2 de mar. de 2020

Serge Lutens Iris Silver Mist - Avaliação/Resenha/Review

Há algo bem interessante nas composições mais clássicas do Serge Lutens da qual eu não tinha me dado conta anteriormente: elas são didáticas da forma extrema em que são compostas. Ao elevar ao máximo determinados acordes e idéias, os perfumes me parecem se tornar ensaios sobre as nuances, complexidades e dualidades de algumas composições que em suas formas mais comerciais são suavizadas para que essas arestas, didáticas porém difíceis, não atrapalhem a aceitação do público.

Iris Silver Mist é para mim, junto com o Miel de Bois, o exemplo perfeito desse estilo mais ensaísta de composição. Ele foi Criado em 1994 por Maurice Roucel (e para mim uma das obras primas do perfumista mestre extremamente talentoso tanto em perfumes mais comerciais como em criações mais exclusivas), uma época onde perfumes de iris não estavam em moda tanto como hoje. Serge Lutens pediu a Roucel uma composição extrema de Iris e é conhecido que o perfumista usou todos os materiais possíveis com iris para atingir esse objetivo e o resultado é fantástico e complexo ao mesmo tempo.

Esse é um dos perfumes que utiliza o concreto de iris na sua composição. Um dos motivos pelos quais essa matéria-prima foi aos poucos caindo em desuso é o processo de produção e o rendimento. Uma raiz de iris recém colhida não tem cheiro - ele leva, depois de seca, no mínimo dois anos para desenvolver o conteúdo de compostos aromáticos que lhe conferem o odor característico.

Fora isso, o rendimento da extração é bem baixo e o processo é exaustivo devido a fácil solidificação do conteúdo - a raiz é rica em ácidos graxos (também conhecidos como gorduras monoinsaturadas). O principal componente químico da raiz também não é um produto barato, o que limita seu uso em perfumes comerciais onde o preço da fórmula não é alto.

Com isso, na época em que Iris Silver Mist foi lançado perfumes de Iris estavam fora da principal tendência do mercado, o que me faz pensar nessa composição-estudo como vanguardista no que viria nos próximos anos, motivado por processos que permitiram acelerar o amadurecimento da raiz de iris e pela disponibilização ao perfumista de novos sintéticos e bases que permitiram criar aromas fantasias do cheiro da iris, agradáveis ao consumidor e comercialmente viáveis.

Como um ensaio, a princípio Iris Silver Mist parece contraditório: como um aroma pode parecer infantil, quente, e ao mesmo tempo metálico, frio, vampiresco e melancólico? Mas para mim é exatamente o que o aroma da Iris é em todas as suas nuances e todas elas estão presentes aqui. É como se a Iris tivesse uma fachada mais dura que tenta disfarçar seu lado mais emocional e delicado, que ela só te mostra a partir do momento em que você a aceita do jeito que ela é.

É um perfil olfativo interessantíssimo para mim: algo terroso, com um quê que remete tanto a cenoura como a terra fresca e massa de bolo crua. Também há algo lactônico, pueril, algo que de forma inconsciente me faz pensar no aconchego e nos prazeres da primeira fase da vida (talvez seja pois, assim como o coco e a iris, o leite materno também é rico nos mesmos ácido graxos, que possuem importantes propriedades importantes na defesa imunológica da criança no começo de sua vida). Há também traços amanteigados, creio que devido a resíduos de substâncias relacionadas ao conteúdo gorduroso da raiz. Há também o uso bem discreto de nuances amadeiradas, que parecem reforçar o lado mais terroso e seco da idéia.

De certa forma, Iris Silver Mist é uma criação linear, Maurice Roucel orquestrou a harmonia de uma forma que você percebe as nuances da Iris mas a idéia central da raiz permanece ao longo do tempo. É incrível o como essa criação cara e refinada demonstra toda a beleza e complexidade dessa raiz tão adorada nos dias atuais. A verdadeira face da Iris em Iris Silver Mist me mostra que uma criação artística pode ser didática, assustadora, envolvente e exigir tempo e maturidade para que você possa realmente entendê-la.