8 de mai. de 2020

Hermès Un Jardin Sur Le Nil - Avaliação Perfume


O problema com a perfumaria contemporânea, seja ela comercial ou de nicho, é estar totalmente desassociada entre produto e história. Por mais que perfume seja um artigo comercial e consumível, ele diz algo com seu cheiro e os clássicos sempre tiveram uma história muito bem pensada entre nome, conceito, notas e aroma proposto. E havia um cuidado de transmitir isso ao público final, coisa que hoje muitas vezes acaba se perdendo. Mas que em casos como Un Jardin Sur Le Nil vale a pena resgatar.

Apesar de não ser o primeiro perfume de Jean Claude Ellena para a Hermès Un Jardin Sur Le Nil é especial pois é sua estreia dentro da maison francesa como perfumista in house. A princípio não havia o conceito da coleção de jardins: em 2003 a diretora da perfumaria da Hermès resolveu desenvolver o conceito de um perfume que acompanhasse o tema de moda do ano para a casa: o mar Mediterrâneo. O projeto na época foi discutido com Ellena, que ainda trabalhava para a Symrise, e após ganhar o briefing o perfumista viajou com a diretora criativa para a Tunísia, onde em uma visita ao jardim de uma das pessoas que produz as vitrines da Hermès surgiu a inspiração para o que seria Un Jardin En Mediterrane. Desejando repetir o sucesso criativo em 2005 surge então a ideia de dar continuidade e criar a coleção de Jardins, agora com Ellena como perfumista in-house da Hermès. E para acompanhar o tema de 2005 da casa, rio, foi então escolhido o Nilo para ser o segundo Jardim.

Un Jardin Sur Le Nil captura em seu aroma as descobertas e impressões olfativas que Ellena e equipe tiveram enquanto estavam no Egito e no Nilo. O perfumista era consciente das conotações misteriosas e intensas que o Egito criava, entretanto ele se questionava qual seria o cheiro de um Jardim no Nilo. E ao cruzar o rio e se deparar com um vilarejo nubiano o perfumista encontrou sua inspiração, mangas verdes em uma árvore, cujo o delicado e complexo cheiro se mostrava extremamente efêmero, desaparecendo imediatamente assim que colhida. E Un Jardin Sur Le Nil surgiu então ao redor do conceito do cheiro dessa fruta.

É interessante entender isso pois Un Jardin Sur Le Nil não é um perfume literal no aroma frutado da manga. Até porque, o aroma desse tipo de manga verde é descrito como tendo nuances de grapefruit, damasco, removedor de esmalte e cenoura, uma fruta que apesar das conotações frescas e frutadas possuí uma nuance vegetal. O brilhantismo de Ellena e seu minimalismo em Un Jardin Sur Le Nil é interpretrar justamente essas nuances, de forma que na pele o perfume te trás a experiência do complexo e fresco aroma da manga ao mesmo tempo que mantém um ar misterioso e transparente, condizente com a tonalidade transparente e negra do Rio Nilo. Un Jardin é um perfume que mais sugere suas nuances do que entrega: seu aroma começa com o frescor cítrico e o aspecto mais verde frutado, envolvido em um acorde vegetal de iris e cenoura que se mantém distante no perfume para criar a complexidade do aroma da manga. A tonalidade verde e frutada é envolta em aromas florais também verdes e levemente aquáticos, sugerindo o aroma das raízes de lotus que Ellena sentiu em um dos mercados do Nilo. A cena é completa com um acorde de incenso que captura o lado mais fresco do incenso e o combina as nuances verdes e frutadas da composição.

Un Jardin Sur Le Nil é um perfume contemporâneo, uma criação que não é difícil de ser entendida pelos narizes atuais, que muitas vezes tem dificuldades em apreciar os clássicos justamente por não entenderem o que eles dizem ou não estarem acostumados com sua complexidade e pungência. Entretanto, seu aroma delicado e minimalista é muito bem pensado e transmite de forma muito inteligente sua temática e as impressões desejadas. É um bom exemplo de como um projeto que nasce criativo e com uma história bem definida pode produzir um sucesso comercial nos dias atuais.