23 de jul. de 2020

Amyi IX - Avaliação Perfume/Experiência



Do ponto de vista da experiência educativa a experiência Amyi é um desastre. Além de não se preocupar em ensinar com qualidade traz erros educativos e incorpora regionalismos que colidem com a nomenclatura da indústria da perfumaria. Isso é surpreendente visto que suas fundadoras vêm da indústria e deveriam saber disso. Amyi IX trás uma combinação de bergamota, sichuan pepper e gin tônica e ilustra a experiência com uma mexerica/tangerina. Esse é um regionalismo do Sul, onde bergamota e mexerica são conhecidas como sinônimos. Na perfumaria, porém, bergamota é um cítrico proveniente da Citrus Bergamia e com um aroma mais aromático. Já a Mexerica/Tangerina é proveniente da Citrus Reticulata e possue um aroma diferente da Bergamota, algo mais próximo de uma laranja mandarina.

Outra coisa que surpreende nos perfumes Amyi é mais uma vez como o que o perfumista relata colide com o que a marca lista. Samuel Moraes explica muito bem seu perfume, mesmo que também incorra no mesmo erro de criar uma nota de Tangerina/Mexerica e chamá-la de Bergamota, o que também é esquisito já que ele não é um perfumista amador. As notas que o perfumista lista, entretanto, não batem com o que a marca deixa explícito no seu radar olfativo. O perfumista menciona, por exemplo, a utilização de zimbro em sua composição como um material importante para o conceito que ele deseja criar. Em nenhum outro lugar o zimbro aparece listado como parte importante do perfume. Mais um exemplo de incoerência dentro da marca.

Amyi IX é um perfume interessante para fechar uma coleção, até mesmo que seja a coleção de Samuel Moraes. O perfume fecha a trilogia e as 9 fragrâncias Amyi com uma criação cítrica amadeirada que utiliza como destaque a pimenta sichuan. Até faz sentido isso dado que a marca ressalta o respeito à liberdade, porém considerando que a marca cria uma dinâmica sequencial de experiência educativa é esquisito que se escolha um perfume mais luminoso e cítrico para vir depois de um mais amadeirado e pesado como Amyi VIII. É algo que pode até influenciar negativamente a experiência olfativa caso a pessoa sinta na fita olfativa todos os perfumes em um único dia.

Eu recomendaria, porém, testar Amyi IX na pele para avaliá-lo corretamente visto que na fita seu aroma aromático é potente e distorce a fragrância numa direção sanitária. Na pele a ideia proposta por Samuel se descortina perfeitamente, explorando bem a faceta cítrica da pimenta sichuan para ressaltar o aroma de limão dentro da composição, tornando-o duradouro e complementando-o com uma nota de tangerina. A pimenta sichuan é conhecida por trazer uma espécie de efeito ardido e borbulhante ao nariz, que o perfumista utiliza como uma ligação com o acorde de bebida gin.

O perfumista ressalta que controla o aspecto amargo do gin com a utilização do zimbro e de uma base de ambar, baunilha e sândalo. Isso também ajuda a fixar o perfume na pele e cria um contraste legal entre o lado cítrico e de bebida da composição. Amyi IX faz o que Amyi I tenta fazer e falha, que é o de criar um cítrico que retém sua personalidade cítrica na pele. A diferença é que o perfumista aqui se preocupa mais em contar uma histórica coerente e explorar as nuances e os efeitos especiais de um material nobre que ele tem liberdade de utilizar. É uma pena que isso seja tão mal traduzido para o consumidor na experiência e na educação olfativa.