15 de abr. de 2020

L'Envie #004 Falling Water e #008 Mood Indigo - Avaliações Perfumes


Conforme avanço meus testes e avaliações dos perfumes da L'Envie para mim fica mais claro a impressão de que a marca como um todo caminha num limite entre perfumaria comercial e de nicho. Quando transita entre o universo de nicho a marca surpreende com inspirações inusitadas e referências criativas e cultas. Mas em alguns casos infelizmente a execução olfativa entregue perde o potencial criativo da ideia ao preferir ficar na zona de conforto e se comprometer para agradar as massas.

A criação #004 Falling Water forma para mim junto com #003 San Junipero a dupla mais fraca de temáticas da coleção da L'Envie - os perfumes de temátiva verde. Há uma inspiração interessante, baseado em uma famosa obra arquitetônica, a Casa da Cascata de Frank Lloyd Wright. A ideia olfativa aqui é tentar equilibrar natureza e estrutura modernista e fazer alusão ao fluxo constante de água da obra que o inspira.

O que poderia ter sido utilizado como desafio acaba servindo de desculpa para outro perfume aquático. Pelo menos dessa vez a orquestração de fato remete a um delicado de harmônico aroma floral verde. Falling Water abre com uma nota de calone e a abertura fresca e aquática dele não somente me é batida como também é ultrapassada. O corpo floral é mais interessante, trazendo um cheiro delicado de folhas verdes, notas florais macias, luminosas e uma certa cremosidade - o conjunto como um todo me faz pensar também no aroma de um sabonete luxuoso. A base para manter a leveza e fluidez infelizemente acaba sendo sacrificada e entrega um aroma discreto de musks e madeiras rentes à pele.

A criação #008 Mood Indigo acaba sendo um pouco mais sucedida em sua busca por um conceito mais intelectual e criativo. Inspirado numa música criada por Irvin Mills e eternizada pela lendária cantora do Soul Nina Simone, Mood Indigo faz a proposta de uma nova abordagem para notas de couro para trazer um perfume com ritmo e alma.

Ainda que Mood Indigo de fato seja um perfume interessante de couro, ele não é uma nova abordagem e justamente o seu ritmo quebra a profundidade de sua alma. O que um aroma aromático aquático genérico tem a ver com uma música do soul que fala de emoções profundas? Eu não sei, mas é essa abordagem rala com a qual o perfume abre.

Na saída é como se a Zara estivesse fazendo um perfume que mescla referências de sucessos comerciais, criando um aroma artificial, agressivo e genérico. Felizmente a verdadeira alma do perfume surge depois, com um couro de fato interessante, levemente defumado e salgado e bem equilibrado nas nuances aromáticas, florais e amadeiradas que o cercam. Seria um perfume perfeito e muito bom se não tivesse uma saída tão medíocre e irritante.