14 de jan. de 2020

Chlorophylla Cosméticos Marro - Avaliação/Resenha/Review



Acho intrigante como alguns perfumes conseguem sobreviver ao tempo apesar das mudanças dos gostos do consumidor ao longo dos anos. É como se eles, veteranos, desafiassem os novinhos que chegam nas prateleiras para competir com eles, fragrâncias tão confiantes de sua personalidade que não estão nem aí para que não os curte pois sabem que continuam a atrair amor suficiente para se manter em produção. É como eu visualizo o perfume Marro da brasileira Chlorophylla.

Lançado em 1986, Marro é uma daquelas fragrâncias que ao longo dos anos sempre vi alguém perguntar a respeito, seja opinião ou um substituto, mas uma da qual apenas conheci a fama. Aparentemente a marca Chlorophylla passou estagnada no mercado durante muitos anos e um novo grupo de investidores está progressivamente resgatando a marca e modernizando-a, mas sem deixar de lado sua história. Assim, é possível conhecer esse famoso perfume que não somente foi feito na década de 80 como remete a ela também.

Marro é para mim intrigante por dois motivos. O primeiro deles é o fato de que Marro é um perfume com evolução de Cologne e elementos cítricos clássicos mas alma e aura daqueles floral gigantes de tuberosa da década de 80. O segundo deles é como um perfume com elementos que tendem a um floral feminino virou um clássico da perfumaria masculina. São coisas assim que desafiam as regras do que em geral funciona ou não funciona em vendas.

Marro abre como uma explosão especiada que contraditoriamente é cítrica e até mesmo refrescante também. O perfume parece utilizar alguns sintéticos associados a tuberosa justamente para criar o frescor mentolado do gengibre, utilizando cítricos para capturar a faceta de limão da raiz. O gengibre + cardamomo funcionam como contraponto para o lado especiado mais medicinal do cravo, que é complementado pelo blend de pimentas.

O que vem logo em seguida é intrigante também, a aura fantasmagórica de uma tuberosa da década de 80 continua a cercar a evolução do perfume, dessa vez disfarçada como lírio do vale e apoiada no aroma floral verde e aromático do gerânio. Sinto também nuances de ylang-ylang na composição, um uso muito inteligente da flor que explora justamente o lado mais canforado e mentolado da mesma para encaixá-la num acorde fougere de nuances especiadas e cítricas.

Eu diria que o ponto onde Marro decepciona é na fase final, pois termina de uma maneira antagônica, um aroma amadeirado discreto e rente a pele que tenta forçar um perfume mais exótico e intenso a se tornar usável, mas ao fazer isso sacrifica em partes a identidade do perfume. A performance de Marro também não é das melhores e é necessário utilizá-lo como se fosse uma Cologne, de maneira abundante. Mas talvez isso acabe sendo inclusive o que o sustenta, um perfume com ares opulentos mas que a intensidade e evolução permite que você tome banho no calor escaldante de determinadas regiões do país. Esse certamente é um veterano ame ou odeie e que mantém seu status por isso.