27 de mar. de 2020

In The Box Eau de Sauvegy 1966 - Avaliação Perfume Contratipo (Dior Eau Sauvage)


Apesar de ser um assunto polêmico na perfumaria o mercado de inspirações e contratipos não é nada novo. A questão é que perfume em sua natureza é um produto de luxo mesmo com a evolução da perfumaria sintética, que derrubou custos e democratizou um acesso que antes estava limitado à aristocracia. E se o aspecto de luxo do perfume gera desejo ao mesmo tempo gera exclusão daqueles que por terem um orçamento limitado não conseguem ter o suficiente para consumir mesmo um perfume comercial (e nesse caso nem estou falando da realidade brasileira, visto que há em países desenvolvidos marcas alternativas que também produzem inspirações).

Para uma grande demanda como essa surgem empresas que desejam satisfazer as demandas desse público da melhor forma possível. Entre elas temos uma recém estreante, a In The Box, com uma proposta ousada e difícil: produzir perfumes inspirados com alta qualidade e excelente custo-benefício. E é algo que conhecendo suas fragrâncias você consegue perceber que é atingido.

É louvável que a In The Box traga uma inspiração de um excelente perfume da Dior que tem lentamente desaparecido do mercado, eclipsado pelo seu irmão mais novo e ultra-popular. Eu sempre acreditei que um dos aspectos mais interessantes da perfumaria de inspirações/contratipos é o de preservar perfumes comerciais bons que por questões mercadológicas não são mais tão rentáveis para a marca que o concebeu a princípio.

Eau de Sauvegy 1966 resgata a obra-prima de Roudnitska, Eau Sauvage, e a trata com grande respeito em sua adaptação. Certamente o perfume em si não consegue ser igual ao original tanto por limitações da indústria (quase todos os perfumes possuem matérias-primas que só a casa de fragrâncias que criou tem acesso, para dificultar a reprodução 100%) como por mudanças no comportamento da fragrância no aumento da concentração e busca por melhor performance. Entretanto, o resultado final de Eau de Sauvegy 1966 é tão bom que isso é irrelevante.

Um dos trunfos do clássico Eau Sauvage e que é resgatado aqui é a forma de criar uma cologne cítrica aromática que não pareça mais uma variação da estrutura Cologne. Eau Sauvage é um trabalho de mestre no equilíbrio de frescor, complexidade aromática e luminosidade na evolução e esses elementos são todos preservados aqui. Eau de Sauvegy acaba privilegiando mais o aspecto cítrico clássico, criando um delicioso aroma de limão e ervas aromáticas - a principal diferença aqui é a ausência do aspecto mais 'sujo'/fenólico de algumas ervas aromáticas que são evidentes no original.

A partir daí, o perfume passa a irradiar uma constante aura cítrica e levemente floral e radiante e as ervas aromáticas continuam suportando o perfume. Eau de Sauvegy tem um comportamento curioso, parece sair e entrar de foco na pele enquanto evolui em direção à base, um aroma com um leve toque de couro, um aroma amadeirado discreto e um aspecto terroso úmido de musgo, uma base que vai numa direção entre o chypre e o fougere de uma maneira muito elegante. Considerando que a própria Dior ao longo dos anos reformulou ou modificou o Eau Sauvage, para os fãs da fragrância essa versão não decepciona e surpreende pela consistência do começo ao fim. Para quem curte cítricos e procura algo mais sofisticado e elegante, vale a pena conhecer.