22 de jul. de 2020

Amyi VIII - Avaliação Perfume/Experiência




A criação Amyi VIII dentro da coleção Amyi é o equivalente de uma pessoa que tira uma nota alta na faculdade e começa a se gabar dela e a se projetar com base nessa única nota, sendo que o resto do histórico escolar é de mediano para ruim. O perfume Amyi VIII pode ter sido finalista do concurso The Art And Olfaction Awards mas ele não é um representativo de uma marca artística e inovadora de fato. Na verdade ele é mais mérito do perfumista Samuel Moraes, que por sorte não tem sua criação desmerecida aqui pelo marketing ultrapassado e pobre da Amyi que tenta se passar por inovador e educativo.

É interessante analisar como a marca nunca amarra muito bem o que os perfumistas contam na experiência versus o que ela conta para o consumidor que não compre a experiência. E é interessante ver também como uma marca que diz produzir uma experiência educativa e sensorial simplesmente use um protagonista inovador e interessante e não faça exatamente o papel de educar e trazer uma experiência sensorial robusta. É algo que soa amador, o que surpreende dado que suas fundadoras tem experiência de indústria e poderiam ir muito além de algo tão raso.

Amyi VIII certamente se destaca e pesa como algo artístico e inovador por trazer de uma maneira mais comercial, ainda que no formato nicho, a utilização da erva Flouve, um material raro e precioso dentro da perfumaria. É o único perfume da coleção que também trás um conceito mais abstrato e complexo, onde Samuel trabalha o ambiente de balada e a ideia de luz versus escuridão, com o objetivo de criar uma fragrância que capturasse a confusão de sentidos, energia e a euforia de um ambiente desses.

O Flouve é uma raridade e especialidade da perfumaria, uma erva pouco empregada comercialmente e dependente da produção de poucos produtores. É conhecido como um material de nuances herbáceas, adocicadas e que remetem a tabaco e coumarina, um aroma rico e complexo e que se encaixa muito bem na ideia que Samuel possui de criar um perfume que confunda os sentidos.É interessante que seja proposto um perfume baladeiro dessa erva pois seu perfil aromático funcionaria muito bem em criações e famílias olfativas mais tradicionais.

Isso e aliado ao conceito de luz versus escuridão explique o motivo pelo qual Amyi VIII me confunde, sem saber se o aprecio ou não. As vezes ele é como um borrão olfativo, uma mistura de cigarro, ervas, aromas frutados, couro e ládano. Em vez da euforia, eu vejo a exaustão pós-festa, como se você tivesse ido para casa e o cheiro do perfume de várias pessoas + cheiro de cigarro tivesse se impregnado na sua roupa e produzido essa maçaroca olfativa. Isso parece acontecer principalmente no frio, o que surpreende pois esperava um comportamento melhor dele nessa temperatura.

No calor, porém, Amyi VIII ganha vida e personalidade e ainda que possa tender um pouco ao sufocante é um perfume que realmente se mostra diferente do que há no mercado nacional. Nessa temperatura ele parece trazer a tendência de perfumes minerais e salgados, um couro meio defumado e que remete a carvão. O Flouve se destaca mais nessa temperatura, mostrando suas nuances de couro, tabaco, ládano e de erva. O Tomilho trás um aspecto herbal seco e que parece estender essa ideia de fumaça e couro na pele. Em dias de calor a base do Amyi VIII parece indiretamente inspirada no perfume Tuscan Leather, com um cheiro de couro e tabaco com nuances frutadas.

Amyi VIII é o perfume mais artístico da coleção e consigo ver claramente o motivo de terem selecionado como finalista para um concurso que premie a perfumaria independente. Ainda sim recomendo cautela ao esperar algo desse nível do resto da marca, Amyi VIII é mais um acidente ou acaso do que fruto de direção artística criativa.