28 de mai. de 2020

Café de Parfum Grim Fantasia - Avaliação Perfume


A noção de que um perfume inspirado no mundo gourmand vá ser doce e gustativo é tão forte de que mesmo não conhecendo um perfume já esperamos que ele vá ser doce quando possui essa temática. É um forte legado que o sucesso do perfume Angel trouxe a perfumaria e que se mostrou tão rentável que desde então passou a ser reproduzido em massa. A grife Café de Parfum nasce desafiando essa noção ao criar uma coleção de perfumes inspirados no universo gourmand e que não são literalmente doces.

Quem vem para desafiar e conceitualizar isso é o perfumista tailândes independente Saruj Tangtatorn. Com a Café de Parfum Saruj me parece buscar inspiração no estilo mais complexo e abstrato da perfumaria do passado, aplicando isso a temática gourmand do momento presente. Saruj se propõe na perfumaria ao equivalente de uma alta costura ao recontextualizar os materiais que compõe as sobremesas que o inspiram. Nada é óbvio, literal ou doce na Café de Parfum e me surpreende uma marca tão dedicada ao seu conceito e que ainda se arrisque desse jeito.

Grim Fantasia possui como inspiração o conto da Chapeuzinho Vermelho dos irmãos Grim, brincando com o lobo mal disfarçado da doce vovozinha da Chapeuzinho. Esse conceito parte associado a sobremesa do Bolo Floresta Negra, brincando com a aparência do bolo - a cereja e o creme significando a inocência e pureza e o bolo de chocolate amargo representando justamente o lado mais dark do lobo mal. Essa brincadeira entre contrastes, inocência e escuridão é transformada em um interessante chypre clássico com nuances de cereja.

Grim Fantasia leva a ideia do Floresta Negra para o lado mais literal do nome do bolo e cria em seu coração e essência um chypre amadeirado. É interessante que mesmo com as restrições atuais você consegue perceber o lado chypre: o lado aveludado e terroso do musgo é muito bem combinado com o vetiver, com um ambar mais seco e com o que parece ser um toque de couro clássico, mais emborrachado. O cacau é que acaba se perdendo um pouco, seu aroma de chocolate amargo se mistura muito fácil com o couro e o lado chypre da composição.

Por cima desse lobo mal chypre é que temos construído a floresta negra do bolo em si. A cereja trás tanto as nuances de amêndoas como as de licor maraschino e não é uma cereja enjoativa, sendo perceptível por boa parte da saída e do coração do perfume. O creme funciona como um leve toque adocicado que vai aparecendo junto com a iris no coração da fragrância. A canela trás um lado especiado quente e ajuda a trazer doçura e a elevar a parte mais delicada do perfume, ajudando a criar a dinâmica entre luz e escuridão que é o principal fio condutor de um perfume chypre. Tudo aqui é um jogo de contrastes, de ilusões e percepções que brincam com os limites do mundo gourmand e da perfumaria clássica e moderna - um sonho dentro de um sonho como a própria marca diz na amostra do produto.