11 de fev. de 2020

Olibere Paris Le Jardin de Madame Chan - Avaliação/Resenha/Review



A princípio Le Jardin de Madame Chan me pareceu a ovelha negra da família por não compartilhar o estilo olfativo dos outros e parecer, de certa forma, deslocado com a temática em tons pasteis que a marca utiliza nessa coleção de heroínas rebeldes. Porém basta pesquisar um pouco a respeito do filme que o inspira, em especial a estética do filme, para que tudo passe a fazer sentido.

Le jardin de Madame Chan é inspirado no aclamado filme de 2001 À flor da Pele (In The Mood For Love), um drama romântico que relata a história de um homem e uma mulher que se mudam para uma comunidade chinesa em Hong Kong. Ambos são casados mas passam muito tempo sozinhos, desconfiam que seus companheiros os traem e vão construíndo uma relação de intimidade a partir daí. Le Jardin de Madame Chan retrata Su Li-zhene e seu estilo sofisticado, clássico e sensual de uma maneira misteriosa. O filme é saturado em cores escuras, vermelhas e padrões sofisticados de estampas clássicas e nada menos que um oriental poderia representar isso. 

E há um oriental em questão que parece gritar o nome do filme com uma estética familiar, o primeiro grande best-seller moderno da perfumaria, o perfume Opium da YSL. Le Jardin de Madame Chan reimagina a estrutura oriental spicy tentando torná-la mais direta, como que se encontrasse um meio termo entre a opulência do clássico e o estilo mais pastel e luminoso da coleção. É um casamento que dá certo mesmo que não pareça a princípio.

O perfume já abre com uma dose de incenso, resinas incensadas e patchouli e a utilização da bergamota e do coriandro serve mais para equilibrar e trazer uma certa luminosidade a essa ideia pesada e misteriosa. Ainda que cravo e canela não apareçam listados eles parecem parte integrante do acorde floral opulento onde rosa, ylang e jasmim produzem algo poderoso, complexo e narcótico exatamente como no clássico da YSL. Na evolução o perfume se torna mais discreto, encontrando um certo aconchego na doçura das resinas e no aroma amadeirado do sândalo e do patchouli. 

Luca Maffei faz uma belíssima homenagem aqui, que se encaixa feito uma luva na proposta e entrega uma variente do Opium que soa mais direta e moderna porém sem comprometer a harmonia. É uma grata surpresa dentro da Olibere, certamente um de seus melhores perfumes.