14 de mai. de 2020

Timothy Han The Decay of The Angel - Avaliação Perfume



Timothy Han pode parecer um nome novo na perfumaria de nicho e independente, porém o artista e arquiteto foi ao longo da última década construindo cuidadosamente sua marca e sua história na perfumaria.  Timothy é um classicista em sua essência, um que tenta trazer de volta à perfumaria algo que fuja do padrão e convencional e que utiliza o perfume como meio de transmitir uma mensagem, essa associada a obras clássicas e de renome na literatura. Mas também ele se mostra como parte do pensamento contemporâneo ao tentar produzir um luxo que seja sustentável e que favorece um retorno à perfumaria natural, utilizando os sintéticos apenas quando necessário.

Lançado em 2017, The Decay of The Angel é inspirado no livro de mesmo nome do autor Japonês Yukio Mishima. O nome a narrativa do livro além de serem referências ao próprio autor da obra são simbolismos dos 5 sinais de queda de anjos mortais conhecidos no Budismo como Devas. A queda de um anjo envolveria os seguintes simbolismos: a coroa de flores murchas, suor que pinga das axilas, o manto sujo, perda de auto conhecimento e disatisfação com sua posição e finalmente os odores fétidos do corpo.

Esses 5 estágios são simbolicamente trabalhados dentro da fragrância que trabalha o simbolismo do espiritual e puro corrompido pelo carnal e hedônico. Por isso não é coincidência que as flores brancas sejam o centro da composição: seu simbolismo de pureza e sexualidade serve justamente para trazer dentro do perfume a trajetória de queda e decomposição do puro e sagrado dentro do ser humano.

Os sintéticos que o perfume utiliza são escolhidos a dedo para representar a base da narrativa a ser contada pelos materiais naturais. O hedione é como se fosse um símbolo para a pureza e luminosidade do jasmim, como se o lado mais luminoso, etéreo e espiritual das flores brancas fosse capturada nesse sintético. Já o Ambrettolide além de servir de sustentação para a composição serve para trazer a dualidade dos musks e da própria natureza humana, sendo um musk que ao mesmo tempo que é delicado, puro e macio também possui em seu aroma um aspecto sujo e sexual que remete justamente a suor e axilas.

O aroma natural da extração de flores cumpre o propósito de trazer a ideia de flores em seu estado de decomposição, principalmente pela saturação do aspecto canforado e sujo do ylang-ylang, uma das grandes estrelas da composição. Num primeiro momento ele é cercado de cítricos que trabalham o brilho e a aura de inocência da fragrância. Há algo na composição que também remete a especiarias e explora justamente o lado mais carnal de algo que remete a anis.

O aspecto dark, sujo e "fétido" é estilizado dentro da composição, trabalhado mais de uma maneira metafórica por um uso controlado do aroma de agarwood e do aspecto mais defumado do cade. O incenso serve como uma contraposição a isso, como a parte sagrada do manto, o lado espiritual que continua a coexistir junto com o lado corrompido e carnal da composição. Como uma boa narrativa, The Decay of The Angel é ambíguo, complexo, cheio de dimensões e nuances e cada protagonista utilizado nele tem um motivo de estar ali. É um perfume muito interessante, desafiador sem ser impossível de ser usado e um perfume que te leva a reflexão e desperta a curiosidade no que ele tem a contar.