8 de mai. de 2020

Kiehl's Original Musk - Avaliação Perfume

Talvez com a expansão e destaque que a perfumaria de nicho adquiriu nos últimos 10 anos criou-se a impressão de que a exploração de fragrâncias centradas em uma determinada nota é algo que a define. O fato é que mesmo desconsiderando a perfumaria árabe, onde isso sempre foi comum, mesmo na perfumaria comercial os monotemas fora das notas florais já começaram a acontecer na década de 60, junto com o movimento hippie. Eu diria que nessa época a exploração de perfumes de uma temática só como musk e patchouli era uma tentativa do consumidor de se aproximar de algo mais simples e, teoricamente, mais natural. Mas nesse sentido monotemas de musk como o da Kiehls raramente são uma simples diluição ou mistura de musks e sim uma espécie de estudo das nuances do significado do musk e a forma como ele afeta outras notas.

Lançado em 1963, Kiehls Original Musk diz que é baseado em uma fórmula encontrada pela marca e que data de 1921. É possível que sim, porém tinturas de materiais animálicos como almíscar, ambergris e castoreum não tornariam a fórmula barata e o estilo de musks que os perfumes da década de 1921 utiliza, os nitromusks, dão uma aura mais limpa e atalcada em vez de animálica à composição. É mais provável que a empresa tenha se baseado livremente no original e dado uma cara mais suja e natural à composição, seja por acesso a sintéticos mais recentes na época ou talvez indo nas tendências do que acontecia. O que é certo, como já dito no primeiro parágrafo, é que original musk não é uma mera diluição de musks.

Dependendo do seu conhecimento de perfumaria ou dos perfumes que já se utilizou Original Musk pode ser tanto uma experiência tranquila como assustadora. Em alguns momentos seu cheiro me remete a contradição do aroma animálico, limpo e salino/metálico do ambergris, em outros tem algo mais urinoso que me faz pensar em bases antigas de ambar e castoreum e ainda em outros momentos me remete à estranha sensação olfativa que sentir um musk sintético te dá, a de um aroma fantasmagórico, como uma espécie de pele sem suor, sem hormônios, sem nada, talvez apenas com o leve cheiro dos pêlos. Essa multifacetada experiência animálica é filtrada pelas lentes de um aroma quase floral, aldeídico e powdery, lembranças talvez de outros perfumes que ficaram retidas nos musks, como se a sua natureza menos volátil prendesse a alma de outros perfumes, mas não sua essência/corpo. Nesse sentido vejo 2 fantasmas, por alguns momentos o do perfume Kouros e em outros momentos o do perfume Youth Dew.

Depois que passa os momentos mais dramáticos e viscerais da fragrância Original musk se aconchega na pele como estamos acostumados com os perfumes mais modernos de musk, criando uma experência segunda pele macia, nesse caso com um leve traço amadeirado e retendo uma sombra do aspecto animálico mais complexo. Não é um perfume forte, também não é exatamente uma pura experiência de musk mas certamente é uma experiência interessante, desafiadora mas ditática em questão de como um musk pode ir do animálico ao limpo/segunda pele. É também um sobrevivente dos monotemas da década de 60 e que mostra que você não precisa cobrar uma fortuna para exaltar a nobreza e as nuances de uma determinada temática.