29 de abr. de 2020

Jeroboam Gozo - Avaliação Perfume


Eu sinto que com as sucessivas expansões da sua segunda marca Jeroboam a Jovoy começou a perder o controle artístico e criativo de uma marca que se mostrava ser excelente em sua natureza. O que a princípio era um projeto ligado a criações que se inspiravam em palavras do Esperanto e traziam em si um tom de mistério começou a virar basicamente um guarda-chuva de projetos colaborativos que ainda que não sejam ruins também não se destacam como excelência.

Gozo diferente do perfume Boha pelo menos se dá ao trabalho de ter uma nova coloração que indica que ele não faz parte da linha principal da Jeroboam. Aqui temos um projeto de estimação de uma figura de mídias sociais do Qatar que tem dinheiro o suficiente para viajar o mundo e investir financeiramente em sua paixão pela perfumaria. E aqui até há uma ideia interessante, mas que é desperdiçada com um perfume morno e, na minha opinião, mal trabalhado.

A ideia por trás de Gozo é celebrar uma ilha no mar Mediterrâneo pertecentente a Malta, uma ilha de beleza paradisíaca e que, segundo a Jovoy, contém vestígios de diversas civilizações passadas e de impérios que já se foram. De acordo com a descrição dada a Gozo essa ilha teria ventos que trariam aromas tanto da África como da Europa, uma linha Mediterrânea que seria um ponto de encontro de aromas exóticos simples e ao mesmo tempo ricos.

Na prática eu diria que Gozo parece mais um desses perfumes árabes que são bem feitos mas ainda sim baratos e que você consegue enxergar a limitação de orçamento pela forma com o perfume é trabalhado. É como se alguma marca árabe acessível tivesse pegado trechos da extravagância oriental do Joop Homme e traduzido isso para um perfume saturado em musks. Há algo interessante e quase animálico aqui mas que se perde com um patchouli cuja a destilação molecular nesse caso em vez de enaltecer o material o torna pobre e com um ar de perfume barato. Sinto um uso ruim de iononas na composição que finaliza com um aroma doce barato.

Me surpreende um projeto artístico confuso e pobre como Gozo. Teoricamente uma colaboração com alguém que viaja tanto o mundo e investe tanto em perfumaria aliado ao expertise do perfumista e da direção da Jovoy deveria resultar em algo melhor. Havia uma história a ser contada de fato, mas Gozo utiliza sua ilha e herança como mero pretexto para um projeto que mira explorar a influência de uma figura de mídia social e capitalizar na venda de perfumes a partir disso. É uma forma muito estranha da Jovoy comemorar 10 anos de existência.