13 de jul. de 2020

Amyi II - Avaliação Perfume/Experiência



É interessante que um dos principais problemas existentes na Amyi seja justamente o que a marca se propõe como parte de seus valores, a escolha com consciência. O lado desconexo e superficial da primeira coleção Amyi passa batido do consumidor justamente pela ausência de educação olfativa no nosso país, mesmo nos segmentos de maior prestígio da nossa perfumaria. Isso é facilmente mascarado pelo marketing e  a Amyi II ao propor uma escolha com consciência parece cometer justamente o erro de se jogar nas superficialidades e clichês do marketing para vender a sua jornada de descoberta.

Amyi II é superior ao Amyi I no que ele propõe em termos de fragrância, porém vende uma narrativa que não se aprofunda nos detalhes e que em vez de educar os consumidores ensina coisas erradas a eles. O perfume vende a ideia de um aroma gourmand antagônico e eu diria que o antagonismo está justamente em classificá-lo como gourmand. É dado destaque a várias fantasias que inexistem quando se pensa em termos de educação olfativa: baunilha branca, flor de iris e flor de angelica. Não existe extração da flor de iris nem de flor de angelica, sendo que ambas são matérias-primas obtidas das raízes de tais materiais.

Outra fantasia imprecisa é vendida pela perfumista da fragrância, Sandra Casagrande. Sandra comenta no vídeo que Amyi II é inovador ao trabalhar a nota salgada dentro da perfumaria. Que uma perfumista diga isso é no mínimo esquisito: uma rápida busca pela base de dados do fragrantica mostra que o primeiro perfume com notas salgadas vem de 1985 e é o perfume Annick Goutal Vetiver. Mas nem precisamos ir tão no passado: ainda que não esteja listado na pirâmie o perfume Womanity de 2010 trás um conceito gourmand salgado e o perfume Paco Rabanne Olympea de 2015 trabalha isso de maneira mais explícita. O Boticário lançou em 2019 o perfume Divine Caviar e que trás uma ideia similar. Acredito que Sandra Casagrande deveria fazer seu dever de casa antes de chamar algo de inovador.

Tirando as bobagens contadas por Amyi II, a fragrância em si é focada em explorar o aroma da lactona de angélica, um material especialidade da Takasago que vai em direções amendoas com toque de feno, coumarina, tabaco e baunilha. Certamente há nuances gourmands aí, entretanto da maneira que o perfume é trabalhado a pimenta rosa e o patchouli o levam em uma direção mais especiada, amadeirada e terrosa, o que contradiz um pouco sua classificação gourmand e feminina. A forma como a iris e a angelica são trabalhadas aqui reforça justamente seu lado raiz e não o aspecto floral. Da mesma maneira patchouli e ambar levam o perfume mais uma direção amadeirada chypre clássica do que um chypre moderno.

É interessante ver mais uma marca propondo um perfume feminino carregado no aroma quente e seco da pimenta rosa, algo que foi um grande fiasco na dédada de 2010 com os fracassos de vendas Choppard Madness e Azzaro Visit, perfumes bem interessantes mas mais voltados para uma perfumaria ousada. É esquisito também para uma marca que propõe o respeito à liberdade focar tanto em divisão de gênero e interpretar isso de maneira mal feita ainda por cima. E para completar a cereja do bolo da superficialidade de Amyi II: o que essa fragrância tem a ver com o conceito de Geisha que a perfumista explica como expiração e não se dá ao trabalho de elaborar melhor?