25 de nov. de 2019

Grès Cabotine - Avaliação/Resenha/Review



Um fato curioso sobre Cabotine é que apesar de ser um perfume muito fácil de ser achado é praticamente uma fragrância ignorada pelas críticas de perfumes. Acredito que em partes isso acontece justamente pelos preconceitos que o perfume carrega - um perfume barato, comum em qualquer lugar e conhecido como aroma de senhora, de gente mais velha, o que é quase como uma garantia de esquecimento para um perfume. Ainda sim Cabotine tem seu lugar na história da perfumaria e apesar de seu limitado orçamento e marketing é conhecido por ter sido um sucesso de vendas e ter virado um ícone da marca.

Cabotine é de acordo com a história da marca a filha de Cabochard, feito para ser um perfume para uma geração mais jovem mas que preservasse a elegância e a distinção de sua mãe. Criado por um perfumista da IFF, a história contada é de que Cabotine foi feito para ser um perfume leve porém duradouro e criado em um orçamento apertado. O perfumista ainda sim parece que conseguiu encontrar uma inspiração extravagante para a criação, utilizando uma tecnologia nova da época para reproduzir criativamente o cheiro de uma espécie de lírio-do-brejo (ginger lily), fazendo de Cabotine o primeiro perfume a utilizar tal técnica.

Na pele, é possível entender o motivo que leva as pessoas a associarem Cabotine com algo mais senhoril, pois realmente para o gosto atual seu perfume não é mais o que se esperaria de algo jovem e leve. Porém, considerando que o perfume surge na opulência da década de 80, Cabotine parece um perfume de transição, um que procura encaixar os florais gigantescos de tuberosa e flores brancas dos anos 80 em uma ideia mais 'leve'. O perfume abre como uma sinfonia clássica tocada em uma caixinha de música, simplificada mas ainda sim interessante - aldeídos brilhantes e intensos, flores com um toque limpo de sabonete, o aspecto picante e fresco do gengibre, o aroma meio metálico e meio salgado do jacinto, e o que parece ser uma base meio musgo, meio couro e meio animálica, como que se fizesse referência a mãe, o perfume Cabochard.

Percebe-se uma certa agressividade em Cabotine que pode ser fruto tanto da década como da limitação da fórmula, mas é um perfume interessante, complexo, cheio de facetas a serem exploradas. Para quem não tem medo de cruzar o limite entre a juventude e a maturidade é um perfume que oferece algo diferente e acessível aos narizes já cansados do comum na perfumaria atual.