15 de jul. de 2020

Amyi IV - Avaliação Perfume/Experiência



Atribuir 3 trios de fragrâncias dentro da coleção inicial da Amyi exemplifica bem os aspectos positivos e negativos dessa liberdade. Enquanto a liberdade de Sonia Casagrande produz um trio de fragrâncias que não contam entre si uma narrativa e não produz de fato nenhuma obra de arte a liberdade do perfumista Cleber Bozzi consegue trazer uma narrativa com começo, meio e fim ao trio executado com ele. Há duas histórias que podem ser extraídas da coleção de Cleber. A primeira delas conta a narrativa entre flores e frutas e as ressalta em diferentes estilos de criação voltados para o público feminino. A segunda delas é como se fosse uma homenagem a 3 perfumarias distintas:a do passado, a do presente e a do futuro (um futuro brasileiro, dito que perfumes de oud já são presente fora do nosso território).

Novamente Amyi IV contradiz um dos pilares da casa, que é escolher com consciência. A mesma marca que diz estar aqui para ensinar seus consumidores a explorar a perfumaria com confiança e em uma experiência educativa é a mesma marca que se apoia nos cacoetes de marketing e dessa forma conta narrativas fantasiosas, o que não combina com educação. Amyi IV conta a baboseira de que traz a overdose das melhores violetas do mundo sendo que a violeta é uma das flores que não produz extração comercial e viável de óleo essencial, tendo seu cheiro reproduzido por meio de sintéticos de qualidade.

Diria que o perfumista é bem mais sucedido em explicar sua narrativa a ser contada aqui e é um dos perfumes da coleção que por mais que não seja inovador excede em coesão e excelência olfativa. Cleber menciona que usa a liberdade criativa para explorar seus materiais favoritos e que procura modernizar uma estrutura clássica de violeta, trazendo ela para um momento contemporâneo ao enfatizar a maciez dos musks e o toque frutado da violeta. É de fato, como o perfumista resume, uma expressão de delicadeza e sensualidade.

Amyi IV poderia ser um perfume didático caso a marca tivesse a maturidade para isso, pois como composição ela explora a sensualidade, atemporalidade e delicadeza das iononas, presentes na rosa, na violeta e também na framboesa. Cleber cria uma estrutura que captura o aspecto atalcado e adocicado da violeta, utilizando nuances secundárias de iris para isso. O aroma da rosa é uma maneira inteligente de ressaltar o aspecto frutado da framboesa, trazer elegância à violeta e à iris e também dar uma aura mais rica e cara ao bouquet floral. Para enfatizar a modernidade da composição o perfumista cria uma base macia de musks e que ganha um sutil aspecto gourmand açúcarado, algo bem discreto de baunilha e talvez de etil maltol também.

De maneira geral é como se em Amyi IV Cleber revisitasse a estrutura do perfume Paris de YSL mudando o foco da rosa para a violeta e suavizando as arestas mais pesadas e complicadas da ideia. É uma maneira minimalista de compor que permite que a violeta reine mas sem tornar o perfume monótono ou simplório. Ainda que não traga nada inovador é realmente artístico e sofisticado e um perfume que se sustenta apesar da superficialidade educativa e sensorial proposta pela Amyi.