12 de jun. de 2020

L'Iris de Jacques Fath - Avaliação/História do Perfume


Quando a Panouge anunciou em 2018 o lançamento de L'Iris de Jacques Fath ela certamente sabia que estava criando um momento único dentro da perfumaria. Tal momento pode ser dividido em duas perspectivas, importantes para que se entenda as diferentes visões do por que L'iris é um perfume especial até mesmo para a reconstrução e lançamento de um clássico da perfumaria do passado.

A primeira visão desse lançamento é a de L'Iris como o retorno da lenda Iris Gris sob um novo nome, um perfume celebrado por perfumistas, entusiastas da perfumaria e especialistas que se dedicam a arte e estudo da mesma. Para esses L'Iris é tão celebrado e importante quanto perfumes como Chanel No 5, Fougere Royale, Patou Joy, Shalimar, Mitsoko. A diferença de L'Iris para tais lendas é que sua história se perdeu para grande parte do público principalmente pois com a evolução da perfumaria comercial na direção massificada a glória e luxo de nomes do passado como Jacques Fath não foi preservada e contada adequadamente. Mas graças a internet e ao acesso à informação uma simples busca pelo google ou em sites especializados como fragrantica permitem entender a interessante história que há por trás dessa lenda.

A segunda visão que podemos ter com relação a L'Iris estaria mais alinhada com o que a própria Panouge transmite e como ela posiciona esse clássico restaurado a seu esplendor. L'Iris de Fath é vendido mais do que apenas um clássico ou luxo, ele é posicionado como um objeto de fetiche, ressaltando o aspecto mágico, nostálgico e precioso da Iris como uma jóia preciosa cujo o preço e produção o tornam conhecidos de poucos e cobiçado por muitos: apenas 150 frascos dessa lenda serão produzidos anualmente, ao custo de 1850 dólares 30ml.

Eu faço parte das pessoas que viam L'Iris como algo de fetiche, mágico e precioso e ter a chance de conhecê-lo me tornou cauteloso para avaliar e capturar sua essência. Infelizmente nunca cheguei a conhecer a versão original de sua fórmula, que é praticamente uma espécie de unicórnio, impossível de se conseguir. Iris Gris pode ser sentido em sua versão reconstruída no museu Osmothèque mas não pode ser utilizado na pele para que seja possível de fato capturar a história que o perfume conta. Entretanto, a Panouge tomou um cuidado especial ao reunir especialistas para avaliar o processo de reconstrução e garantir que o perfume a ser relançado fosse fiel a versão original e parto dessa premissa para falar sobre essa lendária e fetichista iris.

L'Iris me faz pensar que uma grande ironia da forma fantasiosa que a perfumaria vende a preciosidade de seus materiais é a de que um perfume com uma quantidade alta de absoluto de iris não seria visto como iris para muitas pessoas. A iris é um dos materiais mais caros da perfumaria pelo seu processo difícil de obtenção e seu baixo rendimento: são necessários toneladas de raiz de iris e que essas raízes permaneçam de 2-5 anos envelhecendo para que posteriormente se transformem em um concreto cujo o preço final de um kg pode chegar em sua melhor qualidade ao preço de um apartamento. A ideia atalcada e de maquiagem que é vendida na perfumaria como iris é uma espécie de fantasia construída ao redor da ligação entre a violeta e a iris e baseado em materiais que lhe criam algo atalcado, adocicado e de uma tonalidade floral púrpura e alguns casos.

Essa visão da iris seria como se as pessoas desejassem o caviar ao conhecerem uma versão comercial do mesmo feita de sagú. A quantidade alta do caríssimo absoluto de iris em L'Iris de Fath lhe dá justamente uma faceta terrosa e vegetal que é a essência da verdadeira iris e que é assustadora a muitos. É esse aroma que remete a cenoura que dá a Iris uma aura fúnebre e cinzenta e é justamente a forma como isso é equilibrado nessa composição que torna L'Iris de Jacques Fath mitológico e algo fetichista no sentido mágico da palavra.

E o mais intrigante e curioso disso é que o perfumista que o criou parece ter encontrado uma maneira muito moderna de fazer isso para os tempos em que foi lançado. A história conta que os perfumistas do passado consideravam Vincent Roubert um perfumista preguiçoso e os relatos contam que ele compôs L'Iris Gris às pressas. Talvez dessa maneira o perfumista o tenha feito seguindo seus instintos e de uma maneira mais direta, criando uma saturação ao redor da iris e violeta e utilizando os materiais ao seu redor como acessórios que a harmonizam e suavizam suas facetas mais complicadas.

Assim, ainda que haja uma quantia altíssima do caríssimo absoluto de Iris em L'Iris de Fath o aspecto mais vegetal e cru fica reservado apenas aos primeiros minutos da saída, sendo rapidamente envolvidos em um aroma sedoso, cremoso e lactônico de pêssego que é clássico e moderno ao mesmo tempo. O cravo da índia dá um toque picante e um floral mais seco a ideia e pequenas doses da melhor qualidade de jasmim e rosa arredondam a iris e o pêssego e dão sensualidade à composição. Uma base ao redor de sândalo, musks e e cedro sustenta o aroma aveludado, nobre e sofisticado da composição sem roubar o centro das atenções.

L'Iris de Fath é um perfume que parece equilibrar algo melancólico e nostálgico com um aspecto quente e esperançoso, o que faz sentido já que sua composição foi feita após a Segunda Guerra Mundial. É um perfume que no passado já nasceu caro, que foi rapidamente descontinuado com a morte de Fath e que trazer a vida novamente não seria uma tarefa fácil. Recuperar uma lenda nos seus mínimos detalhes tem seu custo e torná-la mais massificada seria um risco: ainda que a Panouage conseguisse produzir uma versão de menor custo ao fazer a fórmula em maior volume L'Iris de Fath não tem o apelo o suficiente para vender ao público que não conhece sua história ou a verdadeira face de um material tão caro como a iris. É uma decisão acertada capturar fidedignamente um mito e trazê-lo a vida para poucas pessoas que o apreciam, como um animal em extinção que podemos conhecer mas que não soltamos no ambiente para que não seja extinto novamente.