14 de nov. de 2019

Xerjoff Shooting Stars Dhajala e Esquel - Avaliação/Resenha/Review


Infelizmente com o ritmo constante de lançamentos é muito difícil conseguir fazer mais de uma avaliação de um determinado perfume. É, porém, um exercício importante depois de um tempo, até mesmo se você é apenas um apreciador mais "leigo" da perfumaria. Voltar a um perfume depois de um tempo é como revisitar um rio, dificilmente ele será o mesmo, até mesmo porque você ao voltar nele não é o mesmo. Em alguns casos a impressão atual será muito próxima da que está guardada na memória, ao passo que em outros as sensações e impressõe serão bem diferentes.

Em 2011 tive a chance de conhecer toda a linha Shooting Stars da Xerjoff, um momento onde a marca ainda estava começando a sua escalada de crescimento e dominação. Muita coisa mudou nesses anos, tanto na perfumaria de nicho como na Xerjoff como na minha jornada de conhecimento e entendimento da perfumaria. Ainda que claramente ancorada em ideias comerciais a linha Shooting Stars não é ruim e muitos de seus perfumes são bem construídos, ancorados em ideias clássicas que ganham nova vida em uma roupagem mais luxuosa e cara. Talvez uma das poucas coisas que é uma pena que a marca tenha abandonado são os frascos de 100ml nessa linha, o que impede a aquisição de uma versão com custo-benefício melhor por ml. Percebe-se também que a marca mudou a concentração das fragrâncias, aparentemente na nomenclatura apenas, para refletir a aceitação maior por parfums/extratos, coisa que em 2011 era bem mais elitista e pouco conhecido do público geral.

Testar Esquel na pele novamente foi uma experiência reveladora, praticamente a de conhecê-lo como se não tivesse sentido novamente. É interessante que em 2011 Esquel tenha sido proposto como um fougere clássico visto pela estética feminina, dado que somente nos últimos 2 anos é que essa tendência surgiu, de forma que ele esteve bem a frente de seu tempo. Quando o avaliei pela primeira vez vi uma estrutura muito próxima do fougere oriental Le Male, impressão que não se confirmou hoje na pele. Apesar de classificado como feminino, Esquel é um fougere compartilhável, que trás o aroma medicinal e herbal da lavanda e das ervas provençais com um cítrico um pouco mais limpo e um aroma doce discreto.

Num primeiro momento sua construção parece até simples, porém o perfume vai lentamente se transformando e ganhando um aroma terroso de iris e uma base complexa que não é muito distante da ideia de alguns perfumes de couro do passado. Sua performance é excelente, permanecendo perceptível mesmo depois de umas 5-6 horas na pele e não saindo facilmente no banho. A mescla de ideias clássicas com uma doçura mais moderna e uma base muito bem trabalhada o torna para mim uma redescoberta sensacional, um perfume que se a princípio eu não achava digno do preço hoje eu acho.

Dhajala, entretanto, é um que serve para exemplificar que muitas vezes a primeira impressão é a que fica quando se trata de perfumes. Seu aroma reflete algo que para mim era crítico desde o começo da criação da Shooting Stars: as grandes semelhanças com perfumes comerciais sem que houvesse grandes melhorias na harmonia, complexidade ou refinamento da fragrância. Seu aroma oriental ambarado de patchouli e resinas assemelha-se muito a mesma ideia que a Prada utilizou em 2004 ao criar o perfume feminino Prada Amber. A presença discreta de toques florais é similar em ambos os perfumes, com a diferença de que no Dhajala o patchouli não é declarado explicitamente na pirâmide olfativa, mas está lá complementando o aroma das resinas e dando aquele aroma que fica entre um cheiro de chocolate amargo e algo meio terroso.

É uma ideia bem executada, extravagante e luxuosa, porém por 235 euros 50ml daria para comprar um prada amber de 100ml mesmo que ele tivesse se tornado escasso e item de colecionador. A performance também deixa um pouco a desejar, diferente da criação da Prada, o que só faz com que não haja nada que se destaque positivamente aqui. Esse é um que pelo jeito não fez sucesso o suficiente para permanecer na linha, visto que se tornou um produto exclusivo da loja online européia da Xerjoff.