17 de jan. de 2020

Tom Ford Fucking Fabulous - Avaliação/Resenha/Review


Talvez um dos sinais de que vivemos tempos com aspectos as vezes conservadores e confusos é a repercursão que teve o fato de Tom Ford utilizar um palavrão para nomear seu novo perfume, Fucking Fabulous. Mas considerando que o designer entende muito bem de marketing, isso certamente foi proposital - afinal, numa indústria que lança mais de 1000 perfumes por ano nada melhor que uma polêmica para que os consumidores não esqueçam do seu produto. Não é exatamente uma abordagem inovadora se você se lembrar um pouco de história da perfumaria - veja a Lanvin, por exemplo, quando criou um perfume chamado My Sin (Meu Pecado) ou mesmo a YSL quando lançou um perfume inspirado em um narcótico, o Opium. Talvez a ousadia aqui tenha sido não fazer a censura para o puritano mercado norte americano.

Por mais que muitos adorem falar mal do Tom Ford e sua linha de nicho, é admirável que Tom Ford ainda corra riscos criativos e ouse apresentar aromas diferentes ao seu público. Talvez esse tenha sido um dos motivos pelos quais Fucking Fabulous foi inicialmente limitado na distribuição - mas isso também é uma estratégia de marketing, já que ao criar ao polêmico e limitado você atiça a curiosidade das pessoas e, consequentemente, cria demanda.

Como conceito o perfume é bem interessante, e seu o nome incomoda basta chamá-lo de Fabulous e está resolvido. Estruturalmente o perfume me faz pensar em uma ideia bem clássica, o fougére, só que retrabalhada para que soe distinta. A criação se apoia em 2 dos tripés de um fougére - a coumarina e a lavanda - e troca o terceiro: em vez de uma base amadeirada clássica e com musgo de carvalho temos um acorde de couro, musks, madeiras minerais e cashmeran.

Me surpreende o quanto a criação aqui volta-se para o aroma da fava-tonka, não do jeito que estamos acostumados, mas para a matéria-prima bruta em si. O aroma da tonka vai além do seu lado mais gourmand, do seu aroma de amêndoas e das nuances de mel. As favas de tonka antes de serem torradas possuem um aroma quase que negro e gramíneo, com algo meio entorpecente no cheiro quando sentido muito tempo. Esse lado mais dark e pouco explorado é justamente posto em evidência em Fucking Fabulous, combinado a um acorde de couro que remete a nuances de carvão vegetal.

O efeito em si na saída é algo ousado, remetendo para mim ao cheiro que produz a tinta e a qualidade do papel utilizada para imprimir jornal. Passando esse momento mais desafiador, a composição mostra o lado mais amigável da tonka, porém sem nunca saturar o perfume em baunilha ou notas açúcaradas. Em vez disso, combina-se sua doçura amendoada com o toque herbáceo e refrescante da lavanda e um base onde couro, toques de vetiver e o aroma úmido e de concreto do cashmeran sustentam esse fougere-couro. Se a ideia aqui foi distrair as pessoas com um nome "chocante" para passar um aroma mais ousado foi um truque de mestre.