11 de nov. de 2019

Xerjoff Shooting Stars Allende - Avaliação/Resenha/Review


Desde o começo da estratégia de divulgação da Xerjoff no começo dessa década a marca foi concebida com um marketing similar ao que vemos na Chanel, só que transposta para o segmento de nicho/perfumaria exlusiva. Com isso, desde o começo a marca tinha perfumes mais caros, exclusivos e até mesmo mais difíceis de serem apreciados se você ainda está começando na perfumaria, e criações mais comerciais, acessiveis ao olfato e com um preço mais atrativo ainda que não barato. Obviamente que essa estratégia deu certo e a marca rapidamente cresceu e se espalhou numa velocidade rápida.

O problema desse crescimento é que ele não foi muito bem pensado do ponto de vista conceitual e artístico, de maneira que rapidamente a xerjoff virou um apinhado de marcas com nomes diferentes, frascos diferentes e sem uma coesão conceitual. A marca cedeu demais ao lado comercial e lançou coisas que por mais agradáveis que fossem eram bem questionáveis quando se analisava conceito, aroma, preço e posicionamento. Parece que a marca se deu conta disso e recentemente começou uma unificação de suas diversas identidades visuais. Uma de suas linhas originais voltou a ser expandida e retomando a inspiração de perfumes que representam meteoros históricos que impactaram a terra.

Allende é um bom exercício de retorno a essa narrativa e é um perfume que consegue trazer um aroma agradável e um meio do caminho entre comercial e exclusivo - uma aura mais luxuosa e bem construída com uma base que certamente deve agradar aos narizes mais comerciais. Inspirado no meteorito de Allende, que caiu em 1969 no México, o perfume parece rapidamente começar a projetar uma aura gourmand, como se borrifá-lo fosse um impacto imediato olfativo desse meteoro. A pirâmide é simples, indicando um perfume que é meramente cacau, baunilha e magnólia, porém isso serve mais como um guia ao público do que uma representação da formulação em si.

Chris Maurice aqui parece construir um perfume que é potente e luxuoso mas sem recorrer a sintéticos ambarados-amadeirados que pudessem tornar a composição agressiva e comum. O perfumista não cria uma baunilha direta e simples, de forma que Allende não é nem açúcarado demais e nem delicado demais. Allende abre com um impacto amendoado medicinal e é seguido pelo que parece um aroma de benjoin e cêra de abelha, criando uma textura quase como de mel mas sem ser doce. Depois surge um aroma floral muito bem construído, com um brilho cítrico da magnólia mas que parece abranger também nuances de rosa e jasmim ao redor dessa ideia.

O perfume continua a irradiar um brilho doce, floral e dourado, porém vai relevando aos poucos uma baunilha mais delicada, mais condizente com um perfume de vanilina de fato, dando um aroma que remete indiretamente a pudim na última fase mas sem parecer aroma de comida. De maneira geral parece um gourmand que tem mais chances de agradar ao público feminino, principalmente pelo aspecto floral e adocicado, mas que pode fazer sucesso também entre os homens que buscam algo diferente, já que esse tipo de construção é pouco explorada na perfumaria masculina. Esse aqui é muito bem construído, marcante e não remete a nenhum perfume especificamente e seria uma boa direção para a marca seguir.