3 de fev. de 2020

Roja Dove Nüwa Parfum - Avaliação/Resenha/Review



Não é a toa que Nüwa está junto com Britannia e Dhiagilev em uma coleção apartada do resto dos perfumes de Roja Dove. Essa trilogia de fragrâncias além de se inspirar em diferentes cantos do mundo se baseia em conceitos mais complexos e que fogem da personificação principal da marca. Em boa parte de seus perfumes Roja trás comportamentos arriscados traduzidos em reinterpretações luxuosas de clássicos do passado. Na coleção Imperial essas personificações abrangem mitos, sejam pessoas (Diaghilev), nações (Britannia) ou divindades antigas (Nüwa).

No site a marca diz que Nüwa se baseia na lenda da deusa chinesa de mesmo nome, que na mitologia do país é conhecida por ter criado o homem a mulher, os ensinado a serem criativos e sábios e dado a eles a beleza pela música, dança sons e pelos aromas. É um perfume feito provavelmente pensando em homenagear o lucrativo público de turistas chineses e que apreciam o luxo do ocidente. E talvez por isso esse seja um dos poucos pefumes de Roja Dove que foram reformulados num período curtíssimo de tempo - a primeira versão saiu em 2014 e já em 2015 a marca trocou por outra formulação que apenas mantém o mesmo nome.

A versão Nüwa de 2014 parece mais feita pensando o que Roja aprecia na perfumaria francesa e em sua paixão pela Guerlain, e a partir daí ela tenta acomodar os elementos olfativos que possam contar a história da divindade chinesa. Por mais que seja um perfume extremamente luxuoso, é uma variação da mesma ideia do Mitsouko, da qual a marca já explorou em Diaghilev. Nüwa 2014 tenta encaixar dentro do eixo de musgo, madeiras e bergamota um exótico acorde floral oleoso onde o osmanthus é o responsável por fazer o elo com o conceito, mas na orquestração feita seu lado floral delicado se perde e ele é subjulgado a ideia chypre clássica. É uma fragrância muito boa mas uma interpretação ruim do conceito e inadequada para o provável público alvo.

Já a versão Nüwa de 2015 é outra fragrância radicalmente diferente e uma que homenageia a divindade chinesa feminina utilizando para isso a riqueza da rainha das flores, a rosa. Essa versão é um luxo olfativo delicado, poderoso e intenso, que utiliza todo o esplendor da rosa em um trono de cítricos e de flores cítricas e flores brancas, criando uma sensualidade luminosa, sofisticada e intensa sem ser pesada.

O perfume consegue criar uma bela base oriental onde o aroma amadeirado delicado do sândalo é revestido pela doçura muito bem executada da baunilha, benjoin e bálsamo do peru, onde os 3 juntos criam uma doçura e cremosidade que emana uma aura maternal, sedutora, confortável e que dura muito bem, projetando por um bom tempo na pele. É uma execução interessante de como homenagear a cultura chinesa com um perfume floral mais delicado mas que não cai no clichê de ser sutil ou discreto. Um dos melhores perfumes da marca e digno de uma divindade de fato.