27 de jan. de 2020

Roja Dove Elysium - Avaliação/Resenha/Review



Por mais que não seja um perfume difícil, Elysium já nasceu para ser polarizante pois está no centro de um conflito de interesses. De um lado há aqueles que atualmente buscam na perfumaria a gratificação instantânea com perfumes que são fáceis de serem usados, elegantes, que gerem elogios mas que ao mesmo tempo não desafiam seus sentidos e não te oferecem nada diferente do que está aí. De outro lado há os que buscam na perfumaria algo especial, diferente e profundo, saturados talvez das tendências comerciais ou saudosos de tempos na perfumaria onde a moda era a complexidade, intensidade e um certo desafio olfativo que não proporcionava gratificação instantânea.

Que Roja Dove tenha expandido sua marca para atender a esse segundo público e a partir de Elysium passe a atender também ao primeiro público é onde mora o conflito e o desafio. Mas esse não é apenas o desafio de Roja Dove e sim o da perfumaria de nicho como um todo: em um cenário altamente competitivo, como atrair novos consumidores que não se identificam com o desafiador e sem trair os clientes que em sua busca pelo autêntico elevaram a perfumaria de nicho ao que ela é hoje?

Superficialmente Elysium é uma espécie de greatest hits, mirando no estilo de dois dos perfumes mais bem sucedidos da última decada, o que o faz superficialmente ser nem um pouco original. Por um lado temos o frescor frutado e cítrico que remete intencionalmente ao perfume Creed Aventus, principalmente em seu momentos iniciais. Por outro lado, o contraste entre grapefruit e vetiver com o uso secundário da pimenta rosa e da menta é uma homenagem direta ao Bleu de Chanel, o perfume que abriu a última década e apontou o caminho que muitos outros seguiriam, o da modernização do amadeirado aromático.

Perfumes são como pessoas e as vezes podem nos surpreender no que há escondido por trás do clichê e do superficial. No caso de Elysium a surpresa está no toque orientalista escondido entre a dinâmica do Bleu-Aventus. A primeira surpresa se revela numa discreta doçura, que me faz pensar em baunilha por breves momentos. E a segunda surpresa está no acorde clássico e árabe de oud-rosas escondido no centro da composição - o oud aqui está disfarçado de cypriol e funciona mais como âncora para o aroma amadeirado de vetiver, mas junto com a rosa eles parecem apontar para uma pessoa que colocou uma gotinha de um perfume exótico e opulento em algo mais fresco e funcional. É um detalhe interessante e praticamente uma mensagem subliminar considerando o público que a marca deseja atingir.

No que a marca aposta aqui é a de oferecer em Elysium uma porta de entrada para uma perfumaria mais complexa e sofisticada, oferecendo uma fragrância que trás frescor, aspectos frutados e facilidade de uso e que parece sutilmente preparar o nariz de um consumidor mais jovem ou mais inexperiente aos prazeres e sofisticações da perfumaria clássica e/ou opulenta. Nesse sentido por mais que não me agrade o que Roja Dove faz aqui eu admiro seu pragmatismo em fazer o que for necessário para manter lucrativo sua marca. O sucesso de Elysium e da linha Parfum Cologne certamente será essencial para a sustentação em produção dos perfumes mais clássicos e sofisticados de Roja Dove.