31 de dez. de 2019

Di Ser Kyara e Mizu - Avaliação/Resenha/Review


É interessante observar o como os mesmos materiais naturais podem produzir estilos totalmente distintos de perfumaria. Quando você analisa de maneira superficial as proposições da Di Ser percebe que há um paralelo com a perfumaria Árabe, que também se utiliza de madeiras preciosas, flores, cítricos e ervas para compor perfumes que sejam sensuais ou sejam espirituais costumam ter um ar bem denso e saturado. Di Ser ao seguir a tradição dos milenares rituais japoneses trás o lado um lado espiritual mais delicado e com uma tipo de harmonia diferente. Ao mirar produzir perfumes que correspondam ao Kōdō a marca parece capturar em aromas o equivalente as belas gravuras japonesas em delicados papéis de seda.

Uma das grandes estrelas do ritual do Kōdō é a Kyara, a variedade de agarwood mais cara utilizada no ritual e proveniente originalmente do Vietnã. A extração do óleo essencial de agarwood dessa madeira não é uma prática comercial dado o baixo rendimento do processo de destilação mais o alto custo da madeira em si (350 euros por grama). A Di Ser se arrisca em um processo difícil e custoso para ser capaz de capturar o aroma da melhor qualidade de madeira utilizada no ritual. E o resultado se é caríssimo é ao mesmo tempo sublime e um tipo incomum de perfume de agarwood na perfumaria.

Kyara me impressiona pelo seu delicado aroma floral na saída, algo que me faz pensar em um álcool perfumado de rosas versus um aroma ligeiramente metálico, que me remete imediatamente as minhas memórias de infância de folhas recém passadas pelo mimeógrafo. Esse início floral branco é como se fosse uma espécie de tela onde o aroma do agarwood começa a ser desenhado conforme essa cerimônia olfativa se desenvolve. As nuances que fosse encontra em um agarwood árabe estão aqui, porém em uma harmonia e sintonia que é raro de ser visto. É como se um delicado incenso de madeira preenchesse o ambiente com um aroma persistente levemente doce, sutilmente animálico e de um aroma amadeirado mais seco e discreto. É um cheiro calmo, sereno e de pequenos detalhes que parecem preencher a experiência olfativa proposta. Não é um perfume que ostenta uma personalidade agressiva, e sim algo mais sereno e contemplativo, uma experiência olfativa mais pessoal.

Mizu é outra proposta delicada e sublime da marca que indiretamente parece compartilhar aspectos com Kyara. O que me surpreende na Di Ser é que não importa o preço, do mais caro ao mais barato os perfumes são impecáveis e dão a impressão de que a marca de fato cobra caro quando o perfume custa caro para ser desenvolvido. Mizu é uma palavra que em japonês significa água e o perfume parece capturar um aspecto cristalino e leve de uma composição amadeirada e herbal, novamente uma leveza que não se veria com os protagonistas. É curioso que Mizu não tenha agarwood listado, pois seu perfume me faz pensar em um perfil de agarwood mais amadeirado e seco que cria um contraste interessante com a menta e o yuzu, criando um frescor cítrico e herbal que é algo muito distinto com uma composição amadeirada desse estilo. A menta em Mizu consegue trazer o aroma gelado e cheiro da erva evitando o aroma de pasta de dente e é algo muito distinto. Conforme o perfume evolui se torna mais uma composição amadeirada de nuances especiadas, algo bem equilibrado e bem feito. É um dos mais acessíveis da marca e com um benefício incrível dado o que ele entrega.