23 de jul. de 2021

Eric Buterbaugh Dahlia 1947 - Avaiação e História do Perfume

Agradecimento especial à Kenia Ferreira, que me enviou uma amostra dessa fragrância e me apresentou a marca. Encomendas podem ser feitas com ela pelo instagram:

Introdução

Alguns perfumes e algumas marcas são como livros de histórias de mistérios, escondendo por trás de singelos títulos informações bem interessantes que conduzem a uma narrativa satisfatória. Eric Buterbaugh certamente é um desses casos, principalmente se você não está inserido no mundo da moda (meu caso). Digo isso pois Eric Buterbaugh é simultâneamente uma marca de celebridade e de nicho, provando o como as diferentes bolhas/categorias da perfumaria começaram a se combinar ao longo dos anos.

Quem é Eric Buterbaugh?

Como isso é possível? Só buscando mais sobre a história de Eric Buterbaugh para entender. Temos aqui uma pessoa talentosa e de carreira diversificada. Eric Buterbaugh foi um designer de moda que começou sua carreira como representante de uma marca exclusiva do Texas. Quando tal loja faliu Eric acabou indo trabalhar com Gianni Versace, depois com Valentino e por último com o designer de jóias Theo Fennel.

E o que as flores tem a ver com Eric? Bem, aí entramos na segunda fase de sua carreira. Em 1999 Eric Buterbaugh se reinventou como um florista da alta sociedade e virou uma celebridade das celebridades devido aos seus opulentos arranjos florais. Eric já teve clientes como Madonna, Dior, Valentino, Louis Vuitton, Chanel, Cartier, a família real, Salma Hayek, entre outros. Isso apenas para mostrar o como Eric se tornou conhecido com seus arranjos florais.

Somente 15 Anos depois é que então entramos no que realmente nos interessa, os perfumes. Em 2014 o famoso florista e estilista foi apresentado ao executivo de fragrâncias Fabrice Croisé, que trabalhou anos com a Loreal e a Agência de Marketing Select World. Juntos eles criaram a EB Florals, voltada exclusivamente em trazer a extravagância dos arranjos florais de Eric Buterbaugh para o mundo dos perfumes. Certamente uma junção de mundos perfeita, um nicho ideal de ser explorado.

O Crime da Dália Negra (1947) e a Misteriosa Flor


Sabendo da primeira parte de nosso mistério, entramos na segunda: 1947 Dahlia. A escolha do nome não poderia ser mais perfeita, já que não há nenhuma referência de data de lançamento para essa fragrância, fazendo de sua existência um mistério tão grande quanto o assassinato nunca solucionado de Elizabeth Short em 1947. O misterioso assassinato ficou conhecido como o assassinato da Dahlia Negra devido ao intenso cabelo negro e roupa negra da atriz.

Mas a própria flor Dália é um grande mistério. Procure por dados a respeito de sua fragrância e pouco será encontrado. Descobre-se que as Dálias são um gênero de flores nativas do México e da América central. Foram nomeadas em 1791 por um botanico espanhol chamado José Cavanilles, que homenageou um colega de profissão Anders Dahl, esse por sua vez pupilo do real descobridor das flores no México 1788. Buscando pelo sobrenome Dahl descobre-se que sua etimologia está relacionada a valles, o que me parece realmente apropriado para um gênero de flores. Porém há poucas informações sobre o aroma das dálias na internet, tornando sua fragrância para mim um mistério tão grande quanto o da atriz.

O Aroma de Dahlia 1947

Dahlia 1947 nos oferece uma fragrância narcótico e misteriosa, frondosa como as flores e trazendo a sedução de um floral antigo, reinterpretado com a qualidade dos materiais modernos. De acordo com um amigo que conhece o aroma das Dálias, seu cheiro captura perfeitamente a flor, mas como eu as desconheço terei que aceitar suas palavras. Mesmo não as conhecendo é possível apreciar sua fragrância: a saída nos brinda com um frescor floral levemente atalcadoe apimentado. Conforme evolui temos o aroma narcótico do jasmim combinado ao cheiro tropical do ylang-ylang e ao aroma amendoado e atalcado das flores de heliotropo.A peônia finaliza acrescentando um toque fresco e que remete a rosa. Como um bouquê bem composto, as flores são orquestradas de maneira abstrata para que capturam o glamour antigo e tragam o cheiro da misteriosa flor.

É na base que temos o caráter moderno dessa composição. Em vez de termos um aroma chypre complexo ou um oriental opulento Dahlia 1947 termina de maneira aveludada e minimalista, como um pedestal que segura a verdadeira estrela, as flores. Temos o aroma aveludade do cashmere combinado com uma cremosidade de baunilha e um toque amadeirado de sândalo. Tal evolução cria um aspecto intimista e segunda pele, mas a atenção e sedução é dada as misteriosas e frondosas flores. Dahlia 1947 é um exercício bem sucedido de narrativa olfativa contada por uma celebridade tão única que em vez de ter apelo de massa foi direto para a perfumaria de nicho. Isso sim é uma boa história a ser contada.

22 de jul. de 2021

Paco Rabanne Phantom - Avaliação do Perfume


Agradecimento especial à Kenia Ferreira, que me conseguiu um frasco dessa fragrância em pré-lançamento. Encomendas podem ser feitas com ela diretamente em seu instagram:

https://www.instagram.com/kenia_kfparfum/


Estamos em 2021, o segundo ano de uma nova década. E a cada década as tendências na perfumaria se renovam em um ciclo completo de transformação. Algumas empresas já começaram a se arriscar a entender e propor o que será a perfumaria masculina nessa década que começa a se formar. A Hermès foi uma dessas empresas e agora temos a Paco Rabanne trazendo algo novo e intrigante.

É certo que a Paco Rabanne sempre foi vanguardista e desafiadora com seus conceitos, feitos para serem consumidos pela massa porém com um simbolismo muito mais profundo caso você deseje procurar por ele. Talvez a diferença dessa década que se inicia é a transparência da marca em divulgar o máximo de detalhes do seu processo de criação de Phantom. Algo similar ao que a Hermès fez em H24, o que parece apontar uma tentativa das empresas de se aproximar de um consumidor que quer cada vez mais fazer parte da marca.

Ao mesmo tempo, Phantom é uma reflexão e até mesmo uma crítica a era que começa a se formar. Na nossa sociedade atual um objeto precisa fazer muito mais do que ele deveria fazer para atrair a atenção de um consumidor cada vez mais saturado de escolhas. Por isso temos aqui uma fragrância que usa inteligência artificial, realidade aumentada e até mesmo neurociência, sendo que nada disso seria necessário para fazer o perfume. Porém são o que os tempos demandam e a marca entrega literalmente isso, de uma maneira bem inteligente.

Ao mesmo tempo Phantom é brilhante ao interpretar o futuro olhando para o passado - seu robô literalmente é uma personificação do primeiro robô concebido na década de 1920. E ainda que os perfumistas utilizem uma tecnologia moderna de criação (inteligência artificial) é na nostalgia de uma molécula vintage e no aroma atemporal dos perfumes fougeres que Phantom aposta.

Phantom reinventa a ideia de um fougere, que se baseia na combinação de coumarina, cítricos, lavanda e musgo de carvalho para interpretar de maneira abstrata o aroma do feno. O frescor, harmonia e conforto dos fougeres os tornaram uma das famílias olfativas mais bem aceitas entre o público masculino e a marca aposta justamente na nostalgia e no que é confortável. Ao mesmo tempo introduz um aspecto floral pouco explorado para trazer o que seria o futuro.

Phantom é uma fragrância familiar, o que faz todo sentido em um perfume chamado de Fantasma. Se você lembrar de algum perfume ao sentir o frescor de lavanda, doçura de coumarina e baunilha é devido a muitos fragrâncias serem baseadas nesses mesmos elementos. Para mim, Phantom evoca de maneira fantasmagórica perfumes como Le Male, Invictus, Azarro Wanted e surpreendentemente ele também me remete a uma fragrância icônica da Paco Rabanne pouco conhecida, o perfume Ultrared.

O segredo dessa fragrância reside em suas nuances. A saída é de um aroma cítrico suculento e harmonioso, como se raspas de um limão siciliano recém raspado fossem combinadas a um bouquet fresco de lavanda, evidenciando o aspecto metálico de seu limpo aroma refrescante. Nesse ponto entra o acetato de estiralila para trazer o diferencial, um aroma verde e agradável que sugere de maneira distante o aroma de gardênia ao mesmo tempo que reforça o aspecto herbáceo da primeira impressão.

Na evolução Phantom continua a nos trazer mais nuances de lavanda, criando uma sensação confortável. É como se o future utilizasse o melhor da natureza com uma alta qualidade. A lavanda apresenta facetas cremosas e delicadas e se combina ao aspecto amendoado e de grama da coumarina, trazendo à vida a ideia clássica do fougere. O toque de uma maçã verde e suculenta ajuda a trazer uma sensação de modernidade a essa ideia.

A partir desse momento o perfume mostra sua criatividade em interpretar o futuro dos perfumes fougeres, unificando duas direções totalmente opostas. Em uma delas a ausência do musgo de carvalho é compensada por uma combinação inteligente do aroma do vetiver com um acorde defumado e esfumaçado, criando o aspecto mais denso e profundo sem usar o musgo. Ao mesmo tempo o perfume também mostra que um fougere pode ir numa direção gourmand e ressalta a doçura da coumarina e lavanda com um absoluto de baunilha que é açúcarado na medida certa. Há muito o que ser descoberto em Phantom, muito o que ser decodificado em suas nuances, em seu simbolismo e em suas funcionalidades. Phantom aponta que o futuro da perfumaria é uma espécie de reinvenção de estruturas clássicas aliadas a criatividade, tecnologia e sustentabilidade. Agora basta sabermos se a marca será mais uma vez certeira em suas apostas vanguardistas para a massa.

21 de jul. de 2021

In The Box Homine Optimum - Avaliação Perfume Contratipo (Le Male Parfum)


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Perfume certamente é uma questão de pele por mais que ainda não tenhamos compreensão total do motivo pelo qual isso acontece. Seja uma questão de composição química da pele ou até mesmo das características corporais que mudam a física/evaporação do perfume, o fato é que não é possível determinar precisamente a experiência que outra pessoa terá com uma fragrância.

Isso fica ainda mais evidente com os contratipos, visto que no caso deles temos uma base de comparação para partir, uma fragrância que em sua teoria seria muito parecida com outra mas onde mudanças mínimas podem influenciar justamente na percepção e química na pele. Me peguei pensando isso enquanto avaliava Homine Optimum.

Inspirado no perfume Le Male Parfum, Homine Optimum tem tido um grande grau de aceitação como uma alta similaridade com a fragrância original, seja pelos influenciadores ou pelo público em geral. Minha experiência entretanto me deixa frustrado. É um daqueles casos onde o 1% de diferença que é percebido pela pessoa que usa acaba não satisfazendo completamente.

Homine Optimum reproduz bem os blocos olfativos do Le Male. A Lavanda é fresca, cremosa, levemente floral e aromática. A iris se mostra atalcada na medida, refinada e sem exageros entre as facetas atalcadas ou terrosas. Porém parece que o aspecto ambarado/oriental fica devendo. É como se faltasse alguma especiaria e algum musk ou material amadeirado na base que torna o original um pouco mais exótico e marcante para mim. Eu sinto falta desses aspectos em Homine Optimum e é justamente isso que me frustra aqui, principalmente quando esperava uma reprodução perfeita do original. Se essas expectativas não são levadas em conta essa fragrância certamente agrada muito e performa bem. Mas como disse no começo, cada pele influencia de maneira diferente e é sempre bom levar isso em conta na escolha/avaliação de qualquer contratipo.