24 de ago. de 2020

Naturas Faces [NO] Gender - Avaliação Perfume


Ainda não é uma grande tendência no mercado mas já é possível perceber que o conceito de fragrâncias genderless está crescendo. Vivemos um momento onde de forma crescente as pessoas buscam em primeiro lugar sua identidade própria, seja na moda, seja na estética ou até mesmo na perfumaria. É certo que ainda há uma grande barreira psicológica para muitos, onde um homem usar um perfume feminino torna ele feminino ou uma mulher usar um perfume masculino torna ela homem. Mas fato é que o crescimento da perfumaria de nicho, indie e independente tornou essa barreira menos rígida e assustadora.

Tentando explorar o conceito de fragrância genderless a Natura lançou o perfume Faces [No] Gender. Não é a toa que ele foi criado dentro da linha Faces visto que essa linha da marca é direcionada a um público mais jovem e, teoricamente, um público mais aberto a esse tipo de conceito. A ideia da marca parece ser justamente a de explorar um perfume que se livra dos rótulos, que serve para intensificar a personalidade da pessoa. Para isso, é proposto uma criação de notas cítricas e especiarias, uma criação que se revela diferente em cada pessoa. O problema com isso é que a marca mira numa ideia genderless e acerta um conceito unissex e há uma diferença entre as duas coisas.

Ainda que [No] Gender tente ser um perfume sem gênero, o fato é que seu aroma cítrico espciado almiscarado em sua essência não tem gênero para que isso soe como novo ou interessante. O perfume é bem agradável, ainda que um pouco simples. Na saída há um aroma cítrico interessante, em partes funcional, remetendo a produto de limpeza, e em outra parte com um toque refrescante e ácido que remete ao suco de limão e uma caipirinha. O uso de especiarias frescas e um leve contorno floral cítrico criam um fundo que tenta sugerir tanto aspectos masculinos como femininos à composição. Mas o que predomina mesmo é uma base de musks confortáveis e limpos e que retém parte do aspecto cítrico do perfume.

Faces [No] Gender basicamente é uma repaginação do conceito existente no bestseller da Calvin Klein, o perfume CK One lançado em 1994. O própio Ck One não é em sua essência uma novidade, já que ao focar em cítricos o perfume da Calvin Klein retomou a essência das colognes, produtos que predatam a divisão de gênero da perfumaria e que foram sempre adotados por ambos os sexos com o seu caráter cítrico refrescante, adstringente e revigorante. A novidade que CK One trouxe a isso foi construír um perfume que em sua estrutura é complexo e em seu aroma simples, uma composição que depende de muitos musks para garantir que o perfume se comporte de maneira diferente para narizes e peles diferentes. [NO] Gender ao retomar essa abordagem não acrescenta nada de novo e não convence com a sua versão do unissex como genderless. Aliás, um erro que a Natura e outras marcas tem cometido é oferecer um único perfume genderless e não pelo menos dois. É difícil criar um conceito que desafie os limites de gênero na perfumaria em uma única criação e a proposição de pelo menos duas fragrâncias tornaria possível dar uma cara mais masculina a um perfume feminino e uma mais feminina a um perfume masculino ao mesmo tempo que não se sugere quem deve usar qual. Isso é algo que em um único perfume é muito difícil de explorar, ainda mais um perfume conservador em sua abordagem olfativa como é o caso de [No] Gender.