5 de nov. de 2019

Escentric 02 Molecule 02 - Escentric Molecules - Avaliação/Resenha/Review



Ainda que de certa forma o objetivo inicial de criação da Escentric Molecules tenha sido o de uma perfumaria minimalista e vanguardista no contexto atual 13 anos após a criação da marca o maior valor que pode ser extraído da marca em si é seu aspecto didático e reflexivo da perfumaria contemporânea. Cada Escentric e Molecule pode suscitar explicações e discussões interessantes e que muitas vezes não são abordadas de maneira didática ao consumidor. Certamente a marca não se vende assim visto que esse tipo de abordagem educativa não é tão atraente quanto a ideia de perfumes inovadores e que se combinam à química de quem o usa.

Se o primeiro capítulo da saga é uma história relacionada ao Iso E Super e seu papel transformador na perfumaria da década de 90 em diante o segundo capítulo aborda um material tão importante quanto mas menos documentado em sua influência e papel de transformação: ambroxan. Conhecido por nomes como ambroxide, ambrox, cetalox, ambroxan e ambrox super, essa molécula escêntrica é uma análoga natural a encontrada no ambargris, um clássico material da perfumaria obtido por meio de tintura em álcool das secreções regurgitadas pela baleia cachalote nos oceanos. Ainda que o Ambroxan não seja capaz de reproduzir em sua integridade as nuances do ambargris para o consumidor atual ele é capaz de trazer as propriedades fixativas e o aspecto segunda pele, salgado e aveludado que o ambargris é capaz de trazer à evolução de uma composição.

Mesmo tendo sido descoberto pela Firmenich na década de 50 em pesquisas que procuravam substituir o ambergris, o Ambroxan apenas recentemente começou a ganhar mais espaço na perfumaria. Ainda que sirva como uma alternativa em escala ao ambergris, o Ambroxan contradiz a ideia que muitos possuem de que sintético é igual a barato, sendo um dos materiais mais caros da perfumaria, com seu custo por kg equivalendo ao de muitos materiais naturais. Sua própria forma de sintetização é interessante pois ainda que seja obtido em laboratório não é claro até que ponto ele é obtido sem que haja um substrato natural - uma das rotas mais conhecidas de produção depende da sálvia esclaréia; outra depende do labdanum. Recentemente a própria Firmenich começou a disponibilizar uma maneira de biosíntese do ambroxan: uma forma de produzir algo sintético, em laboratório, por um meio natural. E serve como exemplo de que a discussão de perfumaria natural versus sintética é mais complexa do que parece a princípio.

Além do custo de utilização do material, o Ambroxan não pode ser utilizado em qualquer dosagem como acontece com o Iso E Super. Há uma limitação física aqui: a substância não diluída é encontrada em cristais e tem um limite de solubilidade que limita sua dilução a 13,5%, pois acima disso começa a cristalizar. Isso talvez explique o motivo pelo qual não há muita dedicação a contar sua história, sendo necessário um pouco de pesquisa e suposição. Pelo pouco que há de literatura especializada um dos primeiros usos foi feito na década de 70 (época onde as primeiras preocupações ambientais e ecológicas levaram a limitações na utilização de ambergris natural) no perfume Gentleman da Givenchy. Sabe-se que o Ambroxan é um material encontrado junto com Hedione, Iso E Super e o musk Galaxolide no clássico CK One da década de 90. Em 2002 ele aparecia em outro perfume onde o frescor, transparência e radiância se tornariam uma marca registrada: Dolce & Gabbana Light Blue. Apareceria novamente como um elemento importante na construção abstrata de ambargris no perfume de 2004 da Hermès, Eau des Merveilles. Em 2005 seria visto novamente como em uma "overdose" de 2% no perfume Alien de Thierry Mugler. Somente em 2006 Geza Schoen o tornaria uma estrela diluído a 13,5% (no limite) no perfume Molecule 02 e no Escentric 02 e a partir daí o Ambroxan ganharia mais visibilidade e destaque na perfumaria, em especial na perfumaria de nicho. Juliette Has a Gun criaria um conceito de anti-perfume ao redor dele no lançamento Not A Perfume de 2010, Francis Kurkdjian o tornaria famoso em sua composição gourmand floral de 2016 Baccarat Rouge mas seria o mega sucesso de vendas da Dior, Sauvage, que finalmente colocaria o Ambroxan na boca do povo como algo celebrado e desejado (e é importante salientar que Sauvage utiliza a versão biosintetisada da Firmenich e que não está disponível para venda ao público, o Ambrox Super).


Diria que o maior perigo que se corre ao sentir Molecule 02 na pele é esperar algo mágico e mítico como o marketing vendeu ao longo desses anos ao consumidor. O perfume não vende isso e certamente suas limitações de concentração impedem uma overdose de fato do material, o que o torna mais suave na pele. Geza poderia ter utilizado versões mais intensas e marcantes como o Cetalox ou Ambrox DL, porém não sei se existem equivalentes dela dentro da casa de fragrâncias onde ele trabalha. Na versão original, Molecule 02 vende exatamente as características utilizadas para descrever seu aroma: é uma molécula multifacetada com nuances frescas, levemente salgadas e com uma textura aveludada que se assemelha a de um musk ainda que não seja um musk. Diferente do Molecule 01 esse parece ter uma aura mais intimista e reservada e talvez seja necessário mais borrifadas dele para que seu aroma se torne perceptível aos que estão ao redor. De certa forma eu diria que Molecule 02 sozinho serve como uma espécie de primer e blurr de perfumes: é tanto capaz de fixar de maneira secundária composições efêmeras como também de suavizar perfumes mais potentes e pesados. Dessa forma, serve a quem compra como uma molécula para experimentos pessoais que permite trabalhar as nuances de projeção e duração das fragrâncias favoritas.

Escentric 02 acaba sendo uma composição mais complexa e menos saturada no Ambroxan do que o Escentric 01 em relação ao Iso E Super. Com a limitação de uso de 13,5% o perfumista cria um conceito de um perfume de textura aveluada e macia, algo que chega a entregar uma nuance plástica mas feita para emular um brinquedo novo e caro. É uma descrição curiosa, pois Escentric 02 parece iniciar com uma boa dose de algum material natural, algo que parece mesclar nuances terrosas de cenoura com um toque apimentado e algo verde e seco como vetiver. Somente depois o perfume vai relevando seu aspecto mais mineral, segunda pele e aveludado, obtido a partir da combinação do musk muscone com o ambroxan e o iso e super, criando uma base abstrata e moderna e que aponta para um toque segunda pele e animálico bem sutil. Soa como um perfume mais complexo e mais trabalhado, ainda que dificulte talvez a princípio o entedimento do usuário das qualidades que o ambroxan trazem a um perfume. Eu diria que Escentric 02 é uma boa escolha para trazer um ar mais masculino e seco para composições que apresentam a iris de uma maneira mais atalcada, além de ser fácil de ser combinado com o Molecule/Escentric 01. O lado mais amadeirado da composição me faz vê-lo também como uma boa escolha para uso combinado com perfumes que possuem uma temática de vetiver. E novamente tanto Molecule 02 como Escentric 02 são lições didáticas sobre perfumaria tanto do ponto de vista dos materiais como da história deles ao longo dos anos.