5 de dez. de 2019

Royal Crown Habanos - Avaliação/Resenha/Review


Eu diria que dentro da linha que Antonio Viscontti desenvolveu para a sua marca Royal Crown há dois tipos de realeza. Há a realeza impostora, que eu vejo em perfumes como Rain e Petits Coquins, que são criações até nobres mas indignas do status e preço que possuem, perfumes que são como pessoas na vida que ao ascenderem economicamente ou socialmente não possuem nada mais nobre ou interessante/profundo a dizer. E há criações como Habanos que de fato exemplificam o que é uma perfumaria de luxo, forjada sem medo das nuances e que realmente usa o orçamento para explorar materiais fantásticos e dignos da nobreza.

Habanos se propõe a ser o tabaco mais fino do mundo e aqui ele tem o orçamento para isso. O Talento de Antonio Viscontti para construir estruturas complexas e ao mesmo tempo fluídas brilha aqui e um estilo de perfumaria mais clássica sabe limitar e combinar materiais caros e nobres de maneira que eles juntos produzam algo luxuoso, sem desperdiçar assim o que é de fato precioso. Para ser o tabaco mais finos do mundo os materiais mais finos do mundo o ancoram para extrair suas nuances especiadas, florais, defumadas, animálicas e adocicadas.

Habanos tem que ser testado na pele e não na fita, pois a ausência de calor na fita olfativa segura por mais tempo a parte mais difícil da sua aura de tabaco, que é o aspecto animálico, defumado e que remete a cheiro de tempero. É uma etapa desafiadora onde um tabaco natural misturado com um oud animálico muito fino parece abafar a composição. Mas isso nada mais é que uma forma de nossa realeza fazer seus súditos se curvarem em relação ao seu aroma. Os que não se curvam perdem o que vem depois, que é uma complexa beleza onde o tabaco se mostra floral em determinados momentos, com um leve aspecto de jasmim e ylang, para em outros momentos ganhar um aroma mais próximo ao de cachimbo, flavorizado com algo que remete a tonka e a amendoas amargas. De fundo temos uma base amadeirada com nuances de baunilha e um aspecto exótico do oud, tudo muito bem equilibrado pois nossa realeza conhece seus recursos e sabe empregá-los com bom senso.

Aqui vejo um exemplo de uma perfumaria que vale a pena o preço que é cobrado, mesmo sabendo que esse preço em partes é devido a margem de lucros do varejo. Habanos exige talento e conhecimento do perfumista para equilibrar os aspectos difíceis do tabaco, das flores, do oud e de todos os materiais presentes, de maneira que juntos não virem uma mistureba luxuosa cara. É uma ideia que sabe utilizar os detalhes olfativos para construir uma narrativa. Habanos é em si nobre, não um embuste luxuoso e mercenário como seu irmão Rain é.