29 de abr. de 2020

Jeroboam Ligno - Avaliação Perfume


Dos perfumes lançados recentemente pela Jerobam Ligno é certamente um dos melhores. Tudo que funciona nos melhores perfumes da Jeroboam está presente em Ligno: aderência a temática do Esperanto, fórmulas que conseguem tender ao minimalismo e serem ricas ao mesmo tempo, perfumes que usam musks como peças luxuosas e não como pretexto para finalizar uma composição. O ar de mistério dos melhores perfumes da Jeroboam trabalha em Ligno para homenagear um material muito amado da perfumaria: Patchouli.

Você pode amar ou odiar mas dificilmente conseguirá ignorar o aroma do patchouli. Descoberto pelo Ocidente e Oriente Médio durante a rota da Seda, o aroma das sedas conservadas em patchouli rapidamente o tornou desejado e cobiçado até que seu cheiro popularizasse e perdesse parte de seu glamour. Posteriormente o Patchouli esteve novamente envolvido em um momento de ascenção e polêmica ao ser adotado na década de 70 pelo movimento Hippie e ganhar uma associação indireta com a maconha (os relatos contam que o aroma terroso e forte do patchouli era utilizado para mascarar o aroma da maconha).

Na perfumaria o patchouli também toma uma posição dominante e um perfume que utiliza em doses maiores dificilmente não ganhará os contornos terrosos, meio amargos e até mesmo canforados do óleo essencial de patchouli. Existem tantos perfumes de patchouli e seu aroma é tão peculiar e intenso que é difícil criar algo que realmente traga novidades ao cheiro do patchouli.

Ligno é consciente disso mas não utiliza tal limitação como desculpa e procura esculpir as facetas predominantes do material para criar justamente uma ilusão amadeirada e assim fazer jus ao nome da composição, que em Esperanto significa madeira. O aroma terroso e denso do patchouli é o centro do aroma, mas ao redor dele trabalha-se com uma espécie de aroma amadeirado seco e animálico, algo que me faz pensar numa homenagem à perfumaria masculina da década de 80 só que interpretado de uma maneira mais direta.

Se Ligno representasse algum tipo de madeira, seu aroma negro e terroso me faz pensar algo entre o Mogno e a Peroba. Essa impressão se mistura a um cheiro seco e medicinal de pinho e a um aroma animálico negro de castoreum, sendo que esse é mais perceptível rente a pele e dá uma nuance discreta de couro à composição. A aura de Ligno é complementada por um aspecto mais luminoso, como uma extração molecular de patchouli bem utilizada nesse caso, complementada com uma ideia ambarada que inclue ambergris, ambroxan e labdanum. Ligno é um perfume muito bem composto, luxuoso e adequado à temática que o rege e ao material que ele homenageia.