31 de jan. de 2020

Roja Dove A Goodnight Kiss - Avaliação/Resenha/Review



É interessante analisar o tipo de luxo que Roja propõe nas diferentes camadas de sua marca, pois basicamente ele e sua equipe parecem ter consciência de que o luxo clássico e retrô/antigo se tornou algo tão focado em um público de consumidores que para ser viável de ser explorado com qualidade artística é reproduzido em uma escala bem pequena e que, consequentemente, encarece consideravelmente o custo de produção. Só que em vez disso virar um problema passa a ser uma virtude, pois eleva o preço e o status do produto a um patamar sofisticado, inacessível do grande público e, consequentemente, cobiçado mesmo que não seja entendido por muitos.

Boa parte dos perfumes que estão na coleção mais cara de Roja Dove são basicamente composições retrô que no passado seriam mais acessíveis e comerciais e que com a mudança de gerações e gostos perderam seu valor. São perfumes que se utilizam de camadas complexas de aromas e de um certo ar aristocrático para vender sua sofisticação. São sinfonias clássicas feitas para os apreciadores desse tipo de cultura e que não funcionam mais nas prateleiras comerciais, que é como se fossem na perfumaria ao equivalente das rádios na música.

Goodnight Kiss é uma sinfonia clássica de amor executada com equilíbrio entre notas aldeídicas, notas florais, aspectos atalcados e nuances amadeiradas e de musk/couro. Novamente Roja parece utilizar seus talentos de curador artístico e olfativo e emula tempos clássicos da perfumaria, parecendo voltar aos anos 20-30 e prestando homenagem aos florais aldeídicos que surgiram após o mega sucesso do Chanel No 5.

Considerando a carreira de Roja Dove pela Guerlain, Goodnight Kiss parece resgatar os conceitos florais aldeídicos que a Guerlain explorou nos perfumes Liu e Vega, porém sem parecer uma reprodução direta desses perfumes. Goodnight Kiss parece imediatamente remeter a sinfonia aldeídica e floral do Chanel No 5 em sua versão extrato. Depois o perfume lentamente vai adquirindo sua própria identidade, dando um lado mais terroso e menos atalcado a iris, trazendo o sândalo para maior evidência e acrescentando um leve aspecto aveludado que me faz pensar em couro e que aqui parece ser efeito da maneira como o ambergris e os musks são trabalhados.

Certamente há mais detalhes mas como muitos perfumes de 100 anos atrás sua construção não é feita para ser decifrada em seus elementos e sim para ser apreciada pelo conjunto da obra. É o tipo de perfume que é muito bem feito, com boa performance e que certamente condiz com o preço, mas que para boa parte da geração atual não faz sentido. Nesse sentido é um perfume de luxo com ar elitista - e um muito bem executado no que se propõe a fazer.