20 de abr. de 2020

Lubin Aristia Daïmo, Condottieri, Galor - Avaliações Perfumes


In 2019 a centenária marca francesa Lubin lançou a coleção de perfumes Aristia como uma resposta ao que a marca vê como um grande problema no mercado premium - uma desvalorização dos perfumes pela facilidade com que tais são vendidos em desconto, tornando a distribuição em preço cheio nas lojas físicas algo problemático.

Aristia se posiciona como uma experiência que seja de fato luxuosa e premium como um todo e para que isso dê certo os novos perfumes dessa coleção são vendidos apenas em poucos locais físicos. Eu diria que há uma certa ironia no que a Lubin faz aqui pois a marca utiliza os mesmos artifícios do mercado de luxo premium para produzir uma experiência olfativa que não convence totalmente como tal.

Pode-se dizer que praticamente todos os códigos de como produzir um perfume artificialmente exclusivo são utilizados aqui. Começando pelo nome da coleção, que significa o melhor, o excelente, reforçando a noção caricata de que o principal do luxo é a excelência. A marca cai de certa forma nos mesmos clichês do mercado, clichês que inclusive ajudam o consumidor a se perder e questionar o valor do que é entregue quando os perfumes não são tão interessante e há infinitas opções da mesma coisa. Aqui temos mais uma marca abusando de embalagens extravagantes, frascos dourados, perfumes que teoricamente são extratos mas não parecem como tal e que tem seu valor reduzido a excelência dos materiais.

Pelo menos em Aristia há algo que se destaca, o conceito coeso da coleção. Os novos perfumes ainda que não convençam como extratos luxuosos contam de fato uma história, homenageando guerreiros do passado de diferentes culturas, heróis épicos que ganham aqui a vida em fragrâncias onde 'teoricamente' a excelência dos materiais ajuda a contar suas histórias.

Daïmo é talvez um dos perfumes mais fracos da coleção como um todo, sem grande conexão olfativa entre o conceito e execução. A história de poderosos senhores feudais fieis ao Emperador do Japão é utilizada como desculpa para um perfume de couro e especiarias. Temos aqui um aroma especiado amargo e medicinal e um couro que oscila entre algo mais ambarado e doce e mais rústico. De maneira geral parece um perfume antiquado que tenta ser moderno e não faz nada muito bem. A performance é ridícula para um extrato luxuoso.

Condottieri é um dos melhores executados na coleção. A ideia aqui é homenagear a Itália e a Renascença escolhendo a figura de cavaleiros Italianos que utilizavam suas espadas para causas nobres. O perfume entregue cai bem na narrativa de que tais cavaleiros se vestiam em couros perfumados e se perfumavam com criações de iris de qualidade. Condottieri entrega uma iris que sabe dosar o aspecto aquático da folha de violeta e equilibrar a doçura da flor da violeta e o aspecto terroso da iris. Isso é posto em um contexto onde um couro macio dá sustentação ao resto da composição. Diria que ainda sim falta um lado mais rústico e mais intensidade para que o perfume refletisse de fato a temática proposta.

Galaor é uma homenagem a uma figura em especial em vez de uma classe de cavaleiro. Considerado um dos mais virtuosos cavaleiros da Idade Média Européia, a fragrância que é feita para homenageá-lo tenta refletir seu prazer nos refinamentos da época, em especial o incenso e sua participação em cerimônias com bálsamos encantadores. A Aura do perfume reflete isso, criando um ambiente resinoso aconchegante e retrô onde a mirra e o bálsamo do peru envolvem uma rosa com toques de canela e cítricos. Infelizmente esse é outro perfume da coleção que parece trazer uma narrativa olfativa interessante e deixar ela sumir do nada - o que chega a ser estranho para perfumes que deveriam ser o melhor e o mais excelente dentro da perfumaria.