que ao mesmo tempo que são um retrato de Torroella também são um resgate do elixirs herbais dos tempos antigos.

O perfumista entrega um trabalho bem interessante aqui, algo que parece ficar na fronteira de um fougére clássico e um amadeirado aromático. Rodrigo Flores Roux parece fazer uma espécie de intersecção de 3 perfumes que eu não imaginaria juntos mas que as influências me parecem ser indiretamente percebidas aqui. Torroela de Montgri parece herdar aspectos aromáticos do clássico atemporal Fougere Royalae (reconstruído por Rodrigo Flores Roux em 2010), do clássico da década de 70 Paco Rabanne Pour Homme e do clássico moderno de vetiver e cipreste Encre Noire. E ao combinar elementos de cada um deles Torroela de Montgri evoca algo atemporal e ao mesmo tempo único e distinto.

O que mais me faz pensar aqui em Encre Noire é a dinâmica entre o aroma mais aromático e seco do cipreste e o aroma amadeirado mineral de cedro, que poderia muito bem ser visto como vetiver também. Essa espinha dorsal de cipreste-cedro-vetiver é o lado mais amadeirado da composição e que me remete ao Encre, porém ele é preenchido com mais elementos que tornam o perfume complexo, trazendo para o mesmo contexto do encre um aroma incensado e seco do abeto balsâmico. Na saída há um rápido aspecto de eucalipto, que dá um aspecto refrescante rápido. Ele evolui para uma combinação de ervas aromáticas e camomila e o lado mais herbal e medicinal me faz pensar em uma modernização da mesma ideia presente no Paco Rabanne Pour Homme. Ao mesmo tempo, esse lado quase fougere, verde e aromático também fica no limite do que está em Fougere Royale e o que diferencia é justamente a ausência do musgo, da proeminência da lavanda e a utilização desse aspecto mais moderno da base amadeirada mineral.

Torroela de Montgri entrega justamente o que você espera, um perfume que utiliza com certa ousadia e maestria ervas aromáticas atemporais e as recontextualizam em uma perfumaria moderna. Seu estilo de evolução fica entre algo mais linear e em camadas e é um interessante híbrido e uma boa surpresa para uma criação que pela ideia de uma Água Primal poderia ter sido algo mais cologne e comum. A forma como é construído dá uma performance muito boa para a ideia, com uma saída refrescante e mais intensa e uma evolução amadeirada bem confortável. Uma grata surpresa.